Os titãs irracionais se aproximavam da grande multidão de civis da Resistência, que recuavam com temor dos monstros gigantescos.

Crianças eram pisoteadas, mulheres seguravam seus filhos com força nos braços e homens se empurravam, com o objetivo de sobreviver.

Um dos titãs se aproximou e abriu a enorme boca em direção a uma mulher com um bebê de colo, que paralisou ao sentir o hálito quente. Os olhos se preencheram de lágrimas, e com hesitação, ela ergueu o bebê para cima, oferecendo-o como um sacrifício.

O titã se aproximou, abriu a boca e ignorou por completo a criança. Agarrou agressivamente a mulher pelo tronco, fazendo o bebê cair e ficar para trás enquanto ela gritava por ajuda.

— M-Me salvem, por favor! Me salvem!

Ela não entendia porque seu bebê foi poupado, mas chorava e clamava por sua vida. Sentiu a pressão dos dedos do monstro, que ao apertá-la, destruiu-na por completo e a engoliu.

— Não se separem! — gritava Emma, vendo o caos se instaurando na retaguarda.

A multidão, que antes formava uma seta em linha reta com uma rota pré-definida, se dispersava para lugares diferentes, na medida que os titãs entravam. Era natural: pais em desespero para protegerem sua família, pessoas correndo por suas vidas.

Os titãs esmagavam muitos deles, como se... estivessem atrás de eliminar o máximo de pessoas possível, muitos deles sequer comiam.

— Atenção, soldados! — gritou Helos, chamando atenção dos seus homens — Toda força para o sul!

Os soldados da Resistência gritaram em resposta, e viraram seus canhões e mosquetes para a retaguarda, onde os titãs destruíam os civis da comunidade.

Um desses gigantes olhou profundamente para Helos, sempre tão frio e imponente. Imediatamente ele foi esmagado por uma bola de canhão, e esse destino foi se repetindo para cada um daqueles que assolavam os marleyanos, com o máximo de cuidado para não acertar os civis.

— Eu não entendo... — Emma dizia, inerte. Parecia paralisada, e estava com lágrimas nos olhos — temos cinco dos nove titãs originais ao norte! Eu entendo que temos os civis como prioridade, mas nos deixar sem defesa naquele ponto?

— Ainda tem muitos deles dentro da comunidade. Especialmente Derick e o eldiano. — prosseguiu Helos, com as mãos nas costas. — Esses titãs estão sendo manipulados diretamente pelo Titã Fundador. Basta ver que eles não estão aqui por fome, estão apenas destruindo o máximo de marleyanos que conseguem. Eles foram soltos no distrito vizinho, e aquelas pobres pessoas foram obrigadas a correr em nossa direção por Karl Fritz. — finalizou, quando mais um dos titãs irracionais caiu. — Mesmo limitado pela idade, numa corda de força, não temos a menor chance contra o rei de Eldia. Então o que podemos fazer é deixar Marley viva a partir dessas pessoas, e principalmente... roubar o Titã Quadrúpede!

Emma ficou em silêncio por longos segundos, mas pareceu concordar. Voltou seus olhos ao norte, enquanto os homens de Helos voltavam a corrigir aos poucos a rota de fuga dos civis. Era o titã de Garric, bem distante, segurando aquela enorme lança titânica. Não... agora era o inimigo, um monstro que deve ser abatido.

De cavalo, o jovem mensageiro finalmente achava a pessoa que tanto procurou: Derick. Era um homem alto, de pele escura e cabelo negro, junto a olhos ônix.

— Senhor Derick! — gritou o mensageiro, saindo do cavalo.

Derick já estava correndo em paralelo à multidão, e quando viu o mensageiro, estendeu seus braços e buscou a maleta.

— Me dê a injeção. Rápido!

— Sim, senhor!

Puxou o objeto, e tanto Derick quanto o garoto correram contra aquela multidão, que buscava a fuga, enquanto eles iam em busca de algo maior. Se aprofundavam nos corredores de um estabelecimento pequeno e caindo aos pedaços, descendo as escadarias e acendendo uma das tochas que deveriam luminar o local.

O porão era completamente vazio, com um único objeto em seu centro: uma dama de ferro, fechada por correntes. Era um objeto popular e pesado de tortura, basicamente uma tumba lacrada. Sua porta era tomada por espinhos, e a vítima deveria ficar lá dentro, sendo penetrada até a morte – algo que não acontecia a um portador de titã.

— Tire as correntes! — ordenou Derick, e o mensageiro obedeceu.

As correntes foram caindo, de uma em uma. Derick se aproximou da dama de ferro, abriu-a e teve uma visão pesadíssima, a qual já estava acostumado a ver.

Pietro lá estava, amarrado e desnutrido. Suas costelas já eram visíveis, e o olhar cheio de otimismo e esperança agora era vago, morto por dentro. Todo seu corpo tinha buracos pelos espinhos, que agora eram preenchidos por vapor e começavam um longo processo de regeneração.

— Chegou a sua hora, demônio.