Shoganai

2 Capítulo 2 — SILÊNCIO


Notas iniciais
ANTES TARDE DO QUE NUNCA KKK O desafio de março foi sobre referências ShikaTema, escolhi a cena em que Temari não aparece por motivos de vocês não a encontrarão nesse capítulo. Ele está entre *. Espero que gostem!

“o silêncio sempre foi o meu grito mais alto”
— Amanda Lovelace

♠♠♠

Sua determinação em desvendar o mistério de suas cuidadoras sumiu rapidamente. Dessa vez a culpada não era sua preguiça e se viu, pela primeira vez, frustrado por não poder se mover. Havia subestimado a extensão de seus ferimentos que, apesar do intensivo cuidado inicial da médica, estavam longe de serem estáveis.

Os dias se passaram lentamente, e sua condição não parecia melhorar. Entre os estados de semi-consciência e sono profundo, sabia que as horas mudavam devido à troca de suas enfermeiras. Os toques brutos e desengonçados geralmente aconteciam no meio da tarde, enquanto os delicados e firmes o cuidavam durante à noite. Durante a manhã parecia que ninguém cuidava de si, e concluiu que ambas usavam esse período para cuidar de suas vidas.

Apesar de ter concluído tanto e ao mesmo tempo tão pouco, não ficava acordado o suficiente para descobrir mais. E agradecia por isso. Ao despertar na segunda vez, após Sakura o por para dormir, sentiu a dor de todos os seus machucados com intensidade e desejou morrer pela primeira vez em toda sua vida. Havia entendido o que a médica tinha dito: teria sido mais humano tê-lo deixado para morrer. Devia ter gritado bem alto, pois foi a única manhã em que alguém apareceu para cuidar de si. Sentiu o mesmo cheiro doce e, dessa vez, não lutou contra ele.

Quando começou a pensar se passaria o resto de sua vida daquele jeito, a desconhecida parou de aparecer. Com isso, Shikamaru ficou incapaz e notar a mudança dos dias. A médica ficava com ele ininterruptamente e, ao mesmo tempo, percebeu que as dosagens de seu calmante começaram a diminuir.

Foi quando ele recomeçou a sentir.

O tempo inteiro.

Excruciante, angustiante e intensa dor.

Sabia que aquela era só uma pequena fração do que deveria sentir, e não queria sofrer mais. Não aguentava mais. Em meio ao próprio delírio, da febre e do suor, gritava por clemência.

— Deixe-me morrer! — Assustou-se com o som da própria voz, quase irreconhecível para seus ouvidos — Por favor! — Implorava, desesperado.

A médica tentava ajudar. Trocava curativos, passava pomadas e unguentos, fazia massagens... tentou tudo o que sabia, com a melhor das intenções. Nada era eficaz. Os gritos não cessavam, e eram os únicos sons que impregnavam sua mente. Parecia tortura.

E talvez fosse.

Por fim, Sakura desistiu de tentar. Talvez, se sua mentora estivesse ali, soubesse o que deveria fazer. Mas não havia mais ninguém além dela. Quase desistiu da própria decisão de cortar os anestésicos, mesmo sabendo que era necessário. Eram os mais poderosos, porém, os mais viciantes e Shikamaru já estava mostrando sinais do vício.

Como último recurso, subiu na cama e colocou a cabeça de seu paciente em suas pernas. Com um pano, secava o suor do rosto do marinheiro em movimentos ritmados, enquanto recitava antigas cantigas de sua terra natal. Apesar de sua voz rouca pela falta de uso, Shikamaru conseguiu ouvir.

“Estou aqui”, parecia dizer, “e te farei companhia”.

O rosto de sua mãe apareceu em sua mente. Uma lembrança antiga, de sua infância, uma época em que ele havia passado o verão acamado. Colocava todo seu amor na canção que cantava, enquanto acariciava o rosto suado pela febre do filho.

E a dor não parecia assim tão lacinante.

“Não te deixarei passar por isso sozinho.”

Outros dois rostos vieram em sua mente. Seus melhores amigos, deitados consigo de baixo do velho carvalho, observando as nuvens passando. O menino comia alguma besteira qualquer, enquanto a menina cantarolava baixinho uma cantiga antiga.

Queria viver. Iria viver.

“Eu compreendo.”

E então, pela primeira vez desde a explosão, Shikamaru abriu os olhos. Piscava pesada e lentamente, sua visão desfocada após tanto tempo. Apesar disso, distinguiu perfeitamente o rosto redondo e alvo da médica e olhou no fundo de seus olhos verdes. Notou as lágrimas descendo por suas bochechas vermelhas antes de senti-las tocando seu rosto, quase insensível devido aos machucados.

Sakura estava sofrendo, percebeu. Alguma coisa, pensamento ou lembrança a fazia derramar as mais sofridas lágrimas que já vira alguém deixar cair. Mesmo assim, não saiu de seu lado. Mesmo assim, carregou a dor do marinheiro junto com ele.

“Eu compreendo”, respondeu silenciosamente a ela, ao se forçar a parar de gritar.

Mordeu os lábios com força, mesmo que isso significasse mais ferimentos em seu corpo, e focou-se no som da voz da nova amiga. Em meio às cantigas e gemidos que escapavam, o cansaço finalmente se tornou aparente.

Antes de se entregar totalmente para a escuridão, notou o símbolo verde no meio da testa de Sakura. O reconheceu instantaneamente.

A reconheceu.

E sabia onde estava.

♠♠♠

Acordava várias vezes devido a dor, e nunca conseguia dormir profundamente. Estava cada dia mais cansado, porém a rotina não mudaria. Sakura nunca mais usou o remédio anterior e Shikamaru confiava completamente nas habilidades da médica. Se ela havia desistido de usar o sedativo, provavelmente havia uma boa razão.

Ao invés disso, começou a cantarolar baixinho canções antigas, de vários países diferentes. Algumas ele reconhecia, mas ela recitava todas que conhecia até que o marinheiro voltasse a dormir. E novamente quando ele acordasse. Era possivelmente o único momento em que a médica falava, mas Shikamaru aprendeu a apreciar a rouquidão de sua voz.

Um dia, no entanto, percebeu que já não suava mais. Sakura havia parado de molhar seu rosto com um pano. A dor ainda era ruim, mas talvez por ter se acostumado, não era tão insuportável.

Seus lábios agradeciam o alívio.

Abriu os olhos ao sentir o cheiro de temperos familiares, que o fizeram pensar em sua vila natal. Percebeu a própria fome e sentiu a boca salivar pela primeira vez em muito tempo. Olhou para a médica, com expectativa, enquanto Sakura se acomodava em uma cadeira próxima à cama, colocando um prato de sopa em um banco ao seu lado.

— Como você sabia? — Questionou, curioso.

Sakura sorriu, dando de ombros, enquanto ajeitava o travesseiro de Shikamaru, puxando-o um pouco para cima. Os músculos do marinheiro reclamaram com a movimentação, mas ele conseguiu inclinação o suficiente para poder comer. Sabia que não conseguiria sentar-se ainda, porém frustrou-se com as suas próprias limitações.

Olhava para o rosto da médica, enquanto ela pegava o prato em suas mãos, com uma curiosidade quase infantil. Em resposta aos seus insistentes olhares, Sakura suspirou.

— Eu fiz minha pesquisa — finalmente respondeu, como se isso explicasse. Shikamaru levantou as sobrancelhas, intrigado, mas não voltou a perguntar. Observou-a assoprando levemente a colher, para depois oferecê-la aos seus lábios.

Comeu em silêncio, confortável aos dois. A comida estava deliciosa e se viu pensando em sua própria família. Questionava se eles haviam sido informados de sua morte, ou se ainda agarravam-se a ideia de sua sobrevivência. Talvez sua mãe acreditasse.

Sua melhor amiga provavelmente questionaria.

Shikamaru esperava que não. Seria mais seguro para todos que aceitassem sua possível morte. Pelo menos até que ele resolvesse tudo.

Resolvesse tudo?!

Era a Marinha que estava falando!

— Sakura! — Exclamou, desesperado para uma distração.

Apesar de inesperado, a médica não se assustou. Shikamaru concluiu que ela devia estar acostumada com esse tipo de surpresa. Afinal, era uma grande médica. E, se suas suspeitas fossem corretas, era muita requisitada naquele local.

Ela ainda esperava por uma continuação de seu paciente. Percebeu, então, que a observava por um tempo sem desviar o olhar. Pigarreou, sem graça e, nervoso, perguntou a primeira dúvida que veio em sua cabeça:

— Pelo o que você sofre?

Sakura piscou algumas vezes, desconcertada. Não esperava por essa pergunta, percebeu. Remexeu-se na cadeira, claramente desconfortável. Levantou-se logo depois, para depositar o prato vazio na bandeja o qual chegou. Começou a rearrumar as ferramentas que havia trazido consigo, nervosa com os próprios pensamentos.

Nunca a tinha visto tão agitada. Arrependeu-se, então, de ter feito a pergunta. Poderia adquirir novas informações pela médica, talvez, se não tivesse sito tão idiota. Suspirou, frustrado, desistindo da conversa. Fechou os olhos, tentando se ajeitar na cama sozinho, apesar da dor que os movimentos faziam. Deveria continuar lutando contra os próprios demônios, ao invés de tentar fugir deles.

* — O que você pensa sobre o amor? — Ouviu-a perguntar, quando pensou que havia saído do aposento.

Franziu as sobrancelhas, confuso. Não entendia o que aquilo tinha a ver com sua pergunta. Será que Sakura havia rebatido sua pergunta desconfortável com uma que o faria igualmente desconfortável, só por vingança? Não era possível.

— Nada. — Respondeu, rapidamente. Apesar da sinceridade, a médica fez um muxoxo de desânimo.

Lembrou-se, então, de uma das muitas conversas que tivera com seu pai.

— Na realidade... — Murmurou, incerto sobre sua própria conclusão. Sakura olhou para o marinheiro, com suas próprias expectativas renovadas. — Acho problemático. — Admitiu, envergonhado.

Ouviu o riso baixo e percebeu que sua resposta havia sido aceita pela médica. Permaneceu em silêncio, ainda pensando na pergunta da mulher. Nunca realmente havia parado para se questionar sobre algo como o amor. Não após anos observando seus pais.

Simplesmente decidira que aquilo não era para si.

— E por que não? — Sakura o assustou e ele percebeu que havia verbalizado seus próprios pensamentos. Com o ânimo aparentemente renovado, a médica voltou a se sentar em sua cadeira, com novos curativos à mão, para começar a troca.

— Vocês, mulheres, são irritantes. — Admitiu, sincero e sentiu a delicadeza da mulher diminuir por um momento, fazendo todo seu corpo reclamar ao movimento do curativo sendo puxado com força. — Vocês sempre agem cordial e amigavelmente, mas nunca consigo saber o que estão pensando de verdade — continuou, agora mais incerto se seria seguro para sua saúde continuar naquela conversa. Sakura, porém, não voltou a se abalar.— Pelo menos é isso que vi nas mulheres próximas a mim...

— Sua mãe? — Concluiu, sem tirar os olhos do próprio trabalho. — Entendo.

Shikamaru assentiu, lentamente, pensando em outra mulher, sua amiga de infância.

Como será que Ino estaria sem ele?

Provavelmente fazendo alguma besteira.

— Mas meu pai a amava, de algum jeito — continuou a falar, sem perceber que estava expondo mais de si do que deveria. — Dizia que os homens não são bons sem as mulheres por perto. Assim, sem elas, não existiria homem algum — suspirou, cansado, enquanto o último curativo era arrancado de sua pele queimada. O cheiro estava melhor, o que era um bom sinal. — Até a mulher mais difícil é amável com o cara que ela ama.

Ouviu o segundo riso de Sakura, mas dessa vez havia algo diferente nele. Pode sentir. Por isso, abriu os olhos que havia fechado pela dor, a fim de olhar para a médica. Alguma parte de si começou a se preocupar por ela e queria se certificar de que estava bem. Ela, por outro lado, limpava suas feridas com algum produto de cheiro forte, sem deixar-se abalar com a conversa. Um sorriso fino, porém singelo, estava em seus lábios, fazendo Shikamaru quase suspirar de alívio.

— Seu pai era um homem muito inteligente. — Assumiu, sorrindo ao olhar para o marinheiro. Um sorriso simples, mas que fechou os olhos da mulher e pareceu iluminar todo o seu rosto.

“Mesmo ela sendo tão rígida assim, tem momentos em que ela sorri carinhosamente.” *

Seu pai era um gênio.

— Acho que sim. — Admitiu, dando de ombros, mesmo que isso lhe doesse.

Sakura continuou trabalhando em seu paciente e seu ânimo parecia mais renovado. A lembrança de suas lágrimas parecia ter sumido de seus ombros e Shikamaru se permitiu observar a amiga trabalhando. Lentamente, a viu terminando de limpar suas feridas. No mesmo ritmo, observou-a cuidadosamente colocando o unguento nas queimaduras e a pomada curativa nos cortes, mesmo que isso fosse um trabalho complicado, fazendo com perfeição. Foi somente quando ela estava enrolando os novos curativos em seu corpo é que o marinheiro entendeu o motivo daquela conversa.

— Aonde ele está? — Perguntou, fazendo-a olhar, interrogativa. — O homem para quem você é amável.

Essa pergunta destruiu todo o clima da conversa, pois acabou com o ânimo da médica.

— Longe. — Respondeu, simplesmente, voltando sua atenção para o próprio trabalho.

Ela voltava para o próprio silêncio. Dessa vez, por outro lado, Shikamaru não quis o quebrar. Aquele silêncio era ensurdecedor, lhe dizendo mais do que deveria saber. Disse tudo e um pouco mais.

Aquela conversa havia terminado.

O amado de Sakura estava longe.

Provavelmente não sendo um cara bom.

E isso a fazia sofrer mais do que qualquer ferida física que Shikamaru tivesse em seu corpo. Foi tanto que sua fala desistiu de existir.

Notas finais
Espero que o desafio de abril chegue antes de maio acabar kkkkkk