Sheikah
20 Sobre acordos, resignações e runas
POV Paya
— EU SOU FILHA DO SOOGA?
— O DEEN AINDA ESTAVA VIVO QUANDO A PAYA NASCEU?
Vovó e eu gritamos ao mesmo tempo quando Dorian termina a história. Ele coça a nuca e desvia o olhar, desconfortável.
— Talvez seja, e sim, estava.
— Calma, calma, calma, calma, calma, CALMA. Eu tô muito confusa — coloco as mãos no rosto, aturdida. — Como assim talvez eu seja filha do Sooga?
Dorian olha para o teto, completamente deslocado.
— Mayi se envolveu com muitos membros do clã ao longo dos anos. No final, parecia que ela estava somente com Sooga — mas é impossível ter certeza.
Vovó parece tão chocada quanto eu.
— Você não tinha me contado a história inteira — ela acusa.
— Foi a última coisa que Deen me pediu antes que eu partisse — Dorian diz, tenso.
— Sim, voltando nisso — diz, apontando um dedo para Dorian. — Eu achei que aquela mensagem era um bilhete antigo... o papel era muito velho. E ainda junto com um anel... eu pensei que... ele talvez tivesse considerado em algum momento... e desistiu. Talvez tivesse deixado com Mayi... — ela reflete, incoerente. — Ele ainda estava vivo quando você partiu — conclui, por fim, chocada.
Dorian aquiesce, claramente sem saber o que dizer.
— Muita informação para dois dias — Tauro murmura.
— Eu me pareço com ele? — pergunto para vovó.
— Não. Você sempre foi a cara de Deen — ela dá um sorriso triste.
Todos ficamos em silêncio, digerindo tudo o que foi exposto.
— Eu preciso de mais vinho — Purah declara após alguns minutos. Ela abre outra garrafa e divide entre nossas taças.
— Eu ainda tenho, obrigada — Zelda agradece, recusando o refil.
— A gente viveu muita coisa nesse castelo — Link diz, parecendo aturdido. — E olha que eu passei cem anos em coma.
— Nem me fala — vovó diz, sarcástica. — Pelo menos você estava dormindo.
— Fiquei curioso para conhecer os lugares que você citou no diário, Impa — Tauro diz, curioso. — As bibliotecas, o laboratório de Purah, a sala de treinos...
— A maior parte dos cômodos foi remodelada depois que o Castelo foi destruído... duas vezes — vovó dá de ombros. — Provavelmente estarão bem diferentes do que eu me lembro.
— A sala de treinos até que deve estar parecida — Purah pontua. — Ficava nos andares subterrâneos. Não deve ter sido tão impactada pelas demolições... e com certeza os voluntários na reconstrução não chegaram até lá ainda.
Zelda endireita a postura, animada.
— A gente podia ir agora! — ela praticamente dança no lugar. — Faz tantos anos que eu não vou lá! Foi onde eu te vi pela primeira vez, Impa.
Link hesita.
— Você deveria dormir — ele diz baixinho. — Já está quase amanhecendo, e amanhã vai ser intenso de novo. Você precisa descansar.
Zelda revira os olhos, irritada.
— Hoje é um dia atípico, Link — ela resmunga. — Eu compenso o sono mais tarde.
Purah faz uma careta confusa.
— Desde quando vocês dois se preocupam com qualidade de sono? O tanto de reclamações que eu já recebi em Hateno porque vocês frequentemente passam a noite... em claro. E em alto volume.
Vovó Impa dá uma risadinha, e Zelda arregala os olhos para ela, em tom de advertência.
— Sua taça de vinho ainda está cheia — Purah aponta. — Eu não te vi completando ela em nenhum momento essa noite. Você também não bebeu ontem na recepção. Zelda... você está...?
Link se vira para Zelda, com as sobrancelhas erguidas em tom de vitória.
— Eu avisei que você não ia conseguir esconder. Ganhei.
A compreensão me atropela.
— VOCÊ ESTÁ GRÁVIDA? — grito, atônita.
— Considerando o tanto que eles... você está mesmo surpresa, Paya? — vovó ri.
Enrubesço imediatamente ao me lembrar como gravidezes acontecem.
— Estou — Zelda acena, orgulhosa. — Ainda é recente... não vamos anunciar para o povo por enquanto. Eu não vou dormir agora — ela se dirige a Link. — Vamos até a sala de treinos, vai ser divertido. É um desejo meu, você não pode recusar um desejo de grávida.
— Como se eu recusasse seus desejos antes — ele resmunga, contrariado, mas está sorrindo. Sua mão vai até a barriga de Zelda, aparentemente de forma inconsciente, e ele faz um carinho delicado em seu ventre.
Sorrio ao presenciar a cena, e meu coração fica quentinho.
Todos nos levantamos para abraçá-los, desejando muita saúde e felicidade para a criança.
Então continuamos conversando enquanto saímos da sala em uma procissão, indo em direção à famigerada sala de treinos. Zelda nos diverte contando sobre quando suspeitou da gravidez.
— Não conseguia comer nada que Link cozinhasse — ela confessa. — Tudo fedia e me deixava enjoada.
— Eu passei dias achando que tinha desaprendido a escolher ingredientes frescos — ele ri. — Ou, pior, que tivesse perdido o paladar... já que pra mim a comida ainda estava boa.
Descemos as escadas, e quanto mais fundo chegamos, mais empoeirado e úmido fica o ar ao nosso redor.
— Vocês já pensaram em nomes? — pergunto, curiosa.
— Bom, se for menina será Zelda — ela dá de ombros. — É a tradição.
— Falta de criatividade — Link provoca.
— E se for menino... eu ainda não tinha tido nenhuma ideia. Mas... — ela olha para Link, que parece conseguir ler o que ela está pensando. Ele aquiesce, concordando mesmo antes de saber a sugestão. — Depois de hoje... eu pensei em Deen.
Vovó Impa para subitamente, pega de surpresa.
— Você tem certeza de que entendeu a história inteira, Zelda? — ela ralha. — Não ouviu o que ele fez?
— Ouvi sim — Zelda rebate. — E o que eu ouvi foi que ele sacrificou muita coisa para garantir sua segurança e bem-estar, Impa.
Vovó franze o cenho, confusa. A atmosfera no grupo fica subitamente mais densa e todos paramos de andar, prestando atenção na discussão ao mesmo tempo em que fingimos estar dissociados.
— Ele me abandonou, Zelda.
— E te salvou depois. E Paya. E Kakariko e Hateno passaram o século inteiro praticamente intocados pelos Yiga, com exceção de um roubo e uma tragédia — sinto muito, Dorian. Como você explica isso?
— Que roubo? Que tragédia? — Tauro pergunta baixinho para mim, enquanto vovó processa as ponderações de Zelda.
— Eles invadiram a vila uns dez anos atrás e furtaram uma relíquia Sheikah que estava lá em casa. Link resolveu na época — respondo em um sussurro.
— E a tragédia foi minha esposa, Illa — Dorian completa com a voz triste. — Alguns anos depois que fugi do clã, eles tentaram me aliciar novamente. Quando recusei, mataram-na em retaliação.
— Ele me abandonou, Zelda — vovó repete, mas sua voz treme. — Ele era um Yiga. Cometeu atrocidades.
— Vamos nos acalmar — Purah intervém. — Ainda faltam muitos meses até essa criança nascer, e a gente nem sabe se vai ser menino ou não.
— Isso — resolvo ajudar. — Estamos chegando na sala?
— Sim! — Purah comemora. — É nesse corredor mesmo... se eu me lembro corretamente... — ela caminha rapidamente, se distanciando de nós. — Deve ser... bem... AHA! Isso mesmo, aqui!
Purah empurra a porta, que abre sem muitos problemas ou ruídos.
— ESTÁ IDÊNTICA — ela pula, comemorando. — Olha isso... exatamente como eu me lembrava... que nostalgia... até as armas expostas parecem ser as mesmas. Vem ver, Impa!
Vovó se adianta para perto de Purah, caminhando hesitante. Decido segui-la... para apoio moral. Não porque estou muito curiosa, claro.
Passamos pela porta, e a sala é exatamente como estava descrita no diário. Formato circular, tatame no chão, dezenas de armas expostas nas paredes e em prateleiras e armários altos nos fundos.
Os outros permanecem do lado de fora, nos dando espaço.
Vovó caminha até a parede onde estão expostas as espadas, e sua mão se ergue para uma kodachi de empunhadura lilás, lâmina preta e gravações douradas.
— É a mesma do diário? — pergunto, sentindo um nó na garganta.
Ela aquiesce.
— Está tudo igual... até a energia — ela franze o cenho, sua voz quebrando. — É quase... quase como se ele estivesse aqui.
No segundo seguinte, o sangue vira gelo em minhas veias e meu coração pula. A kodachi que vovó estava segurando cai no chão com um tinido alto e seco. Ela está tão chocada quanto eu.
Porque, de trás de nós, uma voz grave se ergue dizendo:
— Quem te deu permissão de encostar nas armas, dona Calamidade?
Nos viramos lentamente, aturdidas, confusas, horrorizadas. Os olhos de vovó se arregalam como se ela estivesse vendo um fantasma, uma assombração, e sua mão voa para o peito, como se estivesse tentando segurar o coração.
Um jovem que deve ter minha idade se aproxima de nós, cauteloso, com as mãos erguidas.
Eu nunca o vi na minha vida.
Mas reconheço seu rosto.
— Deen? — vovó está catatônica, paralisada no lugar, uma mão sobre a boca e outra sobre o coração.
E, triplicando minha confusão, ele aquiesce lentamente. Olho para o umbral da porta, onde nosso grupo curioso está espremido, todos tentando assistir ao que está acontecendo — tão chocados quanto nós.
— Não — diz vovó. — Não é possível. Deen tem quase 140 anos, assim como eu. Quem é você?
— Sou eu, luz — ele reitera, chegando ainda mais perto dela.
— NÃO — ela grita, furiosa. — Isso é alguma ilusão dos Yiga para acabar comigo.
— Você gosta do seu café preto e sem açúcar. Gosta de dormir até mais tarde sempre que possível — principalmente se tiver bebido mais cervejas do que deveria no dia anterior. Falando em cervejas, sua preferida era a stout que era vendida no pub do Mike. Você gosta de música e chegava mais cedo nos campos de abóbora quando era jovem só para ouvir sua vizinha praticar.
A cada palavra que sai da boca do suposto jovem Deen, o horror de vovó parece se transformar em incredulidade.
— Você achava Rhoam um velho maluco e odiava a maneira como ele tratava Zelda. Eu comecei a me apaixonar por você no dia em que levamos Link para buscar a Master Sword e você cogitou cometer traição apenas para poupar a vida do garoto. Eu entendi que te amava quando vi sua indignação com a maneira como éramos tratados na época e sua sede por justiça e mudança. Você odeia esperar, e odeia “cavucar na terra” — ele hesita. — Você não quis saber o que me levou a me juntar aos Yiga. E por quase cem anos eu respeitei sua decisão. Mas eu não consigo mais, Impa.
“Eu não espero que você entenda ou que me perdoe. Mas eu preciso que você pelo menos saiba o que realmente aconteceu.
“No dia em que o compêndio de Maz Koshia foi roubado, eu saí de casa e fui direto para Mike. Você e Purah estavam certas de que ele era Kohga, o que era inconcebível para mim — ele me salvara, me amparara, era o mais próximo que eu já tivera de uma figura paterna.
“Mas vocês estavam corretas, afinal. Mike não negou minha acusação. Nessa hora, Sooga chegou — o bar ainda não estava aberto para o público, e ele pegou nossa discussão pela metade. Eu ameacei envolver a realeza e o exército Hylian para dar um fim naquela loucura. E eles te ameaçaram. Você e Purah, na verdade. Existiam muitos membros dos Yiga que não frequentavam as reuniões no bar para manter o disfarce; era impossível saber quem era Sheikah e quem era Yiga. Nenhum lugar no Castelo ou na Cidade era completamente seguro. Mesmo depois do dia em que desertamos, muitos continuaram por aqui, fazendo o que os Sheikah sempre fizeram de melhor: trabalhar nas sombras.”
Meus braços se arrepiam com a ideia de estar sempre sendo observada secretamente por pessoas que desejam a minha ruína.
— Fui forçado a trocar minha liberdade pela sua vida. Sooga sempre foi o melhor estrategista, mas eu era mais habilidoso em combate e magia. Mike precisava de mim para treinar o exército. O acordo foi simples: você e Purah não seriam atacadas, e eu me juntaria aos Yiga oficialmente, para o resto da vida. Me disseram que, se eu matasse Sooga ou Mike, os soldados Yiga infiltrados já tinham ordens para matar vocês duas imediatamente.
“Eu não podia arriscar. Então aceitei.
“Sooga, Kotake e Koume agiram por conta própria no dia da Calamidade. Mike não estava ciente de que eles iam te sequestrar para usar no ritual — ele achava que o plano sempre fora o sacrifício delas. E eu nem sabia que eram eles que iriam engatilhar a Calamidade. Mike deixou escapar por acaso naquele dia, horas antes do pôr-do-sol. Eu cheguei lá tentando evitar que elas concluíssem o ritual… e te encontrei quase sendo degolada por Sooga.
“No final, aprendi que, se tivesse sido você o sacrifício — ou Zelda, ou Link — naquele dia, Ganondorf teria renascido em sua forma humana, ao invés de somente a energia demoníaca de Ganon. Ganondorf era o que eles queriam desde o princípio. Os Sheikah nunca gostaram de liderar, lembra? Para eles, Ganondorf cumpriria essa função.
“No final, a Calamidade foi desencadeada, e eu não te vi por mais de duas décadas. Os Yiga começaram a montar sua base em Gerudo nessa época. Eu permaneci no clã para garantir que você e Purah continuassem seguras — o acordo ainda valia: dúzias de Yiga vagavam pelo território, todos com instruções de matá-las caso eu desonrasse minha parte ou matasse um dos dois.
“Mas eu não ficava o tempo todo na base. Às vezes, eu saía em missão. Às vezes, eu saía para verificar como vocês estavam.
“Quando nos encontramos aquela última vez… foi um lapso meu. Eu já tinha te visto voltando do Grande Planalto outras vezes ao longo dos anos. Geralmente, você seguia viagem sem olhar para trás. Mas naquela você se sentou ali na fonte, parecendo tão… solitária. E eu me tornei dolorosamente consciente da minha própria solidão. E aí você puxou aquela garrafa de whiskey… e eu me lembrei do primeiro dia em que nos abrimos, quando você foi colocada como ‘babá da Zelda’. As memórias me moveram até você naquele dia. Eu considerei tentar mudar os acordos com Mike, arranjar alguma solução para ficarmos juntos, qualquer solução.
“Só que aí… você disse que os motivos não faziam diferença. E eu não tinha nem como me ressentir do seu posicionamento. Eu sempre tive plena consciência das consequências de tudo o que eu fiz. Então decidi me afastar de vez.
“Décadas se passaram. Mayi chegou e rapidamente se mostrou uma psicopata tão grande quanto Sooga. Com os dois falando baboseiras na cabeça de Mike, minha presença ali para lembrá-los constantemente do acordo se tornou ainda mais crucial.
“Até que… todos eles morreram. Sooga morreu de velhice pouco depois que Link despertou do coma. Mayi, alguns meses depois, em coma alcoólico. E Mike, que já estava senil há algumas décadas, desapareceu após o último encontro com Link. E então… eu estava livre. Depois de 120 anos.”
Deen para de falar e estamos todos boquiabertos.
— E como é que você está todo jovem, ent...? — Purah grita da porta, indignada, mas se cala ao compreender.
— Me responda você, Purah — Deen devolve, sorrindo.
— Você invadiu meu laboratório?! — ela rosna, furiosa.
— Conta como invasão se a porta está sempre aberta? — ele pondera, sarcástico.
— E futricou nas minhas coisas?!
— Sim. Fui até lá há algumas semanas para conversar com você — pensei que seria mais fácil do que ir diretamente até Impa. Mas você não estava. Encontrei suas anotações sobre as runas anti-envelhecimento enquanto futricava em todos os livros e cadernos que estavam jogados por ali. E pensei… por que não?
— É você mesmo — vovó parece estar se recuperando do choque.
Deen aquiesce, nitidamente tentando conter qualquer tipo de esperança.
— Eu não espero que você me aceite de volta, Impa. Eu sei que eu errei, e muito. Mas, se o preço era sua vida… eu cometeria todos os erros novamente — mesmo me custando sua presença na minha vida. Mesmo depois de todos esses anos… eu te amo. Sempre amei. Vou amar até o dia em que morrer — e talvez até depois. Você é minha luz, quem trouxe cor e calor para a minha existência.
Todos ficam em silêncio por alguns instantes até que…
— AH, BEIJA ELE LOGO — ouço Link gritando do meio do grupo espremido na entrada da sala.
— LINK — Zelda parece horrorizada.
— Às vezes eu sinto falta de quando você não falava — Purah coloca a mão na testa, r
indo.
— Me escuta — Link parece ultrajado e se vira para Zelda. — Se fosse eu nessa situação, eu teria feito a mesma coisa… se fosse você o alvo. Vai me dizer que você não simpatiza com o que houve?
Zelda hesita.
— É. Acho que eu entendo o sentimento.
— Isso não me parece muito bom considerando que vocês dois vão ser coroados rei e rainha de Hyrule amanhã — Purah frisa.
— Me prende então — Link está indignado. Acho que ele nunca demonstrou tanta emoção assim antes, e é fascinante.
Todos estão tão entretidos quanto eu, esquecendo momentaneamente da situação vovó/Deen que está se desenrolando ao mesmo tempo.
Então, Tauro diz, desconcertado:
— É… acho que a gente deveria… sair.
Olho para trás por instinto e me arrependo imediatamente, pois vovó e Deen estão enroscados em um beijo muito mais intenso do que o necessário, considerando que têm plateia.
— Acho que agora ela finalmente vai deixar eu usar a runa anti-idade nela — Purah sussurra, rindo, enquanto todos saímos para o corredor às pressas, ao mesmo tempo em que Link diz para Zelda:
— Bom, tô vendo que agora vamos ter que arranjar outro nome se for menino.
. . .
Estamos todos reunidos novamente na sala de visitas, dessa vez após o final das celebrações da coroação. Assim que entramos no ambiente há algumas horas e a porta se fechou atrás de nós, Link removeu sua coroa, incomodado.
— Eu preciso mesmo usar esse negócio? — ele resmungou. — É ridículo.
— Só em aparições públicas e oficiais, Link — Zelda riu.
— Eu não posso só ficar na cozinha? Você não se incomoda em liderar, né?
— A gente decide as funções depois com o Conselho.
— O “Conselho” é a Paya e o restante dos líderes das outras tribos, Zelda. Todo mundo sabe que eu não tenho a menor pretensão de efetivamente ser rei. Eu só queria casar com você, por Hylia — Link parecia à beira das lágrimas.
— Eu posso te dar um motivo para usar a coroa com mais frequência — ela deu um sorriso travesso, fazendo com que todos se afastassem imediatamente com o pretexto de procurar por taças, bebidas, qualquer coisa para sair de perto.
Por que todos os casais ao meu redor são tão… indecentes?
Inclusive vovó.
Depois do reaparecimento repentino de Deen ontem e a debandada de todos de volta aos seus respectivos aposentos, não os vimos novamente até a cerimônia de coroação no final da tarde. Tenho certeza de que vovó só apareceu porque foi ela quem conduziu o serviço religioso e fez as orações a Hylia e às deusas da criação.
As pessoas que estavam hospedadas nos quartos adjacentes ao dela estavam todas com olheiras fundas hoje, claramente privadas de sono.
Tauro passou a noite comigo. Exaustos — física, mental e emocionalmente — mantivemos nosso acordo em não fazer nada. Mas eu dormi em seus braços… e foi a melhor noite de sono que já tive na vida. Me acostumaria fácil com isso.
— Por que você estava aqui no Castelo? — Purah interroga Deen, que está sentado no sofá com o braço ao redor de vovó. Ela está recostada nele, ainda aturdida, com os olhos brilhando e as bochechas ruborizadas, como se fosse uma adolescente.
— Bom, obviamente ninguém me convidou, mas eu sabia do casamento e da coroação — qualquer um em Hyrule sabia. Eu tinha certeza de que Impa estaria aqui… então meio que vim por impulso. Só depois percebi que não seria uma ideia muito boa aparecer na multidão… aí me escondi no primeiro lugar que passou pela minha cabeça.
— É surreal que você esteja aqui — Zelda diz, abismada. — E exatamente como eu me lembrava.
Link acena.
— Você passou todos esses anos na base dos Yiga? — Tauro pergunta, curioso.
— Com exceção de missões pontuais e sair para ver Impa e Purah umas duas vezes por ano, sim.
— É um dos poucos lugares em Hyrule que eu não tive a oportunidade de explorar ainda…
— Não perdeu nada — Link resmunga. — A menos que você esteja procurando por um depósito de bananas. Falando nisso — ele se vira para Deen. — Qual é a da obsessão com bananas?
— Elas têm uma enzima que reage com nosso sangue — Purah responde por Deen. — Para Hylians normais, elas apenas aumentam a força. Para os Sheikah, elas também melhoram a vitalidade, a recuperação de ferimentos e a resiliência. Além de serem deliciosas, obviamente.
— Como você sabe disso?
— Cem anos, Linky. Cem anos como pesquisadora independente. Chega uma hora em que acabam os grandes tópicos de pesquisa… e aí a gente precisa apelar para qualquer pequeno mistério que surja na nossa frente para não morrer de tédio.
— E o anel? AI — Link continua, mas Zelda dá uma cotovelada em suas costelas. — O QUÊ?
— Para de ser curioso, você nem sabe se eles já falaram sobre isso entre eles!
Deen passa a mão no rosto, desconcertado.
— É mesmo — Impa se afasta para observar Deen. — Acabei esquecendo de te perguntar no meio de toda a… distração. O bilhete que veio com Paya era antigo.
— A gente já estava junto há quase seis anos — ele diz, hesitante. — Parecia hora de… bem… do próximo passo. Então eu encomendei o anel. Dizem que o rubi contém o poder do fogo nele… e foi você quem trouxe calor para a minha vida. E o símbolo Sheikah era porque foi nossa paixão pela causa que nos aproximou no início. Eu ia fazer o pedido depois que falássemos sobre as reivindicações com Rhoam… mas você já sabe como essa história terminou.
— Você ia me pedir em casamento? — os olhos de vovó se enchem de lágrimas.
— AH, NÃO, SEM LOUCURAS AGORA — Purah grita, frustrada. — Já não basta eu ter casado com Robbie depois de seis meses, e a gente já sabe como essa história terminou. Vocês ficaram juntos um tempão, mas isso foi CENTO E VINTE ANOS ATRÁS. Impa vai usar a runa, ficar jovem, e vocês terão tempo o suficiente para reconstruir esse relacionamento aí com calma. SE. AQUIETEM.
— Sim senhora — Deen ri, divertindo-se.
— Já que estamos falando de “pequenos mistérios” — resolvo me pronunciar. — O uniforme de líder Sheikah. Por que, vó?!
— A saia restritiva era uma ótima desculpa para eu não ter que descer as escadas de casa e obrigar os moradores da vila a virem até mim, e não o contrário — ela dá de ombros, rindo.
— OI? — grito, indignada.
Tauro franze o cenho, confuso.
— Não foi isso o que eu li… será que… — ele murmura para si, bem baixinho.
— Leu o quê? Onde? — questiono, então me viro para vovó novamente. — Vovó! Você está mentindo!
Ela tem um brilho travesso no olhar.
— Você não podia deixar eu me divertir um pouquinho mais, Tauro? — ela ri. — Não, Paya, esse não é o motivo real. Algumas décadas depois da Calamidade, depois de Mayi, eu fui até o Castelo. Zelda não havia entrado em contato durante muitos anos, e eu quis confirmar que ela ainda estava por lá.
“Depois de verificar que ela ainda estava no casulo contendo Ganon, acabei aproveitando a viagem para explorar o Castelo. E, invadindo as salas que costumavam ser restritas antes, acabei encontrando muito material sobre os Sheikah de outrora, da época pré-exílio. O uniforme que eles usavam naquele período era exatamente assim. Me pareceu uma maneira de honrar a história, mantendo a tradição viva. Ganon, Hyrule e os Yiga já tinham tirado tanto de nós… apagado quem nós fomos, sujado nosso legado. E naquela espera infinita de que Link acordasse, eu mesma estava perdendo muito do meu senso de identidade. Me apegar à cultura Sheikah foi como ter um lugar onde me agarrar para não sucumbir.
“Mas eu jamais deveria ter forçado isso a você. E, mesmo sem saber, você acabou fazendo um uniforme muito similar ao que eu usei nos primeiros anos como líder — já que eu basicamente reaproveitei minhas roupas do exército. No final das contas, você acabou fechando o círculo.”
— Eu não fazia ideia — digo, me sentindo culpada. — Desculpe.
— Eu deveria ter te explicado antes — vovó dispensa minhas desculpas. — Mas eu não sabia como, sem contar a história inteira.
— Podemos deixá-lo para celebrações mais especiais? — sugiro. — E o outro que fiz fica para o dia a dia. Se bem que eu precisaria mandar fazer mais trocas… aquele é o único. E eu definitivamente não quero voltar na loja de Nanna e Claree — reviro os olhos.
— Purah comentou o que houve — vovó responde, pensativa. — Eu não fazia ideia de que elas ainda guardavam rancor por causa do que aconteceu com Julian.
— Vocês precisam parar de contar histórias pela metade — reclamo. — Eu nunca disse que foram elas que disseram aquelas coisas, Purah. Como você descobriu? E quem é Julian?!
— Não foi difícil ligar os pontos depois que vi Claree te emboscando na festa do casamento e te fazendo fugir correndo, Paya — Purah explica.
— Julian era o nome do namorado de Ammi — vovó completa.
— O que foi assassinado pelos Yiga? O que ele tem a ver com… — arregalo os olhos ao entender.
— Nanna é filha de Ammi — Tauro diz, chocado.
Vovó aquiesce.
— Sim. Um dia, poucos anos depois da Calamidade, em um dia de embriaguez, acabei contando aquele pedaço da história a Ammi — movida pela culpa. E, bem, ela realmente me culpou pela morte dele. Nunca me perdoou; e ensinou todo o ressentimento à filha… que, aparentemente, transformou o ódio em uma herança familiar.
— Então foi por isso que Claree tentou flertar comigo no casamento… — Tauro conclui, atônito.
— OI? — repito, pela sei-lá-qual-vez nos últimos dias.
Tauro se vira para mim.
— Pouco antes de falar com você no dia do casamento, ela tentou me passar algumas cantadas. Achei estranho: eu frequento Kakariko há anos, e ela nunca demonstrou qualquer tipo de interesse; no dia em que fica escancarado que eu e você estamos envolvidos… ela tenta algo?
“Então eu recusei educadamente, explicando que estava com você. E aí ela começou a falar mal de você — não me lembro o quê, fiz questão de esquecer imediatamente. Mas achei curioso o comportamento, ainda assim. Agora faz sentido.”
Um silêncio confortável cai no ambiente enquanto todos digerimos o restante das revelações que aconteceram.
— Obrigado pelo presente de casamento, pessoal — Link diz por fim, rindo, enquanto toma mais um gole do seu vinho.
— Que presente? — pergunto, intrigada.
— Pode não ter sido um diário em minhas mãos… mas essa foi a melhor fofoca que eu já ouvi na vida — ele gargalha, satisfeito, e ergue a taça propondo um brinde. — Saúde!
— Saúde — repetimos em uníssono, também felizes — e, talvez, um pouquinho atordoados.
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