Sheikah
2 Pior que segredos ocultos e magias secretas
POV Paya
Fico em silêncio por alguns segundos à procura de algum som que indique que não estou sozinha na casa. Vovó partiu há algumas horas para a Cidade do Castelo, onde ela vai se encontrar com Purah, Zelda e Link. Eles irão começar os preparativos para as comemorações que ocorrerão daqui a poucas semanas.
Primeiramente, será celebrado — desta vez em grande escala — o casamento de ambos. A primeira cerimônia foi simples e pequena, no alto do monte Tuft. À luz dos eventos que estavam ocorrendo na época — luas de sangue, miasma debilitando os moradores do reino, retorno de reis demoníacos e maldições —, eles optaram por não fazer um grande alarde de sua união.
Agora, no entanto, com tudo sob controle e nenhuma ameaça à vista, a princesa Zelda deseja compartilhar sua felicidade com seus súditos — com toda a pompa e circunstância que um evento da família real exige. Serão três dias de festa; o primeiro, apenas para recepcionar os convidados; o segundo, o casamento em si; e o terceiro será, finalmente, a coroação de Zelda enquanto rainha de Hyrule — uma vez que já não faz mais sentido ela continuar atuando sob o título de princesa regente.
Portanto, durante as próximas semanas, eu estarei cuidando sozinha de Kakariko. Não será a primeira vez: quando Ganondorf retornou, vovó passou semanas fora, auxiliando na busca por novas informações que pudessem ajudar na resolução daquele problema. Naqueles dias, eu me sentia completamente desorientada sobre o que deveria fazer como líder Sheikah. Eventualmente, acreditei que tinha pegado o jeito e que estava agradando os moradores com minha gestão.
Bem… até poucos dias atrás, quando ouvi Claree e Nanna conversando sobre mim. Desde então, tenho vivido em um torpor estranho, sem conseguir me concentrar direito em nada do que estou fazendo. Em momentos aleatórios sou invadida por uma raiva intensa pela condescendência com que todos têm me tratado desde que assumi a posição; poucos instantes depois, sou esmagada pelo peso da minha própria incompetência e a certeza de que eu jamais conseguirei preencher o vácuo que foi deixado pela vovó quando ela renunciou ao cargo.
Os dias se tornaram densos e morosos. Apesar de tentar disfarçar meus sentimentos, cada interação com os moradores drena completamente minha energia. Ao ouvi-los, questiono internamente cada palavra que sai de suas bocas. Duvido de suas intenções e tenho completa certeza de que, depois, todos se reúnem para falar mal de mim e rir da minha patética tentativa de liderá-los.
E o pior de tudo… eu perdi a capacidade de me importar com os problemas que eles me trazem. Mais do que qualquer coisa, esse fato confirma qualquer suspeita de que eu não sou apta para a posição. E, ao mesmo tempo… renunciar e devolver o cargo para vovó seria como admitir àquelas víboras Claree e Nanna de que elas estavam corretas.
Ao pensar nesse cenário, sinto o sangue correr e meu coração bater furiosamente.
Não... eu não poderia dar o gostinho a elas.
Ainda não consegui descobrir como, mas vou fazer os Sheikah retornarem à tal glória tão apreciada por Nanna. O que exatamente isso significa, eu não sei… mas não importa. Seremos ainda melhores do que ela pintou. E, ironicamente, elas mesmas já me auxiliaram a dar o primeiro passo na direção deste objetivo: o novo uniforme que usarei será imprescindível nessa jornada. Ao passo de que minha antiga vestimenta me impedia de sequer andar confortavelmente, este novo traje me permitirá ter agilidade, me movimentar como eu quiser e como eu precisar.
Com os músculos tensos em expectativa, ajoelho-me ao lado da minha cama, procurando pela caixa que escondi ali debaixo. Meus dedos tateiam o chão por alguns segundos antes de encostarem no papelão. As palmas de minhas mãos estão suando, como se eu estivesse prestes a cometer um crime.
Puxo a caixa, mas sinto que ela se prende em uma das madeiras que compõem o piso do quarto. Franzo a testa e puxo novamente — e, dessa vez, escuto um barulho seco e oco, como se o assoalho estivesse solto.
Intrigada, me levanto e decido tirar a cama do lugar para averiguar melhor a situação. Arrasto-a na direção do meio do quarto, abrindo um corredor entre ela e a parede. Pego a caixa com o uniforme, agora facilmente acessível, e a coloco em cima da minha escrivaninha. Retorno, então, para analisar o piso. Me ajoelho novamente e dou socos leves no chão, procurando por algo incomum.
Ouço o barulho oco novamente e consigo identificar qual dos assoalhos está solto. Procuro por alguns segundos e encontro uma reentrância na madeira que permite que eu coloque um dedo e puxe a tábua para cima.
Surpresa, vejo que o buraco não está vazio. Dentro dele, existem dois livros. Um caderno desgastado, pequeno e denso, com capa de couro marrom — claramente, um diário. Embaixo dele está algo que me lembra uma enciclopédia; enorme, muito pesada e, definitivamente, antiquíssima. E, por baixo dos livros, uma caixa de papelão. Todos os itens estão empoeirados, como se estivessem lá há muito tempo. Percebo, inclusive, algumas teias de aranha. Coloco todos os itens sobre a cama e decido abrir a caixa. Assim que retiro sua tampa, sinto o sangue gelar em minhas veias.
O primeiro objeto que reconheço é uma pequena foice. Exatamente a mesma usada pelos Yiga, com o mesmo tamanho, empunhadura e gravações. Sinto asco à ideia de tocar no item, pensando em quantas vidas foram cruelmente terminadas por meio dele. Mas o nojo é vencido pela curiosidade em descobrir o que mais existe nessa caixa misteriosa, então afasto cautelosamente a arma para pegar um pequeno saquinho de veludo. Despejo seu conteúdo sobre a cama e vejo dois itens.
Primeiramente, um anel dourado e ornamentado por uma pedra vermelha. Por dentro do aro está gravado o símbolo que pode ser tanto dos Sheikah quanto dos Yiga, dependendo da orientação que se olhe.
O segundo item é um bilhete, escrito em um papel pequeno e amarelado. Nele está apenas uma frase curta:
À luz que ilumina todas as minhas sombras.
— D.
Permaneço sentada no chão por alguns minutos, cercada pelos espólios de minha busca, completamente aturdida. O que são todos estes itens? Por que estavam escondidos sob a minha cama? Quem é D?
Balanço a cabeça, tentando reorganizar os pensamentos. Talvez existam respostas em algum dos livros. Ou em ambos.
Decido começar pelo livro menor. Estranhamente, minhas mãos estão tremendo e úmidas. Eu as seco na minha roupa e alcanço o pequeno diário, sopro a poeira de sua capa e o folheio rapidamente. Meu cenho se franze com a sensação de familiaridade à caligrafia destas entradas. No entanto, ao parar em uma página para analisar melhor, percebo que as anotações estão no antigo alfabeto Sheikah. Suspiro, frustrada. Aprender novos idiomas nunca foi uma facilidade minha.
Imagino que o outro livro também estará codificado, mas o pego mesmo assim. Minhas suspeitas estão corretas, e entendo, decepcionada, que não conseguirei retirar informações deles tão facilmente. Então, sem conseguir prosseguir neste mistério neste momento, decido guardar estes pequenos tesouros em meu armário para retomar sua tradução assim que for possível.
Voltando à minha missão inicial, abro a caixa que contém meu novo uniforme como líder Sheikah. Não tive coragem de vesti-lo enquanto vovó ainda estava por aqui; mas ela estará fora por semanas, então acredito que até nos encontrarmos novamente o povo já estará acostumado com meu novo visual.
Passo a mão pelo tecido macio; a malha é delicada e, ao mesmo tempo, firme e resistente. Removo as peças da embalagem e as visto. Testo me mover, com as coxas roçando uma na outra enquanto caminho, e noto, agradavelmente surpresa, que realmente não estou fazendo barulho algum.
Apesar de ter sido confeccionado por pessoas não tão agradáveis, não consigo deixar de admirar o resultado do traje. Ele se moldou perfeitamente ao meu corpo, como uma segunda pele. A cor azul marinho das calças leggings contrasta com o tecido creme e vermelho do saiote — meramente decorativo — e com as ombreiras douradas. Ao me mover, me sinto livre e ágil. E, ao me olhar no espelho, me sinto… bonita.
Estou hesitante em iniciar a ronda desta manhã, mas me forço a descer as escadas e caminho até as portas da casa. Ao abri-las, uma brisa gelada bate em meu rosto; no entanto, minha temperatura corporal é mantida perfeitamente pelo tecido do traje. Respiro fundo e aquele aroma de terra molhada, frutas frescas e madeira queimando, tão tradicional do vilarejo, me dá a coragem necessária para descer a escadaria principal.
Dorian e Cado estão aos pés do arco de entrada, montando vigia em silêncio. Divirto-me secretamente ao perceber que eles não se deram conta de minha aproximação, então me movo ainda mais lentamente até estar a poucos centímetros de distância deles.
— Bom dia, senhores — digo, em um tom de voz um pouco mais alto do que o comum. Preciso conter a risada ao vê-los pulando com o susto.
Dorian se recupera primeiro, enquanto Cado se apoia, arfante, na coluna de madeira, com uma mão fechada sobre o coração e os olhos arregalados.
— Senhorita Paya, bom dia — Dorian me cumprimenta, e sua expressão de poucos amigos faz com que a risada que eu tentei segurar escape pelo meu nariz, me fazendo soar como um porco.
— Desde quando você é silenciosa, chefe Paya? Geralmente conseguimos ouvir você se aproximando a metros de distância, aquele toc-toc-toc maldito dos tamancos batucando na madeira… — Cado reclama, mas se cala ao notar o olhar de Dorian o repreendendo. — Belo traje!
— Obrigada, Cado — digo, me recompondo. — Achei que estava na hora de… mudanças.
Dorian observa a conversa com o cenho franzido, sem demonstrar reações — fora passar a mão em sua barba branca, seu olhar preocupado e desfocado. Provavelmente ainda se recuperando do susto, mas sem querer deixar transparecer.
Decido parar de incomodá-los, me despeço e retomo meus afazeres.
Sigo meu trajeto tradicional pelo vilarejo, cumprimentando os transeuntes e fazendo o bate-papo de todos os dias. Alguns reagem ao meu novo visual, elogiando a farda nova e concordando que ela parece ser muito mais prática que a antiga. Outros encaram com surpresa mas não fazem comentários.
Chego ao trecho final da caminhada, descendo o morro que termina de volta em frente à minha casa. Vejo que Tauro está pouco abaixo das ruínas que caíram próximas ao cemitério do vilarejo, então aproveito para me atualizar sobre o progresso da retirada dos destroços.
— Senhor Tauro, bom dia! — cumprimento à distância, tentando evitar assustá-lo também.
— Bom dia, senhorita Paya — ele responde, sorrindo, sem levantar os olhos da prancheta onde está anotando alguma coisa. — Como você está?
— Muito bem, obrigada. Como estão os trabalhos de remoção dos escombros?
— Estamos prosseguindo em um ritmo bom, acredito que nas próximas semanas conseguiremos terminar de organizar tudo e… — ele pausa ao abaixar a prancheta e olhar na minha direção.
— E…? — incentivo, intrigada.
— E… levá-las para a região de… Faron — Tauro responde, sem sua costumeira desenvoltura. Ele balança a cabeça e coça a testa levemente. — Cado tinha comentado algo sobre um suposto uniforme novo.
Tauro não é a primeira pessoa hoje a desviar o assunto por causa de meu traje, então apenas aceno com a mão, dispensando o tópico.
— Sim, sim, o traje tradicional é muito restritivo — digo, repetindo o discurso que já fiz uma dúzia de vezes hoje. — Decidi encomendar um novo, que me permitisse participar melhor das tarefas no vilarejo.
— Entendo. Suponho que faça sentido, visto que você tem desempenhado seu papel de forma muito mais ativa que sua avó.
Balanço a cabeça, feliz com sua compreensão.
— Exatamente! Eu mal conseguia andar no antigo — sussurro, de forma conspiratória. — E me sentia uma velha senhora nele.
Tauro gargalha com minha confissão.
— É, não posso discordar. Faltava pouco para você começar a nos oferecer balas de gengibre e reclamar de dor no quadril — ele brinca, mas se interrompe, ruborizado. — Desculpe, isso foi inadequado.
Fico confusa com sua reação e dou uma risadinha.
— Sem problemas, senhor Tauro.
— E tem sido mais fácil executar suas tarefas, senhorita Paya?
— Bom… desde que tudo se acalmou, minhas "tarefas" consistem em rondar o vilarejo e perguntar se os outros estão bem. Mas sim, mesmo isso foi mais fácil hoje.
— Fico feliz em ouvir — Tauro sorri.
De repente, uma ideia me ocorre, fazendo meu coração disparar levemente.
— Senhor Tauro, você… sabe falar outros idiomas, não?
— Sim, senhorita Paya. É uma habilidade essencial para o exercício das minhas funções enquanto historiador e pesquisador.
— Você, por algum acaso, está familiarizado com o antigo alfabeto Sheikah?
Tauro aquiesce.
— Estou sim. Precisei aprender durante o estudo das antigas tecnologias Sheikah em conjunto com Purah. Você está precisando de algo?
— Na verdade, sim… — respondo, feliz.
. . .
Tento focar no texto à minha frente, sobre agricultura e as melhores técnicas para se plantar abóboras. A cada poucos minutos, no entanto, percebo que estou relendo o mesmo parágrafo pela terceira vez.
Meu cérebro não consegue se concentrar em nada além do fato de que Tauro está com os antigos livros que encontrei. Deixei-os com ele pela manhã, após sua confirmação de que provavelmente conseguiria traduzi-los. Tauro me informou de que tentaria dar uma olhada rápida neles ao longo do dia, para, no mínimo, descobrir do que se tratavam.
O combinado era o de que iríamos nos encontrar novamente pela manhã para discutirmos as descobertas.
Logo ficou claro de que minha ansiedade não me permitiria esperar tanto tempo.
Levanto-me da almofada no chão e saio de casa. Já escureceu há algum tempo, então imagino que já tenha passado das dez horas da noite. Desço as escadas e vejo que, apesar de hoje ser o turno de Cado, ele está sentado no chão, cochilando. Balanço a cabeça, contendo uma risadinha ao passar por ele.
Vejo que o pequeno escritório onde os pesquisadores da equipe de Tauro trabalham está aceso. Ele está sentado à mesa, folheando meus livros. A luz da lamparina dança sobre seu rosto, e eu me distraio observando seus músculos. Ao me perceber fazendo isso, minhas bochechas queimam. Contrariada, sinto meu corpo retesar ao ser invadido pela timidez paralisante que costumava ser minha companheira até poucos anos atrás.
Chacoalho os braços, tentando espantar a sensação maldita, sem entender exatamente de onde ela está vindo. Meu coração ainda bate em um ritmo descompassado, porém sigo em frente até chegar à plataforma onde fica o escritório. Ao me aproximar, percebo que a feição de Tauro para os papéis à sua frente é de fascínio e, ao mesmo tempo, preocupação.
— Boa noite, senhor Tauro — digo baixinho, sentindo-me culpada por quebrar sua concentração, e sento na cadeira diante dele.
Tauro se sobressalta levemente ao notar minha presença mas logo se recompõe.
— Ah, boa noite, senhorita Paya. Já está tarde. Aconteceu alguma coisa?
— Não, eu… — minhas bochechas queimam novamente. — Eu não consegui conter a ansiedade. Gostaria de perguntar se você teve chance de analisar os livros.
Tauro acena, arregalando os olhos.
— Tive sim. Onde você encontrou esses artefatos, senhorita?
— Estavam escondidos sob minha cama, eu lhe falei mais cedo. São importantes?
Ele me indica o livro maior, que está aberto entre nós.
— Essa… enciclopédia. Não sei se eu deveria lê-la — Tauro admite, apesar de o brilho em seus olhos demonstrar que seu desejo é o oposto. — Ela está carregada de técnicas secretas Sheikah de combate. Descrições de treinamentos, magias secretas e encantamentos milenares.
Franzo a testa confusa. O que um livro deste estaria fazendo em meu quarto? E mais do que isso… técnicas secretas? Eu nunca ouvi falar sobre isso. Por que esse conhecimento foi escondido de mim? De nós?
Tauro prossegue, reticente:
— Acredito que estas sejam informações secretas de seu povo, senhorita Paya. Não sei se seria adequado eu prosseguir com a transcrição destes textos.
Treinamentos. Magias secretas. Encantamentos milenares.
Seriam estes os requisitos para retomarmos à antiga glória elogiada por Nanna?
Tauro me encara, seus olhos carregados de preocupação e cautela. Talvez ele tenha razão e eu não deva compartilhar esse conhecimento com alguém que não é um Sheikah. Talvez eu deva esperar até me reunir com a vovó, para trabalharmos em conjunto nessa tradução.
Mas por outro lado… uma estranha intuição me diz que não é uma boa ideia envolvê-la nessa história.
Encaro Tauro novamente e, ao notar o brilho em seu olhar, percebo que confio nele.
Sim, talvez eu não deveria compartilhar este conhecimento com qualquer um. Mas Tauro já está trabalhando em prol de Hyrule há muitos anos, sempre com dedicação total e completo respeito às nossas histórias e tradições. Há muito ele se tornou um de nós.
Respiro fundo, tomando a decisão.
— Eu, como líder dos Sheikah, permito que você continue a estudar este livro — declaro. — Com duas condições.
Tauro inclina a cabeça levemente, intrigado.
— Primeira — prossigo, levantando um dedo. — Você deve tratar esse assunto com extrema confidencialidade. Vou manter os livros em casa, e nós trabalharemos juntos para decifrá-lo, ao final do dia. Se você não se incomodar de estender um pouco suas horas de trabalho, claro — acrescento, rapidamente.
Tauro aquiesce, claramente animado com a perspectiva de aprender algo novo sobre o passado.
— E segunda — digo, dando um sorriso tímido. — Você precisa prometer não rir de mim quando eu testar os tais treinamentos e magias.
Tauro levanta a mão direita e coloca a esquerda sobre o coração, como se estivesse fazendo um juramento.
— Palavra de honra — ele diz, rindo.
— Combinado então! E o outro caderno, você conseguiu ver também?
Tauro faz uma careta, desconfortável.
— Sim… e esse eu realmente não me sinto confortável em traduzir, senhorita Paya.
— O que pode ser pior que segredos milenares e magias secretas, senhor Tauro?
Depois de uma leve pausa, Tauro responde:
— O diário de sua avó.
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