Shikashi!!
9 Desafio!
Notas iniciais
Eu ainda não tinha me recuperado da explosão mental, e a Gumi tava desesperada do outro lado da linha.
— Miku-chan! O que eu faço?!
— C-Calma Gumi-chan – respondi nervosa. – Onde você tá agora?
— No banheiro da estação. Eu disse a ela que precisava vir... Nossa, como eu sou idiota! O que eu digo a ela?
— Ela tá te esperando lá fora?
— Tá!!
Respirei bem fundo, pensando no que eu faria se uma garota me dissesse que estava a fim de mim. Provavelmente eu explicaria com toda a calma que já tinha interesse em outra pessoa, e de qualquer jeito não sentia atração por meninas, mas que agradecia pelos sentimentos dela.
Mas claro, eu teria um belo surto antes disso.
— Bom, a Yukari é mais velha, então talvez seja mais tranquilo – eu disse. – O que você sente por ela?
— Amizade, claro! Se eu sentisse qualquer outra coisa eu já tinha te falado, lembra?
— Sim, sim... – Uma pontadinha na consciência me lembrou da minha dívida com a Gumi nesse quesito. Sacudi a cabeça, tentando me concentrar. – Diz isso a ela então, Gumi-chan. Que você agradece muito a atenção dela, mas que agora não tá sentindo nada por ninguém, só pensando no trabalho e nos estudos. Fala a verdade, com certeza ela vai entender!
— Mas e se ela achar que eu não quero ficar com ela porque ela é uma menina?
— Bom, ela vai tá errada?
Um pequeno silêncio antes de ela responder.
— Vai – disse decidida. – Acho que, se eu gostar mesmo de alguém, não vou dar a mínima se é garoto ou garota.
— Então diz isso a ela! A coitada tá te esperando lá fora, não é?
— Verdade – ela deu um risinho. – Vou falar com ela. Valeu mesmo, Miku-chan!
— Que é isso... Vai logo lá!
Voltando pra sala de karaokê eu pensei no que a Gumi falou. Se ela não ligava pro gênero da pessoa, então isso queria dizer que no futuro, talvez a Yukari-senpai tivesse uma chance?
Então lembrei do Len, que tinha ido correndo pra escola se declarar pra Gumi. Ele nem ia ter a chance de receber um ‘não’, já que ela não estava mais lá... Bom, ele sabia o caminho de volta pra casa, não sabia?
Quando entrei na sala, a Rin me olhou com os olhos marejados.
— O que eu faço?
O Kaito tava todo enrodilhado na echarpe, dormindo numa das poltronas. Aparentemente foi só a Rin cantar uma balada coreana e ele caiu no sono.
— Acho que vai ser difícil ele saber que você é a fim dele só através de músicas – eu dei de ombros.
— É, percebi isso... Acho que vou ter que ser mais direta.
— E como vai fazer isso?
Ela atravessou a sala, levantou o Kaito com alguma dificuldade pelos ombros e o sacudiu, fazendo ele acordar.
— Oh – ele esfregou um olho, bocejou longamente e sorriu. – Rin-chan!
— Kaito-kun – Rin exclamou, o rosto corado, a voz trêmula.
Não. Sério que ela ia...?
— Kaito-kun! Eu gosto de voc...
O meu celular tocou na hora, fazendo Kaito desviar a atenção. Não olha pra mim cara, tem uma garota se declarando pra você bem na sua frente!
— É o Len – eu atendi ansiosa. O que será que tinha acontecido?
— Ah, é mesmo – o Kaito disse, fazendo a Rin soltar ele, derrotada. – Onde que ele está?
— Miku-chan – ele respondeu. Tinha muito barulho do outro lado. Não era pra ele estar na escola? – Você ainda tá com a Rin? Podem dar uma passada aqui?
— ‘Aqui’, onde?
— No pronto-socorro. Fui atropelado.
Então, né.
Na pressa de chegar na escola, o Len não viu um carro fazer a curva bem na frente dele. O carro não freou a tempo e Len foi jogado contra o muro da esquina. Mas fora um braço quebrado e uns arranhões ele tava bem, pelo que os médicos disseram.
A Rin e o Kaito entraram na sala enquanto eu esperava fora do hospital, morrendo de culpa. Ok que foi um acidente, mas com que cara eu ia olhar pro Len, depois de ter incentivado o cara a ir atrás do que ele queria? Literalmente correndo, ainda mais?
— Como ele tá? – perguntei quando o Kaito saiu.
— Meio zonzo por causa dos remédios, mas vai ficar bem. A Rin já ligou pros pais deles, e eles estão a caminho.
— Hm, isso é bom. Então a gente já pode...
— Miku-chan! – A Rin chamou ao me ver. – Ainda tá aí? Vem cá, o Len quer falar com você!
Hora de enfrentar o capeta.
Entrei na sala, rígida. A Rin fechou a porta atrás de mim; o Len tinha avisado que queria me ver a sós.
— Olá, Miku-chan.
— Len-kun… — Ele estava recostado na maca, o braço esquerdo engessado seguro por uma tipoia, alguns curativos aqui e ali no rosto. – Como está se sentindo?
Ele olhou para o teto, torcendo o rosto numa falsa expressão pensativa.
— Não sei, Miku-chan. Como será que eu me sinto? Com um braço quebrado, sendo que o campeonato de vôlei interescolar é daqui a duas semanas?
Eita.
— S-Sério?
— Pois é, acho que eu tenho que ter mais cuidado antes de correr atrás do que eu quero – ele virou os olhos azuis pra mim, que no momento, estavam soltando raios laser.
— M-Mas foi um acidente, certo? – perguntei, tentando desviar dos raios.
— Ah claro – a voz dele subiu de tom perigosamente. – Um acidente que poderia ter sido evitado, se um certo alguém tivesse me dito pra pelo menos esperar até amanhã na escola, e não sair correndo feito um louco.
— Ei, eu não disse isso – protestei irritada. – Você foi correndo porque quis. Aliás, foi você quem pediu meu conselho, pra começo de conversa! Não acha que já tá bem grandinho pra ficar botando nos outros a responsabilidade pelos seus atos?
Len continuou a me olhar enviesado, mas assentiu em concordância. – É verdade. Não adianta achar culpados no meio de um acidente. Isso não vai mudar o fato de que eu não vou poder jogar no campeonato... Mas de qualquer jeito, você tem que admitir que eu não teria saído do karaokê se você não tivesse me incentivado a isso, certo?
— É – eu disse devagar. – Mas foi você que...
— Não, eu sei, fica tranquila. Foi um acidente. Nada disso foi sua culpa. Mas... Eu acho que tenho o direito de pedir que você faça uma coisa, pra retornar o favor que você me fez ao me dar aquele conselho.
Eu cerrei os punhos. Aquele moleque tava tentando me chantagear?
— Como é que é?
— Nada de mais, Miku-chan. Tudo o que eu quero é que, até o dia em que o gesso for tirado do meu braço, você já tenha se declarado pro Gakupo-senpai.
Não. Aquilo era golpe baixo.
— Seu... ! – rugi indignada.
— Ora, qual o problema? – ele riu maldosamente. – Você me incentivou, estou te devolvendo o incentivo. Faça isso, ou eu vou contar tudo pra Gumi-chan.
— Deixa de ser babaca. Isso não é assunto seu!
— Bom, agora é – ele apontou o braço engessado. – Ah, e não se preocupa. Assim que eu ver a Gumi, vou me declarar pra ela. Então nós dois vamos estar verdadeiramente quites... Quer dizer, até você fazer a sua parte.
Saí do quarto bufando, e mal cumprimentei os pais dos Kagamine que tinham acabado de chegar. Enquanto eles entravam no quarto a Rin me puxou pro lado e o Kaito se aproximou, curioso.
— Ele te desafiou, não foi? – ela perguntou.
Eu devia saber que a Rin já tava a par da história toda. Devia ter ficado irritada de ver o Len a fim de alguém como a Gumi, que não tava nem aí pra essa coisa de romance. Ela na verdade parecia bem preocupada quando perguntou aquilo.
— Miku-chan, não foi culpa sua. Não se sinta obrigada a fazer nada que aquele cabeça oca te disse.
— Tudo bem, Rin-chan – eu acalmei ela, enquanto pensava no que ia fazer.
Então, decidi que ia acabar com aquilo de uma vez.
— Assim que ele falar com a Gumi, me avise. Eu vou falar com o Gakupo.
A Rin tapou a boca com as mãos em surpresa. – Sério?!
— Ué, é a coisa mais fácil do mundo, só preciso sacudir a pessoa e falar a verdade na cara dela. Você me demonstrou bem isso, Rin-chan – eu sorri pra ela, vendo fumaça sair dos ouvidos dela.
— É, mas no meu caso não deu muito certo – ela lamentou.
— Do que vocês estão falando? – o Kaito perguntou, totalmente periférico na conversa.
Olhamos uma pra outra, antes da Rin responder. – Uma longa história. Vem, vamos te levar pra estação. Ou você prefere pegar um táxi?
— Ah não, minha limusine está esperando.
Ricaço maldito!
— Ok... – A Rin olhou pra nós dois indecisa. – Bom, até amanhã então.
— Melhoras pro Len – Kaito cumprimentou ela daquele jeito de velhinho.
— Obrigada...
Do lado de fora já era noite. A limusine estava realmente esperando, do outro lado da rua, um veículo totalmente nada a ver com aquele lugar.
— Você só tem esse carro? – perguntei. – Tipo, não tem um que seja mais discreto? Ninguém precisa saber que tem um milionário passando pela rua, sabe.
— Oh – ele murmurou. – Não quero passar essa impressão. É que eu nunca saía de casa, e quando o fazia, era na limusine... Mas reparei que não se veem muitos carros desse tipo por aí.
— Pois é.
Nossa, que dia. Eu me espreguicei, sentindo os ombros doloridos e uma vontade enorme de cair na cama. Comecei a seguir pra estação, quando o Kaito me chamou.
— Não quer uma carona?
— Onde, nesse seu carro de astro de hip hop? Não, valeu. Se eu chegasse em casa numa viatura da polícia, ia chamar menos atenção.
— Mas é perigoso pra uma senhorita andar sozinha a essa hora da noite!
‘Senhorita’?
— Valeu a preocupação, Kaito-kun – eu ri. – Mas essa senhorita aqui sabe se cuidar.
— Tudo bem – ele se curvou pra mim. – Até amanhã!
Eu me curvei de volta, só de sarro. O mais engraçado era ele agir daquele jeito, sem a menor ideia do quão estranho ele parecia.
— Até, né.
Enquanto via as luzes dos prédios passando pela janela do metrô, pensei no desafio que eu teria que cumprir.
Sabia que ia ter que fazer aquilo. A Rin já tinha me mostrado como os Kagamine eram decididos, então com certeza o Len ia se declarar pra Gumi na primeira oportunidade.
O problema era que, além de dizer ao Gakupo que eu gostava dele, ainda tinha que explicar pra Gumi o porquê de eu não ter contado sobre isso a ela antes. E se tivesse bastante sorte, a Gumi não ia achar que eu tinha ficado amiga dela pra me aproximar do irmão.
Mas sabemos o quanto a sorte não vai com a minha cara, né.
Eu tava ferrada.
Fale com o autor