Sheikah
6 Apenas uma babá glorificada
POV Impa
A sala de treino usada pelos Sheikah fica dentro do Castelo, nos andares subterrâneos. É um espaço amplo e circular, com um tatame no centro e dezenas de armas expostas nas paredes e em armários.
Ansiosa para causar uma boa impressão, acabei chegando cedo demais: nenhum dos outros jovens Sheikah do meu grupo se apresentou ainda. Sozinha e curiosa, caminho lentamente pela orla da sala, observando as armas em exposição. As opções são inúmeras: espadas, katanas, kodachis, arcos, cutelos, adagas, entre muitas outras variedades. Involuntariamente, minha mão se estende para uma bela kodachi com empunhadura lilás, lâmina preta e gravações em dourado.
Provavelmente eu não deveria tocar em nada aqui — não ainda. No entanto, olho ao redor para confirmar se ainda estou sozinha e pego a arma com uma sutil devoção. Seu peso é perfeito: pesada o suficiente para ser estável, mas leve de maneira que eu a sinta como uma extensão de meu braço. O comprimento também é agradável — não deve medir mais do que 40 centímetros.
Faço alguns movimentos cortando o ar, testando seu equilíbrio. Por puro instinto, meu corpo se posiciona em uma postura de batalha — meus pés ligeiramente separados e firmemente plantados no chão. Esquecendo-me de que os outros alunos chegarão a qualquer instante, flexiono meus joelhos e testo algumas manobras de ataque. Meu sangue corre pelas veias, a sensação de empunhar a espada fazendo-me sentir poderosa.
— Quem te deu permissão para encostar nas armas, dona Calamidade? — sobressalto-me ao ouvir uma voz grave atrás de mim, e a Kodachi cai no chão.
Meu coração ameaça quebrar minhas costelas, tamanha a força de suas contrações. Assustada e envergonhada, me viro para me desculpar com seja lá quem for que me flagrou… apenas para dar de cara, novamente, com Deen. Um sorriso zombeteiro brinca em seus lábios, e ele me observa curioso.
— Desculpe — digo a contragosto, enquanto me abaixo para pegar a lâmina caída.
— Sem problemas. Não conto pra ninguém se você não contar — ele responde, sua voz carregada de imoralidade.
— E você está fazendo o que aqui? — questiono, irritada. — Você não é do grupo dos novatos. Está me seguindo, por acaso?
O sorriso de Deen aumenta ainda mais, fazendo meu estômago se contorcer. Dou um passo para trás, me sentindo acuada. Ele cruza os braços, divertindo-se.
— Você está certa, eu não sou do grupo dos novatos. Estou aqui porque…
— Bom dia, sensei — ouço um dos alunos entrando na sala, e se curvando levemente em reverência a… Deen?
Os outros jovens começam a entrar na sala, cumprimentando-o e parecendo alheios à minha presença.
— Estou aqui porque sou o instrutor dessa turma — ele completa, erguendo as sobrancelhas.
Minhas bochechas queimam e a vergonha me paralisa. Desfrutando do meu desconforto, Deen continua:
— Mas se a senhorita desejar, eu posso começar a segui-la também.
Franzo o cenho, irritada com sua presunção. Sem querer demonstrar fraqueza, rebato:
— Com certeza o senhor adoraria isso, não? — digo, fazendo uma reverência irônica e me afastando em direção ao centro da sala.
Chego até onde está Ammi, que observa as armas com os olhos arregalados.
— Nós vamos ter que aprender a usar essas… coisas? — ela parece ligeiramente enjoada. — Não sei se eu consigo… atacar alguma coisa… ou alguém.
— Relaxa, Ammi — digo, tentando me livrar da irritação. — Acredito que teremos que aprender ao menos o básico… mas provavelmente depois você pode tentar alguma das outras carreiras disponíveis, se não quiser permanecer no exército.
Ela balança a cabeça, ainda incerta.
— Espero que você esteja certa. Eu não consigo nem comer carne, que dirá agredir ou… ou… matar — sua voz treme e se transforma em um sussurro aterrorizado.
— Bom dia, soldados — ouço a voz de Deen se projetando pela sala. — Se organizem em fila, por gentileza.
Todos os 20 novatos da turma se enfileiram em quatro colunas, aguardando mais instruções de nosso orientador.
— Hoje vocês começarão o treinamento para aprender as técnicas Sheikah de combate e defesa. Como todos estão cientes, há alguns anos foi profetizado o retorno de Ganon, ameaçando a paz em Hyrule. As lendas indicam que ele ataca a cada dez mil anos, com o único objetivo de destruir tudo o que encontrar pela frente. Nosso papel enquanto soldados Sheikah é o de auxiliar o reino a combater toda e qualquer adversidade que bata à porta.
"A relação entre os Sheikah e a realeza é imprescindível para garantir a paz. Nós somos guerreiros natos e completos. Somos excelentes em combate, espionagem e desenvolvimento de tecnologias. Também conseguimos manipular as energias ao nosso redor e usar magias.
"Algum de vocês sabe o significado do símbolo de nossa tribo?"
Ammi levanta a mão, timidamente.
— Pois não, senhorita…? — questiona Deen.
— Ammi, sensei — ela responde, sua voz quase inaudível. — O olho aberto indica a busca constante pelo conhecimento e pela verdade.
— Excelente. E a lágrima?
Ammi fica em silêncio, sem saber a resposta.
— Alguém? — Deen perscruta a sala, procurando por voluntários. — Ninguém?
Respiro fundo e levanto o braço. Ao perceber, Deen dá um meio sorriso complacente que faz meu coração pular uma batida.
— É claro que você saberia, senhorita Impa. O que significa a lágrima?
— Ela simboliza o peso de nossa devoção. Ela indica que faremos o que for necessário para garantir a ordem e a estabilidade no reino… o que for necessário — repito, para enfatizar as implicações destas palavras.
Deen balança a cabeça, satisfeito.
— Exatamente. Muito obrigado, querida — ele pisca um olho rapidamente, me deixando irritada e tímida em proporções iguais.
Ammi franze o cenho na minha direção, confusa com a troca.
— Já dizia o ditado: no amor e na guerra, vale tudo — Deen continua. — As linhas da moralidade se tornam turvas em tempos sombrios. Como a senhorita Impa frisou, soldados Sheikah fazem o que for necessário para garantir a paz ou a vitória. Então, aconselho que aqueles de vocês que tiverem estômago fraco se alistem em outras carreiras assim que houver oportunidade. Entendido?
— Sim, sensei — a turma responde em uníssono, abaixando a cabeça.
Olho ao redor, intrigada com as reações. Parte dos jovens parece inabalado. Alguns, no entanto, estão levemente esverdeados. Ammi parece à beira das lágrimas.
— Ótimo. Vamos começar então — declara Deen, me encarando ao pronunciar as palavras.
O treino é intenso; apesar de acreditar que eu estava em forma, em 30 minutos eu já me encontro ofegante e manchas pretas dançam em minha visão. Durante toda a manhã, Deen testa os limites de nossas capacidades, nos passando dezenas de exercícios de força e resistência. Quando a sessão termina, próximo da hora do almoço, estou suada e mal conseguindo ficar em pé.
— Já dá pra escolher outra carreira? — Ammi questiona com a respiração pesada, caída no chão e de olhos fechados.
Estou rindo de seu desespero quando sinto a atmosfera na sala mudar. As risadas e conversas se dissipam. Olho ao redor e noto que todos estão se ajoelhando em reverência. Imito o gesto, encarando o chão.
— Vossa majestade — a voz de Deen ressoa pelo salão.
Ergo o olhar discretamente e vejo o rei de Hyrule entrando imponente na sala de treinos. Uma garotinha de cabelos dourados e vestida em rosa o acompanha, timidamente escondida atrás de sua grande figura. Ele sonda o ambiente, se demorando alguns segundos em cada um dos jovens. Quando seus olhos se cruzam com os meus e me flagram encarando, seu cenho se franze levemente. Abaixo a cabeça no mesmo segundo, envergonhada.
— Podem se levantar — demanda o rei.
Logo, todos estão em pé, apesar de manterem os olhares baixos.
— Sejam bem-vindos ao Castelo de Hyrule. Gostaria de agradecê-los pelo tempo e dedicação à causa. Sem a ajuda de vocês, sequer haveria esperança de derrotarmos esta ameaça, e por isso sou imensamente grato. Espero que tenham uma boa estadia durante o tempo em que estiverem no Castelo ou na Cidade.
O rei acena para Deen, que se aproxima, e eles começam a conversar em voz baixa. Os jovens ao redor parecem relaxar um pouco e voltam a interagir entre si. Noto que a garotinha — a Princesa Zelda — está me encarando intensamente, o rosto distorcido pela curiosidade.
— …na cidade? — Ammi me cutuca.
Balanço a cabeça, tentando focar no que ela está falando.
— O que na cidade?
— Perguntei se você quer almoçar aqui no Castelo ou na cidade. Por Hylia, Impa, parece que você não ouve metade do que eu digo — Ammi bufa, em uma rara demonstração de irritação.
— Desculpe. Pode ser onde você preferir — digo, ainda distraída, pois a Princesa continua me encarando.
Aguardamos mais alguns instantes, sem querer nos retirar antes do rei. Ele termina sua conversa com Deen e sai da sala com a Princesa, não sem antes me lançar um último olhar.
Deen faz um gesto me chamando, e eu peço licença para Ammi.
— Pois não? — pergunto, ligeiramente ríspida.
— O rei quer falar com você. Pediu para eu a levasse até seu escritório durante o horário de almoço — o tom de Deen é incomumente sério.
Franzo o cenho, confusa, e aquiesço rapidamente. Volto até Ammi, explico a situação e logo parto ao lado de Deen para me encontrar com o rei. Não trocamos nenhuma palavra durante o trajeto, o que só serve para aumentar minha ansiedade. Após alguns minutos de caminhada, paramos em frente a grandes portas duplas de madeira. Deen bate em uma delas e, alguns segundos depois, ouvimos a voz do rei ecoando de dentro da sala:
— Está aberta.
Deen abre uma das portas e a segura aberta para que eu passe.
— Obrigado, Deen. Pode se retirar — diz o rei, sem levantar o olhar do que está fazendo.
Ele acena e fecha a porta atrás de si, me deixando sozinha com o rei.
Sem saber como me portar, faço uma reverência novamente. Ele está sentado à mesa, analisando alguns papéis antigos, e faz um gesto, convidando-me a me aproximar.
— Sente-se, senhorita Impa.
Aturdida, me pergunto como o rei já sabe meu nome. Será que eu o ofendi quando encarei mais cedo? Estou na cidade há menos de três dias e ele já vai pedir minha cabeça?
No entanto, tento me controlar e fico em silêncio, esperando que ele prossiga. O rei segue mexendo nos papéis amarelados e abre um pesado livro de páginas gastas.
— Impa, Impa, Impa. Estava me perguntando se você se apresentaria novamente.
Novamente?
— Perdão, majestade, eu vim na primeira janela possível após completar 18 anos, conforme os acordos entre os Sheikah e o reino…
— Não estou me referindo a isso, jovem. Estou dizendo que me perguntei se você encarnaria nessa geração.
Oi?
— Sinto muito, majestade, não estou compreendendo…
O rei levanta os olhos dos papéis e me oferece o livro enquanto volta a falar:
— Veja, Impa. Sempre que surge uma ameaça a Hyrule, uma Zelda desperta plenamente seus poderes, e um jovem se apresenta para portar a Master Sword. Juntos, eles geralmente conseguem solucionar o problema — o rei aponta para os registros no livro.
Analiso as páginas com cuidado, e o que encontro são transcrições milenares de antigos ataques, registrados em alfabeto Sheikah. Folheio o grande livro e vejo dezenas de histórias, todas seguindo o padrão descrito pelo rei.
— Mas além deles, outra pessoa também sempre se apresenta nestes pontos turbulentos da história.
Encaro as páginas, aturdida, sem conseguir acreditar no que estou vendo. No entanto, está ali, incontestável. Não em todos os registros, mas em quantidade o suficiente para que seja impossível supor uma mera coincidência.
Em algumas histórias aparece Impa, a guardiã da princesa. Em outras, Impa, sua protetora. Em mais algumas, Impa, a conselheira real.
— Nossos nomes não são meras causalidades, jovem Impa. Todos temos um papel a cumprir nesta história. O seu é ser guardiã da princesa Zelda e acompanhá-la nessa jornada, assim como você — ou sua energia, dê o nome que quiser — já fez em diversas iterações anteriores. Muitas vezes, o apoio das Impas de cada geração foi fundamental para que as Zeldas conseguissem cumprir seu destino. Estive esperando por você desde que a Calamidade foi prenunciada.
A compreensão lentamente se instaura em mim, e, junto com ela, a ansiedade em relação ao peso da responsabilidade que o rei está ameaçando despejar em minhas costas.
— Vossa Majestade, eu agradeço sua confiança... mas eu tive literalmente meio dia de treinamento até agora. Não posso ficar responsável pela princesa.
— Tenho plena ciência disso, jovem Impa. Você não ficará responsável por Zelda sozinha. Eventualmente, irei eleger mais um guarda-costas para ela. A princípio, gostaria apenas que vocês duas se conhecessem melhor — acredito que a sinergia entre vocês será essencial. A princesa ainda não iniciou as peregrinações às fontes sagradas; é muito jovem para isso. Por enquanto, ela passa todo seu tempo no castelo, tentando despertar seus poderes. Vocês não correrão perigo algum aqui dentro.
Aquiesço, sem conseguir pensar em nenhum argumento para recusar um decreto do rei — mesmo que ele o faça soar como um mero pedido.
— Ótimo, está decidido, então. Você pode tentar ajudá-la durante algumas horas por dia — sei que vocês, Sheikah, têm um ótimo domínio de suas habilidades mágicas.
Ficamos alguns momentos em silêncio. Apesar de não estar muito feliz com os desdobramentos, me forço a dizer:
— Será uma honra auxiliar sua filha, majestade. Obrigada, novamente, pela confiança.
— Por nada — responde o rei. — Pode se retirar, Impa.
. . .
— Babá, Purah. Fui colocada como babá da princesa — reclamo, enquanto entorno a cerveja preta sem prestar muita atenção em seu gosto.
Mais tarde, no mesmo dia, nos encontramos mais uma vez no pub local. Depois de ouvir Purah desfiar suas reclamações em relação à Robbie e sua teimosia infindável, me permiti confessar minhas próprias mazelas.
— Pelo menos o rei confia em você, Impa, isso é um ótimo sinal.
— Ele confia em meia dúzia de lendas e livros pré-históricos, Purah! Será que sequer deveríamos aceitar que o rei baseia suas todas as decisões em profecias e contos antigos?
— Shhhhhhh — Purah me silencia, preocupada. — Você está tentando ser condenada por traição logo na primeira semana?!
— Não estou tentando nada! Eu só queria ser paga para fazer exercícios e aprender técnicas de combate — rebato, revirando os olhos. — E, logo no primeiro dia, eu já consegui arranjar uma responsabilidade com a alta realeza. Maravilhoso.
— Não deve ser tão ruim assim, Impa. Você nem deu uma chance à oportunidade. Ouvi dizer que a princesa é muito gentil… e sozinha.
Suspiro, me sentindo contrariada por estar simpatizando com a garotinha. Vivendo tantos anos sozinha em Kakariko... eu conheço bem o sentimento.
— Notícias boas, agora — diz Purah, subitamente animada. — Você não vai acreditar.
— Robbie admitiu estar errado em alguma coisa?
Purah bufa.
— O céu vai cair antes deste dia chegar. Não, Impa... nós encontramos!
— Encontraram o quê, Purah?
— Os Guardiões — ela sussurra. — Bom, não os, e sim um Guardião. E… só peças soltas... e incompletas. Mas elas são exatamente iguais às gravuras que tínhamos descoberto anos atrás! Sabe o que isso significa, não?
Arregalo meus olhos, chocada.
— Que a lenda é real? — questiono baixinho.
— Que a lenda é real! — Purah grita, não conseguindo conter seu entusiasmo. — Que provavelmente as Bestas Divinas estão enterradas em algum lugar de Hyrule. Que temos tecnologias incríveis soterradas apenas esperando para ser encontradas!
— E que Ganon também existe — sussurro, o terror paralisando meus músculos.
Purah não se abala.
— Ah, sim, detalhes — ela diz, fazendo um gesto banalizando minhas preocupações e tomando mais um gole de sua bebida. — Com todas essas tecnologias, vai ser moleza derrubá-lo — isso se ele tiver coragem de sequer dar as caras por aqui novamente. Depois da humilhação descrita nos registros do último ataque… bem, se fosse eu, não teria coragem de atacar novamente.
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