Shin Sekai
2 E ele invadiu meu jardim
Notas iniciais
A noite era densa, mas a lua cumpria seu papel como única luz na escuridão. Sua luminosidade atravessava os vidros das janelas e portas da bela casa de campo.
Nami tentava ser o mais delicada possível se movimentando vagarosamente, mas o barulho que as rodas faziam era inevitável. Percorreu o corredor devagar apalpando as paredes até chegar a sala. Parou imediatamente quando ouviu a respiração nada pacifica de alguém. Seus olhos não eram nada bons, talvez fosse esse o motivo de seus outros sentidos serem mais que perfeitos.
– Mamãe...?
– Oh, me desculpe querida. Te acordei? – respondeu a mulher tentando disfarçar a voz chorosa.
– Não precisa chorar mãe, está tudo bem.
– Será que eu não consigo esconder nada de você? – sorriu e se levantou da poltrona cor de vinho que se localizava no canto da aconchegante sala.
– Não precisa esconder nada de mim – respondeu a menina estendendo a mão para a mãe que se aproximava.
A não tão jovem mãe, abraçou sua cria, que em retribuição, acariciou levemente seus cabelos.
– Não se preocupe comigo querida! Você deveria estar descansando. Vamos, vou te levar de volta para sua cama.
– Tudo bem, mas me prometa que vai parar de chorar primeiro – pediu a menina secando uma lágrima que corria pelo rosto da mãe.
– Eu prometo.
–x-x-x-
A manhã caiu como uma bomba na cabeça daquele desgastado homem que se encontrava largado na cama macia com cobertores de veludo, que combinavam perfeitamente com as cortinas do grande quarto.
Os raios de sol que adentravam a única janela do ambiente, o obrigavam a levantar-se, mesmo que não tivesse nem ao menos pregado os olhos durante a noite inteira. Tantas coisas enchiam sua mente, que descasar era algo impossível. E assim ele passou mais uma noite em claro.
Desceu as escadas a passos leves e se deparou com a esposa, que dormia no sofá. Caminhou até ela com cautela para não acordá-la e a cobriu com seu paletó.
– Querido...? – sussurrou ela, ainda em estado sonolento.
– Sim, sou eu! Está tudo bem, agora volte a dormir – sussurrou de volta o marido, enquanto a ajeitava no confortável sofá. Ela, então, adormeceu novamente e ele ficou a observando com um olhar dolorido, porém amoroso.
– Bom dia – bocelou o jovem rapaz que descia as escadas com pressa.
– Shhhh – respondeu o pai com o indicador junto aos lábios em sinal de silêncio.
– Desculpe – sussurrou o garoto que agora se dirigia a cozinha.
Ele engoliu um café da manha improvisado e partiu em direção a porta principal, por onde sairia se não fosse impedido pelo pai que o chamara baixinho.
– O que foi que eu fiz agora? – resmungou o jovem para a figura de seu pai que se aproximava.
– Vai lá pra fora, anda – disse o pai o empurrando.
– Eu já teria feito isso se...
– Sai logo – empurrou o filho para fora e fechou a porta atrás deles.
O rapaz o ficou encarando em busca de uma explicação para tais atos.
– Escuta filho, obrigado por ser forte conosco até agora. Eu sei que o dia de hoje vai ser um pouco difícil, porque é uma nova escola em uma nova cidade, mas por favor, procure não causar problemas. Sua mãe está muito frágil e nós queremos começar uma nova vida aqui...
– Eu sei, velhote. Não precisa se preocupar, vou ser um bom garoto – disse o jovem com uma voz séria, os olhos semicerrados encararam um pouco o pai sem palavras e virou-se caminhando a passos largos.
Tony Malkovich, um dos mais bem sucedidos empresários do país, estava ali, observando seu filho mais velho partir. Sua mente embaralhada não parava de processar as palavras e o olhar que o garoto o lançara antes de sair. Se afundava em questionamentos e problemas, até ouvir o barulho de rodas deslizando sobre o piso de porcelanato, que o trouxe de volta do transe.
Abriu a porta devagar e espiou a menina que tentava sair do lugar sem esbarrar em nada. Ele andou até a jovenzinha e segurou o cabo da cadeira de rodas que a sustentava.
– Deixa que eu te ajudo, princesa.
– Eu posso fazer isso sozinha – disse a menina determinada.
– Eu sei que pode, mas você não precisa – respondeu o pai gentilmente.
A menina sorriu e sussurrou um “obrigada”.
– Qual o destino Milady? – perguntou o pai brincando com a voz.
– Cozinha por favor, cavalheiro – a menina entrou na brincadeira.
– Vruuum – fez o pai imitando um carro agora, e disparou em direção a cozinha, fazendo a filha abrir um largo e feliz sorriso.
–x-x-x-
O sol escaldante castigava o jovem que andava amargurado. Lucca não estava nem um pouco afim de encarar a escola e nem os alunos que enchiam seus corredores. Naquele momento, tudo que ele queria era socar tudo que visse pela frente, mas não pudia. Havia dito a seu pai que se comportaria, e ele não era o tipo de garoto que descumpria sua palavra. Então se arrastou pelas ruas de terra daquela pequena cidade, esperando que a brisa carregasse os pensamentos, que tanto o atormentavam, para longe dali.
Quando finalmente avistou a escola, respirou fundo e seguiu em direção a ela firmemente.
O vento brincava com seu cabelo, que dançava em frente a seus olhos, mas ele não parou de caminhar sem se importar com isso. Seus pensamentos eram tão intensos que, agora, já o tomavam por completo, de forma que ele já não sentia seu corpo que continuava prosseguindo por impulso.
Ao adentrar a escola o novo aluno chamou a atenção de algumas estudantes que passavam por ali, com seu semblante misterioso proporcionado pelos cabelos negros espalhados pelo rosto e o olhar vazio.
Mal havia chegado nos corredores e o sinal, que indicava o inicio das aulas, já soava. Olhou em volta e se viu perdido, quando um outro rapaz de longos cabelos loiros cruzou seu caminho. Sem pensar, pôs a mão no ombro do mesmo, que parou imediatamente, lançando-lhe um olhar de soslaio.
– Ér... me desculpe, mas eu sou novo aqui, será que você poderia me ajudar? – disse encarando o estudante, e assim pode perceber que cada um de seus olhos tinha uma cor diferente.
– Desculpe, mas acho que não sou a pessoa mais indicada pra isso – respondeu o estudante com um sorriso nada inocente no canto da boca.
– Eu não me importo – disse Lucca sério – só preciso saber onde fica a porra da sala 103.
–x-x-x-
A mulher que mantinha uma beleza encantadora, mesmo que não fosse mais tão jovem quanto gostaria de ser, abriu os olhos lentamente, piscando muitas vezes até se acostumar com luz. Quando foi capaz, olhou em volta e reconheceu a sala de sua nova casa. Sentou-se no sofá que antes dormia e fitou a janela em busca de saber as horas. Pode perceber, pela sombra proporcionada pelas cortinas, que ainda era manha e se levantou calmamente.
Parou em frente a escada ao se lembrar da filha. Correu até o quarto da menina, mas ela não estava lá, sentiu seu coração bater mais forte e começou a corre pela casa aflita, em busca de encontrá-la.
Checou a casa inteira, e nada. Seu coração quase saltava pela boca quando ouviu risos meigos vindos dos fundos, correu em direção ao som.
– Nami...? – pronunciou num grito abafado.
–x-x-x-
A menina comia seu cereal devagar, prestando atenção nos passos do pai, que faziam uma música engraçada enquanto ele corria de um lado para o outro procurando sua maleta que se perdeu na mudança.
– Ai, ai. Se ao menos Lucy estivesse acordada – murmurava o homem revirando as caixas de papelão espalhadas pela cozinha.
– Quer que eu a chame, pai? – perguntou Nami, ainda com a boca cheia.
– Não querida, sua mãe está cansada. Ela merece dormir um pouco – disse derrubando uma caixa e espalhando seu conteúdo pelo chão – Ah, finalmente.
O pai carinhoso, pegou a maleta que acabara de achar, deu um beijo na testa da filha e encostando suas cabeças, disse baixinho – Tome conta da sua mãe por mim – E partiu para seu emprego.
Escutando o fechar da porta, Nami terminou seu cereal e guiou sua cadeira de rodas até a mãe. Tocou seu rosto delicadamente com as pontas dos dedos para sentir sua expressão tranquila enquanto dormia.
Foi quando o som de algo caindo a arrancou de seus devaneios, e quase que automaticamente, ela se dirigiu ao local de origem daquele som em uma velocidade incrível. O barulho vinha dos fundos da grande casa, e chegando lá, ela parou após atravessar a porta e ficou calada, atenta a qualquer ruido que ousasse se destacar.
– Ai, essa doeu – falou para si mesmo, o loiro caído no chão.
– Quem está ai? – perguntou a menina assustada, virando o rosto rapidamente em direção ao jovem.
– Ah, oi. Então você é a vizinha nov...? – disse o menino se levantando, e ao ver que a delicada menina de belos cabelos ruivos e longos estava sentada em uma cadeira de rodas, ficou boquiaberto e perdeu as palavras que pareciam ter fugido de sua mente.
A menina percebeu a relutância do desconhecido, mas já sabendo o motivo, decidiu ignorar.
– Parece que sim. E você... Está invadindo meu jardim?
– Parece que sim – respondeu o loiro sorrindo ao se recompor.
Nami sorriu, e o menino se aproximou devagar.
– Desculpe pelo inconveniente. Eu me chamo Josh, moro na casa aos fundos da sua – apresentou-se apontando para a enorme e simpática casa verde-água em que morava.
– Prazer Josh, me chamo Nami. A que devo a honra da invasão? – perguntou a jovem sorrindo.
– Ah... isso é uma longa história – disse ele fechando seus realçantes olhos verdes num sorriso envergonhado.
– Então tá!
Josh revirou os olhos pensativo e teve uma ideia.
– Já sei! Como eu invadi o seu jardim, eu quero que você invada o meu em troca – disse num tom animador.
– Está permitindo que eu invada seu jardim?
– Sim!
– Mas se você permite não é mais invasão, certo?!
– Bem... é mas... Ah, sendo assim eu a proíbo de pôr os pés no meu jardim.
– Tudo bem.
– Tudo bem??? – perguntou confuso – não era para a senhorita estar cruzando a cerca viva agora – disse gesticulando em direção a cerca.
– Está insinuando que quer que eu invada seu jardim?
– Nããão – respondeu sarcasticamente o menino.
– Não? – Nami fez uma cara de dúvida.
– Sim – bufou as palavras.
– Sim ou não?
– Siiim!!!
– Ah, estão você quer, mas se você quer, você permite e se permite já não é mais invasão.
– Ok, esquece a invasão – disse Josh, tomando a cadeira – Apenas venha.
Empurrou-a e ela trepidou ao passar sobre a baixa cerca viva.
– Espera eu... – tentou falar a menina, lembrando-se da mãe.
– Xiu – disse o loiro ao frear a cadeira – Consegue sentar-se aqui?
– Aqui onde?
– No balanço – sorriu – Vem, eu te ajudo.
– Não... – parou a mão do menino que se aproximava de suas pernas no intuito de erguê-la – Eu consigo levantar, só tenho dificuldades em me equilibrar.
– Certo, então se apoie em mim – ordenou gentilmente o menino. E assim ela fez.
No final o balanço era alto demais e ele teve de erguê-la da mesma forma. Isso a deixou um pouco constrangida, mas no fundo ela estava feliz por estar ali.
Os pés da jovenzinha não tocavam o chão e ela agarrou as correntes que sustentavam o balanço com força. Se calou, estudando o som que os passos do novo conhecido faziam ao passar por trás dela. Então ele pulou o acento ao seu lado, e sentou-se nele.
– Ei, olhe pra mim – disse o garoto dando impulso.
– Desculpe, não posso.
– Hã... por que? – parou seu movimento.
– Ah... você não percebeu – deu um sorriso sem graça.
– Não percebi o que?
– Eu sou cega – disse naturalmente.
– O que??? – o menino retornou o balaço ao seu lugar e ficou observando a delicada cadeirante com cara de espanto – Não pode ser, você está brincando comigo?
– Por que eu brincaria com algo assim?
– M-me desculpe. É que as vezes você parece olhar direto para mim. Como quando eu estava caído no seu jardim e você apareceu do nada.
– Eu faço isso? – perguntou a menia virando-se para o lado, o que fez com que os rostos dos jovens ficassem um pouco próximos.
O loiro corou imediatamente e virou-se para o outro lado.
– Ta vendo... fez de novo – a voz foi sumindo, mas a menina pode entender claramente e sorriu.
– Desculpe, eu só me dirijo à origem do som – sorriu novamente.
– Não precisa se desculpar... Isso é legal.
– Você acha?
– Com certeza. Sabe o que mais é legal – nem esperou uma resposta – sentir o movimento do balanço – disse enquanto colocava levemente as mãos nas costas da garota.
– Espere. O-o que vai fazer?
– Segure firme – disse o menino empurrando a jovem num movimento que começou lento, mas com a aplicação de força, ganhou uma velocidade que a assustou. Fazendo com que ela se agarrasse com toda a força nas correntes.
Porém ao sentir o vento que batia contra o seu rosto fazendo seus cabelos se agitarem, juntamente a seu vestido de seda, ela se sentiu mas leve. Aquela era um sensação que ela nunca havia experimentado. E aquele sentimento a tomou por inteiro.
Uma coragem lhe percorreu a espinha e ela abriu os braços lentamente.
Ali, naquele momento, ela permitiu que o vento levasse todos os seus problemas. E acreditou que nem a gravidade podia detê-la.
– Isso, sinta – pronunciou o garoto observando a harmoniosa expressão que se instalava no rosto da pequena.
Aquilo podia ser apenas um balanço. Mas a importância que tinha para aqueles jovens e inexperientes adolescentes, que já haviam sofrido muito apesar da idade, era inexplicavelmente grande.
E os dois sorriram...
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