Shelter
11 Sorvete de flocos
Notas iniciais
Abri meus olhos lentamente, me acostumando com a claridade. Meu corpo estava dolorido, a cama em que eu estava deitada não era nada macia, aliás, onde eu estava? Ergui meu corpo um pouco, e imediatamente reconheci aquele local, era o quarto do Sasuke.
“FODEU!” Berrei internamente.
Senti um peso leve sobre a minha cintura, olhei para baixo e um braço másculo me envolvia. Uma respiração lenta vinha contra minha nuca, me causando leves arrepios. Virei meu rosto para ver quem era o indivíduo que estava agarrado a mim, apesar de eu já saber quem era, foi um choque virar e me deparar com Sasuke. Ele ainda dormia, sua respiração quente vinha contra o meu rosto, estávamos próximos demais. Pensei em uma forma de sair da cama sem acordá-lo. Peguei no pulso de Sasuke e comecei a afastar seu braço cuidadosamente, mas antes que eu pudesse sair da cama, fui agarrada novamente.
–Bom dia pra você também – Uma voz extremamente rouca murmurou em meu ouvido.
Fiquei assustada, voltei a olhar para trás, Sasuke me fitava com os olhos intensamente negros. E eu me peguei reparando em como a carinha de sono dele era bonita. Não que isso importasse, mas é um detalhe a mais.
–Você estava acordado esse tempo todo! – O acusei.
Ele retirou o braço da minha cintura e ergueu o corpo, sentando na cama. O cabelo estava completamente bagunçado, porém ele ficava ainda mais charmoso. Tratei rapidamente de espantar esse pensamento inconveniente.
–Sim – Admitiu entre um bocejo.
–Você me viu dormindo! – Exclamei desesperada, levando as mãos ao meu cabelo, notando o tanto que estava bagunçado, eu devia estar parecendo uma vassoura.
Sasuke deu de ombros, como se não importasse, mas eu sabia que poderia usar minha aparência matutina para zombar de mim no futuro.
–Acho que é melhor você ir, antes que alguém chegue e encontre você nesse estado – Me olhou de cima a baixo.
Fiquei emburrada, olhei para o relógio em meu pulso e saltei da cama ao ver que passava das nove da manhã, ou seja, eu estava muito encrencada.
–Você me causa problemas demais – Resmunguei enquanto causava os meus sapatos – Hoje mesmo vou te dar alta!
E pela primeira vez, Sasuke sorriu sincero, era o que ele esperava o tempo todo.
–Até que enfim – Disse ele.
Revirei os olhos e marchei até a porta.
–Eu te odeio – Tratei de dizer enquanto abria a porta.
Sasuke riu baixo e me lançou uma piscadela.
Acho que meu coração parou de bater, KAMI MEU CORAÇÃO PAROU DE BATER! Maldito seja o charme supremo de Sasuke Uchiha. Bati a porta do quarto com uma força completamente desnecessária, fazendo o barulho da batida ecoar pelo corredor vazio. Comecei a caminhar em direção ao elevador, como se nada tivesse acontecido, ignorando o fato de ter um ninho de Caturra bem em cima da minha cabeça. Entrei no elevador, descendo até o primeiro andar, corri até a porta da minha sala e entrei rapidamente.
–Até que enfim! – Exclamou Ino, sentada na minha poltrona.
Suspirei, provavelmente ela já sabia.
–Sabe o que eu vi essa madrugada? – Indagou com as sobrancelhas arqueadas.
Sentei na cadeira a sua frente, abaixei o rosto, até encostar minha testa contra a mesa de vidro.
–Foi sem querer – Murmurei fechando os olhos.
–Eu disse para Tsunade que você passou mal e foi para a casa – Disse a loira – Depois passei no quarto do Sasuke... – Fez uma pausa, já podia imaginar o sorriso malicioso – Enfim, tranquei a porta para que ninguém entrasse e te pegasse dormindo de conchinha com um paciente. – Ela deu ênfase à palavra “conchinha”.
Revirei os olhos.
–Não aconteceu nada – Tratei de deixar bem claro – Apenas o desafiei a dormir comigo ao seu lado – Ergui meu rosto.
Ino riu.
–Você é tão esperta amiguinha – Deu um tapinha em meu ombro – Tirou uma casquinha daquele sorvete de flocos.
–Flocos? – Perguntei arqueando uma sobrancelha.
–Meu favorito – Sorriu.
–Você não presta – Murmurei.
–Eu sei – Disse ela levantando da poltrona – Agora trate de ir para a casa, eu disse a Tsunade que você não viria trabalhar hoje.
Franzi o cenho.
–Tenho muito trabalho – Eu disse levantando da cadeira – Hoje o Sasuke vai ter alta.
–Vai? – Indagou.
–Sim, quanto mais longe de mim ele estiver, melhor – Murmurei sentando em minha poltrona.
Peguei minha agenda e abri na página em que Itachi havia anotado o número de sua mãe, não me incomodando com a presença de Ino, peguei o telefone e disquei o número anotado. Esperei por alguns segundos até alguém atender.
–Residência Uchiha – A voz do outro lado da linha anunciou.
–Bom dia, é do Hospital de Konoha, por favor a senhora Uchiha. – Eu disse enquanto olhava para algum ponto adiante.
–Aguarde. – Pediu a moça.
–Obrigada – Agradeci.
Olhei para Ino que me fitava confusa, afastei o telefone da minha boca.
–Depois te explico – Sussurrei para Ino que assentiu.
Voltei a aproximar o telefone da orelha, logo pude ouvir uma voz no fundo perguntando quem era.
–Mikoto Uchiha – Uma voz suave anunciou.
–Bom dia senhora Uchiha – A cumprimentei – Eu me chamo Sakura Haruno, sou médica do Hospital de Konoha – Apresentei-me.
–Bom dia Sakura – Desejou-me – Pois não?
–A senhora é mãe de Sasuke Uchiha, pelo que eu sei – Eu disse enquanto girava uma caneta entre meus dedos – Tentamos por diversas vezes entrar em contato com a senhora, sem sucesso.
Ela permaneceu alguns segundos em silêncio.
–Não estou em Konoha – Disse – Alguma aconteceu com o meu filho? – Perguntou e eu pude notar o tom preocupado.
–Sim, mas pode ficar tranquila, ele está bem, até demais – A tranquilizei – No começo do mês ele sofreu um acidente de carro, passou por uma delicada cirurgia no crânio, esteve na UTI e hoje está recebendo alta.
Novamente fez-se silêncio, em seguida a ligação foi encerrada. Uchihas e sua educação inestimável.
–E então? – Perguntou-me Ino, com um olhar curioso.
Dei de ombros.
–Nos livramos de um Uchiha – Eu disse.
*
Naruto chegou assim que soube da alta de Sasuke, se dispôs a levar o amigo para a casa.
–Eu posso andar sozinho – Resmungou Sasuke assim que Naruto passou seu braço sobre o ombro.
–Deixa eu te ajudar teme – Pediu Naruto, ajudando Sasuke a levantar da cama.
O moreno suspirou e acabou por deixar Naruto ajudá-lo. Eu estava encostada na parede ao lado da porta, com os braços cruzados, apenas observando. Sasuke estava lindo, como sempre, havia trocado o avental hospitalar por uma calça jeans clara, uma blusa gola V cinza e uma jaqueta de couro preta. Naruto parou na porta, Sasuke olhou para mim e nos encaramos por alguns instantes, ele foi o primeiro a desviar.
–Irritante – Murmurou.
–Babaca – Retruquei.
Naruto riu, revirando os orbes azuis.
–Tchau Sakura-chan! – Despediu-se ele.
Eu sorri.
–Tchau Naruto e fique de olho nele – Apontei para Sasuke.
Naruto sorriu.
–Pode deixar, ficarei de olho no teme! – Garantiu.
E finalmente deixaram o quarto, de uma certeza eu tinha, nunca mais veria Sasuke novamente. Caminhei até a janela, pude ver Naruto colocando Sasuke dentro do carro, o moreno parecia xingar Naruto, que se divertia com a irritação do moreno. Naruto fechou a porta do carona e contornou o carro, abrindo a porta do motorista. Sasuke ergueu o rosto, olhando diretamente pra mim, e eu vi o carro partir, não sem antes ter visto o sorriso que o Uchiha lançara para mim.
*
Já havia passado uma semana desde o dia em que Sasuke havia tido alta, uma semana sem problemas, uma semana de paz, uma semana... Triste. Por incrível que podia parecer, eu estava sentindo falta do rabugento Sasuke Uchiha, e aquilo era extremamente perigoso, eu não devia sentir falta de alguém que eu supostamente acreditava odiar.
–Hein Sakura? Sakura? – Ino estalou os dedos na frente do meu rosto.
Balancei minha cabeça atordoada.
–Hã? – Olhei para ela confusa.
–Você ouviu o que eu te contei pelo menos? – Perguntou emburrada.
–Não – Admiti constrangida.
Ino suspirou.
–O que está acontecendo com você? – Perguntou-me ela – Está tão aérea essa semana – Disse enquanto mexia o suco de uva com o canudinho.
Baixei meu olhar, nem eu mesma sabia, talvez até soubesse, mas com certeza não diria a Ino. Não por não confiar nela, a loira era minha melhor amiga, mas se eu dissesse que estava sentindo falta do Sasuke, tinha medo do que ela poderia fazer para que ficássemos juntos.
–Acho que preciso de umas férias – Eu disse depois de alguns instantes de silêncio.
–Concordo – Apoiou Ino – Você trabalha tanto, parece até um robozinho – Sorriu.
Ela tinha razão, eu estava muito sobrecarregada, precisava descansar.
–Depois vou conversar com a Tsunade sobre isso – Suspirei pesadamente – Agora meu horário de almoço acabou, tenho um monte de pacientes – Resmunguei – Que tal filme e chocolate mais tarde em casa? – Propus.
Ino assentiu, concordamos.
–Comédia romântica? – Indagou.
–Como sempre. – Revirei os olhos – Até mais tarde.
–Até – Respondeu.
Fui para a minha sala, comecei a atender os pacientes do período vespertino, que não eram poucos, a maioria consultas para pegar encaminhamento para exames de rotina, fácil e rápido. Após atender todos, finalmente me preparei para ir embora, já passava das 20h00, eu estava esgotada. Ouvi uma leve batida na porta, em seguida uma mulher de cabelos negros apareceu.
–Doutora Haruno? – Indagou.
Assenti, ela entrou na sala e fechou a porta.
A mulher era muito bonita, tinha os olhos negros, o cabelo longo se estendia até metade das costas, trajava um jeans escuro, uma blusa preta de gola alta e por cima um blazer bege. A bota preta de couro ia até a metade de suas panturrilhas, tinha o salto médio. Ela aproximou-se com um sorriso gentil, a face levemente corada, os olhos percorriam cada canto da minha sala, analisando o local.
Sentei em minha poltrona novamente e a mulher sentou-se na cadeira do lado oposto.
–Oi – Cumprimentou-me – Eu sei que estou te atrasando, mas eu preciso muito conversar com a senhorita.
Assenti.
–Eu sou Mikoto Uchiha, a mãe de Sasuke Uchiha – Prosseguiu antes que eu dissesse algo.
Arqueei as sobrancelhas, surpresa com a minha inesperada visitante, os Uchihas tinham genes abençoado, eram extremamente bonitos.
–Ah sim – Murmurei sabendo de quem se tratava – Sasuke está bem? – Não contive a pergunta.
Ela assentiu.
–Sim, muito bem – Disse com um sorriso meigo – Ele já quase não para em casa – Riu baixo – E eu vim agradecê-la por isso.
–Me agradecer? – Indaguei franzindo o cenho.
–Sim, eu soube que salvou meu filho, se não fosse por você, nem sei o que teria acontecido... – Suspirou, e balançou a cabeça levemente como se quisesse espantar os pensamentos ruins.
–É o meu dever – Eu disse.
Mikoto assentiu novamente.
–Mas eu não poderia deixar de agradecê-la – Levou a mão a minha, me assustando um pouco – Muito obrigada Sakura.
Corei de leve, e apertei a mão da mulher a minha frente.
–Como eu disse, é o meu dever – Repeti as palavras que antes havia dito.
Ela soltou minha mão, recolhendo-a junto ao corpo.
–Quero fazer um convite – Disse abrindo a bolsa que trazia junto a si, pegou alguma coisa lá dentro – Quero que compareça ao jantar da família – Estendeu três pequenos papéis pra mim – São os convites, por favor, é muito importante que vá.
Engoli em seco, pensando em recusar, mas Mikoto parecia tão confiante, que acabei por aceitar.
–Tudo bem – Eu disse, guardando os convites no meio da minha agenda – Obrigada.
Mikoto sorriu, levantou da cadeira, pendurando a bolsa no ombro esquerdo.
–Eu que agradeço – Disse ela – Então nos vemos em breve, sim?
Assenti, confirmando. Ela sorriu, ergueu a mão direita e acenou timidamente.
–Tchau Sakura – Despediu-se – E mais uma vez, obrigada.
Sorri e levantei da poltrona.
–Disponha – Respondi.
*
Levei uma colher com um punhado de sorvete à boca, tentando parar de soluçar de tanto chorar ao assistir pela milésima vez “Marley e Eu”.
–Po-Por que o ca-cachorrinho t-tem que mo-morrer? – Lamentava Ino, enquanto se intuía de sorvete de flocos, tentando não chorar.
E lá fomos nós nos abraçar e chorar igual duas bezerras com fome. Era sempre assim.
A campainha tocou, soltei Ino e levantei do tapete, limpando meu rosto com a manga da blusa do pijama. Caminhei até a porta e abri.
–Oi aberração cor-de-rosa! – Cumprimentou-me Deidara, olhando para as unhas.
Quando ele voltou os olhos para mim, soltou um gritinho afeminado.
–Ai Brasil! Que monstra é essa?! – Berrou.
Revirei os olhos e o puxei para dentro do apartamento.
–Mas gente, o que aconteceu com vocês rachas? – Perguntou ele, parando no meio da sala.
Apontei para a TV, Deidara fez uma careta.
–Ai Brasil, ta aberrações, vão tomar um banho e se produzirem – Olhou para o celular – Vocês tem duas horas – Disse voltando a olhar para mim e para Ino que ainda chorava.
Arqueei as sobrancelhas.
–Pra onde vamos? – Perguntei enquanto era empurrada para o banheiro.
–Para a festa na boate Bee – Respondeu Deidara – Vai ser o babado, e você precisa beijar algum boy, então trate de colocar um vestido e ficar bem gostosa – Me empurrou dentro do banheiro e fechou a porta.
E lá ia eu mais uma vez.
Fale com o autor