Shin! - Livro um, O Garoto Esquecido.
9 Capítulo 9 - A Deusa da Colheita.
Um casal subia lentamente por uma trilha em torno de uma grande montanha, conhecida como "Monte Khur".
Está montanha era gigantesca e servia de defesa natural para a aldeia que repousava próxima aos seus pés. De um lado da vila, o monte Khur os protegiam, do outro, o Lago Nif.
O lago Nif dividia a maior parte das terras do continente, vindo direto do Mar dos Lamentos, um Mar que ficou conhecido assim por ser considerado maior que os demais mares existentes, e por esse motivo aqueles tolos o suficiente para acharem que eram dignos de o atravessar sentiam uma angustia tremenda dominar suas almas.
O desespero de saber que estavam em um mar sem fim dominava a todos aqueles que remanesciam sobre suas águas. Poucos sabiam que o motivo para tantos navios se perderem neste curioso mar era o fato de a maior parte dos navegadores não estarem acostumados a navegar utilizando as estrelas como guia, o que facilitava em muito navegar nas águas negras e nevoadas durante o dia.
Entre a majestosa Montanha Khur e o Lago Nif repousava, como já dito, a vila conhecida por Kor.
O povo de Kor vivia basicamente do escambo, trocavam tudo aquilo que podiam e da forma que podiam. Da montanha Khur coletavam frutos, conhecidos como "Frutos de Khur", eram mais doces que os demais pois no topo da montanha tinha um bosque tão denso que se assemelhava a uma floresta. Por residir sobre a montanha, este bosque recebia mais água que os demais pomares que se encontravam no solo, longe dali.
A fauna deste lugar era composta desde pequenos animais, como ratos, raposas, coelhos e repteis, até mesmo como por grandes ursos, leopardos da montanha e cervos, completamente selvagens e hostis, fazendo com que a coleta de frutos fosse a unica opção de alimenstos no topo do monte, e a caça a animais fosse considerada suicidio.
Das águas de Nif, vinham os barcos pesqueiros, cheios de pescas do Mar das Lamentos e suas águas profundamente escuras, sendo acima pesca que vinha de lá eram mais salgadas que as outras, e isso aumentava o preço da mercadoria.
Foi então que um período denso encontrou em seu caminho a pequena Aldeia de Kur. A temperatura caiu subitamente durante dias seguidos, dos céus vinham uma camada atípica de neve, coisa que foi vista poucas vezes em Khur.
As águas de Nif, esfriaram deixando de ser negras, e se tornaram tão brancas quanto a neve que despejava do Céu.
— É Ifrihein! O Deus dos tempos está furioso! — Gritavam os Anciões ao que os dias ficavam cada vez mais frios.
Mas o que Khur havia feito para enraivecer Ifrihein? Por que um Deus estaria furioso com uma pequena aldeia?
O povo de Kur não entendia, os dias se tornavam mais frios assim que passavam, os frutos não floresciam, os peixes já não nadavam mais no lago Nif, e algo precisava ser feito para corrigir isso.
Sendo assim, na 6° noite de lua cheia daquele mês, O conselho de Kur decidiu que deveria ser feita uma reunião e debateria uma possível solução para o castigo pelo o qual estavam passando fosse solucionado.
— Senhores! Os tempos são sombrios! — Disse um ancião de cabelos negros, curtos e lisos. Enquanto se dirigia em direção a uma grande construção que ficava no centro de Kur. Está grande construção era o salão de reuniões do conselho, onde os assuntos que definiam o rumo de Kur eram debatidos.
— Entrem senhores, sejam todos bem vindos, devemos debater e encontrar uma solução para este grande mal que nos assola. — Disse o homem ao entrar no grande salão acompanhado de um grande grupo de outros anciões.
Este, era Runberfall, o Líder do conselho de Kur e era tido como o Conselheiro de Kur por ser considerado um dos mais sábios que ali ainda viviam.
Kur era um amontado de cabanas onde poucas pessoas viviam, não somando muito além de 180 a 200 habitantes, porém mesmo tendo poucos membros que viviam ali, Kur tinha seus costumes e organização política. O conselho de Kur era composto por 12 anciões, liderados por Runberfall.
Após algumas horas de reunião a portas fechadas, o Conselho de Kur fez a sua decisão.
— Senhores! Temos uma decisão! — Gritava Runberfall.
— Sim! — Gritou um senhor de cabelos grisalhos e pele clara
— Está decidido! — Sussurrou um terceiro ancião, este era loiro e comentava com um quarto ancião.
Este quarto, por sua vez, tinha a pele clara, os cabelos eram longos e negros, seus olhos eram azuis, e se destacavam entre os demais homens, seu rosto era fino e possuía no todo um ar “luxuoso”, como se ele fosse algum Duque ou Lorde. Possuía também, uma voz aveludada e calma, sendo muito marcante por isso.
— Certos senhores, já que decidimos o certo a se fazer, irei me recolher aos meus aposentos. Desejo a todos um boa noite, e ah, que por favor, não esqueçam de me informar o resultado, estarei esperando ansiosamente por notícias. — Dizia ele enquanto se movia em direção a saída.
Khazim, era um dos membros mais antigos de Kur, era um mercante com muitas posses, tinha muita influência em Kur, e por isso fazia parte do conselho do local.
3 dias se passaram desde que a reunião do conselho de Kur aconteceu e a lua cheia iluminava a noite fria.
Ao pé do monte Khur, 3 figuras podiam ser vistas, subindo vagarosamente o monte em meio a escuridão fria pouco iluminada pelo luar, um Homem, uma Mulher e uma pequena Criança se aventuravam.
O homem possuía meia idade, cabelos negros e longos que contracenavam com um par de olhos esverdeados, possuía estatura média e não era tonificado. A mulher por sua vez, possuía idade média igualmente, seus cabelos eram longos e pareciam chamas ao vento, seus olhos amarelados se mesclavam com as mechas formando labaredas em dias claros. A criança, tinha os olhos verdes do pai e os cabelos flamejantes da mãe.
— Querido, você tem certeza disso? Será que isso é realmente o certo?
— Sim mulher! O que podemos fazer? Somos apenas camponeses! Mal temos onde cair mortos, somos pobres, dependemos do conselho, infelizmente devemos seguir as ordens dele se quisermos viver.
— Mamãe? Onde estamos indo? Está frio aqui, podemos ir para casa?
— Calma querida, logo isso terminará – Respondeu a mãe abraçando a garota enquanto os 3 partiam em direção ao topo do monte.
Os três então, seguiram noite adentro em direção ao topo do monte. Assim, próximo ao amanhecer, quando os primeiros raios de sol tocaram o solo, o curioso trio alcançou o topo de Kur, e logo avistaram uma grandiosa e densa floresta, está floresta cobria todo o topo de Kur.
A lenda mais conhecida e passada em Kur era a que falava sobre o Deus Ifrihein.
“Sobre os céus, Ifrihein vigia
Vigia as caças, para que nos alimentem
Vigia o plantio para que floresça
Vigia os homens para que sejam dignos
da caça e plantio.”
— Mamãe, onde está a grande escada? — Perguntou a criança assim que viu o céu sobre o monte Kur.
— Não acredite nessas histórias infantis, você já tem 6 anos. O tempo de acreditar em seres mágicos já se foi. E mesmo que existisse um reino mágico no céu, com um ser que cuida de nós daqui do topo do monte, nós não teríamos vindo aqui para vê-lo. — Respondeu a mãe da garotinha.
— Então por que estamos aqui mamãe? Viemos fazer um piquenique? Viemos passear?
— Eu gosto daqui sabe? Da para ver o lago de um lado, e o mar do outro. Se bem que não gosto muito do mar não... Ele dá medo...
— Parem de perder tempo com essas bobagens, devemos aguardar até o fim do dia para podermos cumprir com o que nos foi ordenado. Andem, me ajudem a organizar o lugar para podermos passar o dia aqui. Irei caçar algo para podermos aguentar até a noite sem ficarmos famintos.
E assim foi, o trio permaneceu sobre a montanha e lá montou acampamento próximo a grande floresta conhecida por Antar e a noite caiu sobre eles. O homem caçou durante o dia, não foi muito adentro da floresta, mas mesmo assim conseguiu um pequeno porco do mato e dois coelhos. A mulher, com a ajuda da pequena criança montou uma fogueira, onde os três se reuniram e jantaram e então repousaram por algumas horas.
A lua brilhava fortemente no céu e fazia muito frio pois a fina camada gélida cobria totalmente o chão fazendo com que a floresta em frente a eles coberta por ela lembrasse o véu de uma noiva gigantesca.
O homem saiu da pequena tenda que sua esposa e filha haviam erguido durante o dia e foi até a fogueira e a apagou. Acordou sutilmente sua esposa, que em seguida acordou a sua filha e se puseram em movimento.
Seguiram em silencio, tendo como som apenas a neve sendo assoprada pelas correntes de ar e logo chegaram na entrada de antar e então entraram.
Antar era húmida, fria e cruel, a sensação de milhões de olhos observando-os pode ser sentida, olhos cruéis, olhos famintos, olhos furiosos e alguns curiosos admitiram eles do chão, pelas suas costas, do alto das arvores e entre as folhas das moitas no caminho.
Seguiram até chegarem em uma clareira, lá, um altar havia sido erguido de forma rudimentar e a pequena garota reconheceu alguns objetos que posavam em volta do mesmo.
A grande lua no pico de Kur adentrava a clareira iluminando diretamente o altar e com a ajuda da pouca luz se via então em volta a ele a ossada dos animais que seu pai havia caçado. Mas não só isso, como também a de outros animais que não haviam sido servidos no jantar. Macacos estripados, porcos desossados e cabeças de coelho em meio ao sangue completavam uma terrível pintura noturna no local onde iam em direção. Tochas improvisadas e um tronco no centro do altar completavam o cenário de horror.
A essa altura, a mãe havia tomado a criança em seus braços e ela havia adormecido. Sendo assim não viu o caminho, não viu a discussão de seus pais, não viu sua mãe lutar bravamente e perder para seu pai, não o viu a tirar dos braços da mãe.
Quando despertou, se viu em pé, em meio as ossadas, amarrada ao velho tronco. Seus pés estavam sujos de lama, de sangue, de esterco, a neve cobria lentamente tudo enquanto ela gritava por socorro, gritava pela mãe, gritava.
Então ela se deu conta, cansou de gritar, cansou de esperar, o sangue, as tripas, o fedor pútrido haviam atraído predadores. Ursos curiosos, lobos famintos, leopardos em busca de oponentes se encontraram na clareira e se digladiaram pela janta servida.
Ela era o sacrifício para a esposa de Ifrihein, ela era um agrado para a da Deusa da Colheita, ela era o sacrifício para Elflux.
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