She'd Fly
11 Capítulo 10 — O ato impossível de desistir.
Notas iniciais
Maio de 2006.
Bella.
Edward se sentou bem próximo a mim no sofá, passando um braço ao redor de meus ombros e puxando-me para o seu peito. Eu não me afastei, mal estava respirando — o abraço dele era bom demais para fazer movimentos bruscos demais, por isso me mantive quieta enquanto apoiava meu rosto em seu ombro, perto do pescoço que era onde se concentrava o perfume que ele colocara depois do banho. Tão cheiroso que eu não sentia vontade de desenterrar meu nariz dali.
Perguntei-me se era daquele jeito que pessoas apaixonadas se sentiam: bobas e… anestesiadas, como se o mundo tivesse se tornado um lugar melhor só por causa dele. Se minha mãe estivesse disposta, eu conversaria com ela. Mas talvez ela começasse a chorar ao se lembrar de seu tempo com papai… eu não perguntaria nada, decidi por fim. Descobriria por mim mesma — àquela altura, não era tão difícil quanto parecia.
— Tem certeza que Renée não vai ligar? — Ele perguntou, o rosto afundado no alto de minha cabeça.
Eu bufei um riso amargo.
— Tenho.
Já tínhamos desistido do filme.
— Mês que vem tem um jogo. — Edward informou. — Quero que vá.
— Não temos tudo que queremos. Ninguém nunca te disse? — Eu brinquei.
Ele riu levemente, a sua respiração fazendo com que alguns fios de meu cabelo voassem para o lado.
— Isso é um não? Ou você só está fazendo charme? — Ele indagou, afastando-se alguns poucos centímetros para poder olhar para o meu rosto.
Ele tinha um sorriso modesto no rosto, os lábios meio abertos, hesitantes.
— Não sei. — Fiz charme novamente.
Edward já sabia a resposta. Ele me conhecia, e talvez — naquela hora — fosse a pessoa que mais sabia coisas sobre mim. Meu pai havia morrido. Minha mãe sequer se lembrava da minha existência, então eu achava que esse título era mais que merecido. E, sim, eu estava percebendo mais uma vez que a minha situação era trágica.
Eu não podia dizer que estava completamente bem, analisando por um todo, mas tinha momentos em que eu me sentia quase feliz — que era quando eu estava com Edward ou com Esme que cuidava de mim como se eu fosse sua filha. Para ser sincera, quando eu estava sozinha, eu me sentia um pouco… perdida. Sem saber o que fazer ou talvez para que tipo de futuro a minha vida estivesse me direcionando.
Eu estava assustada como nunca estive, afinal, quando eu era pequena eu costumava pensar que o único futuro possível que eu podia ir era ficar rica por ser médica como sempre quis. Agora, eu não sabia bem quão baixo eu podia chegar. Isso era mais aterrorizante.
— Na verdade, eu quero saber mesmo é se você quer ir para o baile que vai ter no dia seguinte. — Ele murmurou, sem enrolar enquanto observava minha reação.
— Baile? — Eu gemi, desgostosa.
— Se o time de futebol ganhar vai ser uma comemoração. E se não ganhar… bom, ele vai ganhar. Tenho certeza — Ele disse e sorriu, orgulhoso. — E eu quero que vá comigo, Bella.
Eu suspirei.
— Você sabe que eu não gosto de bailes.
— Você ia antes.
— Eu sei, mas…
— Eu prometo que vou ficar o baile todo com você — Ele disse, inclinando o rosto um pouco para o lado, despejando sobre mim todo o seu olhar impetuoso. — Não vou te deixar sozinha, eu juro.
Eu sorri. Ele fazia tanta coisa para me agradar…
— Edward… — Eu roguei. — Acho melhor você chamar outra garota. Eu não sou do tipo que gosta dessas coisas.
Seu sorriso murchou. Era tão fácil saber quando ele gostava de algo ou não, o rosto dele era expressivo até demais — acho que devido aos olhos verdes grandes e o maxilar demarcado com perfeição.
— E o jogo? — Indagou.
Eu sorri levemente, não detendo a minha mão que foi de encontro a sua nuca, bem onde começava a aparecer os primeiros fios de cabelo.
— Eu vou.
Edward sorriu e avançou, capturando meus lábios entre os seus rapidamente, quase como se fosse involuntário que ele o fizesse quando estava feliz. Novamente, me perguntei se ele beijava outra garota daquele jeito que estava beijando e, por um lado, eu não queria saber a resposta para aquela pergunta se fosse positiva. Eu me sentia extremamente possessiva quando se tratava dele. Tanto que, entrelaçando meus dedos em seu cabelo, o puxei para mais perto, aprofundando o beijo.
Ele deslizou a mão por minhas costas, pela lateral de minha cintura e para a base dela, abraçando-me com os dois braços.
Continuei de olhos fechados mesmo quando ele, com a respiração entrecortada, migrou seus lábios úmidos para a minha testa. Eu não queria nunca abrir os meus olhos, talvez ele e seus beijos fossem minha mera imaginação… talvez tudo não passasse de um sonho super-realista. Eu não sabia bem. Tudo que estava sendo excessivamente bem era digno de minha preocupação — as coisas não andavam muito boas para mim, como todos já sabiam.
Depois de um tempo, fomos para cozinha já que meu estômago praticamente rugia de fome.
Edward ficou lá até a hora do jantar, jantamos juntos e, pela primeira vez em muito tempo, meu jantar não se resumiu a comer e olhar desoladamente para nada em especial. Eu estava feliz naquela hora. Não queria nunca deixá-lo ir para casa, sequer sabia o que ia fazer pelo resto da noite.
Alice e Esme me chamaram para ficar em sua casa quando ligaram para Edward para perguntar o porquê de tanta demora, mas eu acabei tendo de dizer não. Não podia deixar Renée sozinha por tanto tempo. Eu precisava cuidar dela.
— Amanhã eu te vejo, então? — Ele propôs.
— Amanhã é sábado… tenho de arrumar a casa.
— Eu te ajudo.
Eu sorri levemente, olhando para baixo enquanto me apoiava na porta aberta.
— Por que você não vem aqui às onze?
Edward assentiu e abaixou o rosto para conseguir me beijar. Mais uma vez. E de novo.
Eu poderia nunca desgrudar dele.
Naquele mesmo dia, acordei Renée para que ela comesse algo, a fiz tomar banho e penteei seus cabelos que já estavam começando a ficar quebradiços. Má alimentação acabava com os cabelos, eu aprendi isso há alguns meses atrás quando os meus próprios começaram a cair e a ficarem opacos. E se tinha algo que eu praticamente idolatrava era o meu cabelo — talvez tenha sido um dos motivos pelos quais eu decidi prestar atenção em como eu me alimentava.
Mas minha mãe… Ela não tinha apreço nenhum por seu cabelo, nem sequer prestava atenção nele… parecia alheio à sua presença enquanto ele deslizava por seu ombro. Ela não tinha apreço nenhum a mim, ela parecia distraída de minha presença quando eu a chamei para comer, quando a fiz se levantar da cama para que ela pudesse tomar banho. O cabelo ruivo e eu só estávamos ali porque tínhamos de estar, se ela pudesse e se estivesse consciente disso, o cortaria fora da sua vida.
Assim que a vesti de roupas limpas e a alimentei o tanto que ela me deixou o fazer, minha mãe se arrastou novamente para a cama, abraçando-se às suas pernas, o rosto afundado no travesseiro. Era uma visão desoladora.
Saí rápido daquele quarto, a minha garganta estava se fechando, pronta para pôr meus canais lacrimais para funcionarem. Respirei fundo, controlei a umidade em meus olhos e juntei as roupas que eu deixaria na máquina para serem lavadas.
Antes de tudo, eu sequer sabia cozinhar um ovo frito. Eu era a típica garota mimada que tinha pai e mãe os quais faziam tudo por ela. Era confortável, eu estava confortável e me sentia a pessoa mais sortuda desse tempo. Eu achava que era aquilo que me fez perder tudo. Digo, se você tem uma coisa atípica e se orgulha dela, em breve a perderá. Ninguém tinha o direito de perceber o quão sortudo era.
Por exemplo, eu me sentia uma criança que, por um momento, se sentia muito feliz, percebia aquilo e, logo em seguida, seus pais lhe colocavam de castigo. Uma felicidade roubada, passageira e ilusória. Você pensa que você nunca mais ficará triste e acontece algo no segundo seguinte.
Não quero me aborrecer esse ano, você pede nos segundos finais de cada ano. Eu pedi, pelo menos, e, alguns meses depois, meu pai morreu. Todo ano eu acreditava que funcionaria… eu poderia ser feliz por um ano inteiro, sem interrupções. Que grande tola eu era! Não acreditava que um dia eu havia chegado mesmo a ser tão boba a ponto de pedir uma coisa daquelas.
Se não fossem pelos acontecimentos, eu ainda faria os mesmos pedidos, sorriria e acharia que aquela felicidade enorme nunca acabaria. Eu seria uma comum garota de catorze anos que adora viver sorrindo para as pessoas por nada em especial.
Eu seria a Bells de meu pai. A Bells que se foi junto com ele.
Enquanto a roupa era lavada pela máquina, estudei para a prova de Biologia que teria na semana seguinte, li o livro que havia pegado na biblioteca. E, depois, quando não restava mais nada para fazer, deitei-me no sofá e olhei para o teto — esperando que fosse tarde o bastante para ir dormir num final de semana.
Então, não sei como, meu pensamento se voltou para Edward Cullen. E tudo que e consegui me lembrar, quando acordei, foi que eu estava perdidamente apaixonada por ele — e não sabia quantas vezes eu tinha pensando isso quase em pânico porque não deveria estar apaixonada por ninguém, eu era complicada demais para isso.
Eu admitia. Eu sabia.
Mas eu sempre soube também que nunca havia deixado de estar apaixonada por ele. Mesmo com todo esse tempo todo longe.
Eu acordei de madrugada no sofá, o braço latejando por eu estar me apoiando por muito tempo. Suspirei com pesar, arrastando-me pela escada até chegar ao meu quarto que era o terceiro do corredor silencioso se não fosse pelos fungados de Renée. Eu os ignorei — ela sempre chorava de noite e se eu quisesse ajudá-la, iria me tratar agressivamente. Já havia aprendido minha lição.
Joguei-me na cama, exausta e adormeci.
Acordei no dia seguinte com as janelas do meu quarto abrindo-se e logo estranhei — quem abria as janelas do meu quarto era eu mesma quando eu me lembrava de fazê-lo.
— Bella! — Minha mãe me chamou, tirando o cobertor quente de cima de mim.
— Oi, mãe. — Eu franzi o cenho.
— Estamos atrasadas, meu amor! Se levante.
— Atrasadas para o quê? — Cocei meus olhos irritados por eu ter acabado de acordar e olhei para o calendário que ficava ao lado de minha cama.
Talvez tudo não tivesse passado de um sonho ruim, Charlie estava vivo e tudo foi um sonho do qual eu acabara de me acordar. Eu estava feliz, quase cheguei a sorrir até notar que, bom, estávamos em Maio. Como de costume.
— Charlie está chegando com a árvore de natal, Bells. Prometemos que iríamos arrumá-la de manhã, lembra?
— Mãe. — Eu suspirei e desviei meus olhos. — Nós estamos em Maio.
— Claro que não. — Ela negou.
— Maio de 2006. — Minha voz falhou, meus olhos marejando.
— Bella, do que você está falando? — Renée soltou um sorriso incrédulo.
Eu observei, lentamente, a sua expressão sorridente cair para uma frustrada, e, por fim, distorcida em um choro inevitável. Apesar de estar com a garganta apertada e os olhos cheios de lágrimas que eu não conseguiria evitar, joguei o lençol para o lado e pulei da cama, indo atrás dela — ou tentando.
Minha mãe se trancou no quarto antes que eu pudesse sequer a alcançar.
— Mãe! — Eu a chamei. — Abre a porta. — Eu choraminguei.
Podemos fazer isso juntas. Podemos…
— Vá embora! Vá embora como o Charlie foi.
Aquela frase acabou comigo. Eu tinha quase certeza de que ela ficaria marcada em minha mente para sempre, como uma tatuagem a qual não precisaria de retoque caso clareasse. Engoli o bolo em minha garganta com força e respirei fundo, notando que a queimação que eu sentia em meu rosto era devido àquilo.
Tranquei-me dentro do meu quarto — coisa que eu raramente fazia — e enfiei-me debaixo das cobertas. Chorei pelo resto do tempo que tive livre até me lembrar de que eu tinha de arrumar a casa. Acabei deixando a limpeza para outro dia, eu estava com o corpo doído como se as palavras de minha mãe fossem um caminhão que passara demoradamente por cima de mim. Nenhum órgão interno foi exposto ou danificado, no entanto. Eu já estava oca há muito tempo.
De onze e dez, o meu celular tocou e eu acordei lentamente da letargia que eu me encontrava. Era Edward.
— Bom dia! — Ele cumprimentou assim que eu coloquei o celular no meu ouvido.
— Edward. — Minha voz estava terrível mesmo eu tentando falar normalmente com todo o meu esforço. Estava arranhada, falha, como se um gato rouco estivesse tomado conta de minhas cordas vocais. — Sinto muito. — Disparei. — Acho que… quero ficar sozinha. — Minha intenção era falar que não estava me sentindo bem, que estava doente.
— O que aconteceu? — Ele perguntou, tão preocupado que tudo que eu queria era afundar meu rosto em seu ombro e chorar até não ter mais lágrima nenhuma.
— Eu não sei. — Funguei. — Não sei.
Era verdade.
— Bella, eu estou indo para aí.
Por favor.
— Eu quero ficar sozinha, já te disse. — Sussurrei.
— Me ligue se precisar de algo.
Eu não o ligaria. Não o deixaria me ver naquele estado deplorável em que eu me encontrava. Eu podia melhorar sozinha, sempre o fiz… então por que agora eu sentia como se precisasse de Edward para ficar bem? O anseio poderia ser enorme e eu não cederia de jeito algum. Pelo menos eu estava convencida disso até meia hora depois.
Sem minha permissão — elas nunca pediam —, as lágrimas recomeçaram a deslizar por meu rosto. Elas secavam por piedade, mas os canais lacrimais eram cruéis e produziam mais água salgada para me fazer chorar. Eu não sabia o porquê, mas eu achava que o fato de chorar fazia o sofrimento ficar mil vezes pior. Como se, com as lágrimas, vocês finalmente tivesse alcançado o fim do poço.
Eu já o havia alcançado há muito tempo, agora eu já estava quase chegando ao centro da terra.
Meia hora depois da ligação do Edward, eu levantei-me da cama e me arrumei. Fui para o banheiro e tomei um banho tão quente que a minha pele ficou vermelha quando eu acabei e o meu cabelo, provavelmente, mais seco do que nunca quando enxugasse. Prendi minhas lágrimas, inspirei uma grande lufada de ar e peguei meu celular, já discando o número de Edward o qual eu decorara há alguns meses.
Ele atendeu no terceiro toque.
— Bella, oi.
— Eu — Pigarreei, passando os dedos pelos fios embaraçados de meu cabelo molhado — posso ir para a sua casa?
— Eu te pego aí. — Ele disse. — Há algum problema?
— Não. — Sussurrei.
Quando desliguei, mandei mentalmente que eu parasse de chorar. Eu deveria me acostumar, já deveria estar acostumada… Desde que minha mãe me mandou para a casa de minha tia por não ter capacidade de ficar comigo, deveria ter me acostumado com a nova condição dela. No entanto, eu ainda me perguntava se um dia aquilo seria confortável o bastante para se adaptar. Eu tinha quase certeza que não.
Dez minutos depois, Edward estava lá. Ele vestia um moletom azul escuro e uma calça jeans clara, os cabelos revoltados após uma noite de sono. Ele estava corado também e a visão dele na soleira de minha porta era linda, fez-me soltar um sorriso leve, apaixonado.
— Oi. — Murmurou ele.
Edward envolveu os braços ao meu redor, pressionando o meu rosto contra o seu peito. Como se estivesse me consolando sem falar nada. Normalmente, eu odiava ser consolada — não precisava de ninguém, podia ficar bem por mim mesma —, mas aquele consolo vindo dele foi querido, eu quase ansiava por isso.
Talvez eu precisasse mesmo ser consolada. Mas só daquela vez.
— Me diga para onde você quer ir que iremos. — Edward disse assim que afrouxou seus braços ao meu redor.
Eu sorri. Na verdade, tudo que eu queria fazer era voltar para cama e dormir, mas eu me recusava a me render para a depressão que envolvia seus braços pegajosos e frios ao redor de mim.
— Qualquer lugar. — Tirei o meu cabelo de meu ombro direito e o joguei para trás, arrependo-me por tê-lo molhado.
— Vamos para a minha casa, então. Esme está fazendo uma lasanha ótima.
A mãe de Edward me recebeu com um enorme sorriso e um abraço acolhedor. Aquele abraço me lembrava de todas as vezes em que eu e Renée a visitávamos e ela acabava me abraçando para me cumprimentar. Ela sempre foi afetuosa, perguntei-me, com o rosto pousado em seu ombro o porquê de Carlisle tê-la traído tantas vezes. Como Edward havia falado, ela era uma ótima pessoa e passava longe de merecer aquele tipo de humilhação.
Esme segurou meus ombros com as duas mãos, olhando-me com um sorriso e um olhar amoroso assim que me afastou. Ela era tão nova… e os olhos de Edward haviam vindo dela: verdes, profundos e calorosos.
— Sabe, você pode vir aqui quando quiser, Bella. Todo mundo aqui adora a sua companhia. — Ela passou uma mão pela minha bochecha, acariciando-a.
Eu sorri envergonhadamente, baixando meus olhos.
— Você sabe que eu sempre lhe considerei uma filha. — Esme disse.
— Obrigada. — Eu sussurrei.
Eu tinha um grave problema sobre demonstrar sentimentos e Esme sabia disso, ela me conhecia desde que eu era pequena e costumava sair em disparada com Edward pela sua casa, apostando pega-pega. Quem chegasse por último tinha de comer areia — e não era tão ruim assim, Edward que o diga, ele sempre chegava depois de mim.
— Bella! — Alice cantarolou quando entrou na cozinha e praticamente dançou até a minha direção com os braços abertos para um abraço.
Seu abraço foi firme e rápido, antes de ela se separar para sorrir.
— Você está sentindo isso? — Indagou. — É o sentimento de que devemos sair hoje.
— A Bella é minha hoje, Alice. Você não vai puxá-la para o shopping de novo. — Edward resmungou.
Eu sorri. Enquanto em um lugar eu estava sendo rejeitada, em outro estavam brigando para ficar comigo. Não era soberba o que eu senti, era a mais pura… felicidade — àquela que você quase chega a se enganar pensando que é definitiva.
— Bella… — Alice choramingou.
— Tem Bella para todo mundo, crianças. — Esme disse, soltando um riso.
Eu corei quando Edward me olhou, apelando com os olhos.
— Eu a trago para casa antes das três e meia, prometo!
— Bella, o que você quer fazer, querida? Que tal perguntá-la em vez monopolizar a garota como estão fazendo? — Esme manteve os olhos no fogão.
Os dois pares de olhos mais apelativos do mundo se voltaram para mim, movidos pela curiosidade de saber quem seria o vencedor.
— Edward, eu fico até de noite aqui. — Eu lhe sorri complacentemente.
— E amanhã? Você vem?
Alice, ao meu lado, revirou os olhos. Esme suspirou, mas não de tédio. Só me restou ficar com as bochechas esquentadas pelo sangue.
— Venho. — O que mais poderia fazer? Minha mãe não se importaria nem se eu saísse todos os dias e só chegasse de madrugada. Ela não se importaria com nada que eu fizesse.
Depois de almoçarmos, Alice logo me puxou escada acima para nos arrumarmos para ir ao shopping. E eu até tentei ir até a minha casa para trocar de roupa e essas coisas, mas ela apenas me emprestou uma roupa e resmungou que o tempo estava correndo e precisava fazer tudo que queria hoje porque eram raras as vezes que Edward a deixava ter um tempo comigo. Tagarelou sobre o ridículo monopólio que ele pensava exercer sobre mim.
No final, ela parou à minha frente, bagunçou os meus cabelos que já haviam secado e olhou para o meu rosto com interesse.
— O que você faz para ter uma pele tão bonita mesmo sem maquiagem? — Inclinou o rosto para o lado, me analisando.
— Nada. — Respondi de imediato.
Chorar fazia bem para a pele e para os olhos. Eu sabia disso por experiência própria.
Alice sorriu.
— Coloque um batom, apenas.
Alice iria para o baile o qual seria realizado por minha escola e insistiu tanto para que eu fosse que eu acabei somente maneando a cabeça, suspirando e falando que iria porque, diante a teimosia daquela menina, quem tinha vontade própria? Não eu, certamente. Fazia um tempo — muito grande — que eu não comprava nada para mim — eu sequer saía! —, e aquele tempo começou a ser recontado a partir daquele dia.
A irmã de Edward me fez provar vários vestidos, encheu-me os braços com eles e calças jeans das quais eu não precisava. Acabei comprando, fazendo-me uma promessa que aquele gasto era necessário e que eu não gastaria daquele jeito pelos próximos meses. Felizmente, eu sabia que eu conseguiria cumprir aquela promessa, eu tinha autocontrole do consumismo quando se era preciso. E eu sempre precisava ter uma vez que minha mãe não se interessava pelas finanças da casa.
Então, alegre como uma criança saltitante que estava em um parque de diversões, Alice puxou-me para um salão de beleza, alegando que precisávamos mudar radicalmente o nosso visual.
— Não, isso não. — Eu choraminguei. — Eu gosto do meu cabelo como ele está.
— Por favor, Bella! — Ela agarrou o meu braço, triplicando os olhos verdes em minha direção, implorando. — Só umas mechas.
Como tudo que ela me propôs naquele dia, eu acabei aceitando com alguma relutância. Fazer mechas no meu cabelo agora era simples… eu poderia pelar a minha cabeça e mesmo assim ninguém se importaria com isso, minha mãe sequer se importaria com o resultado — sequer perceberia, eu apostava. Meu pai se estivesse vivo, proibiria, com certeza. Mas ele não estava, então, não pensei duas vezes.
Fiz umas mechas rosa quase na metade do cabelo que, sozinha, eu não teria coragem de fazer. O resultado ficou… diferente do que eu era, na verdade. As mechas rosa eram alegres demais para o que eu demonstrava ser. Mas, apesar de tudo, eu gostei de verdade. Meu rosto normalmente pálido tinha uma cor a mais e eu parecia feliz.
Alice, por outro lado, optou por uma coisa mais a cara dela: pintou o cabelo escuro de um castanho claro, dourado, parecido com o tom de cabelo que Esme e Edward tinham.
Cheguei à casa de Esme exatamente às três e meia e Alice já estava sorrindo presunçosamente quando entrou na sala. Esme estava na cozinha, fazendo algo no fogão que cheirava bem o bastante para fazer meu estômago dar sinais de vida. Edward estava dormindo no sofá.
— Hmm, que cheiro bom! — Alice elogiou quando chegou à cozinha.
Esme sorriu largamente, virando-se para abraçar a filha adotiva.
— Vocês estão lindas! — Esme observou, sorrindo. — Tenho certeza de que essa ideia foi de Alice, não foi, Bella? — Um sorriso complacente apareceu em seu rosto jovial.
— Totalmente. — Concordei.
— Ela sempre foi adepta a loucuras mesmo.
— Ah, mãe. — Os olhos de Esme brilharam. — Foi uma loucura boa. Veja como a Bella está.
Alice olhou em minha direção, para dar ênfase a sua frase.
— As mechas combinam com as bochechas coradas. — Esme notou.
Eu sorri, envergonhadamente.
Edward acordou dez minutos depois, quando eu estava provando do Brownie de chocolate que Esme havia feito. Ele beijou a minha bochecha, em cima dos meus cabelos que caiam por meu ombro direito, antes de se sentar ao meu lado.
— Quando é que vocês vão namorar? — Alice perguntou.
Eu arregalei meus olhos.
— Alice. — Esme repreendeu, constrangida. Não mais que eu.
— O quê? Faz um tempão que eles estão nisso.
Edward me olhou, gargalhando. Eu não retribuí ao seu olhar, com as bochechas e orelhas quentes e, provavelmente, vermelhas de vergonha. Tratei de enfiar outro pedaço de brownie em minha boca, assim não precisava ter de responder a nenhuma pergunta constrangedora de Alice. Foi uma péssima escolha. Edward também não era a pessoa mais adequada para responder àquela pergunta.
— A Bella que está me enrolando, na verdade. — Ele disse.
Alice e Esme arregalaram os olhos, incrédulas. Elas riram quando perceberam o meu constrangimento.
— Você não vai se defender, Bella? — Ela era uma sádica, eu tinha certeza.
— Alice. — Eu roguei. — Pare já com isso.
Ela ergueu as mãos para o alto, bufando um sorriso.
Depois de ajudar Esme a limpar e desocupar a mesa, Edward deu um jeito de me puxar para o jardim que eu estava relutando para ir. Eu sabia o que ele queria falar e quase cheguei a culpar Alice introduzido um assunto que eu tentava afastar com todas as minhas forças. A culpa era minha, eu sabia disso. Eu que não queria namorar Edward por ele ser… ele era uma pessoa complicada para se ter um namoro de verdade.
E eu estava evitando situações em que eu sabia ter um alto risco de eu me machucar.
— Combinou com você. — Ele disse, pegando uma mecha de meu cabelo em uma de suas mãos.
Eu assenti.
Edward sorriu e pôs a sua mão em minha bochecha.
— Não fique envergonhada.
— É impossível não ficar quando você fica falando aquelas coisas na mesa. — Resmunguei. O meu desconforto parecia soar engraçado para ele porque ele simplesmente não parava de sorrir de algo que meu rosto denunciava.
— É a mais pura verdade. — Insistiu.
— Não é. — Eu teimei.
Ele inclinou o rosto para o lado e puxou o meu queixo na direção dele, beijando-me rapidamente os lábios.
— Eu quero apenas um motivo válido para você não querer namorar comigo. — Ele enfiou a mão em minha nuca, aproximando-se de mim no banco-balanço que dividíamos.
Eu suspirei. Os motivos que eu tinha eram covardes.
— Hmm, você é daquele tipo de garoto popular que tem “Problema” escrito na testa. — Não pude evitar sorrir e estender uma mão para passar pelo seu maxilar em uma carícia simples e envergonhada. — Acho que metade das alunas daquela escola é a fim de você. — Citei.
— Não são válidos. — Edward passou a língua pelos lábios.
— Por quê?
— Você fica colocando pessoas numa coisa que só seria eu e você, Bella. — Edward parecia tão maduro falando daquele jeito. — Se você falasse “Eu não gosto de você o suficiente” ou “Só sinto amizade por você” eu até aceitaria, mas…
Eu abaixei meus olhos, as bochechas ardendo.
— Você sente algo por mim? — Ele perguntou.
Eu sorri, amargamente.
— Essa é uma pergunta boba a se fazer, Edward. — Murmurei, falando baixo como se aquele fator pudesse anular as minhas palavras. — É claro que eu sinto algo mais que amizade por você.
Edward sorriu mais uma vez.
— Então namore comigo. — Ele propôs.
Seus olhos estavam calorosos e claros, sorridentes assim como seus lábios que exibiam uma dentição perfeita. Edward era bonito e eu era… bom, tudo bem, eu não era tão feia assim, mas também não chegava aos pés de Chelsea — uma opção que Edward tinha com clareza e facilidade a sua disposição. Edward deveria ser daqueles caras populares que tinham toda a escola aos seus pés.
Mas ele era diferente. Acho que sempre foi — eu estava me cegando por covardia de assumir um relacionamento sério e adulto, porque, afinal, eu não tinha experiência alguma e tinha medo de me machucar.
— Eu sei que você é boa demais para mim, mas… — Ele hesitou.
Eu ri. Pelo menos tínhamos pensamentos semelhantes, embora opostos.
— Você é inacreditável. — Permaneci sorrindo ao lhe olhar.
— É um sim? — Perguntou, esperançosamente.
— Talvez. — Gracejei.
Era um sim e ele sabia.
Fale com o autor