Short Horror Stories
2 Roller Coaster
Notas iniciais
O sol batia sem nenhum grande obstáculo sobre o concreto a seus pés, criando uma espécie de cobertor de calor que o envolvia e fazia com que o ar parece cada vez mais pesado em seus pulmões. Isso, somado ao tempo de espera na fila sem nenhum tipo de cobertura e o barulho da multidão de pessoas e o rangir dos brinquedos a sua volta, lhe fazia perguntar-se se havia sido uma boa ideia ir a um parque de diversões. Ao seu lado, ele podia ver Temari com sua postura altiva de sempre, aparentemente inabalada pela situação. Ela provavelmente está acostumada a sol, calor e lidar com muitas pessoas. O silêncio entre eles era ameno, como na maioria das vezes. Andavam lado a lado esperando pacientemente – ou nem tanto — para finalmente subirem na roda gigante do parque.
A escolha do brinquedo havia sido lógica: o mapa do parque na entrada já estava bastante vandalizado para ser útil, a multidão de pessoas devido à data comemorativa tonava o circular no parque um tanto vagaroso como para poderem fazer uma volta ‘de reconhecimento’, e a vista lá de cima daria a eles uma visão geral do parque, para que Temari pudesse decidir o que gostaria de fazer. Embora vários brinquedos estivessem com temáticas de Halloween – inclusive alguns deles foram renovados e reinaugurados para esta data – o parque ainda era um parque de diversões comum, e como tal, possuía todos os brinquedos típicos.
A roda gigante era formada por apenas assentos abertos, e apenas uma barra que descia a frente deles para impedi-los de cair, deixando seus pés soltos e pendurados. Os assentos cabiam apenas duas pessoas, mas haviam muitos deles distribuídos ao longo da roda gigante, o que também fizera sua fila andar mais rápido que a da maioria dos outros brinquedos.
A medida que eles subiam, o ar parecia ficar mais leve e fresco, trazendo um pouco de alívio a Shikamaru, que suspirou pesadamente. Temari o olhou e levantou uma sobrancelha, mas ele ignorou-a por um momento, e ela nada disse. O barulho do parque também diminuía com a sua ascensão, permitindo a Shikamaru relaxar por uns instantes e fechar os olhos, deitando sua cabeça para trás. Abriu os olhos para encarar o céu com pouquíssimas nuvens, que de alguma forma pareciam se aproximar com a subida. Sem pensar muito, ele estendeu o braço para cima, como quem gostaria de tocar a nuvem. É claro que ele sabia que isso não aconteceria, mas o dava uma sensação de liberdade e leveza pensar em algo assim. A distância dos ruídos do parque lhe permitiu ouvir a risada contida de Temari, fazendo-o virar o rosto para observá-la. Ela possuía um sorriso radiante, balançando os pés alegremente enquanto o observava. Era uma cena que ele levaria para sempre na memória.
“Isso se chama parque de diversões,” Ela riu dele “você não parece estar se divertindo.” E apesar de seu tom acusatório, era nítido que ela não estava nem um pouco chateada.
“Parque de diversões não é bem o meu estilo de diversão.” Ele respondeu ainda com a cabeça jogada para trás, apoiada no encosto de metal do assento em que eles se encontravam.
“E qual seria o seu tipo de diversão então, Nara?” A pergunta era zombeteira e divertida, mas Shikamaru não se importava com a zombaria dela se aquilo a fizesse feliz.
Ele desviou o olhar para o céu novamente antes de respondê-la. “Shougi... e olhar as nuvens.”
“Que velho!” Ela lhe respondeu debochada, e ele levantou a cabeça e deu de ombros, como quem diz sempre fui.
A roda gigante parou novamente, para embarcar mais pessoas, e ela olhou a diante, ainda chutando o ar. “E então, você vai me ajudar a decidir o que fazer?”
“O que você quiser...” Ele respondeu com um ar desinteressado. A roda gigante voltou a girar.
“Que grande ajuda a sua!” Não bastasse a ironia clara em sua voz, ela também revirou os olhos, e emendou antes que ele pudesse dizer qualquer outra coisa. “Vamos lá, o que você quer fazer?”
“Qualquer coisa que não seja no sol.” Ele respondeu espontânea e preguiçosamente, e Temari riu com a sua resposta.
“Tudo bem, bebê chorão, nós não vamos ficar no sol pra não machucar a pele do bebê. Hahahahaha~” Ela gargalhou ao lado dele, e ele só virou os olhos.
“Está quente, Temari, e o sol está forte.”
“Eu sei,” ela lhe respondeu ainda sorridente, “mas você não tem ideia do que é calor e sol forte de verdade.”
“E prefiro nunca ter...” Ele acrescentou, como quem não liga para seu orgulho – o que, ambos sabiam, era mentira.
“É, eu concordo, é melhor você não ter mesmo.” No entanto, ela não insistiu em implicar com ele. “O ruim das atrações fechadas é que não podemos saber o que acontece lá dentro.” Ela complementou, voltando ao assunto de antes.
Shikamaru suspirou. “Aquela lá,” ele apontou para um letreiro com um desenho de um ‘disco voador’, e nesse instante a roda gigante parou de novo, fazendo o assento balançar no topo, “é considerada a maior montanha russa in-door* do mundo. Nunca fui lá.” Ele lhe esclarecia, tendo a total atenção dela. “Ali, fica a casa mal assombrada. Do outro lado, naquela fila gigante, é uma simulação de voo sobre as cinco grandes vilas ninjas.” Ela levantou as sobrancelhas ao ouvi-lo falar isso. “Não me pergunte.” Ele deu de ombros, e ela riu levemente. “Aquele outro desse lado do parque,” os dois se viraram levemente para trás, e novamente o brinquedo voltou a se mexer. “dizem que é um passeio temático simulando uma batalha na grande guerra ninja. Eu prefiro não ir lá.”
“Eu também não.” ela emendou logo atrás.
“Aquele outro ali é uma montanha russa temática nova, que acabaram de lançar nesse Halloween.”
“Você deve vir bastante aqui para saber tudo isso, não?” Ela lhe indagou inquisitiva.
“Na verdade, ouvi muito Ino falar, ela está sempre por dentro de tudo. E Sai tem trazido ela aqui, pelo que eu soube.” Temari não parecia muito convencida, mas ele nem tentaria argumentar. “Tem aquele passeio ali, em que você sobe num bote com formato de tronco e passeia por um curso d’água cercado por bonecos que contam algumas lendas da região-”
“Ah, eu quero ir nesse aí!” Ela exclamou empolgada.
“Você tem certeza?” Shikamaru a olhou estranhado.
“Porque não?” Seus olhos verdes brilhantes, com o rosto levemente inclinado e um tanto infantil, conferiam a Temari um ar inocente, que Shikamaru tinha vontade de abraçá-la e protegê-la para sempre.
No entanto, ele controlou seus impulsos e lhe respondeu. “Os bonecos são de péssima qualidade, as histórias são contadas muito rápida e superficialmente, o passeio é lento e lotado de crianças, a maioria gritando.” Ele revirou seus olhos perante sua própria afirmação. “Bem, na verdade é um brinquedo para crianças.”
Ela riu dele, e ele sorriu de volta. “Tudo bem, passeio de criança só se sobrar tempo. O que mais temos por aqui?”
“Lá tem uma espécie de fliperama com cassino. Tem vários jogos de azar, que você coloca fichas que comprou e ganha tickets, que depois podem ser trocados por brindes.” Os olhos dela brilharam de alegria com a informação, então Shikamaru achou prudente desencorajar ela. “Não se empolgue, os brinquedos que dão tickets dão muito pouco, o que te incentiva a comprar mais fichas para jogar. Aí quando você acha que está com bastantes tickets e vai trocar, não dá nem um chaveiro.” Temari ri alto quando ele termina a frase, e por algum motivo ele se sentiu ao mesmo tempo constrangido e encantado.
Sem saber muito bem o que fazer, ele resolveu apenas continuar. “Ali tem uma área temática de aviões, voltada para crianças... é a parte favorita da Mirai...” Ele sorriu acanhado, mas o sorriso que ela lhe devolveu era lhe aquecia o coração e iluminava seu interior, como uma espécie de sol particular.
O calor irradiado pelo concreto foi a primeira coisa a lhe trazer de volta a realidade, e lhe lembrar que o movimento significava que agora eles estavam descendo, indicando o fim do passeio. Em seguida, o cheiro de comidas gordurosas misturado ao de suor e calor de pessoas lhe embrulhou o estômago e o fez franzir o cenho.
Isso pareceu ser suficiente para que Temari entendesse, ou então ela também sentiu, mas apenas lhe sorriu debochada. No entanto, não disse nada sobre isso. “Muito bem, já que estamos chegando ao fim, vamos então para a maior montanha russa in-door do mundo. Depois de lá decidimos.” Ela virou de volta, e levantou as sobrancelhas perante seu silêncio. “O que diz?” Ela indagou.
“Ótimo.” Foi a resposta dele, junto a um aceno curto. O sorriso dela novamente se expandiu em seu rosto, e outra vez Shikamaru se perdeu naquele mar de luz.
—-----
Temari estava amando aquele passeio de montanha-russa. Apesar das pessoas atrás de si estarem gritando, ela estava achando aquilo muito relaxante. Ela e Shikamaru acabaram sentando nos assentos mais a frente, o que em tese lhes permitiria uma visão melhor do caminho. No entanto, não foi nada disso. Essa montanha-russa in-door tinha como tema uma ‘viagem pelas estrelas’, então na verdade o ambiente era totalmente escuro, apenas com pequenos pontos de luz brancos. Isso fazia com que ninguém soubesse exatamente o que aconteceria a seguir. A emoção do passeio vinha então da combinação de incerteza sobre o que aconteceria a seguir e a alta velocidade com que eram guiados através das inúmeras voltas, altos e baixos.
Mas essa velocidade, junto ao clima ameno devido ao ar condicionado, fazia com que o vento atingisse o seu rosto de forma agradável. O vento era seu elemento, e a imitação de um céu totalmente estrelado lhe remetiam aos voos sobre o seu leque através do deserto, e lhe trazia uma sensação de conforto e pertencimento indescritíveis.
Ao seu lado, Shikamaru também parecia calmo, mas ela já não estava mais prestando muita atenção a ele. No início, ele se exaltou um pouco logo que começaram a “cair” depois da longa subida lenta e torturante, mas logo se acostumou a velocidade e as curvas. No entanto, conforme ela se sentia cada vez mais em casa e livre, logo foi como se desprendesse da realidade fora de si. Era apenas ela, o vento e as estrelas.
Um túnel de arcos coloridos, muito similar o que marcava o início do brinquedo, e a diminuição da velocidade prenunciavam o fim daquele momento. O passeio acabou rápido demais na opinião de Temari, embora ela soubesse conscientemente que duram alguns bons minutos. Mas ela poderia ficar ali por muito mais tempo se pudesse. Ela e Shikamaru saíram em silêncio de seus assentos, ela ainda sentia-se um tanto flutuante depois desse momento libertador.
Ao sair do espaço fechado, a luz a cegou e por instinto ela fechou seus olhos e os cobriu com o braço. O calor sufocante e o cheiro de gordura e óleo de máquina a trouxeram de volta a realidade mais rápido do que gostaria.
“Parece que alguém não é tão indiferente ao sol quanto gostaria.” A voz de seu acompanhante soou zombeteira, e ela virou-se para ele rapidamente com a cara fechada, e só então percebeu que já estava com o rosto franzido antes mesmo de encará-lo. Ela o viu erguer as mãos como quem se rende, e apenas virou os olhos e tornou a andar sem nenhum rumo fixo.
“Hey, não fique chateada.” Ele falou ao seu lado, soando um pouco arrependido.
“Não estou.” A resposta veio no automático, e ela nem se virou para encará-lo.
Ele suspirou. “Não quis ofendê-la. Sei que o principal problema não foi o sol, mas a ofuscação-...” Ele parecia atrapalhado tentando se explicar, e Temari não pode evitar e não achar graça.
“Eu não estou, bebê chorão.” Ela riu com o apelido e a situação. “Eu não fiquei ofendida. Foi só... instinto.” Foi a vez dele soltar um riso analasado. “O quê?” Ela interrogou com falsa indignação.
“Você com certeza tem uns instintos esquisitos.” Com uma careta divertida, ela usou seu ombro para empurrá-lo para o lado, e os dois sorriram ao mesmo tempo com a situação.
Temari estava satisfeita. Ela imaginava que aquilo não tinha nada a ver com a comemoração que Shikamaru mencionara, mas ela não pretendia reclamar. Ela estava leve e contente demais para se importar se o que eles faziam era tradicional ou não.
“Você parece ter gostado da montanha russa...” O Nara comentou ao seu lado. “Não consegue tirar o sorriso da cara.” Ele tinha um sorriso de lado que o deixava demasiadamente sexy, mas ela jamais daria o braço a torcer.
“Idiota...” foi tudo que ela disse, revirando os olhos e seguindo, tratando de ignorá-lo. Como diplomata, ela tivera que aperfeiçoar diversas habilidades, e entre seus conhecimentos de psicologia, ela aprendera que o melhor castigo era a indiferença.
O som do riso nasalizado dele atrás de si a deixou em dúvida se tinha mais vontade de bater nele ou em si mesma. “Ei, mas falando sério...” O tom de voz dele realmente ficou mais sério, o que então a fez se virar e prestar atenção ao que ele tinha a dizer. Eles eram parceiros, afinal de contas. Ele caminhou no ritmo dele até alcançá-la, embora não por muito tempo, sob o seu olhar vigilante. “Você gostou mesmo da montanha-russa, não?”
“Sim.” Ela lhe respondeu diretamente, como quem não entende a pergunta.
Shikamaru suspirou. “Nunca vi alguém tão a vontade numa montanha russa.” Temari abriu a boca para respondê-lo, alegar que ele também estava tranquilo, mas ele agiu antes dela começar a falar. “Sim, eu sei que eu também estava calmo, não era um passeio assustador para um ninja, mas você... Era algo mais que isso. Ou eu estou alucinando Temari?” Shikamaru parecia honestamente interessado, e Temari se sentiu um pouco aflita. Com o jeito calmo e desinteressado dele, ele entrou na sua vida, passou silenciosamente por todas aquelas muralhas que ela construira, e Temari não tinha certeza se gostava disso ou não. Ela o viu negar com a cabeça parecendo arrependido. “Me desculpe. Não quis ser invasivo. Eu só...”
Então Temari riu. “É... Eu gostei...” Ela falou, sorrindo e distante. O silêncio entre eles durou algum tempo, mas desta vez era calmo e reconfortante. “Me lembra de Suna.” Ela comentou, nostálgica.
“Porque?”
“Você não entenderia...”
“Teste-me.” Ele parecia ansioso para que ela dividisse aquilo com ele, e era tão incomum ver Shikamaru ansioso que Temari sentia-se especial. O ímpeto dele lhe causava um desejo de compartilhar com ele tudo de si.
“Me lembrou o céu estrelado de Suna... meus voos sobre meu leque-“
“Você ainda voa sobre seu leque?” Temari o encarou com um olhar feio, e ele se encolheu. “Me desculpe, prossiga.”
“Me fez sentir...” ela deteve sua fala e fechou os olhos, inspirando profundamente, antes de seguir com a voz leve. “...livre...”
Mesmo estando longe, ela pode ver pelo canto do olho Shikamaru franzindo o cenho. “Você se sente presa a algo, Temari?”
Ela parou de andar, e percebeu por sua visão periférica que Shikamaru também parara, ficando de frente para ela. Ela respirou fundo, tentando entender o que isso significava. Essa era a parte que ela detestava que Shikamaru tivesse ultrapassado suas barreiras: ele conseguia pegá-la desprevenida e tirar-lhe o chão. Temari nunca havia pensado nisso, mas a questão dele era lógica, e ela simplesmente não sabia como responder. Ela queria negar, ao que ela estaria presa? Mas porque sua voz parecia simplesmente não sair.
“Está tudo bem se não tem uma resposta.” Ele deu de ombros, como se não fosse algo importante, e se virou levemente para frente. “Vi uma barraca de doces mais a frente, podemos comprar umas castanhas doces pra decidir aonde vamos depois.”
“Castanhas doces?” Pensar em seu doce favorito realmente fez o animo de Temari se iluminar, embora não tenha tirado totalmente seu foco da pergunta anterior. Embora soubesse que poderia seguir normalmente sem uma resposta imediata. Era algo que ela precisaria refletir.
Uma das coisas que mais a irritava em Shikamaru era que ele podia ler ela tão bem. Ele sabia como ela se sentia e a impedia de tentar camuflar algo. E uma das coisas que ela mais gostava em Shikamaru era que, bem, ele podia lê-la tão bem. Ele sabia como e quando agir, e não a tratava como fraca ou cruel, não sentia pena ou medo dela. Ele não a menosprezava e não a superestimava. Ele era simplesmente... ele. Nara Shikamaru. E eles eram parceiros. Eram iguais.
—-----
Depois de comprarem um pacote de castanhas doces para cada – que Temari comeu o dela e dividiu o de Shikamaru com ele – os dois decidiram testar a nova montanha russa. Segundo Shikamaru, as críticas sobre o novo brinquedo eram muito boas, dizendo que ele cumpria bem o papel de assustador que era característico do feriado de Halloween. Temari ainda não entendia bem porque eles faziam coisas assustadoras naquela data em que Suna ficava tão bonita, mas respeitava e queria conhecer tudo melhor.
“Não importa como seja o brinquedo, ele com certeza já é meu favorito: sem sol na fila” Temari riu, embora também agradecesse internamente o fato da fila ser coberta.
Esta montanha russa também era fechada, e com uma temática de múmias. Então, para entrar no clima, eles entravam no que simulava uma caverna, sob a qual estava a fila, e ao fundo uma estrutura com formato de pirâmide se erguia, onde ela só podia imaginar que estaria o brinquedo. Ao longo de toda a caverna, uma música baixa e tensa pretendia deixar o clima mais pesado, mas o barulho das inúmeras pessoas animadas para poderem conhecer a nova estreia do parque fazia com que apenas o ambiente escuro fosse realmente percebido por todos ali.
A fila andava mais rápido do que ela esperaria, mas várias coisas lhe chamaram atenção naquele caminho. Ele era realmente um labirinto, com muitas escadas, sobe e desce, galpões abertos que simulavam câmaras de uma pirâmide, com o que pareciam mesas cheias de tesouros – todos de concreto e fixos, é claro – mas as quais ajudavam a guiar aquela fila.
Neste galpão onde se encontravam agora, havia duas grandes áreas. Eles eram divididos por um grande balcão, que embora baixo, atravessa o salão inteiro, de ponta a ponta, e o dividia em dois. De um lado, inúmeras mesas estavam alinhadas alternadamente – uma de lado e outra do outro, seguindo a sequencia – formando um corredor serpenteado que era preenchido pela multidão de pessoas que aguardavam sua entrada no brinquedo. Do outro lado, uma parte mais estreita possuía apenas as paredes e chão pintados, mas absolutamente vazia de quaisquer obstáculos. Inicialmente ela imaginara que a saída fosse por ali, mas aquilo fora completamente refutado ao não ver uma alma viva cruzar aquele caminho, que parecia uma espécie de corredor cheio de armadilhas. É claro que ela sabia não se tratar de um – era um brinquedo, afinal de contas – mas ele provavelmente fora pintado assim para causar esta sensação. Um corredor de fuga. Mas que poderia significar a morte de quem estivesse com pressa.
Ela riu de seus próprios pensamentos. Era interessante ver o esforço de quem construíra a atração de tentar recriar o clima propício ao tema. Ao seu lado, Shikamaru ergueu as sobrancelhas, questionando-a em silêncio. Ela apenas negou sorrindo, e fez um sinal que depois conversariam. Ele deu de ombros e ela voltou a encarar o corredor vazio. Ele deveria servir como algum tipo de emergência ou para manutenção, ela se decidiu, e satisfeita com a sua conclusão – ou ao menos por enquanto, ela provavelmente falaria com Shikamaru quando eles estivessem em um lugar mais silencioso – ou mais aberto. Qualquer lugar onde eles pudessem ouvir a voz um do outro sem terem que elevá-la demais.
Isso a fez observar a parte cheia de gente novamente. O salão era bem amplo, e havia uma espécie de eco que retumbava a vozes de todos ali, gerando um zumbido quase ensurdecedor. Observar o salão a fez ficar cansada – havia pessoas demais ali. Ela se perguntou quanto mais demoraria até que todos aqueles a sua frente pudessem entrar e finalmente chegaria a vez deles. E isso que ela estava apenas considerando os que estavam ali a sua vista, sem saber quanto mais estaria escondido além desses.
Pensar no quanto mais eles demorariam fez Temari ter vontade de pular aquela bancada e descobrir aonde aquele corredor vazio a levaria. Não que ela estivesse ficando com medo do clima – não não, longe disso – apenas sua curiosidade e cansaço lhe faziam ter vontade de explorar ao invés de ficar inutilmente esperando. Mas ela também se perguntou quão decepcionada ela ficaria com o que descobrisse naquele corredor – e ainda mais se perdesse sua chance de saber como era a atração de fato. Não que todo aquele ambiente não fosse atrativo por si só.
Era curioso como era a entrada para aquele brinquedo. Eles entravam pelo que parecia uma caverna completamente disforme, mas larga o suficiente para permitir uma fila espalhada e desorganizada. Mas então, em uma curva atrás de uma pedra que parecia apenas continuar aquela caverna, havia um túnel de teto baixo e em arco, que permitia a passagem apenas de uma pessoa por vez. O túnel era curto e curvo, não chegando a ficar escuro, mas sem permitir a visão do destino para quem entrava nele. Ao sair, eles se deparavam com a entrada daquela construção em pirâmide, um túnel largo e bem quadrado. Ali começava o labirinto, como se eles realmente estivessem descobrindo uma pirâmide abandonada. Havia os hieróglifos, mensagens para espantar intrusos, maldições, e aos poucos começavam a surgir mais e mais enfeites e ‘tesouros’ conforme avançavam.
Novamente, a velocidade com que eles andaram impressionou Temari. Enquanto divagava, eles atravessaram a outra metade do salão e entraram novamente em uma escada, da qual ela podia ver dali pelo menos quatro curvas diferentes, e nas duas mais próximas podia ver alguns potes de ‘cerâmica’ em reentrâncias da parede.
A escada era larga o suficiente apenas para duas pessoas andarem lado a lado, então ela e Shikamaru seguiram juntos, vagarosamente. Conforme subiam, o zumbido do salão ficou para trás, permitindo que eles tivessem uma conversa.
“O que houve lá embaixo?” Ele perguntou, com sua típica voz desinteressada. Embora isso nem a impressionasse.
“Aquele corredor vazio. O que você acha que era?” Ela lhe devolveu, querendo saber a opinião dele.
Ele apenas deu de ombros. “Você também reparou? Algo para alguma emergência, talvez.”
“Ou para algum tipo de manutenção, quem sabe.” Ela completou, feliz de saber que ele chegara à mesma conclusão que ela.
Ele assentiu. “Um carro conseguiria passar por ali.”
“Mas não pelos túneis.” Ela ponderou.
“Deve ter outras saídas.” Ele concordou.
“Deve.” Ela assentiu firme e curto, olhando quando chegaram ao fim da escada e um pequeno caminho se estendia a sua frente. Ela pode ouvir palmas e comemorações a sua frente, então se inclinou para enxergar o que acontecia.
No fim daquele pequeno túnel, ela podia ver o caminho por onde o carro da montanha russa chegava. “Finalmente.” Ela meio comemorou, embora sua voz era irônica. As pessoas começaram a entrar e eles puderem andar novamente, Shikamaru se inclinando levemente para observar também. O carro era preto, e passou por uma cortina preta para entrar, e todos voltaram a esperar. Temari observou o arco que indicava o fim do pequeno corredor, para a ‘área de embarque’. Os que passam por aqui jamais voltarão os mesmos.
Um riso nasalizado escapou de si ao ler o aviso. Shikamaru a olhou e ela apenas lhe indicou com a cabeça a inscrição. Ele levantou as sobrancelhas parecendo surpreendido, e ela cortou o silêncio. “Com a produção aqui de fora, parece que vai ser muito bom.”
“Ou talvez o contrário...” seu acompanhante lhe respondeu. “Talvez precise de toda essa produção aqui fora porque sem ela o passeio seria sem graça.”
Ela tinha que admitir que o Nara tinha um bom ponto. “Vamos esperar que não me decepcione então.”
Novamente as palmas se fizeram presentes, e os dois observaram que os que esperavam na fila aplaudiam enquanto as pessoas que saíam desciam na plataforma do outro lado, como indicado pelos funcionários da atração.
Temari franziu o cenho e olhou para Shikamaru, negando com a cabeça e lhe perguntando, sem palavras, o que significava aquilo. Ele levantou os ombros e estendeu as palmas das mãos para cima, negando também, como quem não sabe do que se trata. Ela deu um suspiro silencioso e resignado, fazendo-o sorrir de canto. Ela não entendia o porque, mas o sorriso dele sempre levava a que ela sorrisse também.
Assim que as pessoas a sua frente embarcaram, eles foram chamados para a plataforma de embarque. Novamente ela e Shikamaru acabaram ficando na parte que corresponderia aos primeiros assentos, mesmo que não fossem os mais a frente da fila quando liberaram a plataforma. Ela não entendia qual era o problema das pessoas com os primeiros assentos. Eles eram justamente os que permitiam uma melhor visão e aproveitamento do efeito de uma montanha russa, porque fugir deles? Havia coisas nas pessoas que ela nunca entenderia.
Ao contrário de todo o caminho até ali, a plataforma de embarque, onde eles estavam, a plataforma de saída, do outro lado, e o vão entre elas, por onde passavam os trilhos, eram completamente desprovidos de qualquer alusão à temática da montanha russa. Todo o vão entre as duas plataformas, e também os seus trilhos, eram pretos, assim como a cortina a sua esquerda, por onde se entrava no passeio, e a porta a sua direita, por onde sairiam. As duas plataformas eram cor de areia, lisas, e absurdamente modernas perto de tudo que tinham visto até agora. Uma parte de si ficou com receio que Shikamaru estivesse certo e que a atração em si não valesse a pena.
A porta a direita deles se abriu rapidamente, correndo metade para cada lado, e saindo a escuridão total veio o carrinho com seus ocupantes. As pessoas na plataforma aplaudiram, e por educação ela bateu palmas fracamente também, embora estivesse achando aquilo um pouco ridículo. Algumas das pessoas desciam bastante empolgadas, comemorando, enquanto outras pareciam totalmente alheias ao barulho a sua volta.
Depois que todos desceram, eles puderam tomar seus assentos, e os funcionários vieram conferir todos os cintos. O cinto passava pelos dois ombros e era preso entre as pernas, deixando todos os seus membros livres. Havia uma barra de metal a sua frente, também preta – como todo o resto – para que pudesse se segurar, mas Temari preferiu manter suas mãos sobre suas pernas, onde estavam mais confortáveis.
Logo eles foram impulsionados para frente, passando pelas cortinas pretas e entrando em um caminho quase totalmente preto, apenas com luzes focadas em diferentes objetos. Aqui, os tesouros pareciam muito mais reais do que do lado de fora, provavelmente por estarem fora do alcance das pessoas. O carrinho avançava lentamente, com uma música que pretende deixá-los tensos, e uma pessoa contando a história de um sacerdote que descobriu o feitiço para trazer alguém de volta do mundo dos mortos, e sobre o risco que esse sacerdote representava a toda humanidade. Ele fora detido e condenado a ser mumificado vivo, junto a escaravelhos carnívoros, mas que lançou uma maldição, dizendo que um dia alguém desavisado o libertaria e ele retribuiria mil vezes mais o que condenaram a ele.
Ou algo assim. Temari estava mais ocupada em observar os detalhes muito bem feitos de tudo que via, mesmo com a meia luz a qual eles andavam. Ao seu lado, Shikamaru parecia até mais entediado do que de costume. Olhando para ele, ela lamentou pelos dois, parecia que ele estava certo. Embora, ela devia pontuar, aquilo era pra ser uma montanha russa, então deveria ter mais por vir.
Eles ainda seguiam naquela velocidade baixa quando o carrinho virou para dar de frente com um pequeno corredor e uma parede – claramente falsa, diga-se de passagem – que interrompia seu caminho. Eles puderam sentir um pequeno solavanco, que conectado com o som ambiente, dava a sensação de que eles tivessem acionado algo no chão – e neste momento, a parede a frente deles começou a se abrir.
Temari quase riu da cena, mas se conteve em respeito aos demais. Atrás da parede que se abria eles podiam ver uma sala com teto alto, e que o trilho seguia em um túnel escuro. O trilho era visível por mais poucos centímetros dentro deste túnel, e então sumia no breu a frente deles. Acima da entrada deste túnel, uma espécie de espantalho enrolado como múmia e vestindo um manto – como um sacerdote antigo, talvez? — era iluminado fracamente, em tons de amarelo, roxo, azul que se alternavam enquanto ele ‘falava’ – a voz era diferente agora, e fazia ameaças. Tudo bem, Temari tinha que reconhecer que os efeitos e a aparência da múmia, no geral, eram bastante bons. Mas quem ia se assustar com uma múmia que sequer se mexia?
Depois de ameaçá-los, a ‘múmia’ começa a rir macabramente, as luzes se apagam e dão um clima funesto a sala, e os olhos brilham em uma luz vermelha. Eles são jogados para frente em grande velocidade para dentro do túnel, e então começam a cair quando uma luz branca e forte ofusca sua visão em apenas milissegundos que dura. Apesar de viver no deserto, seus olhos claros tornam Temari sensível a mudanças luminosidade tão bruscamente, e por isso ela franze o rosto.
Depois de cair em alta velocidade, o carrinho segue fazendo curvas no mesmo ritmo, com o som de gritos sufocados pelos tempos e dos passageiros, enquanto objetos e luzes parecem surgir rapidamente em cima e ao lado deles. Apesar de chamarem sua atenção, Temari não se assustava com eles ou com a sua velocidade.
Ou pelo menos não até ver uma parede iluminada no que parecia para onde eles se dirigiam. Um fim de linha. E ao contrário da outra parede, essa parecia muito real. Era incrível, como eles podiam fazer algo tão claramente falso e outro tão bem efetivo? De fato, eles pareciam estar se dirigindo para lá. Um momento. Essa parede era real. E eles não pareciam estar diminuindo nem um pouco a sua velocidade.
Ao seu lado, ela sentiu Shikamaru se ajeitar melhor no banco também. Ela se preparou para formar um selo de liberação de ar e destruir aquilo caso parecesse uma falha e que eles bateriam de frente com aquele obstáculo. Subitamente o carrinho travou, jogando os dois para frente. Com o impacto ela desfez sua preparação de selo, e pode ouvir o som de pequenos insetos correndo. Pela parede desciam o que deveriam ser escaravelhos, e então sentiu algo em seus pés e subindo por suas pernas. Aparentemente não fora só ela, porque Shikamaru também olhou para baixo, e as pessoas atrás deles começaram a gritar e se debater. Mal sua atenção se desviou para suas pernas – para não encontrar nada – algo quente e luminoso foi jogado em sua direção vindo de cima. Fogo.
Desta vez foi Shikamaru quem preparou um selo, mas nunca chegou a executá-lo, porque eles foram jogados para trás na mesma velocidade com que desceram antes, enquanto viam o fogo se alastrar por onde eles estavam antes. O movimento repentino fez com que ela levasse a mão ao estofado do assento largo que ela dividia com Shikamaru.
Voltar de costas com tal rapidez, olhando o fogo e passando novamente por toda aquela aleatoriedade de objetos que tiveram na ida foi um pouco desconcertante. Temari não saberia definir muito bem como se sentia.
De repente, eles pararam novamente. Tudo estava escuro, e apenas aquele som de fundo tenso permanecia no ar. Ninguém mais gritava desde que o brinquedo parara. E então, muito vagarosamente, o carrinho começou a virar. Era possível ouvir apenas as engrenagens que geravam o movimento e aquele fundo sem definição. A mão de Temari deslizou no assento estofado, e logo bateu na de Shikamaru. Ela colocou a mão sobre a dele e lentamente começou a fechar, até que estava em um aperto firme, mas não esmagador.
Depois do que parecera minutos, o som do que parecia ser uma engrenagem travando foi ouvido. E logo uma risada macabra. Um jato de fumaça caiu sobre eles nesse instante e então... Uma porta se abriu, revelando as duas plataformas de entrada e saída, e as pessoas na fila aplaudiram a chegada.
Temari soltou o ar que não sabia que estivera segurando irritada, vendo o carrinho seguir até parar mais a frente para desembarcarem. Shikamaru a olhava com um olhar questionador. Temari apenas estreitou os olhos e o encarou de volta. “Se você contar pra alguém, eu juro que eu te mato.” Ele apenas levantou as mãos em rendição em resposta, portando um sorriso debochado nos lábios.
Fale com o autor