Notas iniciais
Ramona chega à academia e passa pelo primeiro teste.

Assim que viu pessoalmente a academia, Ramona Ogawa soltou uma exclamação de admiração, e imediatamente depois perguntou-se a distância do portão até o prédio principal, uma construção de cinco andares no topo de uma pequena colina. Os anexos estavam espalhados ao redor do campus, que era cercado por uma floresta esquisita e aparentemente perigosa. Ryuka imaginou quantas pessoas não eram necessárias para cuidar de um complexo como aquele.

Aquela era a segunda etapa do teste de transferência para a Academia Shoyo, a definitiva. Ramona avançou pela estrada calçada, desviando dos carros que insistiam em passar pelo lado de pedestres, até chegar à fila na recepção no prédio principal. O período ainda era de férias, então não havia muitos estudantes, à exceção de uns poucos em atividade extracurricular e dos candidatos à transferência.

— Prova de transferência? – perguntou a recepcionista, ao que Ramona assentiu. – Anexo 1, primeiro laboratório.

Ramona não pôde deixar de se surpreender com a aparelhagem completa e moderna da cozinha do laboratório.

— Uau!

— Bem legal, não é? Parece a cozinha do Juno’s.

Ramona respondeu sem pensar, depois descobriu que não fazia ideia do que era Juno’s.

— Exatamente! Eu... espera aí, que diabos é isso?

— Você nunca ouviu falar? É o melhor restaurante do Japão.

— Eu não sou muito ligada nestes restaurantes chiques daqui. – Ramona balançou os ombros.

— Você tem que conhecer, algum dia. Sou Takahashi, a propósito. Naomi Takahashi.

— Ramona Ogawa. É um prazer.

Subitamente, todos fizeram silêncio. Os passos no corredor se aproximavam cada vez mais, aumentando a tensão no laboratório. Logo a porta foi abeta, revelando os avaliadores do exame. Naomi teve um prelúdio de um ataque cardíaco assim que os viu entrar na sala, e começou a aproximar-se para a saída do outro lado da sala. Ramona a segurou. Os murmúrios recomeçaram.

— O que há de errado?

— Vou tentar uma vaga em outra academia. Olhe só o nível dos avaliadores.

— Hã... o que há de errado?

— Você não os conhece? – Naomi lançou-lhe um olhar incrédulo. – Aquele é Akira Takado. Dizem que herdou o paladar da mãe e é quase impossível receber uma boa crítica sua. O garoto ao seu lado é Sasuke Inoue e a menina, Sami Yamato; são alunos do terceiro ano. Uma crítica ruim deles pode destruir toda uma carreira.

— Beleza, então nós vamos cozinhar muito bem.

Naomi bateu a mão na própria testa.

— Você não ouviu nada do que eu disse? É quase impossível receber uma boa crítica.

— Quase não é impossível.

Naomi ia responder alguma coisa, mas parou (assim como todos da sala) quando Takado começou a falar.

— Vocês estão aqui porque sonham em ser ótimos chefes. E se estão confiantes de que podem fazer um bom prato hoje, deem prosseguimento ao teste. Lembrem-se que as pessoas são mais reconhecidas por seus erros que por seus acertos, e um erro hoje pode trazer um impacto pior do que pode imaginar em suas carreiras. Estejam cientes de suas decisões antes de fazê-las. Quero que nos próximos trinta segundos, todos os que não estiverem confiantes em seu desempenho hoje saiam. – Vocês também serão julgados por isto, Takado acrescentou em pensamento.

Houve uma breve pausa, enquanto todos absorviam as palavras de Akiro Takado. Foi uma pausa que durou um segundo, pois no segundo seguinte, a turma em massa estava abandonando a sala. Naomi tentou correr.

— Me solta, Ramona! Vou achar uma vaga em algum outro lugar.

— Não seja ridícula. Eles só querem nos intimidar.

— De fato, isto economizou um bocado do nosso tempo – sussurrou Sami no ouvido de Yamato.

— Se vocês me derem licença, eu tenho outras coisas para fazer. – Takado estava saindo quando alguém falou, do outro lado da sala.

— Se vocês estão de saída, podemos nos considerar aprovadas? – Ramona perguntou. Naomi escondeu o rosto com a mão. Os trinta segundos tinham se esgotado.

— Parece que não economizou tanto tempo assim – comentou Inoue, ao contar a quantidade de candidatos remanescentes na sala. Quatro.

Takado virou-se para frente à contra gosto. Olhou para o relógio e novamente para os quatro candidatos.

— Vocês têm duas horas para preparar um prato com truta, apenas com os ingredientes desta sala. — Ele marcou o tempo no relógio – Podem começar.

Os candidatos se adiantaram. Ramona beliscou Naomi para que ela saísse do transe semiparalítico.

— O que eu faço? O que eu faço? – perguntou ela, para ninguém em especial.

— O que tiver segurança de fazer. – respondeu Ramona, puxando um headfone da mochila e o enfiando na cabeça.

— O que pensa que está fazendo? – intercedera Takado.

— Procurando uma música, é claro.

— Isto é...

— Está devidamente dentro do regulamento. Até trazer um caderno de receitas está no regulamento. Francamente, não é lá um exame muito rigoroso.

O avaliador mordeu o lábio inferior e não disse mais nada.

Um pouco atrás, Naomi finalmente decidira o que fazer.

[...]

— Aprovado – disse Sami, ao experimentar o primeiro prato.

— Reprovado – grunhiu Sasuke.

Takado deu o voto final. O primeiro candidato saiu da sala decepcionado e com raiva.

— Reprovado. – disse Sami ao proponente do segundo prato, e Inoue concordou. Era júri de maioria, mas Takado fez questão de dar sua nota negativa.

— Você, a garota de óculos. – Takado apontou para Naomi, e ela trouxe os pratos devidamente arrumados.

— O que é?

— Bouillabaisse, regado com um molho cremoso de camarão.

— Fez uma sopa de peixe? – perguntou Sami, um tanto ofendida.

— O cheiro está bom. – disse Sasuke, aproximando o talher com a sopa francesa da boca. O aroma envolveu suas narinas, fazendo-lhe lembrar um cardume nadando livre no mar. A comida aqueceu-lhe pelo caminho do sistema digestivo. – Aprovado.

Sami olhou a sopa com desconfiança, mas assim que sentiu o gosto do peixe, combinado ao sabor exótico de uma mistura perfeita de especiarias do mediterrâneo, anunciou a aprovação da

— Você e cozinhou o peixe primeiro em sopa de alho para realçar seu sabor? – Takado havia perguntado, ao que Naomi confirmou. – É uma receita original, mas não está no nível da Shoyo, embora Inoue e Yamato já tenham decidido seu destino.

— Tem algo de errado com...?

— Um conselho, garota: não espere uma aprovação do Takado em sua primeira vez.

— O molho está ralo, com excesso de cominho. A truta também apresenta alguns deslizes no cozimento. A sopa de cebola encorpou o peixe, mas também tirou um pouco de sua essência. Resumindo: não é digno da Shoyo; poderia ser muito melhor.

Ramona trouxe sua própria criação, estendeu-a aos jurados e tirou a tampa, revelando uma fumaça aromática de dar água na boca.

Nem Sami, nem Sasuke esperaram para devorar a comida. A primeira levantou os olhos para cima, em êxtase. O segundo mal pode respirar, avançando para comer mais, misturando o prato principal com o purê divino ao lado. Takado engoliu a comida, temperada com uma perfeição absoluta. O peixe emergia do molho exótico, numa mistura de sabores do outro lado do mundo.

— Mas o que foi essa arte divina? – Sasuke perguntou, ao limpar todo. – Parece algo meio tropical, e ao mesmo tempo tem o refino de um prato francês.

Sami e Sasuke deram ambos seu veredicto: aprovada.

— É uma moqueca, – disse Takado, depois de provar a refeição uma quarta vez. – um prato típico de um povo indígena Brasil, famoso pela desordem de ingredientes e temperos. É um prato comum que dificilmente seria servido num restaurante de renome.

— Por isto o Brasil é tão famoso pelo turismo. – pigarreou Ramona – Exatamente, é uma moqueca à baiana. Fiquei surpresa por encontrar azeite de dendê aqui, é quase impossível achar isto fora do Brasil.

— E aí, Takado, o que você diz?

Akira parou de encarar o prato. Em dois anos como avaliador, só tinha sido compelido a aprovar dois alunos, e o do ano passado fizera um prato realmente fantástico. Era uma ousadia sem limites cozinhar uma moqueca, um prato tão exótico, mas tão absurdamente comum em uma escola como aquela.

— Reprovada.

Ramona sorriu com o canto da boca. Estava aprovada, de qualquer maneira, mas sabia que uma reprovação não era o que Takado realmente achava do prato. Ramona seguiu Naomi até a saída. Ao passar por Takado, dirigiu-lhe um olhar de desafio.

— Aproveite o quanto quiser a moqueca, avaliador. Um bom chefe sabe quando seus clientes apreciam o prato.

Notas finais
No próximo capítulo:
Ramona é apresentada à Casa no campus. Os desafio começa.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.