Sherlock e Irene Adler, A Mulher.
4 Capítulo 4
Notas iniciais
Watson percebeu que eu não daria chances para que ele observasse o que eu tanto buscava em seu computador, e desistiu. Enquanto ele caminhava para o outro lado da sala, eu buscava sobre os números que A Mulher havia me enviado. Percebi que aquelas coordenadas me levariam a um lugar da França.
– Villiers-en-Plaine. Oh!
– O que? Disse algo?
Logo veio John, se aproximando novamente, buscando saber o que eu tanto escondia de seus olhos. Permaneceu frustrado com sua tentativa falha.
Peguei o celular no bolso da minha calça, comecei a digitar uma mensagem.
[Villiers-en-Plaine. França. Deu sorte, tenho milhas para gastar. SH]
Após enviar a mensagem para Irene Adler, bati o aparelho na testa. Estúpido.
1 NOVA MENSAGEM
[Janela.]
Me aproximei de uma das grandes janelas da sala, afastei um pouco a cortina para o lado e observei o que do outro lado da rua me esperava. Um taxi.
– Ora, eficiente.
Caminhei até meu quarto, peguei meu sobretudo, vesti, arrumei as golas e me senti preparado.
– John, farei uma viagem. Não me espere.
Watson me olhou com olhos de espanto. Estava surpreso. Fechou rapidamente o livro que lia, e apertou as sobrancelhas. Balbuciou algumas palavras e finalmente me interrogou.
– Como? Onde? Para onde você vai, Sherlock? Sem bagagem?
– Não me espere. Mantenho contato. Au revoir.
Sorri sem mostrar os dentes, abri a porta da sala, e desci rapidamente os degraus. Alguns minutos depois Watson pareceu entender.
– FRANÇA.
Gritou John lá de cima, entendendo a pequena dica que havia lhe dado. 20 segundos, pensei. Dr. Watson está ficando bom nisso. Sorri, fechei a porta da 221B, e me encaminhei até o taxi.
___
O taxi estacionou no desembarque do aeroporto. Um velho senhor se virou para trás, e me entregou em mãos um papel e um envelope. Abri lentamente, desconfiando de tudo aquilo.
Querido, ou nem tão querido assim, Sherlock.
Eu começarei dizendo o quanto você foi previsível nesse momento. Você deve estar se perguntando como eu sabia que você iria aceitar minha proposta, eu simplesmente sabia. Parece mesmo que você não se esqueceu de minhas medidas, hum? Dentro do envelope contém suas passagens. Villiers-en-Plaine é um pequeno lugar, com somente 1.700 habitantes, portanto eu saberei quando você estiver aqui. Não me procure, eu irei até você. Até lá, desfrute de seu passeio. Afinal, há quanto tempo você não sai de Londres, e daquele seu terrível apartamento?
Ansiosa,
Irene Adler.
Soltei uma gargalhada quase impossível de segurar. Eu estava assumindo para mim mesmo que aquilo era definitivamente interessante. E curiso, afinal, o que queria ela, A Mulher?
____
Um dia e meio depois
A viagem era relativamente longa. Pelo fato da cidade de Villiers-en-Plaine ser pequena, não havia aeroporto. Fui levado de uma cidade vizinha (nem tão vizinha assim), até a pequena cidade. O táxi parou em frente a uma casa, em sua volta a vista era inteiramente de árvores e verde, podia reparar em outras casas também, mas todas eram pouco distantes uma da outra, e daquele ponto eu quase podia enxergar o fim daquela bucólica área. Percebi que o taxista desceu, abriu o porta malas de seu carro e retirou uma bagagem. Ele dizia em sua língua nativa que aquilo era um presente.
– Ela também pensou nisso?
– Vamos, entre, entre.
Dizia o taxista em um inglês inteiramente carregado de seu sotaque francês. Ele fazia movimentos com suas mãos parecendo me enxotar da rua, me apressando para adentrar a casa. Não quis contrariar aquele homem, ele já me parecia suficientemente irritado.
Parei por um breve segundo para respirar profundamente aquele ar puro da França. O cheiro das árvores, plantas, entravam pelas minhas narinas com a mesma sensação do cheiro dos cookies de senhora Hudson. Maravilhoso. Percebi que eu estava achando bom estar fora de Londres.
Adentrei aquela pequena casa, observando cada ambiente. O chão era de um assoalho velho, rangia a cada passo que eu dava, mas bem cuidado, assim como todas as outras partes da casa. Olhei brevemente a pequena cozinha, depois rapidamente a pequena sala, espiei me encaminhando para o quarto o pequeno banheiro, e enfim, abri a porta do último ambiente lentamente. Parecia que eu esperava por algo, alguma surpresa. Podia se esperar tudo da Mulher. Pela fresta da porta, percebi a luminosidade que a janela do quarto deixava entrar, enfim, tive uma visão completa daquele ambiente, incluindo a cama perfeitamente arrumada ao centro. Nada, nem ninguém. Respirei aliviado.
Coloquei a bagagem que o homem do táxi havia em entregado, sobre a cama, e retornei alguns passos, me encaminhando até a sala. Aí que me lembrei. Arqueei uma sobrancelha, parei bruscamente e voltei até a bagagem. Fui abrindo com certa cautela, o zíper. Aparentemente roupas, algumas camisas, calças, tudo o que usava eventualmente. Por cima de todas aquelas roupas, um novo envelope.
Sabe que eu até pensei em lhe presentear com roupas diferentes, mas tive medo que pudesse recusá-las e preferir andar por aí pelado. Não me agradeça. Suas roupas são sempre iguais, não foi nada difícil. Eu sei que não pretendia passar muito tempo por aqui, ou tempo nenhum. Teimoso como é, viria apenas para saber o que te espera. E acredite, Sherlock, saberá.
Não demore,
Irene Adler.
– Não demore?
Estava confuso. Ouvi três toques na porta. Desviei o olhar rapidamente em sua direção. Quem poderia ser? Voltei a atenção para as duas palavras: “Não demore”. Arqueei as sobrancelhas e meu olhar definitivamente deveria ser de espanto.
– Não.
Eu estava surpreso, e se fosse quem eu achava ser, aquilo estava começando a ficar bem interessante.
Caminhei em passos lentos, desconfiado, claro, mas completamente certo do que me aguardava do outro lado da porta. Toquei a maçaneta, girei, abri a porta. Nada, ninguém. A vista era apenas a grama do quintal, e as folhas caídas e secas que voavam. Voltei a fechar a porta, lentamente, e até visivelmente frustrado.
Uma mão pequena e de unhas vermelhas pintadas, tocou com as pontas de seus dedos a porta de madeira, forçando-a para que eu não fechasse.
– Olá, Sherlock.
Engoli a seco. Merda. Fui surpreendido. Há quanto tempo não ouvia essa voz?
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