Notas iniciais
Obrigada a querida Paty que deixou o primeiro comentário da história ♥ obrigada também as 8 pessoas que estão acompanhando. Segue capítulo 01 e espero que vocês gostem! Não deixem de comentar o que vocês acharam, saber que tem mais alguém lendo me faria muito feliz e aumentaria o número de posts.

“Irmãos, a um mesmo tempo, amor e morte, criarei a sorte. Coisas assim tão belas no resto do mundo não há, não há nem nas estrelas” – LEOPARDI

Quando Charlotte finalmente desceu, o café da manhã já havia sido tirado da mesa e ela encontrou Harry numa discussão com seu tio Vernon– mas que novidade!

—... QUÊ?! — seu irmão gritava.

O tio Vernon era um homem alto, gordo, de papada interminável, cabelos louros e olhos castanhos. Tinha um bigode sujo, a cara púrpura e naquele momento seu dedo estava apontado bem no rosto de Harry ameaçadoramente.

— E você vai sustentar essa história, moleque, ou vai se dar mal – cuspiu tio Vernon, por fim e então gritou perguntando se Dudley querida dar um passeio de carro com ele.

Charlotte franziu o cenho e olhou para seu irmão que ainda mantinha a feição lívida de ódio e os punhos pareciam fortemente cerrados. Por que afinal eles tinham brigado?

— O Dudinha tem que ficar elegante para receber a titia. – disse sua tia Petúnia da cozinha e alisando os cabelos louros do filho. – Mamãe comprou uma linda grava borboleta para ele.

Os olhos de Charlotte se arregalaram e logo tudo começou a fazer sentido. A vaca estava a caminho.

Sentindo-se mal do estômago, pensou que talvez fosse uma boa ideia terem tirado a mesa do café ou ela poderia vomitar a qualquer momento. Não podia acreditar que Guida estava a caminho. Ela conseguia ser pior que todos os Dursley juntos.

— Charlotte, venha me ajudar com o frango. Você está se achando espertinha né? Dorme até tarde e ainda acha que pode se livrar das tarefas.

Contendo sua vontade de revirar os olhos, caminhou até a cozinha e aproveitou para tirar a carta e a caneta do bolso traseiro de seu jeans.

— Preciso que a senhora assine uma autorização pra mim. – disse com simplicidade.

— O que é?

— Coisa da minha escola. Dá pra assinar?

Tia Petúnia, que estava com as mãos molhadas, soltou uma longa bufada impaciente e enxugou as mãos no avental. Tomou a caneta e o pergaminho das mãos de Charlotte e rubricou rapidamente no lugar marcado com um X.

— Tome. – resmungou. – Agora tempere o frango, eu vou cuidar da salada.

Charlotte duvidava muito. Sua tia Petúnia sempre dizia que faria tal coisa e depois tal coisa, acabava que no fim das contas Charlotte fazia todo o serviço na cozinha e sua tia levava os créditos da refeição. Entretanto, Charlotte não se importava. Cozinhar era uma das poucas coisas legais que se podia fazer nos Dursley e ela garantia de aparentar bastante aborrecimento enquanto preparava tudo, porque se seus tios percebessem o quanto aquilo era terapêutico para ela, com certeza iriam priva-la daquilo.

De qualquer forma, havia um pouco de razão para sua careta naquele dia. Visitas da tia Guida eram, na sua opinião, um verdadeiro castigo. Ela era irmã de Vernon e conseguia ser pior que todos os Dursley e infelizmente adorava implicar com Charlotte!

Criticava a cor de seu cabelo, criticava sua postura, seu corpo. Enfim, ela conseguia encontrar todos os defeitos possíveis em Charlotte e em qualquer coisa que ela fazia. Assim como em Harry, porque se Guida implicava com Charlotte, ela implicava o dobro com Harry.

Infelizmente o pior não era Guida e sim seu cachorro. Charlotte não gostava de cães, ela preferia gatos. Eles eram mais limpos e menos agitados. Guida por outro lado os adorava e sempre trazia um maldito saco de pulgas em todas suas visitas! Geralmente era um chamado Estripador que era um verdadeiro aborrecimento para Charlotte, especialmente porque ele insistia em rosnar para ela. Na última visita, Charlotte havia acabado de encerar o chão e ele urinara em seguida. Ela o deu uma vassourada que foi bem vista até mesmo por tia Petúnia, que era provavelmente a única pessoa além de Charlotte e Harry que ficava incomodada com as visitas de Guida e seu cachorro nojento.

— Faça alguma coisa com seu cabelo! – escutou sua tia dizer a Harry.

— Eu não sei o que você espera que eu faça com meu cabelo!

— Dê um jeito, eles estão chegando.

Os cabelos ruivos e longos de Charlotte estavam presos num rabo de cavalo. Ela geralmente os usava soltos, mas quando cozinhava tinha o hábito de prendê-los.

Mais cedo que o imaginado, pôde-se ouvir o ruído do carro de Vernon estacionando na garagem da casa e Charlotte fez uma careta, assim como Dudley que estava no sofá. Nem mesmo o mimado Dudley, que sempre ganhava presentes fantásticos da titia, parecia contente com sua visita. Mas ele ficaria, porque Guida o pagaria bem por isso. Dudley geralmente ficava com a carteira 3x mais gorda quando a tia visitava, enquanto Charlotte e Harry ficavam 3x mais próximos da insanidade.

— Eu não sei como podem aceitar essa mulher horrível aqui.

— Ela é horrível mesmo, mas você vai calar a boca e terminar a salada. Seu comportamento vai ser impecável e qualquer gracinha, juro pra você, farei com que lave cada uma das cortinas dessa casa a mão. Ah, e por falar nisso, pegue suas tralhas e leve para o quarto de seu irmão, Guida ficará hospedada no seu quarto.

— Por que não no de Harry?

— Porque o seu quarto é mais habitável que o dele.

Tia Petúnia disse passando por Charlotte e indo até a sala para receber a mais nova convidada. Aquela visita se provava cada vez pior e Guida não tinha sequer passado pela porta ainda!

— Ela está ainda mais gorda se possível. – Harry murmurou quando chegou a cozinha e se ocupou em ajudá-la, picando algumas cenouras.

— Tente passar despercebido. – Charlotte disse sem sequer encará-lo. – Deus sabe quantos dias essa mulher pretende permanecer aqui.

— Ela poderia ficar só para o almoço que ainda seria tempo demais para suporta-la.

Charlotte não podia deixar de concordar, mas não disse mais nada. Até porque ela tinha que terminar logo a comida ou Petúnia apareceria fazendo um chilique, chamando-a de imprestável e de todos os nomes que lhe viessem na cabeça.

ONDE ESTÁ MEU DUDOCA?

Gemeu. Aquela era a marca de Guida! Ela sempre entrava na casa dos Dursley gritando por Dudley e o mesmo ia praticamente se arrastando, com aquela horrível gravata escondida entre suas banhas, para cumprimentar a tia e voltar vinte libras mais rico para a sala.

— PETÚNIA!

Aquele era o momento que Guida dava uma barrigada em tia Petúnia na tentativa de abraça-la. Magricela e ossuda como era, Charlotte não tinha ideia de como tia Petúnia não acabava no hospital depois das visitas de Guida.

— Vá carregar as malas. – Charlotte pediu baixo. – Leve para meu quarto, pegue minhas coisas e leve para o seu.

— Já que você pediu tão educadamente... – com um pouco de sarcasmo, Harry disse dando-a às costas.

Os passos altos e o barulho de conversa alta informou Charlotte que eles estavam indo para a cozinha. Guida estava falando algo sobre ter deixado os outros cachorros com o coronel Fubster.

—... Mas não pude deixar o coitado do Estripador, tão velho. Ele fica doente de tristeza quando viajo.

Seria uma pena se ele ficasse doente naquela viagem, Charlotte pensou sentindo-se levemente maquiavélica. Será que tia Petúnia ainda tinha aquele pesticida em pastilha embaixo da pia? Seria uma pena se enrolassem um pouco do veneno em um pedaço de carne, né?

— Então! – vociferou a mulher, Charlotte soube imediatamente que estava dirigindo a ela. – Ainda está por aqui?

— Como pode ver. – resmungou.

— Não seja uma insolente e ingrata. Tem sorte de ter parentes bondosos como Vernon e Petúnia, estaria num orfanato se tivesse sido largada na minha porta.

Suspirando, Charlotte concluiu que era uma vergonha que Hagrid tivesse a levado para os Alfeneiros. Talvez se tivessem a largado na fazenda de Guida, ela estaria tendo uma vida mais tranquila no orfanato da comunidade.

— Estou vendo que essa menina não melhorou nada. Ainda por cima não nos responde quando dizemos alguma coisa, e quando responde é insolente! Com quantos anos ela está, Petúnia?

— Ela... Ela fez treze.

Charlotte estava levemente surpresa por sua tia ter se dado conta que hoje era seu aniversário, mas não fez nenhum comentário. Estava mais interessada em saber o motivo do interesse de Guida em saber sua idade.

— Em cinco anos você poderá dá-la a qualquer marmanjo sem vergonha que a queira. Se houvesse qualquer tipo de potencial nessa menina, Petúnia, eu lhe diria que um casamento entre primos tende a dar certo. Mas como ela é sua irmã, cuspida e escarrada, não deixe-a sequer se dirigir ao Dudoca. Até porque ela com certeza deve preferir os sem vergonha, assim como sua irmã.

Ela até mesmo se sentiria ofendida e brava pelos comentários horríveis e caluniosos sobre seus pais, mas estava ocupada tentando controlar a bile que subia apenas pela ideia de um dia se casar com Dudley.

Aparentemente Harry também, pois ele voltara a cozinha sem nem que Charlotte se desse conta e havia escutado o que Guida dissera.

— Você não deve se culpar por ter sobrinhos tão problemáticos. – Guida falou dando tapinhas consolativos na mão ossuda de tia Petúnia. – Aonde você está os mandando mesmo, Vernon?

— St. Brutus. É ótimo para jovens irrecuperáveis. – disse o tio Vernon olhando significativamente para eles

Obviamente aquele era o motivo de discussão de Harry e seu tio mais cedo. St. Brutus era uma escola para jovens delinquentes.

— Eles usam a vara em St. Brutus?

— Usam. – murmuraram Harry e Charlotte juntos.

— Bem, deveria escrever para eles Vernon. Não estou vendo marcas, então não estão os batendo com força o suficiente. Deixe-os sequelados... Menos a menina! Porque senão vai ficar mais difícil de arranjar qualquer marmanjo que se interesse em leva-la daqui. Beleza já não é o ponto forte dela, não é mesmo?

Charlotte revirou os olhos enquanto escutava as gargalhadas exageradas de Guida e seus tios. Harry ao seu lado parecia estar fazendo uma contagem regressiva psicológica.

— Ouviu o noticiário de hoje de manhã, Guida? E aquele prisioneiro que fugiu, hein? O tal Black...

— Um absurdo! Se você me perguntar, Vernon, saiba que...!

Charlotte decidiu seguir o exemplo do irmão e começar a fazer contagens regressivas mentalmente, porque aquela provavelmente seria uma visita bem longa.

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A visita de Guida nunca pareceu ser tão longa. Aqueles três dias estavam se provando intermináveis e Charlotte começou a sentir falta de quando a vida era mais simples e ela levava cintadas dos Dursley por simplesmente existir, mas pelo menos não havia Guida ali para dizer qualquer coisa.

Vernon e Petúnia geralmente encorajavam Charlotte e Harry a ficarem fora de seu caminho, mas Guida parecia querê-los bem debaixo dos olhos dela. Geralmente para fazer algum comentário ridículo ou compará-los a Dudley.

Ela geralmente soltava piadas de mau gosto, sobre encontrar um bom pretendente para Charlotte porque o casamento iria emancipa-la – ou seja, vende-la para ser a escrava sexual de alguém – e tentava encontrar razões que explicassem todas as deficiências de Harry.

— Você não deve se culpar pelo que os meninos são hoje em dia, Vernon. – comentou ela durante o almoço. – Se há algo podre por dentro, não tem jeito.

Ao seu lado nunca sentiu Harry tão tenso e ela começou a se sentir incomodada. Não pelos comentários, porque honestamente não dava pra levar a sério nada que viesse daquela mulher, mas porque ela podia sentir aquela coisa horrível vindo de Harry. Aquela coisa que sempre a empurrava para longe dele.

— A gente vê isso sempre com os cachorros... – Guida continuou. – Se há alguma coisa errada com a cadela, então vai haver alguma coisa errada com o filhote.

E foi quando a taça de vinho de Guida estourou nas mãos dela. Charlotte arregalou os olhos e imediatamente olhou para o irmão.

— Guida! – guinchou Petúnia. – Você está bem?

— Não se preocupe. – disse Guida, enxugando o rosto com respingos de vinho. – Devo ter segurado a taça com muita força. Fiz o mesmo na casa do Coronel Fubster um dia desses...

Charlotte não duvidava que a mão enorme e gorducha de Guida pudesse quebrar uma taça, mas sabia muito bem que quem havia feito aquilo tinha sido Harry.

— Acho que é melhor irmos para a cama... – disse Charlotte, olhando significativamente para o irmão.

— É, eu também acho. – disse tio Vernon estreitando os olhos para os dois.

Arrastando as cadeiras, os dois se levantaram e se retiraram o mais rápido possível. Harry marchando com muito mais rapidez que Charlotte já vira, subindo as escadas de dois em dois degraus e quando finalmente estavam no quarto dele, que era onde todas as coisas de Charlotte estavam já que ela vinha passando a noite ali, foi que ela fechou a porta atrás dela para questioná-lo.

— O que foi aquilo? – questionou, cruzando os braços.

— Você a escutou! – Harry vociferou, jogando-se na cama. – Escutou as coisas horríveis que ela disse dos nossos pais, de mim e de você.

— Ignore-a. Você não pode fazer magia fora de Hogwarts e sabe disso, Harry!

— Eu não fiz por querer! Eu nem mesmo estou com minha varinha!

Charlotte decidiu não dizer mais nada. Ela só lamentava ter que passar a noite no quarto de Harry, porque mais que nunca ela o repelia. Ela o queria longe.

Ela se trocara no banheiro e escovara os dentes. Estava cedo para ir pra cama, mas era o único jeito que ela encontrara para não repelir Harry e talvez jogá-lo da janela para bem longe dela.

— Você tem certeza que não quer dormir na minha cama? – perguntou o menino. – Eu posso dormir no colchonete.

— Não. Você já está cedendo seu quarto...

— Bem, não é como se eu nunca tivesse o compartilhado com você. Nós dividíamos um armário.

Charlotte optou por não dizer mais nada. Desejou-o ‘boa noite’ baixinho e se virou para o lado para dormir. Ela já estava cochilando quando o escutou perguntar.

— Lottie... – ele murmurou baixinho. – Por que você não gosta mais de mim? O que eu fiz para te magoar?

Ela continuou imóvel, com os olhos fechados e rezou para que Harry não insistisse naquela pergunta. Se ele pensasse que ela estava dormindo, esqueceria aquilo. Até porque, Charlotte não podia responder uma pergunta na qual não tinha a resposta.

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Finalmente, um finalmente muito demorado, chegou a última noite da estadia de Guida. Tia Petúnia preparou um jantar caprichado e tio Vernon abriu várias garrafas de vinho. Eles conseguiram terminar a sopa e o salmão sem mencionar nem uma vez os defeitos de Harry ou sugerir qualquer tipo de utilidade para Charlotte; quando comiam a torta merengue de limão, tio Vernon deu um cansaço em todo mundo com uma longa conversa sobre Crunnings, sua empresa de brocas; depois tia Petúnia preparou o café e o marido apanhou uma garrafa de conhaque.

— Posso lhe oferecer essa tentação Guida?

A mulher já havia quase que detonado sozinha a garrafa de vinho disposta sobre a mesa, mas é claro que bêbada como estava, não iria perder a chance de ficar ainda mais. Duda estava comendo o quarto pedaço de torta. Tia Petúnia bebericava café com o dedo mindinho esticado. Harry realmente queria desaparecer e ir para o quarto, mas Charlotte disse-o para aguentar mais um pouco. Eles haviam sobrevivido por dias com aquela mulher ali! Não havia porquê estragar tudo quando ela já estava de partida no dia seguinte.

— Ah! – exclamou Guida, estalando os lábios e pousando o cálice de conhaque. – Um senhor jantar, Petúnia. Normalmente só como uma coisinha rápida à noite, com uma dúzia de cachorros para cuidar... – Ela soltou um arroto, que fez Charlotte se sentir nauseada, e deu umas palmadinhas na grande barriga coberta de tweed. – Me desculpem. Mas gosto de ver um menino de tamanho saudável – continuou ela, dando uma piscadela para Duda. – Você vai ter tamanho de homem, Dudoca, como seu pai. Sim, senhor, acho que vou querer mais um pouquinho de conhaque, Vernon... Agora esse outro ai...

Charlotte gemeu e teve vontade de afundar em sua cadeira. Era só isso que faltava para terminar a noite, claro. Ela jamais perderia a chance!

— Esse aí tem um jeito ruim e mirrado. A gente vê isso nos cachorros. Pedi ao coronel Fubster para afogar um no ano passado. Era um ratinho. Fraco. Subnutrido...

Lançou-o um olhar significativo, que dizia muito bem ‘controle-se’, mas ela podia sentir toda a magia vindo de Harry. Ela podia ver o maxilar rígido e ela podia sentir que algo em seu corpo a dizia ‘afaste-se’. E aquilo nunca podia ser bom... Simplesmente não podia.

— A coisa toda está ligada ao sangue, como eu ia dizendo ainda outro dia. O sangue ruim acaba aflorando. Mas, não estou dizendo nada contra a sua família, Petúnia – ela deu umas pancadinhas na mão ossuda da cunhada com sua mão que mais parecia uma pá –, mas sua irmã não era flor que se cheirasse. Isso acontece nas melhores famílias. Depois, fugiu com aquele imprestável e aí está o resultado bem diante dos olhos da gente.

Charlotte queria apertar o punho de Harry, chamar a atenção dele para ela, mas não conseguia. Na verdade, estava se controlando muito para ela mesma não lança-lo para longe. Ela tinha a ligeira impressão que estava suando frio e que sua mão tremia.

Quanto a Harry, ele ainda olhava fixamente para o próprio prato. Sem dizer qualquer coisa, sem denunciar qualquer sentimento. Mas Charlotte podia sentir, ficava cada vez mais forte. Tanto que fazia os pelos de seus braços arrepiarem todinhos.

— Esse Potter... – continuou Guida bem alto, agarrando a garrafa e derramando mais conhaque no copo e na toalha da mesa –, você nunca me contou o que ele fazia.

Tio Vernon e tia Petúnia tinham uma expressão extremamente tensa. Duda chegara a levantar os olhos da torta para olhar os pais, boquiaberto.

— Ele... Não trabalhava – disse tio Vernon, sem chegar a olhar de todo para Harry.

— Desempregado! Era o que eu esperava – disse Guida, bebendo um enorme gole de conhaque e limpando o queixo na manga. – Um parasita preguiçoso, imprestável, sem eira nem beira que...

— Não era não – exclamou Harry inesperadamente.

Todos à mesa ficaram muito quietos e Harry, bem ao seu lado, tremia da cabeça aos pés. Charlotte podia sentir a raiva vindo dele, ela podia dizer que ele nunca sentira tanta raiva na vida. E quanto a ela? Bem, ela nunca quis esganá-lo tanto em sua vida.

Ela agarrava os braços da cadeira com bastante força e dizia a si mesma que não podia simplesmente desmaiar no meio do jantar.

— MAIS CONHAQUE! – bradou tio Vernon, que empalidecera sensivelmente. Ele esvaziou a garrafa no cálice de Guida. – Vocês dois, vão se deitar, andem...
— Não, Vernon – soluçou Guida, erguendo a mão, os olhinhos injetados e fixos em Harry. – Continue, moleque, continue. Tem orgulho dos seus pais, é? Eles saem por aí e se matam num acidente de carro, imagino que bêbados...

O desastre já estava formado, Charlotte percebeu.

— Eles não morreram num acidente de carro! – protestou Harry, que se levantara no mesmo instante.

— Morreram num acidente de carro, sim, seu mentiroso infeliz, e jogaram você nos ombros de parentes decentes e trabalhadores! – gritou Guida, inchando de fúria. – Sua irmã é uma vagabunda assanhada como sua mãe e você é um ingrato insolente!

Mas repentinamente ela se calou. Por um instante pareceu que tinham-lhe faltado palavras. Parecia estar inchando, engasgada de tanta raiva... Mas não parou de inchar. Sua cara enorme e vermelha começou a crescer, os olhos miúdos saltaram das órbitas, e a boca se esticou tanto que a impedia de falar – no segundo seguinte vários botões simplesmente saltaram do seu paletó de tweed e ricochetearam nas paredes –, ela inflou como um balão monstruoso, a barriga transbordou o cós da saia, os dedos engrossaram como salames...

Aquilo não estava acontecendo, não era possível que estava acontecendo. Com os olhos arregalados, Charlotte constatou que Guida estava se tornando um balão.

— O que diabos você fez? – perguntou.

Mas Harry nem mesmo respondeu. Enquanto Guida se transformava num grande balão e tia Petúnia e tio Vernon gritavam apavorados, tentando conter a situação, seu irmão saiu correndo. Charlotte olhou sobre o ombro com grande pavor.

Rapidamente ela também se precipitou para fora da cozinha. Seja lá o que fosse acontecer, Charlotte não queria estar ali para ver. Ela subiu as escadas o mais rapidamente que pôde e chegou ao quarto de Harry, vendo-o guardar as coisas, jogando tudo dentro do malão. As portas do armário estavam batendo sem parar por conta da magia descontrolada dele.

— Harry! Você está indo embora?

— Por que está falando no singular?! – ele gritou fechando o próprio malão. – Pensa que vou deixa-la aqui?! Arrume suas coisas, vamos, rápido!

Mas se pelo menos Charlotte tivesse tido a oportunidade, pois a magia descontrolada de Harry fez com que o malão dela se abrisse sozinho e seus poucos pertences levitassem até ele se organizando.

— HARRY! VOCÊ NÃO PODE USAR MAGIA! – gritou com o irmão. – VOCÊ VAI SER EXPULSO!

— Será que não percebe que a essa altura eu já estou expulso?! – replicou o irmão completamente cego em raiva. – Vamos embora daqui

Charlotte teve tempo apenas de vestir um casaco e pegar a varinha. Harry saiu arrastando os dois malões, o peso dos dois parecendo completamente irrelevantes por tamanha raiva e magia descontrolada que exalava dele. Ela ia logo atrás, fechando o zíper e arregalou os olhos quando viu tio Vernon aparecer, gritando e exigindo para que Harry fizesse-a voltar ao normal.

— ELA MERECEU! – gritou Harry e então empurrou o tio Vernon.

Quando Charlotte terminou de descer as escadas sentiu uma mão gorda e forte agarrá-la pelo braço. Estava pronta para empurrá-lo para longe, quando Harry deu meia volta e a puxou com ainda mais força para longe de tio Vernon e apontou a varinha para ele.

— Fique longe de nós ou juro que irá se arrepender! Já chega disso!

E no momento seguinte Harry e ela estavam na rua escura e silenciosa, cada um deles puxando um malão pesado e com uma coruja piando desorientada dentro de uma gaiola.

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— Nós precisamos voltar, Harry!

— Sua cobra covarde e ridícula! – gritou ele no meio da rua com ela, fazendo com que a lâmpada de um poste explodisse. – Não escutou as coisas que estavam dizendo sobre nossos pais?! Quer voltar para aquilo?! POIS VÁ! Mas não espere que eu volte contigo!

— Harry, seja racional! NÃO PODEMOS FICAR NA RUA UMA HORA DESSAS! Você não escutou o jornal?! Há um assassino solto e também se a polícia trouxa aparecer vamos arranjar ainda mais problemas! Como vamos explicar livros de bruxaria, corujas e uma tia em forma de balão?!

Claramente Harry não estava dando tanta atenção para a seriedade daquela situação quanto ela. Eles estavam na rua, e agora?!

— Quanto de ouro você tem?

— O quanto você acha que é possível que eu tenha?! – debochou amargamente. – Nada, meu caro! A menos que esteja cogitando penhorar minha pulseira!

— Talvez não fosse má ideia. – secamente Harry rebateu.

Ele jogou o próprio malão no chão e o abriu, futricando-o e desorganizando tudo. Provavelmente estava à procura de dinheiro bruxo, embora ela não tivesse sequer ideia de como aquilo poderia ser útil agora. Duvidava que houvesse uma pensãozinha bruxa em Surrey.

— Talvez devêssemos ir para a casa da senhora Figg. Inventamos uma desculpa, você solta Edwiges e a manda ir ficar com algum de seus amigos. – disse Charlotte, ainda em busca de uma solução. – Amanhã podemos pensar com mais calma.

Ou nós podemos voar até Londres. – Harry apontou para a Nimbus 2000. – e nos hospedar no Caldeirão Furado.

— E quanto aos nossos malões?

— Iremos diminuí-los e deixá-los leves como penas para a viagem.

— Pela última vez, Harry: VOCÊ NÃO PODE USAR MAGIA!

— Eu já estou expulso! O que é mais um feitiço para quem já perdeu a varinha?

As palavras de Harry pareciam lentamente morrer aos ouvidos de Charlotte. Ela sentia um formigamento estranho, um arrepio na nuca e de repente seu casaco não parecia quente o suficiente. Foi então que se deu conta que estava tudo escuro, sendo que ela tinha certeza que apesar de Harry ter estourado a lâmpada de um dos postes, havia outro aceso.

Lumus. — Harry murmurou e acendeu a ponta de sua varinha. Ele provavelmente também estava com aquela mesma sensação de pânico eminente que ela.

Barulho de galhos sendo quebrados fizeram Charlotte ofegar e ela forçou suas vistas para o meio de uns arbustos. E ela pôde ver os contornos maciços de algo que era grande, peludo e escuro. Um cachorro? Bem, se era um cachorro, era um cachorro muito grande!

Harry esticou um braço, mas houve um estampido ensurdecedor que o fez tropeçar no próprio malão que estava deitado na calçada e cair. A varinha voou de sua mão, enquanto ele se ocupava em tampar os ouvidos.

Charlotte sentia-se levemente surda e um pouco cega por uma luz que ia diretamente em seus olhos. O barulho de pneus derrapando, a princípio fez com que acreditasse que fosse um carro, mas na verdade se tratava de um grande ônibus roxo de dois andares e que em letras douradas no para-brisa informava: O Nôitibus Andante.

— Bem vindos ao Nôitibus Andante, o transporte de emergência para bruxos e bruxas perdidas. Meu nome é Stanislau ‘Lalau’ Shunpike e eu vou ser seu condutor por esta noite.

Foi quando o olhar do jovem magro, alto e de feições estranhas recaiu para baixo que Charlotte se deu conta que Harry ainda estava caído.

— O que é que você está fazendo aí embaixo? – perguntou o tal cara Lalau.

— Caí.

— E por que caiu? – caçoou o condutor.

— Não caí de propósito, ora. – Harry retrucou indignado e então se pôs a levantar.

Charlotte percebeu com desgosto que a calça havia feito um rasgo – que caberia a ela remendar depois – e que a perna de seu irmão estava sangrando. Harry fez menção de ir checar novamente entre os arbustos, mas ela o deteve segurando-o pelo braço.

— Vamos logo, o senhor Lalau deve estar com pressa. – disse olhando-o significativamente e aproveitando para esconder com o cabelo a cicatriz inconveniente de Harry.

— A mocinha tem razão, vamos logo! Aliás, qual o nome dos dois jovens?

— Neville Longbotton e Ginny Weasley. – Harry disse apressadamente.

Eles subiram rapidamente no grande ônibus, com um pouco de dificuldade carregavam seus respectivos malões e tentavam passar pelas muitas camas que estavam espalhadas e surpreendentemente com várias pessoas dormindo.

— Vocês ficam com essa aí. – ele apontou para uma das camas. Charlotte se jogou sobre ela com satisfação, enquanto esperava Harry pagar pelas duas passagens.

Houve então um estampido forte e eles estavam em movimento outra vez. Charlotte caiu pra trás e Harry o mesmo logo em seguida. O tropeção havia deixado a cicatriz de Harry exposta outra vez e ela imediatamente fez sinal para que ele a cobrisse com o cabelo e foi o que ele fez.

Enquanto seu irmão conversava com Lalau e Nôitibus, Charlotte decidiu que era hora de colocar os neurônios para funcionar e se preocupar com o que fazer em seguida. Em duas semanas eles voltariam para Hogwarts e eles poderiam passar os feriados de natal e páscoa por lá, mas infelizmente durante as férias de verão teriam que procurar um lugar pra ficar.

Ela duvidava que os Dursley fossem permitir que eles voltassem. A uma hora dessas o Ministério já devia ter aparecido na casa deles e dado um jeito na situação toda de Guida, mas tio Vernon jamais permitiria que eles voltassem.

— O que é isso na sua testa, garoto? – escutou Lalau perguntar e gelou.

— Nada! Mas então, quem é esse cara do jornal?

Ela respirou aliviada por Harry ter desviado o rumo da conversa, anos de experiência haviam a deixado ciente que quanto menos pessoas percebessem quem seu irmão era, melhor!

Haviam poucas coisas que Charlotte gostava em sua aparência, mas ela sempre havia sido muito grata por não ter um raio no meio da testa como Harry tinha – aquela cicatriz só trazia dor de cabeça, literal e figuramente.

A pergunta que mais escutava era ‘por que você não tem uma cicatriz também?’. A verdade é que ela nunca chegara a receber a maldição da morte... Obviamente Voldemort pretendia matar os dois, mas antes que ele tivesse a oportunidade de chegar até ela, precisava matar Harry e no ato ele acabou sendo aniquilado... Por um tempo, claro.

Enquanto seu irmão ficara com uma pequena cicatriz, restara a Charlotte as lembranças daquela noite traumática. Ela ainda tinha pesadelos em que escutava sua mãe gritar e implorar por sua vida, pela vida de Harry. Havia também uma luz verde que hoje ela sabia pertencer a maldição da morte que sua mãe recebera. Quando chegara a vez de Harry, assim que Voldemort proferiu o feitiço e ele ricocheteou, Charlotte desmaiou. Mas ela sabia que ele acabara se explodindo, porque ainda conseguia escutar o grito e também o terrível odor que ficara impregnado na casa depois daquilo.

Depois de Harry derramar chocolate quente nela e viajar pelo que pareciam horas intermináveis naquele ônibus, Charlotte não pôde ficar mais que satisfeita quando Lalau enfim pareceu se lembrar que Harry e ela precisavam chegar a um determinado destino.

— Então, Neville, onde em Londres você e sua amiga vão descer? – perguntou Lalau.

Charlotte olhou para o irmão.

— Beco Diagonal, por favor.

— É pra já! SEGURA FIRME!

BANGUE!

Na mesma hora eles estavam correndo pela rua Chasing Cross, a rua do Caldeirão Furado. O motorista deu uma freada brusca e ela suspirou agradecida. A viagem chegara ao fim!

— Obrigado. – Harry agradeceu e ela resistiu ao impulso de olhá-lo feio.

Agradecer por aquele serviço horrível?! Ela nunca mais andaria naquela coisa!

Harry desceu primeiro e a ajudou com seu malão e também a descer os grandes degraus do ônibus.

— Graças a Merlin! Aí está você Harry e felizmente sua irmã está junto!

Charlotte arregalou os olhos quando o Ministro da Magia, Cornelius Fudge, saiu das sombras com um grande sorriso e com os braços abertos. Que diabos ele estava fazendo ali?

— Caramba Ernesto, olha aqui, vem ver! – Lalau bradou.

Mas que sorte a deles, não? Darem de cara com o Ministro!

— Espera aí... Que nome que o senhor chamou o Neville, Ministro? – perguntou Lalau enquanto saltava para a calçada.

— Neville? – repetiu o homem. – Este é Harry Potter, meu caro! E sua irmã, Charlotte Potter.

‘Por que não fala mais alto, amigo?’ pensou a menina quando viu todos os outros passageiros do Nôitibus saírem do transporte ou colocarem suas cabeças curiosas para fora pela janela.

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Quando o Ministro delicadamente sugeriu para que Charlotte fosse para o quarto que ele tinha reservado para ela, foi a primeira vez que ela conseguiu sentir um pouco de simpatia pelo homem. Ela não disse nada, deixaria que seu irmão e ele conversassem.

Tom, o dono do bar, foi o caminho inteiro tagarelando sobre como era um prazer tê-los aqui e que eles teriam quartos individuais para garantir máxima privacidade a cada um deles. Ele também foi bastante gentil em ajudá-la a carregar suas bagagens.

— Gostaria de comer alguma coisa, senhorita? – perguntou Tom enquanto ia para a porta.

— Obrigada, Tom, mas eu acho que eu só preciso descansar.

— Se precisar de alguma coisa, é só pedir.

Charlotte o levou até a porta, apenas a tempo de trancá-la. Ela podia sentir o cansaço a consumindo de tal forma que quando se deitou na cama no pretexto de apenas descansar cinco minutinhos, acabou adormecendo de roupa, sapatos e tudo.