Shikashi!!
7 Nuvem negra no festival
Notas iniciais
Parecia até que o tempo tinha parado. Não do jeito bom, como a primeira vez em que você bate os olhos no amor da sua vida. Como quando bati os olhos no Gakupo.
Tava mais pra quando você congela quando um carro desgovernado vem na sua direção.
Luka foi a primeira a falar. Ela limpou a garganta discretamente e caminhou a passos seguros na direção dos irmãos Kamui. Acho que, àquela altura, o alienígena já tinha entendido a situação, porque sua expressão tranquila de sempre parecia meio tensa.
— Olá Gumi-chan – ela disse. – Me dá um instante pra falar com o seu irmão?
— Claro – a Gumi veio às pressas pro meu lado.
Então eles foram literalmente pra fora da escola, chegando até a calçada, e nós três ficamos assistindo a discussão sem poder ouvir nada. De modo geral o Gakupo parecia confuso, ansioso e triste ao mesmo tempo, enquanto a Luka parecia apenas estar morrendo de raiva. Ao menos ela não parecia ser do tipo barraqueira, era até bem contida nos gestos e não parecia estar gritando (ou teríamos ouvido). Mas sério, dava pra ver faíscas voando dos olhos dela.
Minutos depois o Gakupo volta cabisbaixo. Luka está de costas pra nós, de mão na cintura, parecendo esperar alguma coisa.
— Você é o Shion Kaito? – indagou numa voz sumida.
— Você é o Kamui Gakupo – Kaito respondeu num tom tão seco que me deixou surpresa.
— Luka-san está indo embora, ela gostaria que fosse se despedir dela.
Ele só assentiu e foi embora. O que tinha dado no cara?
— Posso ir também? – a Gumi perguntou. – Faz tempo que não vejo a Luka-san.
— Acho que pode – ele respondeu num suspiro cansado.
Gumi já estava saindo quando senti ela me puxando pela mão, pra longe do Gakupo.
— Tô com um mau pressentimento – sussurrou. – O Kaito não parece muito bem. Eu vou lá falar com ele, enquanto você fica aqui com o nii-san.
Hein?
— Sério Miku-chan – ela salientou. – Não deixa ele ir embora do festival desse jeito. Conversa com ele, tenta distrair a atenção dele, sei lá. Se esse cara volta pra casa assim eu vou passar o resto da minha vida ouvindo Adele. Ou Sam Smith, o que dá na mesma. Por favor!
HEIN??
— Você quer que eu... Console o Kamui-san?
— Isso mesmo! Fica aqui, eu já volto.
Ela correu atrás do Kaito, me deixando com aquela que era a mais tensa missão de toda a minha curta vida: consolar alguém inconsolável.
— Oe, Hatsune! Esqueceu que estamos trabalhando aqui?
Ah, a Cul. Esqueci de falar dela, com tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo. Era uma ruiva esquentadinha, que assim como a Yukari, levava o clube dela muito a sério. No caso dela, o de culinária. Eu tinha me comprometido a anunciar o yakisoba dela no festival, então me ver fazendo qualquer coisa menos o que prometi devia estar dando nos nervos dela.
Mas eu já tinha os nervos de outra pessoa pra me preocupar. E o emocional também.
— Cul-senpai – chamei em voz baixa. – Tá vendo aquele cara ali, super gato e parecendo super triste? Então, eu preciso fazer ele se sentir melhor de algum jeito, até a irmã dele voltar. Tem como você me liberar só por um tempinho?
Ela me olhou torto. – Estou perdendo clientes por sua causa.
— Eu te pago depois, juro!
— Pode crer que vou te cobrar depois.
— Tudo bem!
Claro que ela ia. Estamos falando de arrecadação de fundos para o clube.
Fui até o Gakupo, que estava vendo a Luka ir embora num taxi. Kaito e Gumi ficaram na entrada da escola conversando. Eu não tinha ideia do que dizer, então...
É, congelei de novo.
— Acho que tá na hora de voltar pra casa – ouvi ele dizer devagar.
— Ah, Kamui-san – meu corpo se moveu sem que eu mandasse. – Não quer ir até nosso estande de yakisoba?
— Obrigado Miku-chan – ele deu um sorriso fraco. – Mas eu não...
— Por favor – murmurei em tom de segredo. – Preciso levar clientes pro estande, ou minha chefe vai ficar num estresse só. Pode deixar que eu pago! Por favor?
A expressão dele aliviou só um pouquinho. Acho que se preocupar com os outros era um jeito de ele esquecer os próprios problemas, ou algo assim. Bom, eu estava começando bem, certo?
— Certo – ele deu um sorriso pequeno, mas sincero. – Mas se eu sou um cliente, eu é quem devo pagar, não?
Então fomos pra barraquinha, que já tinha uns dois clientes a essa altura, o que devia ter amenizado a disposição da Cul. Ela serviu a tigela do Gakupo e eu tentei me concentrar em outras coisas que não fossem besteirinhas tipo o modo como ele segurava os hashis, o cabelo dele caindo pelas costas, o perfume que eu podia sentir vindo do pescoço dele etc. Olhei pro relógio e então pra Cul, que picava vegetais na bancada perto da gente.
— Já deu o meu horário de folga, Cul-senpai – eu disse na voz mais doce que pude fazer.
— Que bom pra você – ela respondeu concentrada.
— A minha substituta já chegou?
— Não tem substituta, Hatsune – dava pra ver a veia saltar na testa dela. – Aproveita sua folga e volta pra cá.
— Yay! Quer dizer, valeu.
Gakupo me olhou meio confuso. – Tudo bem?
— Sim– eu sorri, me enchendo de coragem. – Vou aproveitar e dar uma olhada nos outros estandes... Você viu algum interessante no caminho pra cá?
Ele encarou a tigela meio vazia. – Acho que não prestei atenção... Sinceramente, agora não lembro.
— A gente podia olhar algumas então, certo? – Baixei a voz devagar ao ver a expressão dele ficar sombria. – Se... Se estiver tudo bem pra você.
— Me desculpe. Meu humor não está muito bom agora pra continuar visitando o festival... Sinto muito.
— Não, tudo bem, eu entendo – eu respondi rápido, sentindo o rosto esquentar de vergonha. – Quer dizer, eu acho que entendo, eu só... Enfim, tá tudo bem.
Ele assentiu e eu baixei a cabeça, sem saber o que fazer.
— Aposto como ela pensa que eu vim de propósito – ele comentou com um ar perdido.
Meu Deus. Ele tá falando dela.
O que eu faço?
— B-bom... Não é verdade, certo?
— Eu nem sabia que ela ia estar aqui! E não viria se soubesse... – senti pouca firmeza na última frase.
— Entendo – eu disse rapidamente, pra não me dar tempo de imaginar um Gakupo stalker.
Ele terminou de comer e juntou os hashis sobre a tigela, limpando os lábios com um guardanapo.
— Me desculpe – ele disse outra vez. – Meu humor está realmente péssimo... Ao contrário do yakisoba.
Olhou para Cul e lhe sorriu brevemente, fazendo ela corar até a raiz dos cabelos vermelhos.
Eu te entendo, Cul-senpai.
— Sabe, eu acho que ia ser realmente legal ver os outros estandes – resolvi aproveitar a brecha. – Talvez seu humor melhore... E eu ainda ganho companhia!
Sim! Companhia! Por favor Gakupo, por favorzinho...
— Quer saber – ele disse, decidido. – Vocês trabalharam muito duro. Sair daqui sem ao menos dar uma olhada seria muito injusto.
Sim! Seria sim!
— Aceita minha companhia, Miku-chan? – Ele sorriu pra mim, e nem me preocupei em sentir o rosto corando como de costume.
— Sim!
Então ouvimos uma exclamação vinda da entrada da escola. Algumas pessoas tinham parado para ver o que era, e quando estico o pescoço pra ver, quase caio do banco.
A Gumi tinha acabado de dar o maior tapa na cara do Kaito!
— Gumi-chan...?
Gakupo levantou na hora e foi até lá. Corri atrás dele a tempo de ver a mão dela se erguendo pra desferir outro tapa.
— Não, imouto– Gakupo segurou o pulso dela com firmeza.
Me assustei ao ver o rosto dela. Nunca vi a Gumi com tanta raiva. Seus olhos até lacrimejavam!
O que aquele alienígena tinha feito a ela?
— Tudo bem, Kamui-san – Kaito respondeu controlado, como se não estivesse com um lado do rosto com uma marca de mão. – Eu fiz por merecer.
Gakupo fez a Gumi se virar pra ele. – Imouto, se acalme, está bem? Vamos pra casa.
Ela só assentiu, sem parecer olhar pra ele ou pra nada. Gakupo olhou para Kaito, confuso. Não tinha a menor ideia do que estava acontecendo, assim como todo mundo ali.
— Vou conversar com ela – disse por fim. – Depois falo com você.
— Estarei esperando – Kaito assentiu calmamente.
Cheguei perto do Gakupo, aflita.
— Posso fazer alguma coisa?
— Não, está tudo bem – ele pôs a mão em meu ombro. – Pode deixar que eu cuido dela.
Vi eles passarem pelo portão, a Gumi passando as costas da mão pelos olhos. Então me virei pro alienígena com os punhos fechados. Alguma coisa ele tinha feito pra deixar a Gumi naquele estado.
E ele ia pagar por isso.
— Fique sabendo que eu não perdoo quem faz meus amigos chorarem – disse, indo na direção dele. – Melhor desembuchar logo e dizer o que você aprontou com a Gumi.
Kaito tinha uma mão sobre a face avermelhada, e me dirigiu um olhar tão triste que quase me desarmou.
— Você é uma boa amiga, Miku-san – ele disse. – Sinto muito por toda esta situação. Mas acho que devo me retirar agora, antes que eu cause mais problemas.
Assim que ele terminou de falar, uma limusine estacionou do lado de fora da escola. Eu assisti atordoada o mordomo abrir a porta de passageiros e Kaito ir embora.
Sério, o que estava acontecendo naquele festival?
— Oe, Hatsune – ouvi a Cul me gritar. – Acabou sua folga!
Omake!
Enquanto isso, na cabeça da Cul...
“Ele elogiou meu yakisoba...? Sério...?”
“♥”
Fale com o autor