Sheikah

15 A escuridão entre nós


POV Impa

Algo áspero arranha minha pele levemente. Minha cabeça está pesada e tudo parece girar. Um líquido quente e úmido escorre pelo meu corpo.

O cheiro do sangue me atinge mais uma vez. Diluído, fraco; mas, ainda assim, sangue.

A imagem do jovem Hylian degolado surge em minha mente e eu arregalo os olhos, despertando com meu próprio grito.

— Shhh, estou aqui, Impa — ouço a voz de Deen. — Estou aqui, você está bem.

Viro a cabeça, procurando-o. À medida em que fico alerta, percebo que estou em nosso sofá, seminua. Deen está ajoelhado ao meu lado, lavando o sangue que secou em meu corpo com uma esponja úmida.

Seu rosto está franzido com um misto de preocupação e alívio. Seus olhos estão fundos, tristes. Ele não diz nada; entendo, então, que ele já sabe o que houve.

Lanço-me em seus braços, sem conseguir evitar as lágrimas que escorrem pelo meu rosto e os soluços que fazem meu corpo tremer. Ele me puxa para seu colo e se senta no sofá, permitindo que eu me aconchegue contra seu corpo. Enterro meu rosto em seu pescoço e continuo chorando.

— Eles o mataram, Deen — digo em meio à minha lamúria.

Sinto sua cabeça aquiescer contra a minha.

— Eu sei.

Deen lavou minhas mãos enquanto eu estava desmaiada. Mas continuo sentindo o sangue entre meus dedos, escorrendo por meus braços, envolvendo minha alma.

Fui eu quem sugeriu aquelas reuniões tantos anos atrás.

Daria no mesmo se tivesse sido eu a empunhar a arma que atravessou seu pescoço.

— A culpa é minha — declaro entre lágrimas.

Deen me afasta para conseguir me olhar nos olhos. Ele segura meu rosto em suas mãos.

— A culpa é de Sooga, Impa. Foi ele quem instigou o ódio naqueles jovens, não você.

— Eu criei para ele o ambiente perfeito para incubar seus monstros.

— Se não fossem as reuniões de Mike, ele teria encontrado outro lugar. Acredito que nossos encontros na verdade até adiaram em muito que algo do tipo acontecesse.

Isso não faz com que eu me sinta nem um pouco melhor.

Deen encosta a testa contra a minha e fecha os olhos. Então, suspira, cansado.

— Sinto muito que você tenha visto aquilo.

— Você encontrou o corpo também?

Ele aquiesce.

— Quando notei que você não estava mais no salão, saí imediatamente em sua procura. Assim como você, deduzi que ele estava voltando para o hotel mais próximo. A princípio, achei que você não o tinha encontrado. Mais alguns soldados estavam comigo; quando começamos a mover o corpo, escutei seu grito. Deixei-os ali e voltei para casa imediatamente; te encontrei desmaiada e ensanguentada no chão — Deen fica pálido conforme fala, e uma lágrima solitária escorre pelo seu rosto. — Achei que você também tinha sido atacada; você não acordava de jeito nenhum. Estava respirando e seu coração estava batendo normalmente… mas até eu entender que o sangue não era seu… — ele engasga.

Meu coração se aperta ao vê-lo chorando.

— Eu estou bem — afirmo.

Bom… fisicamente, pelo menos.

Deen estreita o abraço, escondendo o rosto em meu cabelo. Seu corpo sacode sob o meu quando ele se entrega ao pranto. Ficamos ali, abraçados e chorando por diferentes motivos. Se passam muitos minutos — talvez, até mesmo horas — até que consigamos nos acalmar. No entanto, mesmo depois que as lágrimas secam, continuamos ali, incapazes de sairmos dos braços um do outro.

— Não fui rápida o suficiente — sussurro contra seu pescoço.

— Tudo aconteceu rápido demais — ele diz, triste. — Sooga nem mesmo deu a ordem; ele estava ocupado discutindo comigo. Algum deles agiu por conta própria.

Repasso a cena na minha cabeça, depois que o Hylian abriu a porta do bar.

Uma intuição estranha atravessa meu corpo.

— Deen. O Hylian estava na porta principal.

— Sim?

Me afasto para observá-lo enquanto verbalizo minhas lembranças.

— Sooga e seu séquito estavam próximos à porta lateral — a única outra saída.

Deen franze o cenho, processando a mesma informação que eu.

— Ninguém saiu pela porta lateral — ele diz, surpreso.

— Nem pela porta principal — completo.

— Quem o atacou não estava no bar antes — Deen conclui, aturdido. — Como? Fora os que estavam no salão, quem teria algum motivo para matá-lo? Os tais “Yiga” não têm relação com Sooga?

— Talvez não; mas a mensagem estava assinada com o símbolo Sheikah… de ponta-cabeça — informo.

Deen fica tenso.

— Por isso tinha uma mancha de sangue com o formato de uma mão ali?

Aceno.

— Fui eu. Para os Hylians não terem “provas” para nos incriminar caso descobrissem o corpo.

— Preciso falar com Sooga. Se ele não teve nada a ver com isso… é uma notícia ainda pior. Temos mais um grupo rebelde se formando dentro dos muros da cidade… e tentando colocar a culpa em nós.

. . .

— Você está estranha, Impa. O que houve? — Purah questiona enquanto caminhamos pelos corredores do castelo.

Presenciei um assassinato e descobri que alguém está tentando incriminar os Sheikah.

— Nada, Purah. Dormi mal a noite, só isso.

Não era mentira. Desde aquela noite, alguns dias atrás, eu tenho sido assombrada por pesadelos toda madrugada, revivendo aquela cena infernal.

No entanto, ao invés de encontrar apenas o corpo, nos sonhos Deen também está lá. A princípio, sinto alívio ao vê-lo; apenas para perceber, então, que ele está segurando a arma ensanguentada.

Nos seus olhos, todavia, vejo apenas pânico.

O sonho não faz sentido algum.

Mas não consigo compartilhá-lo com ele. Então, quando acordo gritando no meio da noite, digo apenas que sonhei com a lembrança — exatamente como acontecera.

— Deen fez alguma coisa? — ela acusa.

Paro de andar, aborrecida.

— O quê? Não, claro que não.

Ela estreita os olhos, me escrutinando.

— Há dias que suas olheiras estão fundas. Seus olhos estão inchados e vermelhos. Você não tem comido direito e mal presta atenção no que eu falo — ainda menos que o normal. Impa — ela hesita. — Você está grávida?

Sua conclusão me pega de surpresa e eu não consigo conter a gargalhada que escapa do meu âmago.

— Por Hylia, Purah! — digo, dobrada para frente de tanto rir. — É essa a sua teoria?

— Hipótese — ela me corrige, baixinho.

— Não, Purah, eu não estou grávida. Espero que não — seco as lágrimas do riso enquanto me acalmo. — Mas obrigada pela risada.

— Não é uma suposição tão absurda, são os mesmos sintomas de Ammi.

— Ammi?

— Sim, ela chegou aqui na mesma época que você, se lembra? Ela faz parte da minha equipe de pesquisa hoje.

— Ammi está grávida? De quem?

— Parece que ele não é daqui. É um Hylian de algum vilarejo vizinho que ela conheceu em uma expedição há alguns meses. Mas parece que ele não aceitou muito bem a notícia.

Um calafrio percorre meu corpo.

— Por que não?

— O rapaz simplesmente desapareceu depois que ficou sabendo. Isso foi o que… há uns cinco, seis dias? Ele não se deu ao trabalho nem de levar os pertences dele embora do hotel onde estava. Sabe, aquele perto de casa? Só fugiu sem nem olhar para trás. Ammi está um caco; até dei alguns dias de folga para ela se recuperar. Impa?

Meu rosto está congelado em uma expressão de choque.

— Não sabia que vocês duas eram próximas — Purah continua, mas sua voz está desconfiada.

— Não somos — minha voz mal é um sussurro.

— Você sabe de algo?! — agora é a vez dela de ficar em choque. — O que aconteceu, Impa?

Aqui não, Purah — digo entredentes, me calando quando noto alguns soldados Hylians passando por nós.

Faço um gesto para que ela me siga e parto em direção à biblioteca mais próxima. Passamos em silêncio entre as mesas e estantes, caminhando até a seção restrita. Purah usa sua chave para destrancar a porta que divide essa ala do restante da sala — que ela possui acesso devido ao seu cargo enquanto cientista/pesquisadora.

Ela fecha a porta atrás de nós e se vira para mim com irritação.

— Fala.

— Ele está morto, Purah.

— Quem?

— O… namorado… ficante… pai do filho da Ammi.

— O quê? Quando? Como você sabe disso, Impa?!

Respiro fundo, reunindo coragem para enfrentar as lembranças.

— Na última reunião da resistência. Ele apareceu no bar do Mike bem no meio de uma discussão… acalorada. Alguns… pediram a cabeça dele, para evitar exposição. Mas nem deu tempo; eu fui atrás dele antes mesmo que alguém pudesse sair do bar… e, ainda assim, quando o encontrei ele já estava… já estava… — minha garganta se fecha e eu não consigo terminar.

Purah franze o cenho, agora furiosa.

Vocês mataram um civil por causa de nada?

— Eu acabei de falar que ninguém deixou o bar antes de mim, Purah!

— EU SABIA que esse negócio ia acabar dando merda uma hora ou outra, Impa! E agora? E o corpo dele? Onde está?

— Não sei. Os rapazes da resistência limparam a cena antes que algum outro Hylian descobrisse o que houve. E não foi nenhum de nós que o matou! Deen já confirmou com Sooga.

Purah leva as mãos à cabeça, exasperada.

— POR HYLIA, IMPA! É claro que foi algum dos membros mais violentos! Você diz que ninguém saiu de lá; mas você consegue garantir que todos estavam do lado de dentro antes do Hylian chegar?!

Pauso, incerta.

— Bem… não.

— Você precisa sair disso antes que…

Um barulho na fechadura faz com que ela se cale imediatamente.

Em teoria, não estamos fazendo nada de errado e temos todo o direito de estar nessa sala. Mas as emoções e o teor da nossa discussão fazem com que nosso primeiro instinto seja o de nos escondermos atrás de uma das estantes, no canto mais escuro o possível.

Estamos prendendo nossa respiração quando a porta se abre e dois pares de passos entram.

— Recebemos resposta de Gerudo — uma voz desconhecida fala em tom baixo.

— Ótimo — meu sangue congela ao reconhecer o timbre grave e ríspido de Sooga. — O que elas disseram?

— Kotake conseguiu descobrir o que vai ser necessário para que consigamos executar o ritual. Koume ainda está procurando o corpo.

— Precisamos que ele seja encontrado o mais rápido possível. Mande alguns rapazes para ajudá-la na busca. Temos certeza de que ele está na região de Arbiter’s Ground?

— Não, mas é o que parece mais provável de acordo com as pesquisas delas. Elas não têm certeza de onde aconteceu a última batalha contra o rei e os sábios. Por que a pressa, capitão?

— Zelda pode conseguir acessar seus poderes a qualquer momento agora, passando tanto tempo com aquele moleque da Master Sword. E Deen está desconfiado sobre nosso envolvimento na morte daquele Hylian. Consegui dissuadir ele de que fui eu quem deu a ordem, mas ele está ainda mais vigilante.

— E faz alguma diferença ele descobrir algo?

— Ele pode envolver a realeza. Por motivos que me fogem à compreensão, o rei confia nele e naquela namoradinha dele. Ganharíamos facilmente uma guerra civil, mesmo em menor número. Mas isso nos atrasaria ainda mais. E, como eu disse, se Zelda conseguir acessar seus poderes… isso sim pode ser um problema. Quais são os itens necessários para o ritual?

Ouço um leve farfalhar de papéis quando Sooga lê as mensagens silenciosamente.

— É claro — ele bufa, irritado. — Isso não vai ser fácil. Vamos precisar bolar alguma estratégia para conseguir fazer isso. Tem que ser fresco?

— Sim, infelizmente.

— Preciso discutir com o Mestre como faremos isso. Vou me encontrar com Kohga hoje de madrugada.

— Ok. Em tempo: nossos uniformes estão prontos.

— Os nômades já os receberam?

— Está em distribuição. Acredito que até o final da semana todos terão sido entregues.

— Perfeito. É chegada a hora de Hyrule conhecer o poder dos Yiga.

. . .

— EU TE FALEI, IMPA, EU TE FALEI — Purah repete durante todo o percurso até a região de nossas casas, após o expediente — que só Hylia sabe explicar como conseguimos cumprir até o final.

Não consigo respondê-la. Minha mente tenta processar todas as descobertas, mas é impossível. Passei a tarde inteira remoendo cada pedaço de informação que ouvimos na biblioteca, completamente aturdida. Minha cabeça dói intensamente. Eu preciso falar com Deen.

Minha casa fica pouco antes da de Purah. À distância, vejo que as luzes do lado de dentro estão acesas. Suspiro, feliz por Deen já estar por ali.

No entanto, quando nos aproximamos mais, percebo que a porta está entreaberta.

— Estranho — digo.

Purah também encara a porta.

— Sim. Não é do feitio de Deen esquecer a porta aberta.

Trocamos um olhar preocupado.

— Vou com você — Purah declara, enquanto caminhamos para a entrada.

Retiro uma das adagas do meu cinto e a empunho enquanto abro a porta, minhas costas contra a parede de pedra. Entramos na sala o mais silenciosamente possível, nos movendo devagar.

A casa está um caos. A mesa de jantar está tombada, diversas cadeiras caídas, vasos quebrados, papéis espalhados, gavetas e armários abertos. Não tem ninguém na sala, todavia.

Sem pensar duas vezes, corro para o quarto. Também está vazio, mas a janela está escancarada e as cortinas voam com a brisa que entra. A cama foi arrastada e as cobertas estão jogadas no chão.

Purah me segue, preocupada.

Me agacho, procurando pelo compêndio que estava escondido sob o colchão, amarrado no estrado da cama.

Apenas as cordas que o prendiam restam, cortadas.

— Impa? — ouço a voz de Deen vindo da sala. — Você está em casa?

— Quarto — grito, atônita.

— O que aconteceu aqui? — sua voz fica mais alta conforme ele se aproxima. — Ah, oi, Purah. O que aconteceu? — ele repete.

— O compêndio foi roubado, Deen — digo, confusa.

Seus olhos se arregalam e ele fica pálido.

— Que compêndio? — Purah questiona.

— Só nós dois sabíamos da existência dele — continuo, ignorando-a. — Você contou para alguém?

Deen coloca uma mão sobre a boca, parecendo sem chão. Ele se senta na cama ao meu lado e aquiesce levemente.

— Pra quem? Por quê?!

— No dia do… incidente — ele olha para Purah, reticente.

— Ela sabe, Deen.

Ele apenas acena, sem reação.

— Ok. No dia em que o Hylian foi assassinado. Você usou a magia de teletransporte para sair do bar, Impa. Ninguém notou… com exceção de Mike. Ele me questionou sobre isso quando nos encontramos no dia seguinte. Não vi problema em compartilhar sobre a existência do compêndio com ele.

Coço a testa, sem conseguir entender.

— Você acha que ele comentou com alguém? — indago.

— Talvez. Eu comentei que eram dados sigilosos… mas… será que ele… não… — Deen murmura, incoerente, completamente aturdido.

— POR HYLIA, COMO VOCÊS DOIS SÃO BURROS — Purah grita, exasperada.

Ambos encaramos ela, sem conseguir responder.

— Eu aposto que foi ele quem mandou alguém vir aqui roubar esse livro — eu ainda quero saber o que tinha nele, por gentileza.

— Por que ele só não pediu para mim? — Deen se pergunta. — Eu mostraria a ele; eu confio nele. Ele sabe disso.

— Você daria o livro a ele? — Purah pressiona.

Deen hesita.

— Está aí a sua resposta. Ele quer o livro para ele, para treinar o exército dele.

— Que exército, Purah? — estou indignada. — Nós somos a resistência, ele não precisaria de… — me calo ao entender sua conclusão. — Não — digo, sem querer acreditar.

Sim. Quando ouvimos Sooga mais cedo, eu conectei os pontos rapidamente… mas achei que era só uma coincidência.

— Vocês ouviram Sooga mais cedo? O quê? — Deen, que ainda não se recuperou da confusão, parece ainda mais baqueado.

Dessa vez, é Purah quem o ignora.

— Você acha que Mike é o líder dos Yiga? — pergunto.

— Ele chamou o cara de Master Kohga, Impa. MK. Mike.

Não.

Ele não faria…

Faria?

Memórias de todas as nossas reuniões nos últimos anos começam a passar em minha mente. Sempre que Deen e Sooga entravam em algum embate, Mike apenas mediava as discussões. Ele nunca se opôs aos ideais pregados por Sooga.

Deen continua catatônico ao meu lado.

— Você não precisa acreditar em mim, Impa. Sooga não disse que ia se encontrar com o líder deles nessa madrugada? Tenho certeza que eles vão se encontrar no bar.

— Não — Deen finalmente se pronuncia.

Surpreendidas, Purah e eu olhamos para ele.

— Mike não faria isso. Ele não é uma pessoa ruim. Ele me acolheu quando cheguei aqui à beira da morte por inanição. Ele deseja justiça para nós, mas ele não é cruel. Ele jamais apoiaria o assassinato de um civil inocente, ou todos os absurdos em que Sooga acredita.

— Deen… — tento segurar sua mão.

— Não, Impa — ele se desvencilha e fica em pé. — Vocês estão erradas.

Troco um olhar preocupado com Purah.

Deen sai do quarto e, pouco depois, ouvimos a porta da sala batendo.

Purah coça a nuca, desconcertada.

— Isso não me parece nada bom — diz, simplesmente, e me observa por alguns segundos. Não consigo me mover. Ela me estende a mão. — Vem. Eu te ajudo a limpar isso tudo.

. . .

Purah e eu demoramos horas para limpar e organizar o chalé. Já passa da meia-noite quando ela pergunta:

— Você quer que eu passe a noite aqui?

— Não precisa, Purah. Obrigada.

Preciso ficar sozinha.

— Tem certeza? — ela parece preocupada. — Podem tentar atacar novamente. Deen ainda não voltou.

— Por que voltariam? Eles já estão com a única coisa de valor que tinha nessa casa. Pode ir… vou ficar bem.

Purah suspira, dividida. Mas aquiesce e parte poucos minutos depois.

Eu não consigo pensar, não consigo falar, não consigo me mover. Não sei quanto tempo fico ali, sentada à mesa, sem olhar para nada. Podem ter sido minutos, podem ter sido horas. Eu me sinto… vazia. Não sinto raiva, tristeza, indignação, culpa; eu não sinto nada.

Depois de muito tempo, vou para a cama. Não estou com sono, mas meu corpo dói e eu preciso me deitar.

Quando Deen chega, o dia já está amanhecendo. Eu ainda não consegui dormir. Ele se deita na cama e me abraça, minhas costas contra seu torso, e afunda o rosto em minha nuca. Seu braço ao redor de minha cintura me puxa contra seu corpo, me prendendo ali. Sinto meu pescoço ficando úmido com suas lágrimas enquanto ele soluça baixinho.

Ele não diz nada, mas consigo perceber que seu hálito fede a álcool.

Noto que também estou chorando. Mas ali, entre seus braços, finalmente consigo me entregar ao sono.

Já está muito tarde quando eu finalmente acordo, completamente zonza. O sol se infiltra pela janela entreaberta, potente, esquentando o quarto. Mas a cama está fria, e o lençol onde Deen costuma se deitar está esticado e liso.

Levanto-me, confusa, e vou para a sala em sua procura.

Mas encontro apenas Purah, sentada à mesa, tomando uma xícara de chá. Quando nota a minha presença, ela apenas vem em minha direção e me abraça, em silêncio.

Meu coração se contrai com o mau-presságio.

— Purah? O que foi? — pergunto, tensa.

Ela me afasta um pouco, seus olhos cheios de dor.

— Começou, Impa.

— A Calamidade? — arregalo os olhos, desesperada. — Deen já sabe? Você viu ele?

Purah inclina um pouco a cabeça, procurando por palavras. Depois de segundos excruciantes de hesitação, ela prossegue:

— Sim e não. Ganon não atacou ainda… mas…

— Mas…?

— Os Yiga sim. Agora há pouco. Eles invadiram a praça central… juraram lealdade à Ganon e… executaram alguns soldados Hylians que tinham sequestrado, como demonstração do poder deles. E então fugiram… usando a magia de teletransporte.

— Quem foi morto?

— Foram sete ao total. Não reconheci a maioria… mas acho que você conhecia pelo menos dois deles; os que costumavam acompanhar vocês nas missões com Zelda há alguns anos.

Meus músculos congelam imediatamente.

— Bo e Nik?

Purah aquiesce e eu sinto meus joelhos fraquejarem. Ela puxa uma cadeira para que eu possa me sentar. Minhas mãos tremem e suam, e minha respiração fica irregular.

— Deen está bem? — pergunto, em pânico, com a boca seca. — Onde ele está? Precisamos avisá-lo!

— Impa…

Sinto uma pontada em meu coração, sem querer acreditar no que seus olhos me dizem. Um zumbido alto surge em meus ouvidos, mas não é alto o suficiente para que eu deixe de ouvir suas próximas palavras:

— Deen estava com eles. Ele ajudou nos assassinatos… e desertou depois.

Não.

Não, não, não.

Não faz sentido.

Corro para o quarto e abro seu guarda-roupa, a porta batendo com força contra a parede; vasculho os armários e as gavetas onde ele mantinha seus pertences… e não encontro nada.

Está tudo completamente vazio.

O peso da traição me esmaga e eu não consigo respirar.

— Impa — Purah grita, mas sua voz soa distante, incapaz de me alcançar.

Sinto meu corpo balançando enquanto ela me sacode, tentando me trazer de volta. Ela me dá um tapa no rosto, desesperada, mas eu mal noto a ardência; é como se o fio que conecta minha alma ao corpo tivesse sido cortado, restando apenas um pedaço de carne jogado no chão. Eu me vejo ali, em posição fetal, catatônica, enquanto ela tenta, em vão, me acudir.

Assisto à cena como se fosse uma peça de teatro, representada por atores muito ruins. Deveria ter mais emoção no rosto da garota que foi abandonada e traída pelo amor de sua vida de maneira tão cruel e fria, não?

Mas, assim como os armários, eu estou vazia. Como se minha alma fosse apenas mais um dos muitos pertences de Deen que ele apenas colocou em sua bagagem e roubou em sua fuga.

Purah fala alguma coisa, mas eu não consigo ouvir; eu não quero ouvir.

Eu não quero existir.

Uma palavra me impede de sucumbir à loucura que já começou a fincar suas garras em minha mente.

— …Zelda… — ouço Purah dizer seu nome no meio de seu longo discurso desesperado.

Pisco, aturdida.

— O que tem a Zelda? — minha voz soa rouca, áspera.

Purah suspira aliviada, e ela se curva para a frente conforme solta a respiração e seus músculos relaxam.

— Zelda ainda precisa de você, Impa; você não pode desistir agora — ela diz intensamente.

Aquiesço, buscando forças do fundo do meu ser para me levantar.

— Ela ficou em pânico depois do ataque; estava desesperada, perguntando por você. Você ainda é a guardiã dela, Impa. Sem você ela não vai conseguir completar seu destino.

E, nesse momento eu entendo que, assim como ela admitiu que eu a salvei tantos anos atrás ao entrar em sua vida, hoje ela me retribuiu o favor ao me devolver propósito.

E assim como Deen jurou lealdade a Ganon, hoje eu juro lealdade a Hylia. E eu farei tudo o que estiver ao meu alcance para impedir que a Calamidade vença.