She'd Fly
20 Capítulo 19 — Todas as escolhas erradas.
Notas iniciais
Março de 2013.
Edward.
Minha cabeça latejou. Eu preferia estar morto. Ou não ter nascido.
Eu não estava tendo uma maldita crise existencial, estava arranjando resultados para problemas que eu tinha me metido e metido outras pessoas que eu conhecia. Principalmente Isabella Swan. Eu arranjei problemas para ela de todos os tipos e formas e por esse motivo teria sido melhor se eu não tivesse nascido. E seria mais fácil se eu não estivesse respirando ou sentindo o meu coração bater em disparada em meu peito.
Seria mais fácil para todo mundo. A dor da perda passaria em um instante — sempre passava.
Eu soube que minha mãe teve problemas para me colocar no mundo: Hemorragia, pressão alta e todas essas coisas que eram fatores de risco. Mas ela persistiu, não aceitou a proposta que o doutor a fez de fazer um aborto baseado no argumento que algum de nós morreria, ou até mesmo os dois. Foi o que quase aconteceu. Eu quase morri, nasci com oito meses e passei um bom tempo internado no hospital junto com Esme.
Já com vinte e dois anos na cara, percebi que minha mãe deveria ter prestado atenção no que o doutor dizia. Eu precisava morrer, não era natural que eu nascesse…
No hospital, acordei-me duas vezes. Na primeira vez que abri os olhos, sentindo um incômodo em meu pulso e em minha cabeça, não consegui reconhecer a pessoa que estava ao meu lado na cama, o rosto estava embaçado e eu não conseguia distinguir se aquilo era uma ilusão mental ou não.
Tudo escureceu antes que eu tivesse a chance de perguntar onde estava Bella. Eu teria me levantado, furioso, se tivesse conseguido. A escuridão me prendeu na cama e, de repente, nem mexer meu dedo indicador eu conseguia mais. Detestava com todas as minhas forças — escassas no momento — me sentir tão impotente.
Desejei que aquele escuro em minhas pálpebras fosse o escuro da morte.
Acordei-me pela segunda vez sentindo uma dor de cabeça imensa e me perguntando o porquê diabos eu ainda não estava morto. Eu certamente preferia o estar ao notar que quem estava ao lado da minha cama era Carlisle, o homem que se dizia meu pai, sem considerar que seu filho, o único cujo se tem conhecimento, o odiava profundamente.
— Onde está a Bella? — Eu perguntei, a minha garganta arranhando cruelmente.
Bem, eu já estive em situações piores.
— Ah, Edward! Você está acordado.
— Não, imagina.
— É incrível que mesmo numa cama de hospital, você ainda consiga ser desagradavelmente sarcástico. — Ele reclamou.
— Onde está a Bella? — Repeti, esforçando-me para que a minha voz saísse mais clara.
— Está na cantina com Esme e Alice. Ela não queria sair nem sequer para comer…
É, eu imaginei que ela fosse fazer isso mesmo.
— Há quanto tempo eu estou aqui?
— Um dia apenas. Você levou dois tiros… Um no ombro e outro no braço. — Informou. — A bala no ombro foi de raspão, mas você não teve a mesma sorte no braço…
— E Bella? — Perguntei, pouco me importando para esses detalhes.
— Está bem. — Ele franziu o cenho. — Por que não estaria?
— Ela estava na porta da minha casa quando eu fui baleado.
— Mas eles estavam a sua procura, Edward. Talvez, se você ainda estivesse no seu jardim quando atiraram em você, teriam entrado para apagar a Bella também. Mas… você já estava fora e eles não ficaram a tempo de vê-la correndo na sua direção. — Explicou.
Eu suspirei pesadamente, cansado.
— Bella correu na minha direção? — Perguntei com incredulidade.
Carlisle assentiu.
— Vou ficar por quanto tempo aqui?
— Até amanhã, no máximo. — Então, ele se parou e pressionou os olhos em minha direção. — Edward, você tem ideia do por que fizeram isso com você? A Polícia está considerando ser algum tipo de vingança…
— Deve ser isso. — Murmurei.
Carlisle franziu o cenho, mas não falou nada.
Eu não sabia o que fazer, sempre fui terrível para tomar decisões complicadas por conta própria e a última decisão importante que eu tinha tomado foi quando decidi que viria para Califórnia. Por ela podíamos ver que tomar decisões não era bem o meu forte… Agora, no entanto, eu realmente não sabia o que fazer. Não podia fugir como Bella havia sugerido com jocosidade algum tempo atrás, eles me achariam sem esforços. E também não podia sair matando todo mundo dentro daquele maldito Esquema, era gente demais — e, sim, eu tinha considerado mesmo a possibilidade.
Bella… Bella estava envolvida demais nisso para eu cogitar fazê-la se mudar para outro lugar. Eles a achariam, ela estaria ainda mais vulnerável sem que eu estivesse perto. Era um beco sem saída! Desde o começo.
A percepção de que eu não tinha para onde correr mais caiu por cima de mim bem quando Bella invadiu o quarto, o rosto vermelho assim como os olhos. Ela se lançou cuidadosamente sobre mim, abraçando-me e encostando o rosto em meu peito. Eu não fiz nada para retribuir ao abraço, meus dois pulsos estavam presos a seringas intravenosas que eu já queria tirar.
— Me diga que você está bem. — Ela implorou.
— Estou bem. — A garanti. — Você deveria ter se trancado dentro de casa.
Ela fungou em meu ombro e eu o senti começar a ficar úmido de suas lágrimas.
— Eles não iriam errar o alvo mais uma vez, Bella.
— Fiquei preocupada com você. — Ela disse simplesmente.
— Deveria ficar preocupada com você mesma.
Ela levantou o rosto para me olhar, os olhos azuis ainda marejados e as bochechas ainda coradas por causa de seu choro. Percebi repentinamente que o meu tom de voz fora áspero demais e que os olhos dela estavam ressentidos quando ela os desviou para o chão e reprimiu as lágrimas de caírem por suas bochechas rubras.
— Bella, eu não falei nenhuma mentira.
Observei o maxilar delicado dela se contrair enquanto ela assentia silenciosamente.
— Volte aqui. — Eu pedi, odiando não poder mexer nenhum de meus braços.
— Esme quer falar com você. — Sussurrou e saiu do quarto rapidamente.
Minha mãe estava inconsolável com o que tinha acontecido, ela disse que eu tinha perdido muito sangue, implorou para que eu saísse das Operações Especiais. Ela até disse que, se eu saísse, pagava qualquer curso que eu quisesse em qualquer universidade. Era uma oferta atraente que eu quase me senti inclinado a aceitar e dizer quem, sim, eu iria para a Universidade quando me livrasse dessa confusão. Mas não tinha como se livrar.
E eu muito menos iria esperar que eles, de uma vez por todas, acertassem o alvo. Tinha que me mexer, fazer algo… Conformar-me com a situação era algo que não iria fazer de jeito algum.
Alice foi outra que chorou de soluçar, dizendo que eu estava muito novo para ir. Como Esme, ela implorou para que eu tomasse cuidado e que não fizesse inimigos porque ela não queria perder o único irmão que tinha. E, além do mais, ela me amava demais para me deixar ir tão facilmente. Surpreendi-me com sua declaração, Alice nunca falara explicitamente que me amava e eu achava aquilo normal já que não éramos irmãos de sangue e ela sempre foi mais apegada a Esme.
E Alice era mais de fazer do que falar.
— Você pode pedir para a Bella voltar, por favor? Não terminei de conversar com ela…
— Ela saiu bem chateada da sala… — Alice franziu as sobrancelhas. — O que você a falou?
Eu suspirei.
— Só falei que ela deveria se preocupar consigo mesma.
— Edward. — Alice me repreendeu levemente. — Não se dispensa a preocupação de uma pessoa. Você não aprendeu nada que eu te ensinei quando era mais novo?
— Não, pelo visto.
Ela sorriu, estendendo a mão para bagunçar o meu cabelo.
— Vou chamar a Bella. Trate de ser gentil dessa vez, sim?
Alice hesitou, recolhendo a mão e franzindo mais uma vez o cenho.
— Edward… eu posso te perguntar uma coisa?
Eu assenti. Se eu falasse que não, ela provavelmente perguntaria ou imploraria para que eu deixasse que ela fizesse a pergunta. Não existia resposta negativa para Alice e aquele seu costume, quando eu era mais novo, costumava me irritar.
— Você e a Bella não estavam juntos, estavam? Digo, naquele dia em que eu cheguei a sua casa…
— Como você sabe?
— Deduzi. — Ela deu de ombros e abaixou os olhos. — Fico feliz que vocês tenham se acertado, afinal de contas… Já era hora!
— Não exatamente.
— Como assim, Edward? Pensei que vocês tivessem…
— Nos acertamos… Existem apenas coisas… piores do que se acertar para resolver.
Alice parou, olhando-me. Por um segundo, cogitei a ideia de falá-la sobre o problema que eu estava inserido, Alice sempre sabia o que fazer. “Eu teria mil opções mais agradáveis que, com toda a certeza que tenho dentro de meu coração, deixaria todo mundo mais feliz. Inclusive eu. Eu teria as ditado para você se você tivesse me deixado falar. E, se as mil opções ainda não lhe parecessem agradáveis, eu ficaria feliz em inventar mais.”, me lembro de que ela escrevera na quarta carta. Fiquei tentado em pedir ajuda a ela, mas o risco que minha irmã estaria metida era demais.
Já bastava a Bella.
— Você quer me dizer alguma coisa? — Ela me sondou.
Ainda me dei ao luxo de ponderar por alguns segundos, então disse:
— Não.
Depois de algum tempo, Bella cujo rosto já estava seco e pálido e mais outra enfermeira entraram na sala. A enfermeira tirou uma agulha que levava soro para a minha veia e deixou o Oxímetro de pulso preso ao meu dedo, um aparelho desnecessário — para mim que estava bem e estável — que media a minha frequência cardíaca. A Enfermeira de cabelos tão pretos quanto os seus olhos tagarelou sobre a sorte que eu tinha de eles terem errado o alvo e de ter sido lugares de fácil cicatrização.
Bella apenas escutava silenciosamente, como eu.
— Você não pode tirar esse braço da tala. — Ela informou quando eu perguntei. — Terá de permanecer por três dias com ela.
Eu suspirei pesadamente.
— Você está prestes a receber seu almoço… posso dar a você se quiser. — Ofereceu, sorrindo com cordialidade.
As bochechas e os olhos de Bella, quando eu a olhei, queimavam.
— Não, obrigado. — Eu disse. — Sempre fui bom com a mão esquerda.
A enfermeira só então percebeu que tinha uma garota sentada no sofá e mesmo que a expressão de Bella não fosse raivosa — ela sempre soube fingir-se de indiferente com maestria —, a mulher de cabelos escuros pareceu surpresa com a presença dela ali. Talvez por Bella ter percebido a sua tentativa de flerte com um paciente, eu não sabia bem. Ela saiu do quarto com um aceno simplório do rosto.
— “Posso dar a você se quiser” — Ela citou com a voz escarnecendo da enfermeira que saíra do quarto. — “Sempre fui bom com a mão esquerda”
Eu sorri em sua direção.
— Pensei que vocês iam começar a se pegar na minha frente. — Reclamou mesmo sabendo que era impossível que aquilo um dia chegasse a acontecer.
Bella puxou o longo cabelo para o ombro.
— Você é muito boba, não é? No momento, só estou com vontade de pegar você.
— No momento. — Ela resmungou.
Apesar do que eu havia dito para a enfermeira, eu era péssimo com a mão esquerda. O garfo sequer ficava estável e, depois que se cansou de zombar de minha falta de jeito, Bella se levantou da poltrona e pegou o garfo de minha mão. A comida que serviam era terrível e sem gosto algum, mas eu sequer percebi qualquer coisa enquanto olhava a expressão concentrada de Bella ao me alimentar cuidadosamente.
— Se você continuar a me olhar desse jeito, vou acabar me desconcentrando. — Ela precaveu com um sorriso leve.
Era sobre isso que eu falava quando dizia que Isabella era alucinógena. Sorrir como se não houvesse nada para se preocupar era fácil quando se estava perto dela, observando o rosto talvez pálido demais para o clima de São Francisco e as bochechas que parecia sempre dispostas a corar.
Recebi alta no outro dia e Carlisle, apesar de não ser o meu maldito médico, fez questão de reforçar quais remédios eu deveria tomar para evitar a dor. Depois de anos de negligência ele queria dar uma de pai prestativo. Se possível, o odiei mais naquele momento, sentindo uma vontade imensa de desfazer aquele sorriso complacente com as minhas próprias mãos. O pior de tudo era o olhar esperançoso que Esme nos mandava, achando que as coisas voltariam a ser como nunca foram: Bem e calmas.
Depois de pegar o meu depoimento sobre o que acontecera — o que não ajudou em nada porque os caras que atiraram em mim eram realmente bons no quesito discrição, só faltava uma mira melhor. A Polícia não tinha nenhuma placa para rastrear — minha garota, a Bella, havia sido prestativa o bastante para decorar a placa do carro. Infelizmente, era fria. A Polícia também não tinha perfil nenhum para investigar e o carro já que vans escuras passeavam por aí o tempo todo…
— Mas estamos tentando. — James, um policial, falou. — Você sabe, Agente Edward, quem faria uma coisa dessas com você?
É claro que eu sei. Mas, se eu falar, vou acabar matando a minha namorada. E, além do mais, eu sabia que tinha feito erradas e poderia ser preso se confessasse que estava em um esquema mafioso e havia saído, fazendo o chefe da coisa toda me odiar e mandar atrás de mim assassinos profissionais — ou quase — que não hesitariam em me matar. Bella ficaria muito mais vulnerável sem que eu estivesse por perto… Eu não iria correr aquele risco.
— Posso citar milhares de pessoas… — Murmurei com indiferença.
— Alguém em especial?
— Não que eu saiba. — Menti prontamente.
Esme, com um sorriso esperançoso, disse que ficaria mesmo duas semanas em São Francisco para cuidar de mim. Ela falou aquilo como se eu não tivesse morado sozinho por quatro anos e ainda fosse um adolescente que não sabia se cuidar sozinho. E, além do mais, tinha Bella que, só na primeira hora em que estávamos na minha casa, perguntou quatro vezes se eu estava me sentindo bem.
— Não é como se eu tivesse levado um tiro na cabeça, Bella. — Reclamei.
— Eu sei, é só que… — Ela suspirou e sentou-se em meu colo quando eu abri meu braço bom em um convite.
— Escute — Eu pedi, infiltrando minha mão por dentro de sua blusa e tocando a sua pele quente e macia. —, você tem que se preocupar com a sua segurança. Eu sei me cuidar.
Ela encostou o rosto em meu ombro bom, o nariz tocando leve e despretensiosamente o meu pescoço. Sentada no meu colo daquele jeito, ela parecia uma garotinha desolada que havia recebido uma bronca do pai e agora estava tentando conter as lágrimas com o rosto escondido. De algum modo contraditório, eu sempre apreciei a falsa fragilidade que Bella parecia transpirar. Talvez porque eu gostava de pensar que estava cuidando dela.
Mas cuidar foi tudo que eu não fiz.
— Eu estou preocupada, Edward.
— Bem, eu também.
— O que vamos fazer? — Bella perguntou.
— Eu estava… pensando em pedir transferência para a ADPS, assim ficaríamos mais longe da bagunça em que me meti.
Eu sabia que o plano era ridículo e, mesmo não assumindo, sabia que estava esperando que o Esquema fosse negligente demais. Escapar não era tão simples quanto parecia…
Embora eu não tivesse dado todos os detalhes para ela, Bella também sabia que o meu plano era simples demais para uma coisa que era mil vezes maior. Estávamos ferrados. E eu a tinha puxado para o poço juntamente comigo. Como se não bastasse todas as coisas que eu já a tinha feito passar. Se eu tivesse tido tempo para ficar com raiva de mim mesmo, o teria feito. Mas ela, a minha garota, me conhecia bem demais e logo seus dedos suaves e finos se entrelaçaram em meu cabelo.
— Então… — Afundei meu nariz no cabelo de Bella e, entre os fios castanhos, observei-a sorrir brevemente, encolhendo os ombros.
Eu não sabia como ela conseguia sorrir tão facilmente estando na situação em que estávamos, mas eu apreciava a sua disposição. Era fácil abstrair-me nos problemas quando ela estava por perto e, mesmo que não fosse o mais recomendado a fazer, uma vez não matava ninguém — ou, pelo menos, foi o que eu pensei, inocentemente.
— Então o quê? — Eu perguntei.
— Tenho uma pergunta a fazer para você. — Declarou ela, levantando o rosto e me fazendo ver os seus olhos astuciosos.
Eu sorri e esperei.
Nas várias vezes que eu estava com raiva de Carlisle, Bella acabava por me fazer companhia ou eu estava na sua casa, então, para tentar me animar, ela dizia que queria fazer uma pergunta com os olhos astuciosos, os lábios forçando-se a ficar fechados e acabar com o sorriso que queria soltar. A pergunta que ela queria fazer, normalmente, eram perguntas bobas e que, apesar disso, eu não sabia a resposta.
— Faça. — Incentivei.
— Bem… eu estava pensando… por que a cola não cola dentro do pote dela?
Eu tombei o meu rosto para trás e sorri.
— É sério! — Bella insistiu, avançando até estar com os olhos nos meus.
Quase frustrado por só poder usar uma mão, peguei seu queixo entre os meus dedos e afundei meus lábios nos seus que ainda expressavam um sorriso leve e brincalhão. Eu sabia a resposta daquela pergunta, era um chute, na verdade, mas tinha certeza de que estava correto. Não a respondi uma vez que beijá-la me parecia mais apropriado… E parecia para ela também, Bella me beijou desejosamente, deslizando as unhas por meu couro cabeludo.
Mais uma vez, ela estava provando ser tão viciante quanto a pior droga existente. E eu era um viciado que estava satisfeito com a sua situação… embora, nunca estivesse satisfeito com a quantidade da droga que conseguia consumir. Eu queria mais. E mais ainda.
Foi com esse tipo de pensamentos que eu avancei, odiando ter só uma mão funcionando para tocar Isabella. Eu queria tocar a pele ardente dela por debaixo da blusa ao mesmo tempo em que também queria puxar o seu pescoço para trás e provar da sua garganta.
— Edward. — Ela arfou. — Pare.
— Por quê? — Não parei de deslizar meu nariz por seu busto, porém.
Bella sorriu e entrelaçou os dedos em meu cabelo, repreendendo suavemente.
— Espere seus ferimentos estarem mais cicatrizados, eu não quero que se machuque.
— Não vou me machucar. — Garanti a ela, puxando o decote moderado de sua blusa para baixo o suficiente apenas para que eu pudesse ver o seu sutiã azul escuro. — Ao contrário disso, na verdade.
Os lugares onde as balas tinham atingido não doíam mais e eu tinha quase certeza que aquela falta de dor era por causa dos analgésicos que eu tinha tomado no hospital e pelo treinamento que todo policial passava antes de ser admitido. Eu já havia me acostumado com a dor e aqueles ferimentos não eram os piores que eu já havia tido. Na verdade, chegavam até a serem bobos e insignificantes. Mas é claro que o fator de abstração maior era a garota que estava em meu colo, mordendo os lábios para reprimir os gemidos.
Por mais incrível que fosse, Bella não proferiu mais nenhum argumento e eu percebi, quando ela desabotoou os botões de minha camisa, que estava tão desejosa quanto eu.
Já era de noite quando ela voltou ao quarto, vestindo apenas suas roupas de baixos brancas e com duas taças e uma garrafa de vinho que tinha na adega que ficava perto da cozinha e que, ultimamente, havia sido pouco usada. Com o amor secreto que Bella nutria por vinhos, aquela situação iria ser revertida com prontidão.
— Você fica adorável com esse rosto amassado de sono. — Eu a disse quando ela se sentou na beirada da cama, bem perto de mim.
Bella sorriu.
— Acho que não vou conseguir dormir essa noite.
— Bem — Eu sorri maliciosamente —, há coisas mais interessantes para fazer já que, sabe, você não está com sono.
Ela gargalhou, as bochechas já ruborizadas.
— Você é insaciável! — Acusou.
— Só com você.
Como uma doce recompensa, ela inclinou-se e me beijou, as mãos macias e frias deslizando por meu rosto e pescoço.
Eu odiava rotinas, mas fazer amor de manhã por horas a fio, se levantar para almoçar e depois dormir de tarde para se acordar apenas a noite me parecia uma rotina a qual eu gostaria de seguir fanaticamente. E Bella também parecia inclinada àquilo… Seu rosto estava tão leve, corado e sorridente que ninguém duvidaria que ela estivesse cegamente feliz — e eu certamente não ousaria o fazer.
Fazia um longo tempo que eu havia tirado a tala que me restringia, despreocupado com o ferimento que ficava no meio do meu braço. Como se soubesse que já havia começado a latejar, Bella me entregou o analgésico que o médico passara junto com um copo de água. Não sabíamos se tomar vinho logo em seguida fazia algum problema, mas, como ela falara alguns dias atrás, ela não era sensata. E eu muito menos.
Entre um gole e outro do vinho tinto e encorpado que compartilhamos, lado a lado na cama, encorajei-me o suficiente para perguntar:
— Você pode me tirar uma dúvida?
— Só se você me tirar outra. — Ela retrucou.
— Feito. — Concordei e virei a taça, despejando o vinho que restava em meus lábios abertos. — Pode soar possessivo e tantas outras coisas, mas… — Eu hesitei e ela me olhou, um sorriso pairando em sua boca ainda levemente inchada pelos beijos impetuosos que trocamos por várias e várias horas. — Eu estou morrendo para saber se você dormiu com alguém nesses quatro anos que passamos sem nos ver.
Bella arregalou os olhos, as bochechas definitivamente explodindo em um rubor rosado.
— Eu deveria imaginar que você fosse perguntar uma coisa tão desnecessária como essa…
— Não acho que é desnecessária para todo o meu sentimento possessivo…
— É desnecessário, sim! — Teimou ela e sorriu com amargura. — E óbvio também.
— Isso quer dizer que…
— Eu tinha de cuidar de minha mãe, Edward. — Ela disse. — E, nos dois primeiros meses, tive que cuidar de mim mesma também por causa do bebê… — Bella parou e olhou para baixo. — Não tive intenção ou tempo de flertar com ninguém. Na verdade, nem passara por minha cabeça… Eu só queria estudar e fazer minha mãe melhorar.
Eu fiquei em silêncio, notando que a minha dúvida fora mesmo desnecessária.
— Agora é a minha pergunta! — Ela exclamou e afastou o clima silencioso para o lado.
Bella sabia que podia ter me feito perguntas piores e, então, como ela, teria de falar a verdade, mas ela não o fez. Ela poderia ter perguntado com quantas mulheres eu tinha dormido depois dela, mas ela não fez. Bella nunca perguntava algo que não queria a resposta verdadeira, era um modo de defesa que eu apreciava muito.
— Se você estivesse em uma ilha e pudesse escolher a companhia de Carlisle ou de John, quem escolheria? — Disparou, o sorriso malicioso e astucioso tomando conta de seu rosto.
Eu gargalhei.
— Eu provavelmente escolheria ficar sozinho e morrer de loucura.
— Não há essa opção. — Resmungou.
— Há, sim. — Eu insisti. — É a minha resposta, oras! Não tem de seguir o seu padrão.
Ela cruzou os braços com o melhor fingimento de birra infantil que poderia representar. Felizmente, o fingimento não foi muito longe, desfez-se quando eu puxei um de seus braços e me deitei, puxando-a para que se deitasse comigo.
— Posso te fazer outra pergunta?
Bella assentiu e passou um dos braços por debaixo do meu, juntando-se mais a mim por causa do frio. Tratei logo de cuidar daquele problema ao puxar o edredom grosso e branco para cima de nós dois.
— Quando eu fui na “clínica de reabilitação” que sua tia havia lhe internado, a atendente disse que você tinha sido colocada no porão por mau-comportamento. — Ela estremeceu e eu apertei com força em meu braço bom. — Parece ser uma história interessante de se ouvir…
— Na verdade, é. Pode até soar cômica.
A tia de Bella era pior do que me parecia, para falar a verdade. Depois de ter conseguido se livrar dos policiais que estavam preocupados com a sua sobrinha, ela arrastara Bella para a clínica de reabilitação que, de noite, mostrava não ser a melhor possível. Fora aquilo que ela gostara: os gritos de desesperos que ecoavam pelos corredores. E, mesmo que Bella implorasse para se livrar das mãos férreas da tia, não conseguiu escapar.
Pensei ter visto os olhos de Bella marejarem durante a sua breve história e quase me culpei, tendo em vista que eu quem iniciara o assunto, mas ela logo estava sorrindo de novo dizendo que conseguira, ao menos, deixar a marca de suas unhas nos braços brancos demais de sua tia. O que não ajudou em nada para que ela escapasse daquilo.
Bella foi jogada num quarto todo branco que enlouqueceria qualquer ser humano ainda racional.
É claro que, como todo mundo, ela odiava aquele lugar, então pedia para sair, mesmo sem voz alguma devido à garganta que arranhava e a falta de água. As roupas eram terríveis, pinicavam na pele, ela disse. E não tinha sequer um xampu para lavar o cabelo, tudo era feito com um sabão mais esdrúxulo possível.
— Eu sei que eu não estava em minhas melhores condições mentais, mas… um xampu? Pelo amor de Deus! — Ela exclamou.
— Bella. — Eu a repreendi.
— Edward, eu sei que há um motivo pelos quais as pessoas me chamavam de louca… Tanto que não as culpo.
— Há sim. — Eu concordei, espalmando minha mão em seu rosto. — Se chama grosseria, impaciência e ignorância.
Ela suspirou. Sabia que era inútil discutir comigo.
— Certo dia — Bella começou a falar com um sorriso já em seus lábios. —, eu não quis almoçar porque o almoço me parecia realmente… nojento. Um enfermeiro quis me forçar a comer, então eu virei a bandeja para cima dele.
— Essa é a minha garota. — Elogiei, passando o braço por suas costas que prontamente se arrepiaram.
Ela subiu os olhos azuis para mim, sorrindo largamente. Quando eu coloquei minha mão em seu rosto, abaixando o meu rosto de modo que eu pudesse a beijar facilmente, eu percebi que a amava. Amava-a mais do que fizera antes.
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