Shelter.

1 O som da neve.


Notas iniciais
Título do capítulo totalmente random. Vou deixar o link para a música aqui e na história, espero que gostem ^^
http://www.youtube.com/watch?v=F9pP9eMmIAw
Se forem abrir o link que tem dentro da história, por favor, aperte o botão direito e selecionem "Abrir em nova guia".
Obrigada!

Shelter

A noite não perdoava. Os ratos saíam de bueiros e as nuvens pareciam que iam despencar de tão perto. Uma noite não muito tardia, mas fria, pós-chuva.

Uma pessoa vagava pela escuridão. Duas, três. Nada fora do normal.

Duas lágrimas escorreram de um rosto nitidamente pálido e caíram no chão. Não eram lágrimas de dor. Não ainda.

Sentado, de pernas dobradas, e encostado na beira de um salão pelo lado de fora.

Vendo o tempo passar, o despertador tocar e o relógio seguir em frente.

Pessoas andando de um lado para o outro, apressadas, acostumadas com a rotina corrida dos dias de hoje.

E o homem, apenas sentado com seu All Star e sua calça jeans úmida e levemente suja, pensava, refletia e observava.

“O mundo é uma porcaria.” –Disse alguém que passava por ali.


http://www.youtube.com/watch?v=F9pP9eMmIAw


“Gimme Shelter.”

Me dê abrigo.

Os orbes cor de mel do homem fitaram cuidadosamente o jovem e pensou brevemente sobre o assunto.

Se tudo isso não valesse a pena, então porque haveria humanos aspirantes e vivíssimos?

Ele não conseguia absorver a situação. Há poucas horas atrás, um respeitoso homem que usava terno todos os dias, estava na sarjeta. Lacrimejando pelo fracasso.

O que ele sentia era que finalmente havia entendido o sentido de viver.

Ou simplesmente achava que tinha entendido. Apesar de que, depois de tudo que havia acontecido, ele não mais se considerava humano. E nem pensante. Se achava o humano mais burro da face da terra.

E foi quando ele deu à possibilidade de que não foi o culpado. E que talvez o karma havia estado contra ele.

Mas se lembrou que não acredita nisso. E nunca acreditou. Não tinha tempo para pensar nisso. Só pensava em coisas superficiais que acabou esquecendo-se das outras coisas, como o sentimento.

Ganhos materiais? Tinha de monte, até demais. Mas acabou afundando-se por falta de cautela e coração.

Nunca se importou com ninguém, só a si mesmo. Mas isso é até considerável para as pessoas de hoje.

A questão é: se depois disso tudo ele ainda estivesse pensando em salvar seu império lucrativo, ele seria a criatura mais idiota da galáxia.

Mas não, tudo que ele pensava era na raça humana em geral. Em si também, claro.

Ganhos materiais, despertadores dando rumos em nossas vidas e o medo tomando conta da civilização. Era disso que ele mais refletia.

Havia se cansado de tudo e de todos, queria se desligar do mundo ou viver em outro. Queria desistir de tudo. De tudo? De nada, pois ele não havia nada.

Ou o material é apenas o que conta?



Começou a esfriar.

O homem suspirou, tremeu e tentou esquentar-se através do atrito.


Aquilo estava ficando doloroso.


Sem casa, sem amor, sem ninguém. Apenas seu coração. Queria jogar tudo pro alto e desistir da vida, mas não tinha coragem.

A sensação se deixar-se entregar assumiu seus nervos e dominou o corpo do mero humano que simplesmente não tinha forças para sequer levantar.


“Take me away!”

Me leve para longe!

Começou a nevar. Devagar, mas ofensiva, fazia os ossos do moreno de cabelo ralo sentirem profunda dor. Seu choro esquentava seu rosto, mesmo que insuficientemente.

A dor da solidão, a dor de cair de um degrau muito alto, a dor de sentir o fracasso daquilo que levou anos para construir. Tudo em vão.

Não sentia nada, apenas amargura.

Sem esperança, ele pensou: Quantas pessoas não estão piores que eu?

Mas o conflito de pensamentos contrários acabou o deixando louco. Ignorando a incrível dor que lhe atingia até a alma por conta do frio, ele levantou-se, devagar e trêmulo.


-ME TIRE DAQUI! –Ele gritou desesperado.


As poucas pessoas que passavam por ali pararam e fitaram pouco assustadas. Mas momentos depois voltaram a suas respectivas vidas.

Ele virou-se para a parede e começou a bater nela sem motivo algum.


-Eu não quero, não mais! –Respirou fundo. -... Viver aqui. Me tire daqui...


O frio em seu corpo estava ficando num nível crítico. Em breves cinco segundos, ele sentiu a vida passando por seus olhos. Todos os momentos felizes e tristes que teve estavam sendo lembrados, cena por cena. Reação por reação.

Nesta altura do campeonato, já deveriam ser três da manhã e o homem apenas estava vivo por sua enorme força de vontade e teimosia.


“Take me away, to the Unknown wonderland from this plastic world.”

Me leve para longe, para uma maravilhosa terra desconhecida, desse mundo de plástico.

Ele nunca havia chorado tanto na vida.



“Cryin’ out my heart.”

Chorando em meu coração.

E foi quando, por um surto, ele correu com suas últimas forças que ainda sim pareciam fracas e lentas. Contornou o salão em busca da porta, e não ligando para as pessoas em volta, apenas procurava viver seus últimos momentos de vida.

Não se importava se fosse abandonado ou não, só queria desafogar a mágoa de seu coração.


“So now,”

Então agora,

Ele respirou profundamente, como se puxasse os últimos resquícios de ar de seu pulmão.


“Kick the door, scream to world, like this.”

Chute a porta, grite para o mundo, assim:

E chutou a porta com um baque tão grande que provavelmente arrebentou as correntes que o prendiam e as dobradiças que o sustentavam.

Ao ver um enorme galpão com pouca iluminação e com muita umidade, gritou o mais alto que pode.

Gritou como ninguém gritara antes. Mais alto que um ruído insuportável, mais indescritível que um som que estoura vidros.

Um grito tão longo e sincero que nos perguntaríamos de onde o homem tirava forças ou ar para gritar.

Um único grito, que poderia valer por muitos. Nem grave, nem agudo. Uma única expressão que qualquer um no mundo entenderia.

E ao fim, seus olhos se arregalaram, e ao tentar dar algum passo, percebeu que não conseguia se mover, não agora.


E então caiu de bruços, sem forças e sem consciência. E por ali pereceu.


Não sabemos se havia morrido ou não.

Mas sabemos que a manhã trouxe lindos raios de sol que entre os buracos de teto daquele lugar, se infiltrou e atingiu a cabeça do homem.

Ele chorava.


“Gimme Shelter”

Me dê Abrigo.


Notas finais
Espero que gostem, reviews?
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!