Sid e Cassie - Skins
1 Capítulo único
Notas iniciais
O vento que tocou a sua pele era suave. Não tão suave como a brisa. Porém, forte o bastante para agitar os fios louros que se desprenderam do penteado elaborado. Ele havia notado, claro, como não notaria, que a trança que ela fizera se retorcia e se misturava aos cachos, quase como seus pensamentos. Retorcidos, inexatos.... Não havia qualquer coerência quando ela estava assim. E, diabos, ele mesmo não era capaz de formular nada coerente depois da noite que passaram.
Sabia que o mais sensato seria levá-la de volta para a clínica. As coisas não estavam indo tão bem quanto queria. Não tão bem quanto no início, quando escolhera a ela, em Nova Iorque, quando percebera que não poderia perseguir uma ilusão e sobrepujar todo o resto. E maldito fosse, era apenas o primeiro intervalo entre os períodos na faculdade. Mais um dia e então poderiam ir embora. Londres. Novamente. Sid tinha conseguido um novo apartamento para eles, no mesmo bairro que o de Maxxie e Anwar. Estava ansioso para mostrar a ela. Vinha sentindo-se um fracassado desde o ensino médio, mas agora, com o trabalho de meio período na escola de arte, tudo seria diferente.
A jangada balançou e rangeu, protestando ao perceber que o passeio estava terminando, que sua utilidade chegava ao fim. Os malditos mosquitos estavam vindo e Sid já havia se estapeado duas vezes, e no rosto, por culpa daqueles insetos. Mas, Cassie, ela estava em sua bolha. Alheia a tudo. Sid observou com atenção os dedos dela se movendo lentamente para fora da jangada até que enfim tocaram a água fria. Feixes de luz pediam licença aqui e acolá entre as folhas das árvores até projetarem um filme na pele tão alva e acetinada de Cassandra Ainsworth que Sidney se descobriu incapaz de desviar o olhar, apenas para ter certeza de que ela estava distante demais para percebê-lo admirando-a.
Uma vez mais sentiu-se como uma peça deslocada. Odiava quando Cassie o deixava de fora. Odiava quando ela se fechava em seu mundo. Isso não deveria fazer parte do plano. Ele deixou Michelle, ou, a “ideia de Michelle”, enquanto ainda estava inseguro, apoiando-se (dito isso ele não se envergonhava em se lembrar, mas, apoiando-se) em Cassie, no seu amor. Depois de muito tempo, estavam juntos, de verdade. E então, ela estava tendo uma recaída, uma das grandes, vertiginosa e assustadora recaída.
Effy jurou que não havia dado a ela os comprimidos, mas Sid já não confiava em ninguém, não depois que aprendeu algumas valiosas lições sobre manipulação e mentira, com o Tony.
Cassie virou o rosto e encarou Sid por um instante. Ele, que estava deitado de lado, apoiando a cabeça em sua mão direita, sorriu brevemente, não estava feliz, contudo, precisava transmitir alguma segurança para a sua pequena fada dourada. Ela desviou o olhar sem retribuir o sorriso e isso o fez sentir como um grande nada.
— Quantas vezes um coração pode ser partido antes de você aprender a ignorar a dor?
— Eu não sei — ele respondeu suavemente. — Por que está falando isso?
— Sid...
— O quê?
— Você ainda tem certeza de que me ama?
— O. Quê? — perguntou ainda mais pausadamente, como se fosse possível transformar duas palavras tão pequenas em um livro inteiro.
Cassie suspirou. Agitou a água do lago com seus dedos delgados e engoliu em seco.
— Você ainda a ama?
— Quem? — inquiriu Sid, ainda que soubesse.
— Se fosse ela, a dividir sua nova vida em Londres...
— Pare, Cas. É a nossa vida, de ninguém mais.
— Acho que nunca terei os seios tão cheios...
— Deus, Cassie... Droga!
Sid remou até a beira do lago, saltou da jangada e a puxou o mais perto possível da margem, não queria que Cassie ficasse com os pés gelados. Ela não protestou quando ele a segurou nos braços e a levou para longe da água. Poderia tê-la posto no chão coberto de pedrisco, mas a verdade era que não queria afastá-la do seu corpo, e Cassie pareceu não se importar, ao contrário, aferrou-se ainda mais a Sid, aconchegando-se. A cabeça na curva do pescoço de Sid, vez e outra furtava um pouquinho do cheiro de sua pele. O cabelo de Sid fugia por debaixo da touca escura e fazia cócegas no nariz de Cassie, e ela sorria. Ele ainda estava com cheiro de marshmallow.
Antes de pisar nos degraus da varanda, o som da discussão chegou a eles. Não era nada sério. Apenas Maxxie e Anwar discutindo por alguma bobagem. Jal saiu pela porta da frente e segurou a parte telada para que Sid pudesse entrar, mas ele se demorou quando Jal acenou para Cassie.
— Ei.
— Ei. — Jal desviou o olhar e andou um tanto atrapalhada para um canto, deixando o caminho livre para Sid passar.
Ninguém queria tocar no assunto, nem mesmo Jal. Por isso a discussão entre Anwar e Maxxie encerrou tão logo Sid entrou no chalé. Era mesmo muito provável que ninguém ali queria atestar o óbvio, que cada um seguiria um caminho diferente, ainda que tentassem encontros como aquele, no verão, não seria mais a mesma coisa. Maxxie iria mesmo deixar a faculdade para ingressar no Corpo de Dança, e Jal teria sua chance no Conservatório Municipal. A grande surpresa foi Michelle, anunciando que faria o curso de enfermagem. Sid sabia que ela nunca deixaria de amar Tony e no fundo começava a sentir-se grato por isso. No lampejo daquele pensamento, Sid desviou os olhos para o peso insignificante que carregava, Cassie estava tão magra e minúscula em seus braços... Ele passou pelos outros em absoluto silêncio e desviou o olhar para não encarar Effy e Cook. Se eles não tivessem deixado aquelas malditas pílulas espalhadas pelo chalé, Cassie não teria entrado naquele estado de torpor depressivo, revivendo cada maldita coisa ruim pela qual passaram.
Havia algo que ele queria ter feito, pensou muito a respeito na última semana, quando Jal contou sobre a cabana no lago e o enorme tempo em que andara fechada, desde que sua mãe havia partido novamente. Foi aí que Sid se animou em levar Cassie para terem suas próprias lembranças, sem Tony, sem Michelle... Apenas os dois — e claro, Maxxie, Anwar, Effy e Cook, e a dona do chalé, Jal —, ainda assim, todos menos Michelle e Tony era o mesmo que apenas os dois para Cassie, e isso era o que importava.
Sid deixou Cassie na cama do quarto a que foram atribuídos. Juntos. Como o casal que eram. Ele a encarou de maneira terna. Suspirou quando segurou nos cachos quebradiços dos cabelos de sua namorada. Ela continuava jogando toda a comida fora. Ele preparava os lanches para que ela levasse para a faculdade. Sid sabia que ela não comia nada na lanchonete, que ela enjoava só de pensar na gordura rançosa das fritas. Cassie não conseguia mais comer as batatas fritas.
— Cassie, eu nunca escondi que eu era um idiota...
— E eu nunca escondi que sabia — ela atalhou. Sorriu sinceramente pela primeira vez desde a noite anterior.
— Também nunca escondi que te amo, quero dizer, não no começo quando eu nem sabia que te amava de verdade, mas depois, quando eu percebi que o que sentia não era outra coisa e mesmo depois quando fiquei com Michelle, entendi que aquilo que estava acontecendo nem de longe era o mesmo que eu sinto quando estamos juntos... — Sid interrompeu-se ao notar que o sorriso sumira do rosto de Cassie e que ela já havia desviado o olhar.
— Desculpe — ele pediu. Cassie moveu os ombros de um jeito sutil e ele entendeu isso como um aceite por seu pedido. — Sei que não quer nem mesmo que eu toque no nome da Michelle...
— Isso importa de verdade? Você parece não conseguir parar de falar nela, de pensar nela... Ainda estou tentando entender o porquê de você não ter aproveitado o recesso para visitá-la. Talvez até mesmo se juntar a ela e Tony, na cama...
Sid queria ter podido retorquir de modo enfático, mas acabou engolindo em seco, tirando os óculos para esfregar os olhos e por fim retornando a encarar Cassie e sua expressão contrariada. Sid pôs os óculos novamente e suspirou.
— Só queria dizer que eu te amo muito. Que eu pedi demissão do mercado no dia em que viajamos para cá.
— O quê? — perguntou Cassie, preocupada.
Cassie empurrou o torso para cima e se sentou na cama, alinhando seu olhar ao de Sid, tentando encontrar a sombra de uma piada ali, que ele não estivesse brincando sobre ter pedido demissão, por que não havia jeito de ela conseguir pagar o apartamento e as taxas com seu salário de garçonete e as gorjetas.
Sid sorriu e Cassie deixou o ar sair de seus pulmões de uma vez, pelas narinas, enquanto sorria também. Era lógico que ele estava brincando, pensou.
— Você me assustou, Sid. Pensei que estava falando sério...
— E estou!
O sorriso de Cassie desvaneceu.
— Eu não podia passar o resto da vida como empilhador de latas de ervilha, certo? — Cassie abriu a boca para protestar, mas Sid sorriu mais abertamente e ela guardou silêncio. — Eu ia te contar ontem, mas... — Sid franziu o cenho e negou movendo a cabeça de um lado para o outro.
Não precisava dizer mais nada. Cassie sabia o quanto havia enlouquecido e o quanto chegou perto de colocar tudo a perder.
— Mas... — insistiu ela, agora com um sorriso frágil.
— Aceitei o emprego na escola de arte.
Cassie ampliou o sorriso e de frágil ele passou a pleno e sincero, um segundo antes de escondê-lo com as mãos em concha. Os olhos de Cassie se arregalaram e as sobrancelhas, finas e alouradas, subiram até formarem arcos perfeitos.
— Mas como? — ela perguntou, finalmente. — Você havia dito que não precisávamos de muito e que...
— Lembro perfeitamente do quão estúpido estava sendo. Mas, uma vez, pouco antes de sairmos do ensino médio, você disse que os problemas continuariam para o resto de nossas vidas. E não é isso que eu quero, Cassie. Não quero me esconder com você no meio da mediocridade. Eu não quero ser a sombra de ninguém, tampouco me tornar a sombra de mim mesmo, a sombra de um homem.... Eu não quero. E não posso te arrastar comigo para o fundo do poço. Por isso aceitei o emprego.
— Oh, wow, fastástico, Sid! Isso foi fofo, eu amei — Cassie se inclinou para frente e seus braços finos se agarraram ao pescoço de Sid em um gracioso abraço.
Ainda com os olhos fechados, sentindo o aroma adocicado dos cabelos de Cassie, Sid suspirou e prosseguiu.
— Tem mais.
— Mais? — ela perguntou, afastando-se o bastante para olhar o semblante de Sid.
Ele se inclinou para um lado e tirou do bolso da calça um colorido recorte de jornal, dobrado e redobrado tantas vezes que já não havia um só risco exato, e a imagem borrara e esmaecera bastante. Ele franziu o cenho e entortou a boca ao constatar que não era uma das melhores fotos, mas Cassie poderia ter uma ideia, talvez até mesmo se animar com uma nova perspectiva.
— O que é isso? — ela perguntou.
Sid esticou o recorte de jornal na calça jeans, ainda úmida do lago, e Cassie virou o rosto para ver do que se tratava.
— É um apartamento, nosso. Bem, não está parecendo um apartamento por que eu cortei demais os outros andares, mas é legal e até tem uma lavanderia.
Cassie olhou para a fotografia desfocada, virou a cabeça de um lado e do outro e então sorriu.
— Oh, wow. Você não vai poder mais dizer que suas roupas estão sujas e espalhadas por não ter uma máquina de lavar em casa.
Sid sorriu enviesado.
— Pois é... Mas eu vou arrumar outro motivo... sempre dou um jeito, não é? E você me ama mesmo assim, com tudo isso.
— Isso não deixa de ser um problema, Sid. Eu te amo e eu só quero viver por causa disso.
— Então você vai comer, não é, Cassie? Só um pouco. Eu preparo o que você quiser, está bem?
— Eu comi ontem.
— Não, Cassie, ontem não conta. Você teve que colocar tudo para fora por causa daquelas malditas pílulas da Effy!
— Você ainda está bravo — ela disse. Cassie se levantou e andou até a janela, sentindo a brisa que vinha das montanhas. Observando a água do lago se agitar conforme a brisa passava acariciando sua superfície.
— Pensei que seria sempre você a me dizer coisas sensatas, Cassie. Que mesmo na estranha sanidade de seus pensamentos, seria você a me aconselhar, então, amor, me diz o que está errado, por favor? Eu tenho inúmeros defeitos, mas essa porcaria aqui é tudo o que sou e o melhor que consigo, e é por você, Cassie!
Sid se levantou, mas não seguiu para Cassie, pelo contrário, foi para o outro lado do quarto, apoiando o quadril na antiga cômoda de carvalho, ansioso, preocupado. Cassie não ia mais ao centro de apoio, e negava-se a consultar-se com um psiquiatra. E Sid não sabia mais o que poderia fazer para trazer sua alegria de volta. A alegria que ela sentia muito antes de eles ficarem juntos, quando ele ainda se sentia perdido por Michelle e vivia como um capacho de Tony, sim, um capacho. Queria ser o Tony, não igual a ele, sê-lo, viver e pensar e ter o que Tony tinha, incluindo Michelle. Então Cassie virou seu mundo de ponta cabeça, ou melhor, girou seu eixo para o lado certo, com os pés no chão, mas, ao que tudo indicava, ela também foi girando junto com Sid, mas ao invés de firmar os pensamentos na terra, Cassie estava com a cabeça cada vez mais no mundo da lua.
— Se quer saber, eu acho que a faculdade de filosofia não te faz bem — ele soltou. Não pensava em magoá-la, só queria atestar um fato, que para ele era inegável.
— Oh, wow. É mesmo, Sid? O que acha que eu deveria estar fazendo, então? Abrindo as pernas para você em tempo integral?
— Eu não disse isso, Cassie! — Sid tirou a touca e coçou a cabeça, mais exasperado que nervoso, porque no fundo, era exatamente isso o que ele gostaria que Cassie estivesse fazendo. — Que merda, Cassie! Me diz logo o que está acontecendo! — exigiu.
Ela se virou para ele, encarando-o com o semblante amargo, entristecido, dolorido.
— Parei de tomar as injeções dois meses atrás!
Sid deveria ter reagido, qualquer que fosse sua atitude, mas ele ficou estático e permaneceu assim por um longo tempo, mais do que seria natural. E, Cassie, aturdida, irritada e confusa cerrou os punhos ao lado do corpo, sem saber se estava segurando sua vontade de atacar Sid, ou se preparando para lhe socar o nariz.
— Fala alguma coisa! Me pergunta o que eu consegui com isso! Me pergunta! — ela gritou. Mas, tudo o que obteve em resposta foi um balbuciar desconexo de seu namorado.
Cassie desatou os nós dos dedos, cerrados em punhos, para abarcar a primeira coisa que viu pela frente, a almofada floral, e jogar contra Sid, a fim de tirá-lo daquele torpor.
Era fato que Cassie teria preferido que, se ao invés de algo macio, tivesse em mãos um abajur, ou ainda um taco de baseball. E quando Sid recebeu o impacto da almofada, sem ao menos ter se refeito do impacto anterior, o das palavras de Cassie, ela marchou para fora do quarto. Foi só quando a pancada da porta agredindo o batente soou alto no quarto que Sid despertou.
Cassie estava falando que passaram dois meses transando sem camisinha ou outro controle de natalidade. Que ele poderia ser pai em algumas semanas.
Quantas? Trinta e duas? Trinta e oito? Quantas semanas uma mulher permanece grávida?
Sid não era capaz de sentir muita coisa além do pânico. Tudo o que ouvia era seu coração batendo tão forte que parecia ter se deslocado do peito para os tímpanos. E ela nem mesmo o avisou. Sid não se via preparado para ter uma criança o chamando de pai, mesmo uma com o sorriso da Cassie e os olhos da Cassie.
Quando finalmente abriu a porta, esperava ver algum tipo de comoção. Mas seus amigos o estavam encarando, esperando para saber dele o que havia acontecido de fato. Muito embora era certo que tivessem ouvido cada maldita palavra da discussão que tiveram.
— Eu não posso ser pai — ele disse. E no mesmo instante fechou os olhos, xingando-se mentalmente. Sid olhou para Jal, que mantinha o semblante impassível. — Ah... Ah... Jal, eu não quis...
— Você é um idiota, Sid — disse Maxxie, levantando-se do sofá e indo até Jal.
Mas Jal o afastou logo depois de um breve cumprimento.
— Está tudo bem, Maxxie. O Sid está certo. Ele não pode ser pai. Seria um castigo terrível para a criança inocente — ela concluiu seguindo para a cozinha do chalé.
Sid ergueu os braços como se perguntasse: Que merda está acontecendo aqui?
Ele realmente acreditava que não era para tanto, ele havia se desculpado, afinal.
Anwar levantou os olhos do que lia, observando a discussão.
Effy respirou fundo. — Michelle ligou antes das provas finais do primeiro período. Ela está grávida, Sid. Meu irmão vai ser pai — contou Effy, logo aninhando-se nos braços de Cook, que cochilava, apesar da gritaria e de portas batendo a torto e a direito.
— Pensei que soubesse — concluiu Effy.
Sid meneou a cabeça, negando. Engoliu em seco. Então era disso que se tratava.
Sid correu para fora, para alcançar, Cassie. Olhou de um lado para o outro, procurando-a. Logo escureceria de vez, e os mosquitos eram o menor de seus problemas. Cassie ainda estava debilitada, ela poderia desmaiar... Inferno, ela poderia desmaiar e cair no lago e...
Sid correu de um lado para o outro, gritando por Cassie. Apavorando-se com a possibilidade de perder sua namorada. Os pedriscos do caminho faziam som de coisas crocantes se partindo nos dentes, ou talvez fosse o barulho do ranger do maxilar de Sid. Outra vez seu coração estava na boca e seus pensamentos na borda. Aquela garota o levava a loucura, no bom e mau sentidos, mas dane-se, ele a amava, ele a queria, e queria aquele filho, pouco importando-se com o fato de Michelle estar formando uma família com Tony. Ele não pensava mais em seu velho amigo como um modelo. O que estava se passando com Michelle não tinha nada a ver com a realidade de Sid e ele estava feliz em constatar isso. Contudo, parecia que Cassie era incapaz de perceber que Michelle era passado e que ela sim era o seu futuro.
Sid, temeroso, correu em disparada para a beira do lago. Ao longe avistou Cassie, sentada sobre os joelhos na beirada do píer.
Ele foi até ela, decidido. Aceitaria tudo e qualquer coisa que ela quisesse, desde que estivesse com ele, e não mais como um apoio, uma muleta sentimental, porque Cassie não era isso, e ele, nas últimas horas, já havia lidado demais com a possiblidade de perder Cassie. Inferno, aquelas pílulas poderiam estar agora mesmo prejudicando o filho deles que ela carregava.
Os passos de Sid estalavam a madeira conforme se aproximava de sua namorada. E só pararam a poucos centímetros dela.
— Cassie, eu...
— Não importa, Sid — ela disse interrompendo-o.
— Importa, sim! Estou cansado de mal-entendidos entre nós! Foi assim que a gente demorou a se acertar, e foi assim que nos separamos da primeira vez...
— E que você transou com a Michelle...
— Que se foda a Michelle, Cassie! Eu estou falando da gente! Eu estou cagando se a Michelle está grávida! Eu sei o que você deve estar pensando, que eu iria preferir ser o pai do filho da Michelle ao invés do seu, mas isso é loucura da sua cabeça! Mais uma loucura que você inventa para se manter segura, afastada de mim, afastada do que você sente! Você me ama, mas também não sabe lidar com o que sente e...
Cassie virou o rosto e olhou para cima, a fim de encontrar o rosto de Sid.
— O quê?
— Dane-se, Cassie!
Sid ajoelhou ao lado dela e segurou seu rosto, atraindo seus lábios para os dele de forma brusca. Cassie queria reagir afastando-o, mas tudo o que fez foi apoiar as mãos nos ombros de Sid e apertá-lo contra si.
— Não me importo com eles. Só me importo com você. E com esse filho. Com a nossa vida... Olha, Cassie, nós vamos dar um jeito, podemos colocar um bercinho no canto do quarto, o apartamento novo é perfeito para dois adultos e um bebê! — mentiu. Sid sabia que seria um desastre do começo ao fim, mas ele precisava amparar Cassie, porque era isso o que os casais de verdade faziam. — Você só precisa ficar comigo e eu vou cuidar de vocês e...
— Eu não estou grávida, Sid.
Novamente o silêncio se infiltrava entre eles. Sid franziu o cenho e soltou o rosto de Cassie para se apoiar no piso do píer, enquanto passava de ajoelhado para sentado. Ele empurrou os óculos que escorregaram pelo dorso do nariz e moveu os lábios antes de conseguir deixar algum som sair dali.
— Mas eu pensei que...
— Eu não consegui! Está bem? Nem isso eu consigo! Até nisso a Michelle é melhor do que eu!
— Então... — Sid tentava ainda compreender o fato de que Cassie não estava esperando filho algum quando as palavras dela infiltraram em sua mente. — O quê? Não! Para com isso, Cassie!
As mãos diminutas de Cassie tocaram os seios pequenos e lhe vieram lágrimas aos olhos. Era disso o que ela falava quando afirmou naquela tarde que nunca teria seios grandes como os de Michelle, ela falava de amamentar, da transformação das formas femininas. Sid percebeu que por mais esforço que fizesse, jamais conseguiria compreender Cassie.
— Eu acho que... não posso ter filhos — ela disse baixando as mãos lentamente pelo vestido até tocar sua barriga plana.
— E eu não me importo, Cassie. Eu só me importo com você. Por favor, para de colocar outras pessoas na nossa vida... por favor...
— Você ainda tem certeza de que me ama, Sid?
— Como nunca, sua louquinha.
Sid abraçou Cassie. Sentiu sua silhueta delgada se perder em seu abraço. Podia não ser um especialista, mas sabia que os distúrbios alimentares de Cassie poderiam ter influenciado o fato de ela não ter engravidado. Ele queria falar com ela sobre isso. Mas também compreendia que ela precisava de um tempo até se sentir segura. Parecia que as escolhas no passado de Sid ainda manchavam seu presente. Michelle foi quase tudo o que Sid pensou que fosse, menos, um grande amor. Ele sabia que teria um caminho longo pela frente se quisesse consolidar seu romance com Cassie. Porém, naquele instante, dava-se por satisfeito em ter a sua garota em seus braços.
— Cass — ele chamou atraindo a atenção dela para o seu rosto. — Eu sei que posso ser um cara estranho na maior parte do tempo, mas eu também sei o que sinto. Posso ter feito muita besteira antes. Mas agora eu cresci. Todo mundo tem que crescer um dia. E eu fiz isso por você.
— Oh, Wow...
— Eu te amo, Cassie. Nós vamos continuar crescendo juntos. Um dia, quando for o nosso momento, não por estarmos disputando nada com ninguém, mas no nosso momento, nós teremos uma família só nossa.
— Eu te amo, Sid. E eu vou te amar para sempre.
A noite anterior, os últimos dias em que Cassie parecia distante... A bolha em que ela flutuava, deixando-o constantemente de fora... tudo por culpa da insegurança que ele havia ajudado a semear no coração dela, tantas vezes partido.
Sid segurou Cassie em seus braços e a ajudou a se levantar. Caminharam juntos, abraçados. Tudo o que queriam e precisavam parecia caber nos braços um do outro.
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