She'd Fly
6 Capítulo 05 — Primeiro e último.
Notas iniciais
Janeiro de 2013.
Edward.
Eu tinha duas notícias. Uma boa e outra ruim.
A boa era: Isabella não tinha se matado com as giletes.
A ruim era: Ela não tinha se matado.
Eu estava em um humor terrível quando estacionei meu carro na garagem que precisava ser reformada. Não entendia o porquê de estar tão rabugento. Talvez fosse Isabella que fizesse com que meu humor decaísse em um espaço de tempo tão pequeno. Tudo sempre era culpa dela. Se essa casa pegasse fogo, seria culpa dela. Se um meteoro atingisse a terra e matasse todo mundo, seria culpa dela. Tudo era culpa dela porque ela sempre fazia as coisas erradas.
E é mais confortável colocar a culpa em alguém sem ser você. Sempre foi.
Quando eu abri a porta de minha casa, a primeira coisa que eu percebi foi que Isabella não estava no terraço como ela costumava ficar. A segunda coisa que eu percebi foi que o bilhete que eu a deixara estava em cima do balcão da cozinha, pousado calmamente. Não estava rasgado, não estava no lixo. Isabella me surpreendera daquela vez pelo menos. Pareceu-me um pouco mais lúcida a partir daquele momento.
Percorri a casa toda a procura dela. E nada. Eu sequer sabia o porquê de estar me dando ao trabalho de procurar. Eu deveria estar aliviado. Deveria ir tomar banho e levantar meus pés para a mesa de centro enquanto assistia o noticiário que, antes de Isabella, eu costumava assistir toda a noite. Sem faltar nenhuma.
Bufei de raiva, abrindo as janelas para ver se ela não estava, sei lá, caída por algum lugar. Eu não sabia. Estava até pensando em como eu falaria a tia dela que sua sobrinha havia simplesmente evaporado. Não que eu achasse que ela fosse ligar muito. Eu podia até imaginar ela dizendo para mandar a conta da funerária quando achasse o corpo porque, sim, apesar da ladainha que eu escutei quando procurei por Isabella em seu apartamento, ela não se importava nem um pouco para a garota.
Ontem, Isabella ligara para ela. Sua tia até atendeu, mas quando ouviu a voz de sua sobrinha desligou a ligação. Isabella ligou de novo, um segundo depois. E estava desligado. Observei discretamente a garota engolindo o choro e suspirando. Naquele momento eu realmente me perguntei como era a sensação de saber que você está sozinho no mundo.
Eu tinha a minha mãe para recorrer caso algo acontecesse. Tinha até mesmo Alice, apesar de tudo. Tinha Emmett e Williams. Isabella não tinha ninguém.
Somente quando abri a janela do meu quarto que percebi que a casa ao lado estava com a luz da sala acessa. Um milagre. Uma senhora de cinquenta e poucos anos morava lá sozinha com um cachorro e passava a maior parte no andar de cima ou no seu quarto enquanto tocava o piano que tinha. Eu sabia disso porque a casa era praticamente colada a minha e eu ficava encarando a luz do andar de cima até adormecer.
Franzi meu cenho, é claro. Eu trabalhava como policial há quatro anos, já tinha tido tempo de aguçar a minha percepção de coisas suspeitas.
Antes mesmo de entrar no jardim da casa vizinha, vi Isabella pela pequena janela de vidro. O que diabos a garota está fazendo? Indaguei-me. Esperava que ela não tivesse caído por lá e a senhora a tivesse chamado para entrar. Esperava que ela não estivesse me dando mais problemas. Ela estava falando, sentada e tinha um cachorro — o cachorro da senhora — perto dela, cheirando a barra de sua calça jeans. Segurava uma xícara de chá em sua mão e com a outra acariciava a pelagem parda do cachorro.
Parecia lúcida. Seu rosto estava o mais perto de um sorriso do que um dia esteve ultimamente.
Impaciente, toquei a campainha. Fui atendido em poucos segundos pela tal senhora. Apesar de não ser tão velha, ela já tinha cabelos completamente brancos. O rosto, por outro lado, transmitia jovialidade. Ela tinha olhos verdes e acesos, sorriso fácil e um rosto com poucas rugas para a sua idade.
— Oi, querido. — Ela cumprimentou, sorrindo.
— Oi — Franzi o cenho, desconfortável. — Desculpe incomodar. Vim pegar a Isabella.
— Ah, a Bella? — Ela sorriu mais uma vez, olhando para trás. — Você não quer se juntar a nós? O assunto estava tão bom… Ah, que grosseria de minha parte! Sou Charlotte April. Mas chame-me apenas de April.
— Edward. — Apertei a mão que April me estendeu.
— Nenhum apelido? — Ergueu as sobrancelhas.
— Não.
— Ah — Seu sorriso murchou um pouco. — Vou chamar a Bella.
O cachorro chegou antes de Isabella. Ele farejou algo na barra de minha calça e latiu. Para mim. Pelo visto, não havia ido com a minha cara. Ou sei lá. Fazia um tempo que eu não sabia sobre cachorros, eu havia tido um que até agora não sabia onde estava — eu não queria perguntar a Isabella, na verdade, porque eu o havia deixado com ela quando vim para a Califórnia.
O labrador — bem parecido com o que eu tinha antes — continuou a latir, sem avançar para atacar, para mim até Isabella o tocar com a ponta dos dedos. O toque pareceu acalmá-lo o bastante para ele se empertigar contra a perna dela, esfregando a cabeça até que Isabella o acariciasse novamente.
— E então? — Ela chamou a minha atenção.
— Você sumiu. — Eu a disse.
Isabella revirou os olhos, zombando de mim. Charlotte se afastou para nos dar privacidade e eu quase suspirei de felicidade por isso.
— O que você está fazendo aqui? — Peguei em seu braço, puxando-lhe um pouco mais para fora da casa.
O cachorro rosnou. Eu o ignorei.
— Você está me machucando. — Isabella trincou os dentes e puxou seu braço de minha mão. Eu não tinha ideia da força que estava usando até ver a marca vermelha de meus dedos em seu braço. — E April me convidou para tomar um chá, portanto eu vou ficar até quando eu ou ela quiser.
Suspirei pesadamente, estressando-me.
— Você volta para casa da sua tia ou para rua amanhã. — Eu a avisei.
Isabella assentiu.
Dei-lhe as costas e caminhei para fora da varanda.
— Você deveria ser mais controlado e deixar as coisas que acontecem no seu trabalho de merda lá e não descontar em mim quando chega! — Isabella disse. Ela não gritou. A voz ressentida e raivosa dela, porém, tinha mais efeito do que um grito teria.
Passei a mão pelos meus cabelos ao sair pela casa de Charlotte, impaciente. Isabella estava certa. Eu descontava nela coisas que eu nem ao menos sabia o que eram. Eu apenas… destinava a ela um nível muito grande de ódio incoerente.
Talvez eu só… estivesse acostumado com a Bella doce de antes. Talvez eu estivesse castigando Isabella por não ser a mesma de quatro anos atrás. Talvez eu fosse um idiota por fazer isso, mas quem se importava? Talvez ela se importasse, mas… mas ela não tinha mais salvação. Morreria. Mataria-se. Eu não sabia por que estava tão convicto disso. Eu não sabia por que estava tão indiferente com isso. Eu não sabia qual era o meu problema porque estava claro que eu tinha algum.
Tomei banho e vesti roupas novas — o que me fez perceber que todas as roupas de Tanya que serviria para Isabella estavam sujas. Corajosamente, chequei se ela continuava na casa de Charlotte e andei um quarteirão, até o prédio de sua tia que era tão perto de minha casa… eu achava uma falta de vergonha na cara que ela não quisesse abrigar a sua sobrinha.
Talvez, como eu, ela soubesse que não tinha mais volta para Isabella e estivesse simplesmente desistindo. Como eu deveria fazer: Desistir porque não valia a pena continuar tentando salvar alguém que já havia morrido. Não tinha massagem cardíaca alguma que a salvasse. No fundo, eu não acreditava nisso. Por isso continuava persistindo.
Assim que percebeu ser eu, a querida e amável tia de Isabella Swan fechou a porta na minha cara.
— Eu só quero pegar roupas para ela! — Eu gritei, do lado de fora. Eu nunca havia me sentido mais ridículo do que naquele dia.
A raiva transpirou por meus poros, concentrando-se em meus punhos.
— Não se demore. — Ela abriu a porta a contragosto para mim.
O quarto de Isabella era impecavelmente arrumado. Surpreendi-me por isso, é claro. Eu esperava que fosse um furacão como eu imaginava ser a mente dela: revirada e confusa, difícil de achar um pensamento coerente que fosse. Era ao contrário — como muitas coisas nela. As roupas estavam nos cabides, separadas em gavetas que não estavam reviradas.
A tia dela me ajudou a guardar quase todas as roupas dentro de malas e depois umas coisas que, por mim, eu não teria sequer pegado, como: diversas agendas já usadas, uma caixa de joias que, quando abria, tinha uma bailarina no centro que rodava e rodava até a música acabar. Desnecessárias ao extremo para mim.
— Renée que a deu. — Ela disse.
— Ah.
— Acho que Bella gostará de ter isso por perto dela.
— Ela gostaria que você fosse uma tia decente e não a jogasse em uma clínica que a prende em um porão. — Não pude deixar de soltar. Eu estava tão irritado com aquela situação que mal conseguia ter controle sobre o que eu falava e deixava de falar.
Que tipo de tia deixa a sobrinha na casa de um ex-namorado com a qual ela não fala há mais de quatro anos? Eu não conseguia ver uma linha coerente nisso tudo. Achava que nunca conseguiria, afinal de tudo. Quer dizer, eu sabia que Alice — apesar de não ser minha irmã de sangue e apesar de eu nunca responder às suas cartas — seria mais solidária do que a tia de Isabella era com ela.
— Acho que, Policial Edward, você pensa que eu a abandonei em uma clínica. — Ela pressionou os olhos em minha direção, com raiva. Era quase uma cópia de uma Isabella mais velha e loira. — Você pensa que, oh, eu sou a única desalmada que um dia abandonou Bella, mas por que você não começa olhando para si mesmo primeiro? Eu não fui a primeira nem serei a última a abandonar Isabella.
Respirou fundo, controlando-se. Eu mal a enxergava em minha frente.
— E, além do mais, Bella tem que crescer. Já te vinte e um, vai fazer vinte e dois… já é uma adulta. Não pode sofrer para sempre a morte dos pais.
Dos pais. Isso significava que Renée, de alguma forma rápida e discreta, havia morrido também.
— Não seja um maldito hipócrita e saia da minha casa. — Ela mandou com os braços cruzados.
— Isabella nunca mais pisará aqui. — Eu a informei.
— Não faço questão que isso aconteça. — Rebateu.
Eu sequer sabia ou lembrava o nome dela, mas conseguia sentir o ódio fluindo por todas as células de meu corpo quando estava por perto. Não sabia o porquê de ela ser como era, e não estava mais interessado em saber. A tia de Isabella já havia deixado claro que não queria a sobrinha de volta. Eu não iria insistir, estava colérico demais para isso.
Saí do apartamento dela pisando com força, raivoso. Eu nem mesmo sabia o porquê de estar com raiva de uma coisa que envolvia completamente Isabella. Fazia algum tempo que eu não tinha plena certeza de certas coisas. Na verdade, isso só aconteceu a partir do momento em que Isabella ameaçou se jogar do prédio. Parecia que a minha vida, a partir daquele momento, começou a rotacionar ao redor dela. Como se ela fosse o sol e eu fosse a terra.
A única semelhança do sol com Isabella, porém, era que, ao se aproximar, queimava.
Quando entrei no quarto dela sem bater, surpreendi-me ao notar que ela já estava dormindo, novamente encolhida perto da parede, abraçando suas pernas com força. Deixei as malas com roupas perto de sua cama, cuidadosamente porque eu, sem dúvida alguma, não queria que ela acordasse com o humor pior do que já tinha. Levei apenas as duas agendas para folhear e saciar a minha crescente curiosidade.
Se Isabella não iria me falar, eu leria o que ela escreveu. Deveria ter, no mínimo, informações sobre o que acontecera para deixá-la tão abatida.
Sentei-me em minha cama depois de me livrar dos meus sapatos e fechar a porta do quarto — o que, normalmente, pessoas culpadas faziam quando não queriam ser pegas no flagra. Não cheguei nem na primeira página quando uma folha rabiscada com a letra cursiva de Bella caiu da agenda que eu decidi ser a primeira.
Passando os olhos rapidamente, percebi ser uma carta de suicídio. Sério, Isabella? Pelo amor de Deus. Revirei os olhos.
Mãe,
Acho que enlouqueci.
Sinto muito por não aguentar por enormes seis anos como você fez e sinto muito por estar escrevendo isso, mas preciso falar com alguém. Não literalmente. Você entendeu o que eu quis dizer. Espero que esteja sorrindo de minha confusão como sempre fez. Eu sempre sorria de volta, envergonhada. Não estou sorrindo agora. Espero que me perdoe por isso também. Não é de propósito que faço isso.
Mãe, eu espero que me perdoe por não me juntar a você no céu. Sei que sempre falou que quem comete suicídio não vai para o paraíso. E de verdade? Acho que estou um pouco mais incrédula sobre isso do que sempre fui. Sinto muito por não compartilhar de sua crença. Mas o que eu estou falando? Isso aqui deveria ser sobre eu me despedir porque, sim, é isso mesmo. Vou me matar. Estou me matando. E, na verdade e não literalmente, estou a morrer desde que você e o papai decidiram me deixar. Não se sinta culpada. Ninguém escolhe a hora que vai morrer. Nem mesmo os suicidas.
Eu não aguento mais. Você sempre soube que eu fui uma garotinha impaciente. E eu estou impaciente por me juntar a você e ao papai — embora eu ache que, no final das contas, acabarei me encontrando somente com o diabo. Não se horrorize, mãe. E me desculpe por usar tal termo, mas é a verdade. É a minha realidade desde que você se foi. Sinto muito por lhe falar isso. Novamente: não se sinta culpada.
Só quero dizer que sinto sua falta. E sinto muito por ser tão covarde a ponto de não esperar a morte que seu Deus quer para mim. Não aguentaria esperar, não estou nem ao menos aguentando respirar. Eu amo você. Sempre o farei. Sempre serei a sua garota, sua filha. Mesmo com essas escolhas infelizes. Sei que vai me amar, mesmo que não compreenda. Você sempre foi melhor que eu. Sei que sim.
Eu amo você. Preciso dizer mais uma vez. Nunca se esqueça.
Para sempre sua garota,
Bella Marie Swan.
“Estou me matando (...)” A minha mente focou naquela parte em especial não sei por qual motivo. Não consegui parar de pensar nem quando me deitei, cedo demais, para dormir. Reli a carta por mil vezes a mais, tentando entender. A carta estava datada como novembro do ano passado e como ela dizia que estava se matando? Eu estava mais confuso do que estivera antes. E o pior era que se eu fosse perguntar para ela sobre a carta provavelmente não teria uma resposta e ela descobriria as agendas que eu mantinha.
Eu precisava saber mais coisas sobre Isabella Swan e, pelo que parecia, suas tentativas de suicídio. Talvez ela estivesse se referindo ao corte no pulso, talvez à outra coisa. Eu não sabia. Precisava saber e sequer tinha ideia de quem tinha conhecimento sobre aquilo. Isabella não era uma pessoa de muitos amigos e toda família que ela tinha não a queria. E, além do mais, eu tinha quase certeza de que a tia dela não me deixaria entrar no apartamento mais uma vez.
Fui dormir depois de folhear algumas páginas das agendas, não encontrando nada que me interessasse ou que informasse algo de verdade. No outro dia eu estava decidido a perguntar a Isabella o que a havia acontecido, iria dizer-lhe que era somente com a intenção de ajudá-la. Não que eu achasse que ela fosse acreditar, no entanto o que valia mesmo era a tentativa a qual eu não poderia perder.
Quando eu finalmente consegui desligar minha mente das três palavras “Estou me matando”, sonhei com Renée. Foi um sonho meio macabro, na verdade. Ela estava com o pescoço pendendo para o lado, quebrado, de olhos abertos e um sorriso amistoso nos lábios tão vermelhos quanto sangue. Claramente estava convidando alguém a se juntar a ela. Bella, a Bella de antes com longas mechas rosa no cabelo, andava até ela, corajosamente. Sentava-se em seu colo, afundava o rosto em seu pescoço.
Mas Renée continuava de olhos abertos. Eles me convidavam.
Joguei água em meu rosto após escovar os dentes. Tentei com afinco tirar a imagem de Renée de minha mente. Acabei não conseguindo e tinha a sensação de que não conseguiria nem tão cedo.
— Você tem que comer. — Eu disse a Isabella assim que entrei na cozinha.
Ela estava em pé perto da pia, bebendo um copo de água e de costas para mim. Percebi que seu cabelo havia crescido, empurrando as mechas rosa para perto das pontas que batiam no fim da sua cintura.
— Obrigada por pegar minhas roupas. — Ela sussurrou. Pigarreou, sua voz continuava fraca do mesmo jeito quando continuou a falar: — Vou… arranjar um lugar para ficar hoje.
— Você não vai a lugar nenhum. — Não enquanto eu não soubesse o que havia acontecido. — Sua… sua tia mandou que eu cuidasse de você.
— Ela nem ao menos se importa comigo! — Exclamou, virando-se exasperada em minha direção. — Duvido que tenha falado mais que dez palavras com você. E se foi mais, com certeza foram odiosas. Aposto que ela disse que eu nunca mais aparecesse na merda de seu apartamento.
Isabella esperou, me olhando. Desviei os olhos.
— Foi isso, não foi?
— Quem se importa para o que a sua tia diz?
— Eu me importo, Edward.
Eu a olhei, e meio segundo depois estava olhando a geladeira. Eu nunca conseguia fitar Isabella nos olhos, não por tanto tempo quanto eu fazia antes. Os olhos dela eram ressentidos demais, tristes demais, mil vezes diferentes do que eram antes. Eu me lembrava de que amava ficar olhando-a, lembrava que seus olhos eram profundos e intensos, sorridentes. O bastante para que eu ficasse olhando-a como um idiota. Um idiota apaixonado que se sentia sortudo por estar ao lado da garota que queria. E por ela lhe querer também.
Eram bons tempos em que tudo que eu me preocupava era não deixá-la entediada e beijá-la direito porque gostava de como era bem recebido.
— Apenas coma algo, Bella. — Eu disse cansadamente.
Ela ergueu os olhos azuis, incrédula. Eu não sabia se era por eu a ter chamado de Bella ou se era por eu estar insistindo que ela comesse.
— Tem pão e geleia, pasta de amendoim, ovo e bacon. Qualquer coisa.
Isabella levantou as sobrancelhas.
Se fosse a Bella, ela faria algum comentário sobre o “qualquer coisa”. Ela diria algo do tipo “Qualquer coisa mesmo?” ou “Não sabia que qualquer coisa poderia ser considerada um alimento. Nunca provei. É bom?”. Mas aquela garota que estava à minha frente não era Bella. Era a Isabella e eu não a conhecia.
Ela acabou comendo. Comeu silenciosamente o café da manhã improvisado e solteiro que eu preparei. Eu preparei enquanto, ao mesmo tempo, olhava de lado para checar se ela continuava lá. E continuava. Isabella esperou que eu terminasse de fazê-lo e depois se sentou à mesa para comer. É verdade que ela comeu pouquíssimo, mas o importante, para a saúde dela, era que ela tinha ingerido algo e tinha parado de tentar se matar de inanição.
Isabella se encolheu no sofá claro da sala e, aproveitando a oportunidade, sentei-me ao seu lado e liguei a televisão para ter uma desculpa para sentar-me no sofá também. Eu estava prestes a lhe perguntar sobre a minha maior dúvida no momento quando a droga da campainha tocou. Várias vezes. E parou. E depois várias vezes novamente.
Eu já sabia quem era.
— Oi, Williams. — Não abri a porta completamente.
— E aí, cara. — Deu um murro leve em meu ombro.
Sem ter como dispensá-lo, deixei que ele entrasse. Seus olhos pousaram longamente em Isabella até que ela também o estivesse olhando. Eu pude ver o reconhecimento em seus olhos e depois o desprezo quando ela se levantou do sofá para ir novamente para o abrigo de seu quarto. Porra, John. Vou ter que fazer tudo de novo.
— Então ela enlouqueceu mesmo? — Ele perguntou alto o suficiente para que Isabella escutasse.
— Sabe quem enlouqueceu? — Ela tinha um sorriso amargo em seus lábios ao se virar para encarar Williams. — A puta que te pariu. Ela que enlouqueceu.
Encarou-o por alguns segundos a mais para dar efeito a sua fala e depois saiu da sala. Simplesmente. Os olhos de John queimaram de pura raiva. Isabella Swan era a garota mais corajosa que eu conheci em toda a minha vida, continuaria sendo até que outra pessoa tivesse a coragem de falar isso para John e não receber nenhuma represália de tão surpreso que ele ficou.
— Ela nunca gostou de mim. — Ele refletiu.
— Você que nunca gostou dela. — Murmurei, revirando os olhos.
Ele só tinha ido para assistir um jogo de beisebol — grande merda, eu nem gostava tanto assim de beisebol — e dizer que tinha conseguido tirar férias por um mês. Parecia superfeliz por isso e eu estava entediado antes mesmo da primeira hora. Williams nunca foi pra lá de muito entusiasmante, não comigo, pelo menos. Ele disse que iria viajar para a casa de sua mãe que ficava em Nova York. Parecia estar animado por isso, embora a detestasse.
Ele passaria um mês inteiro fora. Graças aos céus. Éramos amigos desde o Ensino Médio, mas eu sempre o achei forçado demais. Ele era aquele tipo de pessoa que você não dispensa porque não tem paciência o bastante para realizar tal proeza. E eu tive a infelicidade de ir trabalhar no mesmo lugar que ele! Eu não poderia estar mais grato por isso. A vida só ferrava comigo.
John só foi embora quando a tarde estava acabando. Eu não sabia como ele conseguia falar tantas coisas inconsistentes por tanto tempo porque, sinceramente, eu já estava cansado de escutá-lo falar.
Não consegui falar com Isabella por toda a semana que se passou. Ela passava muitas horas dormindo e sempre estava com April ou com Wreck, o cachorro de April. Mas, naquele dia em especial, eu estava mais que decidido a acordá-la quando chegasse do trabalho e finalmente perguntá-la o que diabos acontecera com ela. Usaria o negócio da preocupação se necessário. Usaria tudo que estava ao meu alcance.
Nunca tive aquela oportunidade.
Quando eu cheguei à rua onde minha casa ficava, minha casa estava em chamas.
Fale com o autor