Shoot into the sky
5 Capítulo 5
Depois da breve conversa, um silêncio se instalou entre os dois rapazes. Os dois estavam em uma situação longe de confortável — ambos foragidos, se encontrando de madrugada com a pessoa que devia ser seu inimigo. Eles ficaram um de frente para o outro, sem saber o que fazer, apenas olhando. Até que o soldado quebrou o silêncio.
— Hm, posso fazer uma pergunta? — disse.
Eli deu de ombros.
— Vá em frente.
— Por que está sem camisa?
Eli demorou alguns momentos para registrar, mas logo se deu conta que ainda estava com o macacão aberto. Esquecera completamente desse detalhe na pressa de fugir. Grunhiu algo ininteligível e se abaixou para pegar a camisa na mala. Desenrolou as ferramentas e passou a cabeça pelo buraco. Antes que pudesse colocar o resto, abriu os olhos e deu de cara com um sorriso divertido do outro.
— O que foi? — perguntou confuso.
— Nem quero saber o que estava fazendo para ter saído desse jeito — o outro disse com uma sugestão de risada nos lábios.
Eli fechou a cara, passando os braços pela camisa.
— Espero que você seja melhor do que parece — alfinetou, mas o outro não pareceu se importar.
— Não posso fazer nada se você não gostar de mim.
Eli revirou os olhos, mas não estava irritado. Surpreendentemente não sentia antipatia, apenas não tinha uma opinião formada ainda. Precisava de mais um pouco para decidir se gostava dele ou não.
— Agora que estou vestido e você não tem mais nada para encarar além dos meus olhos — Eli disse sério, apesar do tom de brincadeira no rosto —, vamos conversar, sim?
O outro assentiu. Os dois saíram do meio da estrada e andaram mais para o lado, para as mesmas pedras onde o soldado estivera escondido. Sentaram.
— Pode começar — disse Eli, colocando a mochila sobre o colo e cruzando os braços sobre ela.
O soldado não falou de imediato. Ajeitou sua própria mochila perto dos pés, o olhar preso no chão como se pensasse. Ergueu o olhar e fixou-o ao de Eli antes de começar.
— Eu acho que você tem o direito de saber dos detalhes, mas vou ser bem simples. Hackeamos o sistema de segurança de vocês, entramos e nos separamos em dois grupos. Na verdade foi tipo, todo mundo ficou junto para capturar a primeira meia dúzia de pessoas que aparecesse, e eu fui separado para ficar andando pelo prédio.
— Por quê? — a voz de Eli estava calma.
Sua expressão estava ininteligível, os olhos concentrados. Seu corpo estava meio inclinado para a frente, os braços levemente tensionados sobre a mochila.
— Eles queriam entrar despercebidos em algumas áreas e um grupo chamaria muita atenção — o soldado respondeu, inconscientemente inclinando para a frente também ao perceber a postura de Eli. — Espera, foi isso que você perguntou?
— Ah… também. Mas por que vocês fizeram tudo isso?
O soldado não respondeu de primeira, mas quando abriu a boca começou a rir. Eli não conseguiu esconder seu olhar chocado. Por mais alguns segundos Eli fitou o outro, ponderando se aquele era um sinal que deveria ir embora — talvez o outro fosse meio perigoso.
— Eu também não entendo — o soldado respondeu por fim, percebendo sua reação exagerada e sorrindo meio desconcertado, acalmando os instintos de Eli que o diziam para sair correndo. — Desculpe, mas é que a gente fez aquilo tudo; de entrar, levar embora um monte de gente que nunca fez nada para nós, eu te meti a porrada, e nada disso fez sentido algum. Mesmo que tivesse outra saída melhor, nós sempre pulamos de boca e sujamos as mãos só porque fomos mandados. E eu na verdade ri da sua ingenuidade. Sem ofensa — ele acrescentou rapidamente.
Eli não estava ofendido. O tom do outro não era maldoso. Apenar aguardou, um quê de interrogação em sua expressão.
— Eu não sei se você percebeu, — o soldado prosseguiu — mas apesar do seu cargo não receber condecorações nem nada você tem uma posição bem privilegiada. Você é parte dos planos, você pode dar palpites, você é ouvido. Mas para os soldados, por mais "de elite" que sejam, é tudo intriguinha entre os superiores.
O soldado não falava com amargura ou irritação. Ele apenas expunha os fatos como eram, com um leve tom de crítica na voz mas nada mais (Eli não sabia se foi por querer ou não, mas percebeu que o outro se desviara do assunto e não respondera direito; voltaria a isso depois).
— Voltando à história — o soldado disse. — Colocamos os caras para dormir e voltamos para Bayston. O meu Capitão tinha falado para colocar cada um em uma cela diferente, longe um do outro. Altos elogios ao treinamento deles, aliás. Tivemos que colocar só dois em cada prédio e em cantos separados. Chegamos até a ocupar os prédios que não tinham celas. O que aconteceu daí foi meio esquisito. — Ele franziu a testa. — Não passou nem um dia direito e eles acordaram, como o previsto. Então fomos interrogar eles. Começamos com uma moça chamada… Janna. Isso, Janna. — Você conhece ela, pelo visto.
A reação de Eli ao nome deve ter entregado tudo, então ele apenas assentiu. O soldado pareceu apologético, mas não disse nada.
— Eu fui lá para interrogar ela. Sentei e conversamos. Ela falou muito, me enrolou bonito e não contou nada do que perguntei. Ficamos algumas horas lá, até que eu consegui tirar uma palavra dela ao acaso. Garin.
— Garin, tipo, a cidade?
— Exato. Aí que fica esquisito. Antes que eu pudesse perguntar, ela começou a sentir muita dor na área das costas. Eu não sabia o que fazer, porque ela começou a gritar e se contorcer. Aí saí correndo para pedir ajuda. Ela estava presa na parede e eu não tinha a chave. Desci as escadas até encontrar alguém e dei de cara com mais gente, e todo mundo estava falando que as pessoas que eles estavam interrogando começaram a sentir bastante dor em alguma parte do corpo.
"A gente decidiu ir chamar o pessoal da enfermagem para tirar eles de lá, mas antes que a gente pudesse sair do lugar teve um barulho muito alto de explosão em algum lugar em cima. O meu primeiro instinto foi pular da janela antes que tudo desabasse, então foi o que eu fiz. Foi bem na hora, porque outra bomba no subsolo detonou também e tudo caiu muito rápido. Quase em sequência teve várias explosões por todos os cantos. Em Hust os prédios são muito perto um do outro, então eu não tinha tempo para correr. Eu me escondi embaixo de uma placa que ia ser mandada para a cidade no dia seguinte, para uma construção, e torci para que ela não quebrasse com o peso das pedras."
O soldado fixou o olhar na terra arenosa do chão enquanto falava. Parecia que revivia cada um dos momentos em sua cabeça.
— Eu lembro de olhar para um dos prédios e, pelo lugar onde explodiu, eu tenho um palpite do que aconteceu. Só preciso que você me responda uma pergunta antes.
Eli, que já sabia das mortes, não estava tão chocado quanto esperava que fosse ficar. Ele focou melhor o olhar no rosto do soldado para sinalizar que estava escutando.
— Foi você quem fez os chips deles?
Eli estranhou um pouco a pergunta, mas balançou a cabeça que não. A tensão que tomou conta dos ombros do soldado por um momento sumiu e ele assentiu.
— Porque eu acho que foram os chips que explodiram. Uma daquelas microbombas que quase ninguém tem, sabe.
Eli sentiu uma sensação esquisita subir por sua garganta. Não disse nada.
Os chips eram uma espécie de pré requisito para se conviver em sociedade, ideia que surgiu quando as cidades ainda estavam em construção. Era para facilitar transportes e o reconhecimento de indivíduos sem precisar de documentos— sem falar que é um ótimo modo de rastrear qualquer um. Depois da Guerra, muitos documentos se perderam, o que resultou em mais da metade da população (a parte mais pobre) com os registros destruídos e sem nada para identificá-los.
Todos, ao atingirem uma certa idade, eram implantados com chips. Eles não possuíam um formato muito sólido, o que os permitiam moldar-se aos ossos que cresciam, sem atrapalhar o desenvolvimento. O lugar do corpo onde ele era colocado dependia do hospital onde se nascia.
Os chips recebiam algumas atualizações a medida que a pessoa crescia. Enquanto estivesse sem um emprego ele abriria apenas a porta de casa. Quando ela decidisse em qual setor da cidade ela iria trabalhar e se formasse, ele abriria inclusive as partes necessárias para a realização de sua função. As únicas exceções eram o governo, que se fosse um cargo alto o suficiente abriria todas as portas que precisavam dos chips.
Eli ficou imerso em pensamentos por um longo momento. Ficou perdido entre a imagem mental que tinha de Janna se contorcendo de dor, as implicações que um chip explosivo criavam, do seu bumbum que doía de sentar naquela rocha áspera e do sentimento vazio em seu peito de não ter mais uma casa. Por fim afastou tudo dos pensamentos quando ouviu o outro falando novamente.
— E eu posso fazer uma outra pergunta? Só se quiser responder.
— Vá em frente. Já estamos virando o balde mesmo.
— Por que você teve que fugir de Hust?
Dessa vez Eli deixou uma expressão frustrada e irritada transparecer em seu rosto.
— É tudo culpa sua — disse, lançando um olhar indignado ao outro.
O soldado não podia estar mais surpreso.
— Eu? — disse, a boca aberta em confusão. — Mas o que eu fiz?
— Todo mundo estava falando que eu armei para cima deles. Porque eu tenho um azar gigante e a câmera de segurança não filmou você batendo em mim, daí todo mundo achou que eu sou o "grande traidor" e queriam me deixar em quarentena.
— Mas por que…? Espera, foi porque eu não te capturei também?
— Isso mesmo. Por sinal, você me deve explicações disso também.
O soldado riu novamente, mas dessa vez estava claro que era porque a situação era absurda. Sua risada era meio alta, mas Eli não se importava.
— As coisas não são tão complicadas assim — ele falou, olhando com compreensão para Eli. — Eu só não fiz isso porque essa não era a minha missão. Eu não faço nada que não me falam para fazer. Soldado é tudo pau mandado.
E Eli entendeu. Fora muito curto o período que passara sem sua costumeira liberdade, mas fora suficiente para entender. Ele não podia fazer nada além de acatar ordens, não tinha autoridade para agir por si mesmo.
— Você quer me perguntar mais alguma coisa? — indagou Eli.
— Por enquanto não, mas se for o caso eu pergunto depois.
Eli assentiu, e pela primeira vez na conversa, sorriu. Foi um sorriso leve, quase inexistente, mas foi o suficiente para deixar o clima entre os dois mais suave. Então Eli lembrou-se que não perguntou uma coisa importante.
— Qual o seu nome?
O soldado mirou-o por um segundo, então disse:
— Jun. O seu?
— Eli.
— Prazer.
Eli assentiu. Desviou o olhar para as suas mãos e suspirou.
— O que pretende fazer agora? — perguntou para o outro, sem olhar para ele.
— Eu ia te perguntar a mesma coisa.
— Eu não sei. Realmente não sei.
Eli sentiu o momento de hesitação em Jun.
— Eu estava pensando em ir para Garin.
— Por quê?
— Porque as coisas estão esquisitas demais.
— Esquisitas como?
— Esquisitas, ué. Tipo, recebemos informações de Garin que vocês tinham armas de combate prontas no arsenal, como se estivessem prestes a atacar. E que tinham Bayston como alvo. Na verdade esse foi o motivo pelo qual a gente invadiu, para começo de conversa.
"Essa era a resposta que eu estava esperando receber desde o começo", pensou Eli.
— Só que quando eu entrei naquele lugar onde você estava eu não vi nada do tipo. Naquela hora eu não sabia se eu devia continuar a missão ou não, mas acabei terminando.
— Tá, isso é meio bizarro mesmo. A gente nunca fez planos para atacar ninguém, assim, do nada.
— Entendeu agora? Eu queria ir para Garin para saber o porquê de eles terem passado isso para nós.
— Talvez seja uma boa ideia.
Foi a vez de Eli de hesitar.
— Posso ir junto? — ele perguntou, um pouco inseguro.
— Claro.
— Mesmo?
Jun deu uma risadinha.
— Por que não?
— Bom, valeu então.
— Sem problemas.
Eles quase caíram no silêncio novamente, até que Jun se levantou e limpou a sujeira da roupa.
— Melhor irmos andando então. Ainda estamos meio perto de Hust, é meio perigoso ficar aqui por muito tempo.
Eli levantou-se também. Os dois começaram a andar para a trilha que sabiam levar a Garin. Era na verdade uma rua de asfalto bem velha, por onde carros passavam quando as cidades ainda eram numerosas e havia mais que o dobro de pessoas no mundo que naquele momento.
Eles andaram lado a lado, cerca de um metro entre os dois. Eli não sabia quanto tempo se passara quando eles chegaram a uma ponte, larga e de concreto, com postes de luzes apagadas. Ela passava sobre um riozinho que antes devia ser alto, mas que agora tinha apenas água suficiente para cobrir ralamente o fundo.
Podia não ser tão bonito quanto um dia foi, mas Eli se sentiu impressionado. Era tão legal, olhar para o horizonte por onde o rio se estendia e não ver apenas metal e concreto, não ver luzes artificiais. Tudo que iluminava a paisagem era a lua. Sentia uma brisa ligeiramente fria, mas que não o incomodava — não a sentiria dentro da base do exército ou na cidade, rodeado de construções colossais.
Jun olhava para Eli com um ar curioso. Eli percebeu que parara de andar. Os dois estavam no meio da ponte, apenas se encarando. Eli ficou sem graça, decidiu arranjar algo para dizer.
— Está com fome?
Não teve tempo de pensar que tinha coisas muito melhores para dizer, pois Jun logo assentiu. Ainda tinha a curiosidade estampada no rosto, mas decidiu não perguntar.
— Eu tenho… alguma coisa comestível aqui na mala. Quer um pouco?
Eli abaixou-se para tirar da mochila a sacola de papel, abrindo-a. Ótimo, sanduíches. Ele iria ficar muito nervoso se tivesse um pote de pimentas ali dentro ou coisa assim. Tirou um e entregou para Jun, que agradeceu.
Eles desembrulharam o plástico dos sanduíches.
— Itadakimasu — Jun murmurou antes de dar a primeira mordida, fechando os olhos ao mastigar. Devia estar com muita fome.
Eli comeu quieto por algum tempo, até deixar a curiosidade vencer.
— Japonês? — perguntou interessado.
Jun assentiu.
— Minha mãe me ensinou quando eu era pequeno.
Eli pareceu surpreso.
— Te ensinou? Como ela aprendeu?
— Meus avós ensinaram para ela e ela ensinaram para mim — disse Jun. — Sabe, né, que antes da Guerra Nuclear tinham vários países e cada um falava uma língua diferente. Agora as cidades são uma junção de vários povos e tudo mais, então tem várias descendências diferentes. Então, meus avós eram japoneses e não queriam deixar a língua e cultura morrerem. Na verdade quase todo mundo faz isso. Quase todo mundo é bilíngue, pelo menos. Se bem que eu não sei bem de onde a família do meu pai era. Acho que era coreana. Ele se mudou de Garin para se casar com a minha mãe, até onde eu sei. Mas ele tinha muita preguiça de me ensinar qualquer coisa.
Jun pareceu perceber que estava falando muito, sua expressão tornando-se ligeiramente desconcertada. Perguntou:
— De onde é a sua família?
— Eu… na verdade eu não sei.
Jun levantou o olhar do sanduíche, como se duvidasse.
— Ah, é, que você não sabe. Os seus pais nunca te contaram?
— Eu não sei quem eles são.
Um momento se passou entre os dois, onde Jun fez um "ah" silencioso com a boca. Eli olhou para o outro, que o mirava com uma certa expectativa, incentivando-o a falar mais.
— Tipo, — ele começou, incerto do que dizer — eu só sei que eu cresci até mais ou menos uns sete anos em uma casa legal e depois disso fui chutado pro exército. Provavelmente eu era uma draga quando era pequeno e os meus pais gastavam demais tentando me manter gordo. — Pisou em uma pedra no asfalto. Jun deu uma risadinha. — Eu não sei quem são e nem se estão vivos ou qualquer coisa assim. E, para ser bem sincero, eu não me importo. Eles não fizeram falta até hoje, por que fariam agora?
Jun não respondeu, continuou olhando para Eli, que por fim voltou o olhar do chão para o outro. Ficou estranhamente feliz quando viu que não tinha sinal de pena naqueles olhos escuros, apenas simpatia. Não se sentia um caso de pena e não queria ser tratado como um. "Acho que a gente pode se dar bem", Eli pensou, dando a mordida final em seu sanduíche.
O sol começava a despontar no horizonte, manchando a ponta do céu escuro de laranja.
… …
Enquanto caminhavam silenciosamente pela estrada, Eli ocasionalmente lançava olhares para Jun. Queria memorizar seu rosto devidamente, já que pelo visto iam passar um tempo um na companhia do outro. Mesmo com vários hematomas e outros machucados espalhados, Eli estaria mentindo se dissesse que não sentiu uma ligeira inveja pelo rosto do outro.
Não que fosse inseguro — longe disso. Sabia que a sua linha do maxilar definida era bem atraente e gostava da harmonia geral de seu rosto. Sem falar que não tinha um corpo mirrado e fraco. E, sem querer se gabar, ficava bem legal em regatas.
Mas gostava da aparência do outro. A altura de ambos era praticamente a mesma, mas Jun tinha ombros mais largos e braços mais sólidos. O nariz era bem desenhado e o rosto era oval, mas com linhas firmes. E o que mais interessava Eli eram os olhos. Eli nunca tinha visto ninguém de olhos puxados antes, então estava fascinado.
Os dois eram banhados pela luz suave matinal. Eli sentia seu corpo se aquecendo agradavelmente. Olhou em volta, para o céu ralo de nuvens, e sentiu-se bem. As pilhas de construções arruinadas a sua volta o deixavam meio triste, mas contornou esse sentimento com um diferente. Parecia liberdade.
Sua vida no exército não era ruim, mas naquele exato momento não queria voltar. Ainda tinha o vazio de não poder mais voltar, mas naquele momento ele não conseguia se importar. Caminhava no silêncio, um a que não estava acostumado, e podia fechar os olhos. Quase sentia que estava sozinho. A brisa refrescava-lhe o rosto. E estava bem. Talvez não estivesse depois, mas naquele momento estava bem e não jogaria essa sensação fora, mesmo que passageira.
Jun olhou para seu relógio guardado no bolso e disse que deviam estar perto. O sol agora estava mais forte. Sentaram-se na sombra de uma árvore solitária e pegaram os últimos sanduíches da sacola de papel. Comeram sem pressa, guardaram o lixo de volta na mochila e continuaram andando. A garganta de Eli estava um pouco seca, mas aguentaria até chegar em Garin.
Como agora seus pensamentos foram completamente desviados da paisagem, colocou-se a pensar mais sobre o que fariam ao chegar em Garin.
Garin era uma cidade peculiar, Eli diria. Ela não tinha exército algum, mas ninguém a atacaria. Ela era o centro global de informações, afinal. Eles sabiam de tudo sobre todos, e todos sabiam de notícias do resto do mundo por cause de Garin, que as transmitia. Era lá também que ficavam os principais centros de pesquisa científicos.
Eli apressou um pouco o passo na subida. Sabia que dali de cima daria para ver a cidade, e estava meio ansioso. No entanto, quando Garin entrou em seu campo de visão, Eli sentiu um calafrio por todo o seu corpo.
— O que houve? — Jun perguntou atrás de si, andando mais rápido para alcançá-lo.
A reação do outro foi muito parecida. Seus olhos se arregalaram ligeiramente e ele respirou fundo.
Garin estava ali, mas parecia morta. As estruturas continuavam de pé e altas, mas estava tudo visivelmente abandonado. Mesmo de manhã podia-se ver que não havia veículos ou pessoas nas ruas. Tudo estava silencioso demais.
Os dois se entreolharam. Assentiram e continuaram o caminho em direção à cidade.
Fale com o autor