Shogi

1 Capítulo 1


Notas iniciais
Olá,
Minha primeira fic públicada nessa plataforma, estou bem ansiosa. Essa fic foi escrita para o ciclo do projeto ShikahinaWorld
Betado pela maravilhosa @Boneca_depano (no Spirit).
Capa pela perfeita @Akiraaz_ (no Spirit).
@SoldierRed (no Spirit) minha conselheira, obrigada pela ajuda.

Boa Leitura!

Capítulo único

Por: AylaStanger

Já fazia quase um ano que Naruto havia assumido como Hokage, sempre mantendo Shikamaru como seu braço direito, o Nara era um ótimo amigo e também era o melhor no que fazia, os dois tinham certa sintonia que ocasionava com que o tempo o qual precisavam passar juntos fosse tranquilo, porém eles não concordavam em tudo e o que mais gerava incômodo para Shikamaru era a ausência de Naruto como pai e também como marido, o moreno não era hipócrita, sabia que não merecia um prêmio de pai do ano. Porém, o amigo estava bem próximo de ganhar o prêmio de pai ausente do ano.

O motivo dele estar pensando sobre aquele assunto novamente foi Mirai Sarutobi, sua protegida, Mirai passava um tempo considerável na casa dos Uzumaki, pois Hinata estava a treinando, Shikamaru também ajudava a Sarutobi nos treinos, mas conforme sua ausência se tornou maior, ela procurou pela ajuda da ex-Hyuuga. Naquele dia em específico sua protegida havia falado como Boruto estava zangado com a ausência do pai e que sua sensei estava claramente chateada, porém Hinata nunca falaria abertamente sobre o assunto, pelo menos não com ela, então Mirai pediu para que o Nara fosse conversar com ela.

De início ele quis rir, quis sugerir para que Mirai falasse com Sakura ou qualquer uma das amigas da morena, mas o olhar de cachorro pidão da Sarutobi o fez travar, aquilo era terrivelmente problemático, mas ele que sempre sedia as vontades da protegida, prometeu falar com a Uzumaki assim que tivesse tempo.

Após deixar mais uma pilha de papéis na mesa do Hokage se despediu, Naruto nem o respondeu, pois estava com a boca cheia de ramen. O Nara fechou a porta e ponderou por um instante se não deveria conversar com o amigo sobre aquilo ao invés de ir até Hinata, suspirou frustrado, ele era um gênio de fato, mas esse tipo de assunto envolvendo sentimentos dos seus amigos eram um pouco difíceis principalmente para quem vivia de lógica como ele.

Caminhou lentamente até a casa dos Uzumaki, lento o suficiente para poder pensar com calma, porém mesmo após o percurso não tinha certeza se era o certo, talvez isso devesse ter sido o suficiente para fazê-lo desistir.

Bateu na porta e colocou as mãos no bolso, esperou pacientemente até que fosse aberta, engoliu em seco quando finalmente alguém atendeu, era Hinata, ela estava com um avental revelando que estava cozinhando, a morena sorriu docemente para ele.

— Shikamaru-san — Ela disse — meu marido não está — O avisou. Era sempre assim, todos iam até a residência dos Uzumaki sempre a procura de Naruto, porém era como aquele ditado: se quiser se esconder de alguém vá para casa dela. O dito cabia perfeitamente ao Hokage.

— Na verdade, não vim falar com ele. — Isso surpreendeu a ex-Hyuuga, não era como se eles não fossem amigos, mas estava tão acostumada com o Nara vindo visitar o marido que estranhou a situação.

— Oh! Pode entrar. — Ela disse, e abriu a porta dando espaço para que ele adentrar à casa.

Shikamaru tirou seu calçado e seguiu a Uzumaki em direção à sala de estar, ele estranhou que o ambiente estivesse tão silencioso, pois até onde sabia, duas crianças moravam ali.

— Quer chá? — Perguntou a morena.

— Não, mas obrigado. — Ele respondeu e sorriu.

Hinata fez sinal para que ele sentasse no sofá e sentou na poltrona, ela viu o momento em que o moreno pegou um cigarro, pensou em protestar e falar para ele fumar lá fora, mas como as janelas estavam abertas não disse nada.

— Mirai… Falou que você parecia chateada. — Comentou o Nara olhando nos olhos perolados de Hinata.

— Mirai-chan é um doce, mas não precisava ter o incomodado com isso. — A Uzumaki e fez uma pequena pausa — Não gosto de ver Boruto chateado, mas acho que nenhuma mãe gosta.

Shikamaru assentiu, ele sabia bem do que a morena falava, Temari viraria o mundo de ponta cabeça por Shikadai, ele admirava profundamente a loira por isso, mesmo após o divórcio a Sabaku continuava morando em Konoha pelo filho.

— Hinata-san, não precisa ficar na defensiva, tudo bem estar assim por causa de Naruto…

— Naruto-kun tem um trabalho muito importante como Hokage, é bobagem querer cobrar que ele seja perfeito. — Houve um longo suspiro da parte de Hinata.

Ele não iria insistir, sabia que quando ela estivesse confortável falaria sobre o assunto abertamente, não iria a forçar a expressar seus sentimentos, pois nem sabia como lidar com isso, caso Hinata chorasse ele mesmo entraria em colapso, se existia algo que ele não sabia lidar era com choro.

— Onde está Boruto e Himawari? — Questionou o Nara — está tudo tão quieto.

— Boruto está estudando no quarto e Himawari está passando o dia com Hanabi, elas devem chegar logo para o jantar. — Respondeu a morena, o brilho nos olhos claros enquanto falava dos filhos não passou despercebido por ele.

Ficaram um tempo em silêncio, então Shikamaru percebeu que havia um tabuleiro de Shogi montado perto da varanda.

— Você joga? — Ele perguntou apontando para o tabuleiro.

— Claro, acho que todo Hyuuga joga desde criança. — Brincou ela.

O conselheiro do Hokage arqueou a sobrancelha, nunca havia jogado com um Hyuuga aquele jogo, a ideia pareceu tentadora, mas era um jogo longo, e ela estava esperando a irmã para o jantar, talvez ele fosse a atrapalhar.

— Quer jogar? — Perguntou Hinata ao perceber que ele ainda encarava o tabuleiro.

— Sim — Respondeu depressa.

Ambos se levantaram, Hinata tirou o avental e o deixou no encosto da poltrona e foram em direção ao tabuleiro, sentaram-se em posição de lótus, Hinata fez sinal para que ele começasse por conta de suas peças, ele assentiu e fez a primeira jogada.

Passaram então um tempo jogando, Shogi era um jogo de estratégia e ambos pensavam bastante antes de cada jogada, Shikamaru não gostava de admitir, mas se orgulhava bastante de ser o melhor jogador de Shogi. Ele ficou bastante surpreso com a ex-Hyuuga, ela não deixava brechas e a partida foi bem mais longa do que ele havia imaginado no começo.

Porém, eles pararam de jogar assim que alguém bateu na porta, a morena se levantou, e estava indo atender, mas a porta foi aberta antes dela chegar lá, o Nara encarou o tabuleiro antes de se levantar e percebeu que estava quase perdendo, quis rir por não acreditar naquilo, mas deu de ombros apenas, poderia ter ganho pois havia como virar o jogo.

Viu Hanabi e Himawari adentrando à sala e o momento exato em que um sorriso enorme surgiu nos lábios da Uzumaki ao pegar a filha no colo.

— Vou indo. — Falou Shikamaru.

— Quando tiver tempo apareça para terminarmos a partida. — Disse a morena sorrindo.

— Claro — Dito isto, deixou a casa da família Uzumaki, igual como entrou: mãos no bolso e passos lentos.

[…]

E ele realmente apareceu para terminar a partida, dois dias depois Shikamaru estava batendo na porta da casa dos Uzumaki novamente, Hinata o recebeu com o lindo sorriso, ela também parecia curiosa para saber o desenrolar do jogo.

O convidou para sentar-se na varanda para que pudesse ficar de olhos nos filhos que brincavam no quintal, o Nara achou a ideia agradável e concordou de imediato, gostava de ficar ao ar livre, mas por causa do trabalho passava a maior parte do tempo enfurnado dentro de um escritório abafado.

Eles montaram o tabuleiro em um silêncio agradável, dessa vez seria ela quem começaria, com pausas consideráveis entre uma jogada e outra, Hinata aproveitava esse tempo para olhar os filhos, e nesses momentos o Nara também aproveitava para olhá-la, em todos esses anos nunca havia reparado nela direito, contudo, agora parecia inevitável.

— Sei que não é da minha conta, mas, por que parou de atuar como ninja? — Perguntou ele quebrando o silêncio.

— Eu nunca tive um lar cheio de amor. — Disse e sorriu, mas os olhos dela não demonstravam a tranquilidade que gostaria. — Quero que meus filhos tenham isso, e eu nunca fui a maior fã da violência, acredito que possamos tentar resolver as coisas de formas diferentes.

Shikamaru assentiu, compreendeu o desejo da morena e o respeitava, nem todas as pessoas precisavam ser ninjas para se realizarem como pessoas, Hinata estava feliz com sua escolha e era isso que importava.

— Sempre que Konoha precisar de mim, agirei, mas estamos em paz agora — Ela complementou após uma jogada.

— Como Boruto tem ido na academia? — Questionou despreocupado olhando para o loirinho que se escondia da irmã.

— Ele tem a inteligência dos Hyuuga, mas…

— Ele também é filho de Naruto — Brincou o Nara com um sorriso de canto.

Hinata tentou se conter, mas acabou rindo. Boruto era teimoso igual ao pai quando criança, a única coisa que a preocupava era a arrogância do filho, aquilo com certeza não era uma característica herdada dela, e a morena não tinha certeza do que fazer, já havia tido uma conversa com o filho sobre o assunto, sendo completamente ignorada por ele.

— E Shikadai? — Ela quis saber.

— Preguiçoso, desanimado e bem honesto. — Respondeu Shikamaru e arregalou levemente os olhos ao falar da honestidade excessiva do filho, Shikadai não era exatamente sensível com as palavras, outro dia havia chamado Boruto de estúpido, porque ele tinha trapaceado no vídeo-game.

— Lembro vagamente de conhecer alguém exatamente assim.— Ela comentou com humor e Shikamaru riu surpreso, com certeza não esperava por aquele comentário. — Ganhei — Hinata anunciou e abriu um sorriso enorme.

O Nara encara o tabuleiro em choque, ela havia conseguido distraí-lo com a conversa e ele entregou o jogo sem perceber, ele sorriu levemente ao ver que havia sido derrotado.

— Vou querer uma revanche — Falou ainda rindo.

[…]

Já fazia quase dois meses que Shikamaru ia semanalmente para casa dos Uzumaki jogar uma ou até mesmo duas partidas de Shogi, ele estava fascinado, finalmente havia encontrado alguém do seu nível e Hinata era tão agradável de conviver, eles nunca mais tocaram no assunto Naruto em suas conversas, entretanto, costumavam falar das crianças, uma ou duas vezes ele havia levado Shikadai junto para que jogasse vídeo-game com Boruto.

Naquele final de tarde quando chegou, sentiu o clima da casa mais pesada do que de costume, e estranhou as respostas vagas que a morena dava, ela não estava prestando atenção no jogo ele a derrotou em questão de vinte minutos.

— O que aconteceu? — Perguntou.

Hinata suspirou, não sabia se devia falar sobre os problemas que tinha dentro de casa, parecia-lhe algo tão íntimo, mas ela e Shikamaru haviam se tornado amigos tão próximos nesses últimos meses, tanto que esperava ansiosa as visitas dele.

— Boruto e Naruto-kun se desentenderam durante o almoço… Naruto-kun está ainda mais ausente e as crianças sentem falta dele.

Ficou implícito que não eram só as crianças que sentiam falta da presença do Hokage, mas aquilo não precisava ser dito, Shikamaru havia aprendido a ler as coisas que Hinata dizia nas entrelinhas.

— Eu posso tentar conversar com ele — Sugeriu o moreno.

Eles estavam sentados na varanda, enquanto Himawari molhava as flores que havia plantado com a mãe alguns dias atrás, Boruto tinha saído para brincar com os amigos. Shikamaru estava fumando como de costume, áquela altura o cheiro do cigarro já nem incomodava mais a Uzumaki, agora era quase reconfortante, pois sabia que isso significava passar horas com o Nara, sua companhia preferida ultimamente.

— Não vejo necessidade Shikamaru-kun. — Disse a morena olhando para as próprias mãos que estavam sob seu colo, os nós dos dedos estão esbranquiçados, pois estava apertando a mão com força, não queria chorar, não podia chorar, mas seu coração doía tanto.

— Você já conversou com alguém sobre isso? — Ele questionou, Hinata assentiu e continuou sem olhá-lo, sabia que quando o fizesse não conseguiria conter as lágrimas. — Só vou ser útil de conversar comigo.

— Oka-san, terminei de molhar as flores, vou brincar lá dentro. — Disse Himawari subindo os degraus da varanda.

— Já vou entrar. — Hinata anunciou para a filha.

Ela e Shikamaru ficaram em silêncio até terem certeza de que a pequena Uzumaki não poderia escutá-los.

— Conversei com Hanabi, ela sabe sobre tudo, todos os meus sentimentos em relação a Naruto-kun, ela sempre me apoiou e encorajou para que eu me declarasse á ele, não sei quem ficou mais feliz com o meu casamento eu ou ela… Porém chegamos ao momento em que a pessoa que mais apoiou meu casamento disse para eu me divorciar…

Ele assentiu sem saber exatamente o que falar, achava que era melhor apenas escutá-la.

— Amo o Naruto-kun, acho que sempre irei ama-lo…

Ela olha para o céu e o Nara seguiu seu exemplo, o sol estava se pondo e o céu estava pintado de laranja.

— Eu sempre irei amar Temari. — Chamou a atenção da ex-Hyuuga — Ela foi meu primeiro amor e é a mãe do meu filho, mas como casal não foi funcional, ninguém é culpado por não termos dado certo, nós tentamos de verdade, só que não funcionou e está tudo bem, todo mundo merece uma segunda chance de amar.

— O que eu faço? — Ela perguntou com a voz embargada.

— Descubra se ainda vale a pena continuar lutando — Ele respondeu simples. — O amor não pode ser unilateral, você não pode se entregar de corpo e alma para uma pessoa e não ser correspondida à altura.

Hinata se levantou e Shikamaru fez o mesmo, esperava que ela o acompanhasse até a porta, pois não conseguiriam jogar Shogi naquele dia, porém ela parou de andar antes mesmo de chegarem até a porta da varanda.

Hinata envolveu a cintura do Nara em um abraço e imediatamente foi correspondida. Ele a sentia tremer levemente pelo choro baixo, a envolveu com mais firmeza, sabia o que ela estava sentindo muito bem. Ela tinha cheiro de baunilha, era um cheiro muito bom, e ele só havia percebido isso ao abraçá-la, era tão suave, combinava com ela no final das contas.

Ficaram um tempo abraçados até que a morena parasse de chorar, ela se afastou do Nara e estava com as bochechas rosadas de vergonha.

— Não tem motivo nenhum para se envergonhar por ter sentimentos. — Ele disse e sorriu, Hinata retribuiu com um sorriso triste.

Pouco tempo atrás ele teria ficado extremamente desconfortável naquela situação, mas os sentimentos dela se pareciam tanto com os dele que era completamente intuitivo para si como precisava agir ou falar com a ex-Hyuuga.

— Vou indo, você precisa descansar e pensar com calma sobre o assunto.

— Obrigada Shikamaru-kun. — Ela fez uma curta reverência e logo o moreno deixou da varanda em silêncio.

Hinata ficou mais um tempo encarando o céu que agora já tinha tons de azul escuro deixando as cores alaranjadas apenas como uma doce memória.

[…]

Naruto não era conhecido por ser perceptivo, qualquer um poderia ver como Shikamaru estava ansioso naquele dia e como isso não combinava com a personalidade despreocupada dele.

Nem o próprio Shikamaru estava se reconhecendo, porém sabia o motivo de seu nervosismo ao estar do lado do Hokage, Hinata estava com o coração partido, e o loiro era o responsável por aquilo novamente, estava surpreso consigo mesmo por se importar com aquilo, normalmente a vida amorosa das pessoas lhe dava sono, mas após ver a Uzumaki tão frágil na noite passada não conseguia ser indiferente.

— Por que você é casado? — Questionou o Nara para Naruto.

O loiro o olhou confuso com a pergunta e piscou algumas vezes.

— Porque sempre quis uma família — Respondeu ainda confuso.

Ali estava o pensamento que rondava a cabeça de Shikamaru, ele não poderia negar que percebeu o momento em que Naruto se apaixonou por Hinata, mas depois a paixão passou e ele focou exclusivamente seus esforços em se tornar Hokage e quando finalmente conseguiu era um ótimo Hokage, provavelmente o melhor que Konoha já havia tido. Contudo, ele não era ótimo em ter uma família, Shikamaru nem esperava que ele fosse, Naruto não possuía qualquer referência de família, seria muito difícil ser bom nisso, mas não era isso que os filhos dele e Hinata mereciam.

— Por quê? — Perguntou o loiro.

— Estava pensando sobre casamentos, mas isso é muito problemático — Disse o Nara e deu de ombros.

E refletindo sobre a conversa com o Hokage ele foi até a casa dos Uzumaki mais uma vez naquela semana, dois meses atrás havia ido até lá por um pedido de sua protegida, e agora estava indo lá, pois percebia como o mundo deles não era acolhedor, como Konoha falhou com Naruto e por consequência disso ele acabava falhando com a própria família. O Nara sabia que não podia mudar o mundo, mas podia tentar ser alguém em quem Boruto e Himawari confiassem assim como era para Mirai.

Hinata abriu a porta e ficou confusa com a presença dele ali, o esperava só na próxima semana, Shikamaru sorriu com a expressão dela.

— Estava pensando que posso ajudar Boruto e Himawari a treinar.

— Eles vão amar. — Falou Hinata e abriu um sorriso enorme.

Naquele final de tarde os ninjas não tiveram tempo de conversar sobre o que havia acontecido na noite anterior, pois Shikamaru passou quase duas horas lá apenas com as crianças Uzumaki. Hinata estava na cozinha fazendo o jantar e conseguia observar os três treinando através da janela. Ela tinha um leve sorriso nos lábios por ver os filhos tão felizes, eles já estavam acostumados com a presença de Shikamaru ali e agora pareciam gostar ainda mais.

Shikamaru estava na porta para ir embora e Hinata o olhava com um enorme sorriso, ele também estava feliz, Boruto e Himawari eram crianças muito carentes de atenção, mesmo com Hinata dispondo de todo seu tempo exclusivamente á eles.

— Muito obrigada. — Ela disse.

— Eles vão precisar de vários treinos, logo eu volto…

O sorriso dela aumentou mais ainda, já estava ansiosa pelo retorno do seu parceiro de Shogi.

— Não se preocupe, não pretendo te deixar ganhar na próxima partida. — Ela comentou e ambos riram.

[…]

As visitas dele se tornaram mais frequentes, normalmente era para ajudar as crianças no treinamento, ele costumava levar Shikadai para treinar também, pelo menos uma vez por semana ele e Hinata jogavam Shogi, o assunto divórcio sumiu, eles não comentaram mais sobre, portanto o Nara deduziu que ela havia decidido lutar pelo casamento por mais um tempo.

Shikamaru não tinha certeza de por quanto tempo aquela foi sua rotina, aproximadamente três meses. Não lembrava de um momento que estivesse melhor, estava sempre tranquilo, feliz consigo mesmo e ficava até empolgado para ajudar os Uzumaki’s, mas seus dias preferidos eram os que jogava Shogi com a ex-Hyuuga.

Ele pediu desculpas várias vezes à Himawari e explicou que não poderia visitá-los no dia do aniversário dela, porém iria no dia seguinte. Foi o que ele fez, mas diferente do esperado ao adentrar a casa o clima não estava de alegria e sim pesado, da mesma forma que havia encontrado há 3 meses quando teve aquela conversa com Hinata.

— Eles não vão querer treinar hoje. — Hinata falou na porta.

— Então vamos jogar. — Ele sugeriu, a morena acenou com a cabeça em concordância e ambos rumaram em direção a varanda.

Após estarem sentados na posição de lótus e com o tabuleiro organizado Hinata começou a falar.

— Naruto-kun mandou um clone para o aniversário da Hima, Boruto ficou muito chateado, ela não compreendeu exatamente por ser jovem…

— E você? — Perguntou o Nara fazendo a primeira jogada.

— Também estou chateada, queria que as coisas fossem mais simples. — Ela falou e seus pensamentos estavam distantes, lembrava de todas as promessas e juras de amor que haviam trocado ao decorrer dos anos, mas não pareciam mais ter tanto sentido agora. — Isso vai passar, não vai?

Shikamaru não sabia como responder, ele sabia o que ela queria escutar, mas não sabia se era o que precisava.

— Desculpa, eu não sei. — Ele respondeu franco.

Hinata assentiu, os olhos estavam brilhando, não de felicidade, mas pelas lágrimas que queria a todo custo evitar que caíssem.

— Todos sabem a quanto tempo eu luto por isso, eu lutei muito por Naruto-kun… muito. — Ela disse e a primeira lágrima escorreu.

— Eu e toda Konoha vimos, e te admiro muito pela sua força. — Shikamaru afirmou.

— Será que já está na hora de parar e aceitar a derrota? — Questionou encarando as peças sem saber qual jogada fazer.

— Só você pode saber. — Ele a respondeu.

A morena assentiu e finalmente faz a sua primeira jogada.

— Será que estou sendo egoísta? — Perguntou. — Será que estou sendo uma pessoa terrível por pensar nisso de novo? Naruto-kun faz tanto por Konoha, ele protege nosso lar, acho que estamos cobrando muito dele.

O moreno compreendia exatamente o sentimento dela, mas quando dizia aquilo parecia terrivelmente errado.

— Não é errado querer ser feliz. — Falou ele, sentindo um gosto amargo na boca. — Já te disse antes, todos merecemos uma segunda chance.

— Obrigada Shikamaru-kun, Hanabi-chan tem sido um pouco dura comigo em relação ao meu casamento, eu a entendo, mas não quero mais falar sobre isso com ela e não tinha mais ninguém pra desabafar.

— Às vezes é difícil carregar tudo — Comentou e em seguida moveu mais uma peça.

— Se eu fizer isso… Se eu me divorciar, você vai continuar me admirando? — Ela perguntou com a voz embargada.

— É claro que sim, você é uma mulher incrível, uma ninja excepcional e não precisa e não deve se sentir menos merecedora de amor porque algo não durou pra sempre. — Ele se levantou e foi na direção dela abraçá-la.

Shikamaru não era o maior fã de abraços, mas sabia o quanto ela precisava daquilo e ele também precisava, queria que alguém tivesse o apoiado no divórcio com Temari, foi um momento realmente difícil, porém como ele era super fechado a respeito desse tipo de assunto a única pessoa que percebeu como ele estava sensível foi Chouji.

Dessa vez ela não chorou, apenas permaneceu ali no abraço do moreno, era tão bom se sentir acolhida, os melhores momentos dos seus dias eram com ele e com seus filhos, e após um dia particularmente difícil foi só com a conversa e o abraço dele que ela finalmente se sentiu um pouco melhor, como se o peso que tivesse carregado nos ombros sumisse.

— Quer voltar a jogar ou prefere um chá? — Ele questionou antes de se afastar dela.

— Um chá. — Ela disse e sua voz já não estava mais embargada e o Nara sentiu-se feliz ao perceber isso.

Nunca mais queria ver a morena chorando, da última vez seu coração havia ficado partido, ele passou dias pensando nela e sentiu até raiva de Naruto por um instante.

Ele adentrou a casa e colocou a água esquentar, logo Hinata também entrou, sentou-se na pequena mesa que ficava na cozinha e ficou olhando Shikamaru preparar o chá.

[…]

Foi tomado por uma imensa surpresa quando soube por Naruto, dois dias depois daquela noite, que Hinata havia pedido o divórcio, o loiro estava extremamente abalado, ele disse que não compreendia bem ainda, mas que precisava trabalhar, aquele dia foi um desastre o loiro derrubou ramen nos papéis, assinou no local errado, não conseguiu receber ninguém.

— Eu não sei o que fazer. — Ele disse e suspirou pesadamente. — Não sei como viver sem a minha esposa. — Disse o Uzumaki.

Shikamaru arqueou as sobrancelhas e encarou o loiro, era engraçado como ele não tinha noção nenhuma do que acontecia na própria casa.

— Talvez ela saiba como viver uma vida sem você. — Disse o Nara e acabou soando mais pessoal do que ele pretendia, não iria esperar pra ver a reação do Hokage, apenas saiu da sala dele e foi em direção a sua.

Naquele dia não tinha a pretensão de ir até à casa dos Uzumaki, mas ficou preocupado em como as crianças estariam e é claro Hinata também o preocupava. Ao chegar, encontrou a morena segurando uma caixa, a casa estava estranha, parecia que algumas coisas tinham sumido.

— O que aconteceu? — Ele questionou.

— Vou me mudar pra um apartamento, até me organizar Boruto e Himawari vão ficar com a Hanabi, não é longe daqui, realmente não quero afastá-los de Naruto.

— Mas já? — Ele falou, surpreso.

— Se eu ficar tenho medo de ceder e nunca mais teria coragem de sair. — Hinata disse, se conhecia melhor que qualquer um e Naruto ainda exercia muita influência sobre si, mesmo chateada e muito magoada pelas faltas recorrentes dele sabia que poderia perdoá-lo, mesmo que seu lado racional apontasse para que não devia.

— Então vou te ajudar.

E foi isso que ele fez, ajudou-a a empacotar tudo que era seu e a transportar até o novo apartamento que era realmente próximo, apenas uma quadra de distância. Levou bastante tempo, mas conseguiram terminar pouco depois de escurecer, Hinata ainda não tinha comprado comida para o novo apartamento então iria fazer o jantar na casa do Hokage.

— Quer ficar e jantar? — Ela perguntou. — Naruto-san nunca aparece para jantar mesmo.

Shikamaru abriu e fechou a boca duas vezes, mas permanecia sem resposta mesmo assim, a ex-Hyuuga nunca havia o convidado para jantar, ela havia usado o sufixo san para se referir a Naruto, e o que mais chamou a atenção dele, Hinata não parecia abalada com a ausência que Naruto fazia.

— Claro! — Ele concordou, não teria nada para comer em casa, provavelmente iria passar em um restaurante e pegar algo pronto.

Mesmo não sendo o melhor cozinheiro se ofereceu para fazer alguma coisa, pois não se sentiria confortável em vê-la fazer a comida e ficar sentado. Eles estavam conversando e rindo, rindo de Shikamaru que quase tinha queimado o arroz, ambos os ninjas estavam tão distraídos em sua conversa que nem perceberam a presença de uma terceira pessoa.

— O que está acontecendo? — Perguntou Naruto, sério, parado na entrada da cozinha.

— Estamos fazendo o jantar. — Respondeu Hinata sem olha-lo.

Shikamaru percebeu que o sorriso dela sumiu assim que escutou a voz do Uzumaki, o loiro olhou da direção do amigo e braço direito, ainda com a expressão interrogativa.

— Acho que é melhor eu ir. — Disse o Nara.

— Claro que não, você é meu convidado. — A Uzumaki diz logo em seguida.

Como a comida estava pronta os três sentaram-se à mesa, de início ficou um silêncio estranho, e o moreno percebeu como Hinata havia se encolhido na cadeira, então seu objetivo tornou-se fazer com que não se sentisse desconfortável.

— Como está indo o treino de Mirai? — Shikamaru perguntou para ela.

— Mirai-chan é excelente, sinto que ela se cobra muito, acredito que exista muita expectativa nela por ela ser filha de Asuma-sensei. — Respondeu a morena.

— Ela é uma ótima ninja mesmo. — Diz Naruto entrando na conversa.

— Asuma-sensei teria sido um ótimo pai... — Comentou o Nara com o pensamento distante.

— Com certeza. — Concordou Hinata com breve aceno de cabeça.

A guerra havia tirado muitas pessoas de todos, Shikamaru havia perdido seu sensei para a Akatsuki e seu pai na Guerra Ninja. Hinata percebeu o olhar distante do Nara, quis encostar na mão dele para lhe dar apoio, mas se conteve por conta da presença de Naruto, era algo bobo, porém parecia errado, como se sentir empatia pela dor do moreno fosse um tipo de traição ao relacionamento falido com o Uzumaki.

— O que ele faz aqui? — Questionou o Hokage não conseguindo mais conter a pergunta.

— Shikamaru-kun estava me ajudando a levar minhas coisas para meu novo apartamento. — Respondeu a morena.

A expressão de Naruto mudou radicalmente e olhou ao redor como se fosse a primeira vez e percebeu que várias coisas já não estavam mais lá, depois procurou pelos olhos da esposa, mas Hinata não o encarava e sim as próprias mãos que descansavam em seu colo.

— Hime… — Ele a chamou e sua voz demonstrou o quão assustado estava com aquilo, até aquele exato momento acreditava que eles tinham como resolver aquilo.

— Desculpa, mas eu estou cansada de lutar… Eu não deveria ter que lutar tanto pra continuar na sua vida. — Disparou ela se levantou deixando a comida quase intocada.

A morena foi para a varanda dos fundos, provavelmente precisava de espaço, Naruto ia se levantar para segui-la, porém o Nara o segurou pelo braço.

— Ela não precisa que apareça lá e a encha de promesas, a encha de esperança que existe uma forma de serem felizes e no final você não cumpri-las novamente, pense por um instante em Hinata, de verdade.

Naruto sentou novamente, estava completamente abalado pelas palavras do seu amigo.

— Ela me pediu pelo menos cinco vezes esse mês que eu fosse mais presente. — O loiro disse para si mesmo percebendo que a ideia do divórcio não era nova.

— Devia ter tentado um pouco mais. —Falou Shikamaru.

Pouco depois Naruto saiu de casa, disse que precisava pensar, e Shikamaru foi ver se a Uzumaki estava bem, ela disse que iria para o apartamento, não iria dormir mais naquela casa, ele se ofereceu para acompanhá-la e a morena aceitou, o caminho era curto e eles o passaram em silêncio.

— Muito obrigada! — Ela disse.

— Logo eu apareço para jogar. — Ele falou e ambos sorriem.

[...]

Em pouco tempo Hinata descobriu que não gostava de morar em apartamento, ela não podia ter um jardim, não tinha lugar para as crianças brincarem e o espaço lhe parecia extremamente limitado.

Por conta disso foi a morena quem passou a visitar o Nara e levar as crianças até sua casa, pois lá teriam um enorme quintal para brincar. Ela percebia como os filhos ficavam felizes nos dias que iam até lá, e grande parte disso era por saberem que seu sensei estaria lá, o que havia a surpreendido era que as crianças não eram as únicas que ficavam felizes em ver o Nara.

Aos poucos Hinata percebeu que seu sentimento por ele ia bem além do que o sentimento que tinha por seus amigos, ela nunca havia imaginado que um dia sentiria isso por alguém de novo, e muito diferente de seu antigo relacionamento, ela não parecia precisar lutar o tempo inteiro ou sequer ficar insegura a respeito dele.

Shikamaru a trazia tranquilidade, a deixava sorrindo por dias, ela começava a ficar mais alegre só de imaginar que jogaria Shogi com ele mais tarde, tudo com ele era leve e simples, nunca em sua vida havia experimentado essa sensação.

Naquele dia as crianças estavam brincando no quintal e os dois adultos estavam na cozinha fazendo lanches para seus filhos. Hinata vez ou outra parava e ficava analisando o Nara, ele também fazia o mesmo e quando os olhos deles se encontravam ambos sorriam.

— Shika…

— Hina…

Ambos começaram a falar juntos e pararam e riram um do outro.

— Pode falar primeiro. — Ela disse e sorriu docemente.

Por conta do divórcio os sorrisos da Hyuuga haviam se tornado raros no início, mas agora quase um mês depois ela já sorria com tranquilidade e Shikamaru havia percebido que era o responsável pela maior parte deles.

— Lembra que eu falei à você que todos merecem uma segunda chance para amar? — Ele perguntou e em seguida ela assentiu. — Nós também merecemos uma chance de ser amado, e estou disposto a fazer isso com você.

O sorriso dela aumentou mais e os olhos marejaram.

— Eu também estou muito disposta a fazer isso com você.

Então, ele se aproximou e arqueou um pouco as costas para que seus lábios se encontrassem, Hinata envolveu o pescoço do moreno com seus braços o puxando para mais perto, e ele abraçou sua cintura, era um beijo lento e cheio de carinho, foi breve, porém o suficiente para as bochechas de ambos ficarem levemente rubras, todos aqueles sentimentos eram novos e diferente do que haviam experimentado.

— Você entende que vou precisar de um tempo, certo? — Ela perguntou um pouco constrangida, sentia algo muito forte por ele, mas havia acabado de passar por um divórcio.

— O tempo não importa. — Respondeu o Nara e sorriu satisfeito.

Realmente, o tempo não importava agora.

Notas finais
Espero que tenham gostado.
Com o tempo publicarei todas as minhas fic aqui também.
Beijos anjos.
Que nos reencontremos novamente.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!