Shelter
27 Afobar
Notas iniciais
Era a quinta-feira mais atarefada da minha vida, eu havia perdido a conta de quantos pacientes tinha atendido só naquele dia, tirando a pequena cirurgia de emergência que havia realizado na madrugada; eram tantos problemas para uma só semana, que me vi novamente esgotada, passando dias sem dormir e várias horas sem comer.
–Você está só a capa do Batman – Disse-me Ino enquanto caminhávamos pela praça de alimentação quase deserta, afinal eram cinco horas da tarde.
Ino como uma boa amiga, não se importava em me esperar para o almoço, mesmo que fosse para passar algumas horas a mais com fome.
Sentei-me à mesa e fizemos os nossos pedidos.
–Estou cansada – Resmunguei mal humorada – Minha vida voltou a ser o que era há duas semanas. – Lamentei-me.
–E o que você esperava? – Indagou a minha parceira, arqueando uma sobrancelha – Você é a melhor médica de Konoha.
Balancei minha cabeça negativamente, debruçando sobre a mesa.
–Não exagere.
–Você sabe que não estou exagerando – Retrucou – E o seu namoro, como vai? – Perguntou-me a loira me fazendo erguer o rosto, era incrível a capacidade dela de mudar de assunto tão rapidamente.
Apoiei meu cotovelo na mesa, escorando minha cabeça em meu punho direito, fiz uma cara de tédio já que falar sobre o meu relacionamento era de fato um tédio. Sasuke havia desaparecido; não mandava mensagem, não ligava, não aparecia em minha casa para trocar os canais da TV... Simplesmente havia sumido sem dar notícias.
–Sei lá – Respondi.
Ino arqueou uma sobrancelha loira.
–Como assim “sei lá”? – Perguntou ela.
–Ele sumiu. – Murmurei, me ajeitando na cadeira, enquanto nossos lanches eram postos sobre a mesa por uma garçonete.
Peguei um canudinho de plástico e coloquei no copo com suco de laranja, em seguida bebi um gole.
–E não vai procurar saber onde ele está? – Questionou Ino franzindo o cenho.
Peguei o meu x-bacon e dei uma mordida.
–Eu não – Respondi de boca cheia, recebendo uma careta de reprovação da loira.
Pelo menos agora eu podia assistir Dora a Aventureira em paz, sem que ninguém trocasse o canal da TV.
Ino balançou a cabeça negativamente.
–Se o Gaara sumisse eu ia pirar – Disse enquanto mordia um pedaço de seu x-burger.
Revirei os olhos, quando é que ela entenderia que Sasuke e eu não éramos um casal meloso que necessitava um do outro a todo o momento? Eu até gostava de ficar um pouco distante, assim não enjoaria tão facilmente, se bem que enjoar do Sasuke é meio impossível...
–Vamos mudar de assunto – Murmurei já incomodada com aquela conversa – Estou querendo me encontrar com o Sasori.
Ino arregalou os olhos, em seguida começou a tossir engasgada com a Coca-Cola que tomava. Esperei ela se recompor, o que levou alguns segundos de tosse e xingamentos.
–Por que quer se encontrar com aquele cara? – Perguntou-me enquanto passava um guardanapo sobre os lábios – E se Sasuke descobrir? – Indagou olhando para os lados.
Dei de ombros.
–Eu não me importo – Respondi naturalmente – Sei que Sasori sabe onde Tayuya está, preciso da ajuda dele para encontrá-la – Expliquei a ela.
–E o que vai fazer quando encontrá-la? – Quis saber.
–Eu realmente não sei – Admiti – Mas eu quero muito me vingar dela, por isso preciso descobrir onde ela está. – Eu estava decidida.
–Certo – Concordou Ino – Mas acha mesmo que o Sasori te ajudaria nisso? – Inquiriu com a voz baixa – Lembra que eles estavam juntos, talvez estejam em um relacionamento, sei lá.
Talvez estivessem, mas eu conhecia Sasori muito bem, sabia que era capaz de tudo por mim, ele não me negaria ajuda.
–Ele vai me ajudar – Eu disse convicta.
Ino suspirou pesadamente, pois sabia que quando eu estava decidida a algo, nada me faria desistir de tal.
–Então eu vou com você – Disse depois de mais uma mordida no x-burger – E a Karin e a Hinata vão junto com a gente.
Franzi o cenho.
–Não – Recusei – Muita gente só vai atrapalhar, eu vou sozinha.
–Sakura, apenas nos deixe te acompanhar – Pediu em um tom sério – Não quero que se encontre com aquele cara sozinha, imagina se aquela ruiva menstruação estiver com ele?
Era uma das possibilidades, mas eu estava disposta a arriscar. Fiquei alguns segundos pensativa, enquanto eu sugava o suco de laranja pelo canudinho de plástico, e antes que eu pudesse responder, vi Karin surgir atrás de Ino, com a feição não muito feliz.
–Oi ruiva – Saudei-a, observando-a sentar conosco.
–Oi – Respondeu ela transbordando desanimação.
–O que houve? – Perguntei.
Ela ajeitou-se na cadeira, passou a mão pela testa e soltou um suspiro pesado.
–Acho que estou grávida – Disse ela.
Ino largou o x-burger e eu fiquei estática, com o canudinho de plástico em minha boca, olhando para Karin de olhos arregalados.
–QUÊ? – Ino e eu praticamente berramos em uníssom.
Karin revirou os olhos balançando a cabeça negativamente, reprovando o nosso escândalo.
–Não é certeza – Resmungou – Apenas estou suspeitando.
–Está sentindo os sintomas? – Perguntei animada.
Ela assentiu.
–Estou com um enjoo danado – Fez uma careta, olhando para o meu X-Bacon – E o que me faz ter ainda mais certeza de que estou grávida é que minha menstruação está atrasada faz um mês... – Olhou para o lado – E o teste que fiz deu positivo, mas nunca confiei nesses testes de farmácia.
Ino bateu palminhas histéricas, soltando um gritinho agudo.
–Quem é o pai? – Indagou ela, estreitando os olhos.
–Quem você acha? – Karin entoou sarcástica.
Certamente seria Suigetsu, com quem a ruiva mantinha um relacionamento de quase três anos. Eu não conseguia imaginar aquele casal criando uma criança, seria quase a mesma coisa de Sasuke e eu; uma verdadeira tragédia.
–Eu não consigo acreditar que vou ser madrinha! – Exclamou Ino com um grande sorriso.
Virei meu rosto imediatamente, fitando a loira com o semblante sério.
–E quem disse que você vai ser a madrinha? – Perguntei-lhe, enfatizando o “você”.
Ela me encarou e permanecemos em silêncio mútuo por alguns instantes, enquanto fuzilávamos uma a outra apenas com o olhar.
–Não vai me dizer que você será a madrinha – Disse a loira debochada.
Estreitei meus olhos.
–Com certeza serei uma madrinha mil vezes melhor do que você – Retruquei com um sorriso desafiador.
Ino espalmou as mãos na mesa e levantou da cadeira.
–O que você disse testuda?
Eu sorri, enquanto me levantava também.
–Foi o que você ouviu, porca. – Respondi, inclinando-me levemente.
Karin bufou, levantando também.
–Meu filho mal entra no meu útero e já está sendo disputado – Resmungou a ruiva, erguendo as mãos.
Ino voltou a sentar, assim como Karin e eu.
–Karin, a Sakura quer se encontrar com o Sasori – Disse Ino à ruiva, mudando completamente de assunto.
Lancei um olhar mortal para Ino, que apenas me ignorou. Karin arqueou as sobrancelhas, voltando os olhos escarlates para mim.
–Por quê? – Perguntou a mim.
–Quero saber onde Tayuya está – Respondi prontamente.
Karin assentiu.
–Quando vai falar com ele? – Perguntou-me, enquanto levantava de sua cadeira.
–Acho que amanhã depois do expediente – Eu disse incerta.
–Pois me espere – Pediu – Eu vou com você.
Eu ia me opor, porém ela foi mais rápida, e antes que eu pudesse dizer algo, ouvi-a murmurar.
–Não vejo a hora de fazer cada ossinho daquela megera virar pó – Sorriu macabra.
Ino e eu nos entreolhamos, Karin não esperou minha resposta, simplesmente saiu andando rumo à saída da praça de alimentação.
–Ela está estranha – Murmurou Ino,olhando na mesma direção que eu.
Assenti concordando.
–Realmente.
*
Naquela noite, após chegar ao meu apartamento junto a Thor, que havia iniciado o tratamento para impedir que a doença em seus ossos progredisse, deparei-me com Sasuke largado em meu sofá, assistindo o noticiário na TV. Fechei a porta e joguei minha bolsa na poltrona, enquanto sentava no sofá, no espaço próximo aos pés do Uchiha.
–O que houve? – Perguntei olhando para a TV.
–Nada. – Sasuke respondeu, erguendo o controle e mudando de canal.
–Então por que sumiu? – Olhei para ele, observando-o erguer o corpo e sentar no sofá.
Ele balançou a cabeça negativamente.
–Apenas resolvi algumas coisas – Deu de ombros, largando o controle e estendendo as mãos para mim – Dá o moleque ai. – Murmurou.
Cuidadosamente entreguei Thor a ele.
–Quer jantar? – Questionei-o, levantando do sofá.
–Não tem nada na cozinha – Resmungou o moreno – Só água.
Revirei os olhos.
–Não exagere – Apesar de que era verdade – Então vou ao mercado, me espera aqui? – Perguntei me esticando para alcançar a bolsa na poltrona.
Sasuke levantou do sofá, colocou Thor deitado sobre o estofado e pegou a chave e a carteira que estava sobre a mesa de centro.
–Vou com você. – Disse ele.
Dei de ombros, pelo menos eu não gastaria a gasolina do meu carro, ao contrário do Uchiha, eu não podia comprar um posto de combustível, por isso aproveitava as caronas e a bondade do moreno.
*
Sasuke estacionou o carro em uma vaga em frente ao grande estabelecimento, sai do veículo sendo acompanhada por ele, que rapidamente se apossou de um dos carrinhos de metais enfileirados próximos a entrada do supermercado. Sasuke seguia na frente, empurrando o carrinho pelo estreito corredor, enquanto observava os mantimentos sobre as prateleiras. Permaneci a alguns passos de distância, fitando-o de longe, como se fosse uma pessoa qualquer, algo que me incomodava já que devíamos fazer as coisas juntos.
Vendo um casal discutir sobre a qualidade do feijão, uma vontade idiota de muito tempo veio a mim; por mais estranho que pudesse ser sempre achei bonitinho casais fazendo compras, eu gostava de vê-los caminhando de mãos dadas enquanto decidiam juntos sobre o que comprar. Nunca deixei de me imaginar junto a Sasuke nessa situação.
Nem parecíamos um casal às vezes, e ele não se incomodava com isso.
–Licença moça – Ouvi uma voz feminina pedir.
Só então notei que eu havia parado no meio do corredor, impedindo a passagem dos carrinhos das demais pessoas. Sorri constrangida e dei um passo para o lado, saindo da frente da moça. Sasuke estava bem adiante, uma mão apoiava-se na beirada do carrinho de compras, a outra segurava um pacote médio de arroz, que o moreno analisava cuidadosamente.
Fiquei irritada, ele parecia nem notar a minha quase ausência, e lá se ia o meu sonho de andar de mãos dadas pelo mercado. O Uchiha jogou o pacote de arroz no carrinho e começou a empurrá-lo pelo corredor.
–AI! – Berrei.
Assim como Sasuke, todas as outras pessoas que estavam no corredor olharam para mim, imediatamente flexionei minha perna direita e dei um pulinho com a esquerda, apoiei minha mão numa prateleira e tentei me equilibrar.
–Sasuke – Choraminguei, vendo- o largar o carrinho e vim em minha direção – Torci o meu tornozelo.
Sorri internamente pensando em como eu era genial, agora Sasuke teria que me ajudar, me servindo de apoio, sendo assim andaríamos abraçados, o que seria ainda mais romântico.
–Como conseguiu torcer o tornozelo? – Perguntou ele, olhando para o meu pé levemente suspenso.
–Não sei – Respondi, me esforçando para manter a mentira – Mas não vou conseguir andar – Acrescentei.
O moreno arqueou as sobrancelhas, olhou para trás, provavelmente observando o carrinho a alguns passos de distância, em seguida voltando para mim.
–Certo – Murmurou ele, agachando um pouco – Vem aqui – Pediu, passando o braço direito nas curvaturas de meus joelhos, e envolvendo os meus ombros com o outro.
Fui erguida do chão, passei meus braços envolta do pescoço de Sasuke, enquanto ele caminhava de volta ao carrinho. No rápido trajeto, vi os rostos femininos com expressões encantadas pela a atitude do moreno, e naquele momento eu me senti em uma cena de novela das oito. Sasuke sabia ser tão perfeito quando queria...
–AH! – Gritei sentindo um impacto contra as minhas costas, me trazendo de volta a minha dura realidade – O... O quê? – Olhei em volta – SASUKE! – Berrei me contorcendo.
O desgraçado havia me jogado dentro do carrinho.
–Para de gritar igual uma retardada – Disse o Uchiha, começando a empurrar o carrinho.
–Me tira daqui Sasuke! – Rosnei, me debatendo furiosamente.
*
–Açúcar – Resmunguei vendo um pacote branco sendo atirado sobre a pilha de compras – Está pesado Sasuke! – Reclamei, sentindo dificuldade para respirar com aquele amontoado de coisas sobre mim.
–Já vamos para o caixa – Disse ele, jogando outro pacote de açúcar sobre mim.
Chegando ao caixa, a moça assustou-se ao me ver dentro do carrinho, assim como todas as pessoas que passavam ao nosso lado, inclusive teve até um engraçadinho que tirou uma foto daquela situação, minhas ameaças não foram o suficiente para que o fizesse apagar a foto.
Após finalmente as compras estarem pagas, Sasuke enfiou os braços dentro do carrinho e voltou a me pegar no colo.
–Pode me por no chão – Resmunguei esperneando.
E foi o que ele fez, assim que firmei meus pés no chão, tratei de sair o mais rápido possível daquele lugar, com certeza naquele supermercado eu não pisava nunca mais.
–Pensei que estivesse com o tornozelo machucado – Sasuke disse, terminando de colocar as sacolas dentro do porta-malas do carro.
Olhei para ele com raiva.
–Vai para o inferno! – Xinguei, abrindo a porta do veículo e me jogando sobre o banco.
Sasuke entrou logo depois, permanecendo parado na frente do volante.
–Me leva logo para a minha casa – Pedi irritada, depois daquela vergonha eu precisava de algumas horas dormindo, ou dias.
–Se queria ficar perto de mim, era só ficar, você é a minha namorada Sakura, não precisava de tudo aquilo – Murmurou, sorrindo zombeteiro.
–Liga logo essa porcaria. – Bradei, virando o meu rosto para a janela.
–Não.
–Para de ser babaca – Voltei a olhá-lo.
Senti meu antebraço ser envolvido pela mão de Sasuke, e em seguida um puxão me fez cair para o lado. Ergui meu rosto irada, queria esbofetear a cara daquele infeliz, mas antes que eu pudesse tomar alguma atitude violenta, Sasuke selou nossos lábios em um rápido beijo, ele usava essa tática para me acalmar.
–Idiota – Ele sussurrou, em seguida afastando seu rosto.
–Você me joga dentro de um carrinho de supermercado, me faz passar por toda aquela humilhação e eu que sou a idiota – Resmunguei me ajeitando novamente no banco.
–Sakura eu não leio pensamentos, se não me disser o que quer eu não vou adivinhar – Retrucou enquanto girava a chave na ignição.
Suspirei pesadamente, travando o cinto de segurança.
–Às vezes eu só quero a sua atenção, seu ridículo. – Balbuciei, apesar de me odiar por ter admitido aquilo.
Ele deu de ombros, mas não respondeu.
–Belo namorado. – Resmunguei, cruzando os braços e voltando a ficar emburrada.
*
Na noite do dia seguinte eu estava decidida a ir ao encontro de Sasori, lembrava onde ele morava por ter ido a algumas festas que ele tinha feito, e em uma delas ele havia me embebedado e se aproveitado de mim. Após o meu expediente, peguei minha bolsa e sai da minha sala indo até o elevador, onde por azar acabei trombando com Karin que me arrastou até a sala de Ino me acusando de tentativa de fuga, sendo que eu nem havia pensado em tal possibilidade; tinha refletido bastante durante as horas em que havia ficado em minha sala observando o quadro que me intrigava – ainda não havia o decifrado –, acabando por chegar à conclusão de que levá-las era o melhor a fazer, vai que Sasori tentasse algo contra mim? Não que eu não soubesse me defender, até tinha feito umas aulas de defesa pessoal na academia onde Tsunade dá aulas em suas horas vagas, ela acabou por me treinar por alguns poucos meses, e acabei aprendendo muitos golpes. Mas Sasori era persistente, eu o conhecia muito bem, por isso decidi que não iria sozinha.
–Então está mesmo decidida? – Disse Ino, enquanto caminhávamos lado a lado para a saída do grande edifício hospitalar.
Na verdade eu ainda tinha um leve receio, mas nada que pudesse me fazer mudar de ideia.
–Sim. – Afirmei.
Abri a porta do meu carro, me acomodando no banco do carona, Ino iria dirigir, Karin permaneceu no banco de trás, batendo seus dedos contra a tela de seu celular com rapidez.
–A Hinata pediu para que a esperássemos porque quer ir com a gente – Avisou-nos a ruiva, desviando seu olhar do aparelho.
E não demorou muito, logo vimos a Hyuuga correr apressada até o veículo, abrindo a porta e se acomodando ao lado de Karin.
–Vai ser o seguinte – Comecei, enquanto travava o cinto de segurança – Eu vou até a casa de Sasori e vocês ficam no carro.
–Mas Sakura...
–Calma – Eu disse interrompendo Ino – Caso o Sasori tente alguma coisa, eu grito e vocês agem – Olhei para o banco de trás – Entenderam?
Karin revirou os olhos e Hinata assentiu. O carro começou a se locomover, e apesar de ser oito horas da noite, o trânsito não fluía tão rapidamente, o que acabava por me deixar muito ansiosa. Sasori morava em um bairro nobre que ficava no sul de Konoha, nada muito difícil de encontrar, porém longe o suficiente para nos manter enfurnadas no carro por pelo menos quarenta minutos; e durante esse tempo, formulei algumas falas para convencer Sasori a me ajudar.
–É a mesma casa, né? – Indagou Ino sem desviar os olhos da direção.
–Sim – Respondi olhando pela janela – Acho que fica a uma quadra – Murmurei incerta, observando os casarões que ali tinha.
Alguns minutos depois havíamos chegado à casa de Sasori, Ino estacionou o carro do outro lado da rua, deixando o veículo em frente a bela construção. Não havia nenhuma luz ligada, o interior assim como exterior estavam completamente escuro.
–Será que ele está dormindo? – Indaguei soltando o cinto de segurança.
–Bem improvável – Disse Hinata, olhando na direção da casa.
Soltei um suspiro, voltando meus olhos para a casa do outro lado da rua. Abri a porta do carro e me preparei para sair, mas não sem antes ouvir Ino resmungar em protesto. Atravessei a rua lentamente, observando a casa agora mais de perto; pude notar uma sombra movimentando-se atrás da porta principal que era de vidro, olhei por cima do ombro, em direção ao carro e fiz um sinal de positivo para as três que me esperavam no carro, indicando que Sasori estava em casa. Parei em frente ao portão que era bem baixo por sinal, até mesmo eu saltaria a mureta com facilidade. Cliquei no interruptor da campainha, ouvindo o som estridente soar, e em seguida pude ver nítida a silhueta de um homem atrás da porta de vidro esfumaçado. A porta foi aberta e Sasori apareceu.
–Sakura – Murmurou surpreso.
Eu sorri minimamente, observando-o descer os degraus da escada e vir ao meu encontro. Sasori estava do mesmo jeito, mas tinha alguns detalhes que não me passaram despercebidos, como as olheiras profundas e a barba por fazer, a exaustão estampava o rosto do ruivo, que de sorriso aberto veio me receber.
–Boa noite – Saudei-o, atravessando o portão que fora aberto.
Recebi um abraço como resposta.
–Preciso conversar com você. – Eu disse, recuando um passo, fazendo-o me soltar.
Ele assentiu e voltou ao portão, inclinando a metade de seu corpo para fora, olhando para os lados, como se conferindo se alguém estava espionando. Não compreendi aquele gesto, ele parecia aflito, mas resolvi ignorar. O meu carro ainda estava estacionado do outro lado, mas não dava para ver as minhas companheiras, provavelmente haviam se escondido no interior do veículo para que Sasori não as vissem.
Acompanhei o ruivo até a casa, ele empurrou a porta e deu espaço para que eu entrasse. A sala estava parcialmente iluminada pela luz que vinha da TV ligada, Sasori nem se preocupou em ligar a luz, apenas trancou a porta e gesticulou o sofá para que eu sentasse, e assim o fiz.
–Sobre o que quer conversar? – Perguntou-me, sentando-se ao meu lado.
–Vim pedir a sua ajuda. – Eu disse, me afastando um pouco, pois a distância entre nós era mínima.
Ele riu, provavelmente por eu ter me afastado, já que em relação a ele eu era bem cautelosa. Sasori era extremamente persistente, e isso me causava irritação, não desistia fácil e sempre queria algo em troca de seus favores, eu estava convicta que não teria o que tanto queria sem ter que pagar um preço, que não seria uma boa quantia em dinheiro.
–Pois bem – Murmurou o ruivo após alguns segundos de silêncio mútuo – Do que precisa?
–Do endereço da Tayuya. – Respondi imediatamente, odiava rodeios.
Ele não me pareceu surpreso.
–Eu já imaginava – Disse com um meio sorriso – E o que está pensando em fazer? – Inquiriu desconfiado.
–Vou fazê-la pagar pelo o que me fez.
Ele ponderou, pelo menos não havia me negado a ajuda, embora também não houvesse dito que me ajudaria.
–Sakura...
–Por favor – O interrompi – Sasori você viu o que ela me fez, você estava lá, só quero o endereço dela, o resto deixa comigo – Era uma quase súplica.
O ruivo soltou um breve suspiro, fechando os olhos momentaneamente, para então me encarar novamente.
–Certo – Concordou – Mas tenha cuidado, Tayuya não é alguém que deixa as coisas baratas.
Dei de ombros, aquilo era algo que eu já sabia. Sasori levantou-se, pegando uma agenda onde entre as folhas havia uma caneta, pondo-se a escrever algo em uma folha, em seguida arrancando-a e entregando a mim. Li o endereço rapidamente, ficando surpresa ao descobrir onde ela morava.
–Ela mora...
–No mesmo prédio em que o Sasuke – Interrompeu-me o ruivo, completando a minha frase.
Franzi o cenho.
–Essa obsessão já passou dos limites. – Resmunguei, dobrando o papel e guardando em meu bolso – Obrigada Sasori, te devo uma. – Agradeci, virando em direção a porta.
Levei minha mão à maçaneta e a outra à chave, destrancando a porta, porém antes de abri-la e finalmente sair daquela casa, uma mão me impediu, espalmando o vidro, forçando a fechar-se novamente. Olhei por cima do ombro e Sasori me encarou com seriedade.
–Fique para o jantar – Pediu ele.
“Para eu ser a sobremesa? Tô fora.”
–Desculpa, eu estou com pressa – Voltei a puxar a maçaneta – O Sasuke está me esperando – Justifiquei, tentando fazê-lo se distanciar, o que não aconteceu.
–Sakura, Sakura – Cantarolou, esboçando o sorriso cínico – Vamos, é só um jantar – Insistiu.
–Não. – Recusei.
O ruivo fez um biquinho, que eu acharia até bonitinho, se não estivesse tão desesperada.
–Assim você me magoa – Disse entoando um falso ressentimento – Eu te ajudei, não é? – Indagou, aproximando seu corpo ao meu.
Comecei a me encolher entre a porta e Sasori, que à medida que aproximava seu corpo ao meu, inclinava-se tentando aproximar nossas faces. Ergui minhas mãos, espalmando o peitoral firme, tentando empurrá-lo, embora não obtivesse resultado, o ruivo não arredou um pé para longe de mim.
–É sério Sasori – Eu disse afobada – Eu tenho namorado cara, desiste. – Tornei a tentar empurrá-lo.
Vi-o umedecer os lábios com a língua, nossos rostos estavam a centímetros e eu sentia algo arder em meu peito; ódio. Não era a primeira vez que eu me pegava naquela situação junto a Sasori, e em quase todas às vezes ele obtinha o que desejava de mim.
–SHANNARO!
Flexionei meu joelho entre as pernas de Sasori, erguendo-o com força, dando um golpe certeiro na genitália do ruivo, que soltou um grito de dor, logo caindo a minha frente, se contorcendo enquanto gritava.
–DESGRAÇADA! – Berrou ele, gemendo e rolando pelo chão.
Eu sorri.
–Muito obrigada pela a ajuda. – Agradeci sarcástica, abrindo a porta.
Sai da casa, deixando Sasori gemendo de dor para trás, eu realmente temia tê-lo machucado seriamente, mas ele havia merecido. Desci a pequena escada quase tropicando em meus próprios pés, querendo sair dali mais que rápido. O meu carro se encontrava no mesmo lugar, entretanto Ino, Karin e Hinata não se escondiam. Ao me ver, Hinata arregalou os olhos, dizendo algo para as outras duas que logo olharam em minha direção e fizeram gestos com as mãos, tentando transmitir uma mensagem que eu não consegui captar. Ergui minha mão e fiz um sinal de positivo, indicando que havia conseguido, mas Hinata balançou a cabeça negativamente e vi Ino abrir a porta do carro. Assim que atravessei o portão finalmente saindo daquela casa, vi alguém surgir em minha frente, tão rapidamente que não pude evitar a colisão. Cambaleei para trás quase caindo, porém consegui segurar no batente de ferro do portão, já a pessoa a quem esbarrei, havia ido de encontro ao chão.
–Droga – A ouvi esbravejar.
Ergui meu rosto, preparando para me desculpar e prestar ajuda a moça, já que eu era a responsável pelo pequeno acidente, entretanto assim que foquei os meus olhos na pessoa, me assustei. Ela não havia mudado muito, mas o longo cabelo ruivo havia sido cortado acima dos ombros, os olhos estavam escondidos pelas lentes escuras dos óculos que usava, e suas vestimentas largas, como a calça de moletom e o grande casaco de lã, me fizeram concluir que ela não queria ser reconhecida caso alguém a visse perambulando por ali.
–Você... – Murmurou se levantando.
Retirou os óculos, revelando o seu olhar escuro e expressivamente irritado. Eu realmente não esperava encontrá-la ali naquele momento, e sem querer me perguntei o porquê dela estar ali, Ino provavelmente tinha razão sobre a relação entre Tayuya e Sasori, a presença da ruiva naquele momento só confirmava.
Mas então por que Sasori havia me ajudado, já que estava com ela?
–Até que enfim te encontrei, vadia. – Sorri.
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