Sheikah

3 Eu avisei que não era ágil


POV Paya

Folheio o pequeno caderno de couro pela enésima vez.

Um diário secreto. Da vovó Impa. Escondido sob minha cama… há sabe-se lá quantos anos.

Paro em alguma folha aleatória, observando as inscrições no alfabeto arcaico. Me amaldiçoo por não ter dedicado ao menos um pouco do meu tempo de estudo à antiga língua Sheikah.

Não que eu fosse ler o diário da vovó se tivesse tal habilidade. Seria uma grande invasão de privacidade.

Mas… o que tem ali de tão misterioso que precisou ser escondido sob o assoalho?

Levantando da cama, decido guardá-lo na escrivaninha. Talvez, se ele estiver fora do meu alcance, a curiosidade se dissipará. Pego a enciclopédia, desço as escadas, e me acomodo nas almofadas do chão. Já escureceu há algum tempo, então Tauro deve chegar em breve. Cado e Dorian pareceram desconfortáveis com minha ordem de que permitissem sua entrada após o anoitecer, mas não questionaram — uma das raras vantagens em ser a líder do vilarejo.

Enquanto aguardo, abro o grande livro em uma página aleatória. Não consigo entender o que está escrito; no entanto, durante minha exploração prévia, identifiquei que existem diversas ilustrações interessantes em seu conteúdo: diagramas de selos para serem feitos com as mãos, algumas poses de combate, gravuras de diferentes armas… e o desenho de algo que me pareceu ser um bolo de banana. Curioso, muito curioso.

Sou removida de minha contemplação ao ouvir batidas discretas na porta de entrada. Rapidamente me adianto para abri-la e dou de cara com Tauro… e Dorian a tiracolo.

— Boa noite, senhorita Paya — me cumprimenta Tauro.

— Boa noite, senhor Tauro! Obrigada por vir — digo, me inclinando um pouco para encarar seu companheiro. — Dorian? Aconteceu alguma coisa?

Dorian hesita um pouco, parecendo ligeiramente tenso. Depois de alguns segundos, ele balança a cabeça como se estivesse dispensando algum pensamento.

— Não, chefe Paya. Apenas conferindo se está tudo certo por aqui.

— Tudo ótimo, obrigada pela preocupação. Pode retornar a seu posto, por gentileza.

Dorian balança o corpo levemente, deslocando o peso de uma perna para outra, pensativo. Parece querer dizer mais alguma coisa, mas se impede outra vez.

— Se precisar de algo… estou no lugar de sempre.

— Eu sei. Obrigada — digo, genuinamente grata.

Ele permanece ali por mais alguns segundos antes de se virar e descer as escadas lentamente, olhando por cima dos ombros a cada poucos degraus. Preciso conter uma risadinha com seu comportamento super protetor. Seguro a porta aberta para que Tauro entre.

— Com licença — ele pede, educado, ao entrar.

Fecho a porta atrás de nós e indico a enciclopédia que ficou no chão.

— Estava folheando-a agora a pouco... mas confesso que não entendi nada.

Nos sentamos no chão com o livro entre nós. Tauro encara as folhas abertas e seus olhos brilham, transbordando curiosidade.

— Pode pegá-la, senhor Tauro — eu rio. — De que outra maneira poderemos descobrir o que tem aí?

Tauro acena e estende as mãos para o volume, segurando-o com reverência. Ele o fecha, analisa a capa por alguns segundos… depois a vira e admira a lombada e, por fim, a contracapa. Folheia as páginas, olha a primeira, a última… e então, parecendo esquecer de que não está sozinho, leva o livro ao rosto e o cheira. Tudo me parece muito ritualístico e eu não consigo conter uma risadinha. O som parece quebrar o encanto e ele, ao perceber minha reação, fica levemente corado.

— Desculpe. Coisa de pesquisador — ele se justifica, envergonhado.

— Sem problemas. Faça o que for necessário.

— Sim, sim. Vamos iniciar — Tauro abre a página inicial novamente e analisa as inscrições da folha de rosto. — Bom, aqui temos o símbolo dos Sheikah, como você já conhece bem. O olho com a lágrima. Você sabe qual a simbologia por trás deste ícone, senhorita Paya?

— O olho aberto indica a busca por conhecimento e sabedoria — respondo, me lembrando do que eu estudei. — A lágrima eu não tenho certeza… não me recordo.

— Certo. Eu também não sei; podemos questionar à sua avó ou à Purah, eventualmente. Elas devem saber. Prosseguindo… aqui embaixo está escrito “Compêndio Sheikah — Técnicas de combate e defesa, conforme ditado pelo mestre Maz Koshia”.

Franzo o cenho. Maz Koshia… esse nome não me é estranho, mas não consigo recordar onde o ouvi antes. Tauro não nota minha hesitação e simplesmente continua.

— Aqui no prefácio existe um breve resumo dos conteúdos disponíveis nesse volume. Essa página eu já havia traduzido ontem, quando estava com o livro durante o dia. Basicamente, diz o que eu já te passei… que aqui estão técnicas de combate e magias. Também tem uma nota dizendo que esse conhecimento não deve ser compartilhado com pessoas não-Sheikah.

Reviro os olhos diante de sua hesitação.

— Eu te declaro um Sheikah honorário — digo, sem paciência. — Prossiga, por gentileza.

Tauro balança a cabeça rindo e avança para a próxima página.

— Bom, aqui nós já entramos nas técnicas em si. Vê esses diagramas aqui? — ele indica uma série de ilustrações de mãos em diferentes posições. — Aparentemente, realizar essa sequência de movimentos enquanto fala ou mentaliza estes mantras aqui — ele aponta para algumas frases no alfabeto arcaico — resulta em um teletransporte rápido. Vê? Aqui, o desenho de uma pessoa desaparecendo de um ponto e depois reaparecendo em outro.

Me inclino pra frente, analisando as gravuras. São três gestos, acompanhados de três mantras. Tauro os lê em voz alta para mim; são palavras desconhecidas, então eu as anoto como as escuto, para não esquecer.

— Você quer testar? Ou prefere prosseguir para a próxima tradução? — Tauro pergunta. Percebo que ele está muito curioso para confirmar se sua interpretação está correta.

— Quero sim!

Tauro me oferece o livro, para que eu consiga estudar os gestos.

Treino os símbolos algumas vezes; alguns são simples: um deles, por exemplo, são apenas as palmas juntas na horizontal, uma mão ao contrário da outra. Outros exigem um pouco mais de contorcionismo de meus dedos e, ao tentar entrar na pose rapidamente, chego a sentir uma leve câimbra. Tauro apenas observa em silêncio, enquanto eu me concentro.

Respiro fundo, fecho os olhos, foco em uma das almofadas que está do outro lado da sala e faço os três gestos na sequência, mentalizando as frases curtas que Tauro traduziu. No primeiro gesto, sinto meus corpo inteiro endurecendo lentamente, como se eu estivesse me transformando em mármore. No segundo, um formigamento intenso se inicia no topo de minha cabeça se espalha por minha pele inteira, chegando a todas as extremidades — como se eu estivesse sendo cutucada por milhares de pequenas agulhas. Meu coração bate desenfreadamente, assustado pelas sensações desconhecidas, mas eu prossigo. No terceiro, eu consigo sentir o ar da sala entrando em meu corpo, gelando meus órgãos e ossos, como se não houvesse carne e pele os cobrindo.

No instante seguinte, sinto uma dor intensa em meu cóccix ao cair de bunda no chão. Abro os olhos, assustada, e noto que Tauro está do outro lado da sala. Levemente desorientada, olho ao redor e me vejo a poucos centímetros de distância da almofada em que estava focando. Meu coração ainda está batendo intensamente e um zunido baixo ressoa em meus ouvidos.

— Senhorita Paya? — Tauro se levanta, seus olhos arregalados. — Você está bem?

Levanto o dedo, indicando que preciso de alguns segundos. A sala inteira está girando ao meu redor e meu estômago se revira de um jeito desagradável e…

Ai, não.

Agora não, por favor.

Minha garganta se aperta, os músculos de meu maxilar se repuxam e eu travo uma batalha intensa contra a bile que sobe queimando meu esôfago. Fecho os olhos, concentrando-me na respiração e tentando ao máximo evitar regurgitar minha última refeição.

Os segundos passam e, lentamente, meus músculos relaxam; a urgência de vomitar se dissipa aos poucos. Puxo o ar mais uma vez, enchendo meu pulmão completamente, e abro os olhos. No entanto, o ar fica preso e eu não consigo soltá-lo.

Tauro está logo a minha frente, me encarando preocupado.

Perto demais.

Perto a ponto de eu conseguir ver todas as cores em sua íris — castanho, dourado e verde. Perto a ponto de eu conseguir perceber a textura de sua pele bronzeada, o rosto áspero com a barba por fazer, a tensão dos músculos ao me encarar. Perto a ponto de eu conseguir sentir seu cheiro — almiscarado, como carvalho e chuva recém-caída na grama.

Um calor intenso sobe pelo meu pescoço, chegando ao meu rosto, e eu tenho certeza de que não estou simplesmente ruborizada… estou definitivamente escarlate.

Tauro se afasta imediatamente ao perceber minha reação. Percebo, intrigada, que ele também parece levemente mais avermelhado por baixo de seu bronzeado. Uma tontura leve me lembra de que eu ainda não soltei o ar. Exalo de uma vez, e pisco algumas vezes, aturdida, tentando recobrar a consciência.

— Você está bem? — Tauro repete, ainda apreensivo.

— Estou sim, obrigada. Meu corpo só estranhou a experiência nova — digo, tentando deixar minha voz leve. — Então… deu certo? Tipo… mesmo?

Tauro ri.

— E você tinha duvidado das minhas capacidades de tradutor, senhorita Paya?

— Mais das instruções de um livro decrépito e minhas habilidades, senhor Tauro. Nunca me questionei sobre suas habilidades linguísticas — brinco, e Tauro fica vermelho novamente; dessa vez, não consigo entender o motivo.

Meus músculos reclamam com a sensação póstuma do teletransporte. Minhas pálpebras ficam pesadas e o zumbido baixo retorna aos meus ouvidos. Incapaz de me impedir, solto um bocejo alto e longo.

— Acho que você precisa descansar, senhorita Paya. Podemos continuar em algum outro momento.

— Amanhã? — questiono, ansiosa. Tauro ri, provavelmente tão animado quanto eu para descobrir os próximos mistérios Sheikah.

— Claro, amanhã — Tauro se levanta, pega sua bolsa e se dirige à porta. — Boa noite, senhorita Paya. Quer que eu peça a Dorian que verifique se você está bem daqui a algumas horas?

— Não é necessário, eu só preciso… — mais um bocejo me força a pausar. — Dormir. Boa noite, senhor Tauro.

Ele acena, sorrindo, e sai da casa.

Mesmo sabendo que eu não deveria…

Faço os três gestos e repito os três mantras novamente, pensando em minha cama. No instante seguinte, estou sobre o colchão.

Ah, isso sim é uma habilidade útil.

Ainda em meu uniforme, desabo imediatamente em um sono profundo — como se eu tivesse bebido cinco drinks no bar das Gerudo.

Nessa noite, meus sonhos são repletos de belas florestas de carvalho, de tempestades, relva úmida e muito verde.

. . .

Tauro encara uma das páginas do livro com a testa franzida, e eu aguardo enquanto ele transcreve as instruções escritas ali. Entediada, me perco em pensamentos e me recordo das últimas semanas.

Nós nos encontramos praticamente todos os dias para dar andamento na tradução da enciclopédia. O livro era dividido em duas sessões: magias e técnicas de combate. Focamos principalmente nas magias, pois estas eu conseguia testar imediatamente — apesar de não conseguir realizar todas ainda.

— É melhor você treinar as técnicas de combate com algum dos voluntários treinados pelo mestre Link — disse Tauro em uma das noites. — Eu não sou exatamente… ágil. Minha dedicação é aos livros.

Inclinei a cabeça, confusa. Seu porte físico… bem muscular… sugeria algo diferente. Tauro ficou ligeiramente desconfortável e prosseguiu:

— Bem, enquanto explorador, é útil ter força. Precisei revirar muitas pedras durante minhas pesquisas… muitos templos são bloqueados por pedregulhos gigantescos. E, muitas vezes, eu estou sozinho em minhas viagens. Agilidade, por outro lado… não tem muita serventia nas minhas atividades.

Aquiesci, compreendendo, e também desconcertada. Ignoramos a estranheza e mergulhamos no texto seguinte.

Durante aquelas noites, havia tantos destes pequenos momentos — onde eu era invadida por aquela antiga timidez paralisante — que nós simplesmente aprendemos a ignorá-los e a seguir em frente. Ainda bem que o fizemos, pois conseguimos descobrir coisas interessantíssimas na velha enciclopédia.

Dentre as magias que consegui executar — nem todas com tanta facilidade — estavam os poderes de criação de clones, levitação e aumento temporário do tamanho do meu corpo. No entanto, até agora, só consegui crescer cerca de 30 centímetros, embora os diagramas no livro mostrassem um aumento de até 10 vezes a altura original do praticante. Mas ainda existiam muito mais coisas que eu sequer conseguia pronunciar as palavras corretamente, como conjurar grandes objetos, lasers, ou controlar o vento e a terra.

Tauro tomava notas de todos os testes, documentando exatamente o que acontecia: como meu corpo reagia a cada uma dessas experiências, o que dava errado e o que dava certo.

Alguns dias — quando eu não tinha conseguido me recuperar completamente das experiências da noite anterior — nós apenas compartilhávamos alguma refeição e trocávamos histórias. Bem, Tauro contava histórias e eu ouvia, na verdade. Tendo viajado por tantos anos e em lugares tão diversos, sua coletânea de contos era extensa. Eu me via fascinada ao ouvi-lo descrevendo as diferentes culturas que conheceu, as pessoas com quem interagiu, os diferentes alimentos que tinha provado.

Ele contava as histórias com tantos detalhes que eu conseguia visualizar todos os cenários que ele pintava. E, então, eu comecei a comparar tudo isso com a minha singela experiência — que se resumia a uma vida inteira em Kakariko, com ocasionais viagens à Hateno. A curiosidade se infiltrava lentamente na minha carne, me invadindo com um desejo insano de conhecer tudo aquilo que ele dizia — e muito mais.

Em determinado dia, acabei confessando a Tauro minha sensação de inadequação ao cargo de chefe Sheikah. Contei-lhe sobre a conversa que entreouvi entre Claree e Nanna e como isso acabou manchando a maneira como vejo todas as minhas interações com os moradores do vilarejo. Tauro ouviu com atenção, seu cenho franzido em uma expressão que não consegui identificar.

Eventualmente chegamos ao final da seção de magias do livro. A segunda metade consistia nas tais técnicas de batalha. Tauro me questionou como eu desejava proceder a partir de então, já que ele não conseguiria me auxiliar a testá-las. Me senti estranhamente reticente em encerrar as reuniões, então disse:

— Bom… ainda preciso entender do que se tratam, ao menos. Podemos continuar traduzindo as instruções.

Tauro sorriu à sugestão. Então, continuamos com nossos encontros.

No entanto, na maior parte dos dias, acabávamos nos distraindo com frequência, conversando sobre outros assuntos. Completamente obcecada sobre tudo o que ele já havia visto, conhecido e descoberto, eu não conseguia me impedir de interrogá-lo por todos os detalhes de tudo o que ele pudesse me contar. Hoje é mais um desses dias; depois de exauri-lo com minhas dúvidas, Tauro perguntou:

— E você, Paya? Já pensou em sair de Kakariko e conhecer novos lugares?

Depois de alguns dias, acabamos por abandonar os títulos de senhor e senhorita. Conforme ficamos mais a vontade na presença um do outro, a formalidade passou a soar ridícula.

— Bem, nunca houve oportunidades. Primeiro, vivíamos sob a ameaça constante da Calamidade… e, poucos anos depois, o retorno de Ganondorf. Então eu nunca pensei muito sobre isso… antes. E agora eu sou líder da tribo… não creio que seja possível — confessei, surpresa com o amargor em minha voz.

— Bom… se algum dia houver a ocasião, será um prazer ser seu guia turístico — respondeu Tauro, sorrindo.

Minhas bochechas esquentaram e desviei o olhar.

— É, bem, sim, seria divertido — gaguejei. — Duvido que vovó concordaria, no entanto. Ela é meio superprotetora.

— É mesmo? — Tauro questionou, sua voz carregada de surpresa.

— Sim… depois que minha mãe fugiu para se juntar aos Yiga, vovó ficou bem… traumatizada.

— Sua mãe foi uma Yiga? — Tauro arquejou.

Dei uma risadinha sem-graça.

— E meu avô também — confessei. — Ele abandonou a vovó Impa enquanto ela ainda estava grávida.

— Céus, Paya, eu não fazia ideia.

— É… — falei, sem saber o que responder.

Ficamos em silêncio por alguns segundos, desconfortáveis. Decidi, então, mudar de assunto.

— Esse capítulo de hoje me parece uma técnica simples de ataque.

— Sim? — respondeu Tauro, hesitante.

— Sei que você não tem habilidades de luta… mas você se importaria em me auxiliar com essa? Parece que você não tem que fazer nada além de desviar.

Os capítulos com movimentos de combate era extremamente interessantes — até mais do que os de magia. Sempre gostei de me exercitar, aprendi rapidamente todas as técnicas de auto-defesa que vovó me ensinou ao longo dos anos. A ansiedade em treinar essas habilidades me consumia, mas eu não tinha coragem de me abrir com outros Sheikah, já que esse conhecimento, supostamente, não deveria ter sido descoberto.

Então, só me restou Tauro. Ele me olhou dividido, ponderando minha solicitação. Depois, concordou com relutância e começou a tradução das instruções há alguns minutos.

— Pronto — diz Tauro, me removendo dos meus pensamentos. Ele me estende o pedaço de papel. — Tem certeza, Paya?

— Tenho!

— Não esqueça, eu não sei lutar — ele soa aflito.

— Sei disso. Eu não vou te atingir… nem estou armada! Você só precisa desviar — repito.

Tauro acena, ainda hesitante. Fico em pé diante dele, lendo as instruções.

— Certo. Então a primeiro preciso fazer o teletransporte para alguns metros de distância… garantindo que cairei em pé. Mas tem um selo a mais nessa técnica, aparentemente… que vai fazer com que eu consiga correr na sua direção muito mais rápido que o normal, abrindo a possibilidade de um ataque surpresa.

— E nessa hora eu desvio?

— Isso! Vamos lá — digo, animada.

Dou um passo para trás e me concentro. Faço os gestos necessários, repetindo os mantras em minha cabeça. Tendo praticado o teletransporte muitas vezes já, consigo realizá-lo sem problemas. Minhas entranhas se reviram um pouco quando eu reapareço no canto da sala, a alguns metros de distância do chão. Faço o novo selo durante a queda e, instantaneamente, tudo parece se mover em câmera lenta ao meu redor.

Meus braços e pernas parecem estranhamente leves e eu percebo que não tenho tanto controle deles. Viro a cabeça rápido demais e sou acometida por uma leve tontura. Sinto o chão sob meus pés e me viro na direção de Tauro, que lentamente gira a cabeça e o corpo em minha direção, como se estivesse debaixo d'água. Coloco um pé na frente do outro, correndo em sua direção; ele arregala os olhos — muito devagar, de forma cômica — ao notar minha velocidade.

Eu já estou na metade do caminho quando ele começa a se mover para sair da minha trajetória, mas é tarde demais. Tento alterar a rota para não atingi-lo, mas meus membros estão se movendo rápido demais e eu não consigo controlá-los bem. Antes mesmo que seu pé encoste no chão para dar o primeiro passo para fora do meu caminho, eu colido contra seu corpo com toda a força de minha velocidade.

Mesmo sendo tão alto e pesado, o impacto é tão forte que ambos desabamos no chão. Tauro cai sentado e eu meio por cima dele. O efeito de velocidade se dissipa no impacto e a sala gira ao meu redor. Fecho os olhos com força, tentando espantar o enjoo. E então sou atingida pelo seu cheiro mais uma vez, muito mais forte do que naquele primeiro dia. Percebo, constrangida, que minha cabeça está repousada em seu torso, e meus braços ao seu redor.

Me endireito rapidamente, meu rosto queimando. Tauro também corrige sua postura e eu noto que sua respiração está mais rápida que o normal.

— Me desculpe — digo, rapidamente, ao mesmo tempo em que ele fala:

— Eu avisei que não era ágil.

O ridículo da situação faz com que uma histeria estranha nos invada e no segundo seguinte estamos gargalhando. O riso chacoalha meus ombros, minha barriga dói conforme os músculos se contraem e eu sinto lágrimas se formando em meus olhos, incapaz de me controlar. Não consigo me recordar da última vez em que me diverti assim.

— Como você sobreviveu tantos anos de exploração com esses reflexos deploráveis, Tauro? — zombo, entre as risadas.

— Pedras e estátuas não costumam atacar viajantes desavisados, Paya — ele responde, sorrindo.

Durante a histeria, nos inclinamos inconscientemente na direção um do outro. Percebendo que estou perto demais, mais uma vez, todo o humor se dissipa e meu coração começa a bater desenfreadamente. No entanto, dessa vez, não consigo me afastar. Tauro encara meus olhos intensamente; seu olhar desviando para minha boca ocasionalmente. Minha respiração fica mais pesada e eu me pego inclinando em sua direção, compelida apenas por puro instinto.

Apenas poucos centímetros de distância separam nossos lábios quando ouço uma batida forte na porta de entrada.

— Chefe Paya? — a voz de Dorian ressoa do lado de fora. — Ouvi um estrondo alto, está tudo bem?

Envergonhada, me distancio de Tauro novamente. Ele balança a cabeça, também parecendo levemente aturdido. Levanto-me e vou até a porta para acalmar meu cuidadoso vigia.

— Tudo sim, Dorian. Deixei cair algumas coisas, mas está tudo sob-controle.

Dorian encara a sala, confuso — não tem nada caído nela. Ele me encara, desconfiado, mas não diz nada. Percebo que seu olhar se demora um pouco na enciclopédia que ficou largada no chão.

Logo Tauro se aproxima, carregando sua bolsa.

— Acho que perdemos noção do tempo, senhorita Paya — ele diz, desconcertado.

Dorian balança a cabeça, concordando, seu cenho franzido em uma careta de descontentamento.

— Parece que sim, senhor Tauro. Boa noite — minha garganta está seca, e meu coração se contrai dolorosamente com sua fuga rápida.

Dorian desce logo atrás dele e eu fico no alto da escadaria, me sentindo, novamente, confusa e rejeitada.