She and the dudes
25 Tomfool Weasley
Notas iniciais
Era para ser um jogo simples, uma corrida de vassouras pela trilha de árvores que ficava atrás de minha casa, quem chegasse primeiro na clareira ganhava. Apesar de ser simples era pouco justa, por mais que ambos fazíamos parte do time de quadribol, Eu, agora, era o goleiro, tinha reflexos rápidos, mas não precisava voar em alta velocidade por longos períodos. Lily era artilheira e ainda capitã do time, definitivamente, ela iria ganhar.
No meio da corrida, Lily estava uns bons metros à minha frente. Eu, torturando-me mentalmente porque teria que fazer seus deveres pelo resto do ano ou ajudá-la a personalizar suas roupas por meses, decidi trapacear. Foi errado, impensado. Fingi que havia perdido o controle de minha vassoura e balancei-me pelo ar, pedindo socorro. Lily prontamente atendeu e voou rapidamente em minha direção.
Assim que ela estava perto o bastante, retomei minha antiga postura e fui o mais rápido possível até a clareira. Não ousei olhar para trás, simplesmente cortei o vento na maior velocidade que era capaz. Sabia que Lily ficaria brava, muito brava e eu levaria alguns tapas, contudo, eu havia ganhado. Quer dizer, eu ia dizer que foi um empate, já que ela era mais rápida.
Quando desci da vassoura, percebi que Lily ainda estava a caminho, voando baixo e bem devagar. Demorou cerca de 30 segundos para ela chegar ao local e pular da vassoura para o chão, sem cerimônias.
Eu esperava gritos. Tapas. Xingamentos.
Mas não.
Nada disso veio.
Ela ficou lá. Parada. A cabeça baixa, o cabelo vermelho criando uma cortina que me impedia de ver o seu rosto. Os ombros caídos, os braços ao redor do próprio corpo, tremendo levemente. Sob o pôr-do-sol, o cabelo vermelho parecia pegar fogo, perdendo a tonalidade vinho e ficando alaranjada. Lily era absolutamente fantástica em cada mínimo detalhe, contudo, vê-la daquela forma me perturbou.
Lily e sua felicidade inabalável estavam chorando.
— Lily? — Sussurrei, aproximando-me.
Parada. Ela continuou parada e em silêncio.
— Você está bem? — Perguntei, tocando o seu ombro delicadamente.
A cortina de cabelos mexeu negativamente e um soluço fez o seu corpo sacudir. O som de sua tristeza tomou posse do meu corpo, eu era tão idiota quanto o meu pai. Idiota para magoar pessoas que ama sem querer. Sempre fiz isso, Lysander, Lucy e agora Lily.
Em um ímpeto de coragem — coisa rara -, passei meu braços por seu corpo e puxei-a para o meu peito. A pequena Lily praticamente se escondia em meu peito, ela era tão baixa e magra, e eu era alto e largo. Ela era cheia de graça e delicadeza. Eu era cheio de deselegância e um desastrado. Ela era corajosa e bela. Eu um covarde e babaca.
— Babaca. — Sussurrou, confirmando os meus pensamentos. — Como você pode ser tão babaca? — Sua frase foi seguida por soluços e suas mãos agarrando a minha camisa.
— Desculpa. — Murmurei e com as mãos trêmulas acariciei seus fios vermelhos e macios.
Eu poderia passar dias, talvez meses ou o resto da minha vida nessa posição. Claro que sem a Lily chorando, gostaria de ficar assim, com meus braços ao redor do seu corpo, sentindo o seu cheiro e a maciez dos seus cabelos em um momento de felicidade.
— Você me fez acreditar que ia cair. — Resmungou fungando. — Weasley idiota. — Sua voz estava mais fina e aguda, seus braços começaram a me empurrar. — Weasley muito idiota.
Tudo o que é bom dura pouco, esse ditado trouxa é bem verdade.
— Lils... — Tentei, em vão, confortá-la.
— Me solta. — Empurrou com força o meu peito, fazendo com que eu a soltasse. — Você sabe o que eu pensei Weasley? — Grunhiu e apontou o dedo em minha cara. — Achei que você ia cair e morrer! Seu idiota. Achei que ia perder você! Entrei em pânico. Achei que ia ter que contar para o seus pais e sua irmã. E dizer que foi minha culpa. Eu que tive a ideia da brincadeira. Rose ia me matar! Arrancar a minha cabeça, o que não ia ser problema, sabe? Eu não conseguiria viver com o peso na consciência de que matei o meu melhor amigo. Competição estúpida. Babaca Weasley, babaca Weasley. — Tagarelava e andava de um lado para o outro.
Lily Luna Potter estava fora se si. Sua voz era anasalada e desafinada. Seu corpo tremia pelo choro compulsivo, agora, de raiva. Seus cabelo assanhado. Os olhos vermelhos. Mordia o lábio aqui e falava mais alto ali. Anda para lá, para cá. Apontava o dedo para mim, negava com a cabeça e fechava os olhos com força. Fungava. Soluçava. Narrava o seu drama particular e depois me chamava de babaca. Sabia que o próximo passo seria a agressão física.
— Eu não queria te preocupar Lils, eu só pretendia ganhar a aposta.
— Só pretendia ganhar a aposta. — Fez uma imitação magoada da minha voz. Eu e minha boca grande. — A que custo Hugo Babaca Weasley? Fazendo sua prima acreditar que você vai morrer? Que vai cair metros e mais metros ao chão, ter um traumatismo craniano ou sei lá o que e eu nunca mais iria ouvir sua voz? Conversar com você? Abraçar você? — Então começou a pancadaria. Cada palavra era seguida de um tapa e eu estava tão concentrado em seu rosto vermelho como seu cabelo que nem tentei impedi-la. — Eu. Iria. Cantar. A. Nossa. Música. No. Seu. Funeral. — Respirou. — Eu. Iria. Chorar. Como. Um. Bebê. No. Seu. Maldito. Funeral. — Seu rosto parecia que ia explodir de raiva. — Merlin. Eu. Ficaria. Pensando. Em. Tudo. O. Que. Eu. Não. Disse. Ia. Ficar. Me. Arrependendo. Por. Não. Tomar. A. Iniciativa. Por. Ter. Feito. A. Aposta. Eu. Iria. Morrer. De. Desgosto. Por. Mim. Mesma.
Então ela calou a boca e começou a me esmurrar com toda a força que tinha. Parecia um hamster espancando um urso. A dor era quase nula.
— Lils. Tenha calma. — Eu não sabia o que fazer, ela estava enlouquecida.
— Não me toque sua criaturinha nefasta. Eu não posso ter calma quando você fez essa brincadeira idiota. Hugo! — Sua mão voou ao meu peito, um soco certeiro e forte, porém nada que eu não pudesse aguentar ou que eu não merecesse.
As lágrimas voltaram ao seu rosto com força, e o soluços escapavam de seus lábios.
— Eu sou inútil para você. — gritou para si mesma e se sentou, praticamente se jogando, no chão. — Nem para conseguir te causar dor sirvo.
Minhas sobrancelhas se arquearam e me abaixei rapidamente, sentando ao seu lado. Fiquei surpreso com essa frase, completamente chocado.
— Inútil? Você? — Toquei o seu rosto e o puxei em minha direção. Os olhos castanhos haviam se derramado pelo rosto, esse estava ensopado. — Lily, você é a minha melhor amiga, não é inútil. — Eu estava tremendo desesperadamente, nada do que estava fazendo era o meu feitio. No geral, eu ficaria parado, esperando ela parar de chorar. Sim, eu não sei lidar com garotas.
As lágrimas saiam com mais força.
— Junto com a Lucy. — Ela franziu o nariz. — Você prefere mil vezes a Lucy a mim. A Lucy é inteligente, linda, delicada na medida certa. — Choramingou, mexendo no pequeno bracelete que estava em seu pulso. — Sempre quis que você fosse tão amoroso comigo quanto é com a Lucy. Você a abraçava com frequência, depositava beijos em sua cabeça, ou testa, ou bochecha. Andavam de braços dados e riam de piadas que só os dois compreendiam. — Era mais que óbvia a tristeza de Lily em seu olhar.
Sim, eu realmente era mais próximo de Lucy fisicamente falando. Lily era a garota pela qual eu era apaixonado, passar os braços pelos seus ombros era uma tarefa árdua e assustadora. Com Lucy era natural, nossa amizade era apenas isso, ela namorava o meu melhor amigo e eu torcia pelo relacionamento dele. Eu tremia quando pensava em dizer oi para ela no corredor, tremia em apertar a sua mão, tremia em tentar elogiá-la. Eu tremia toda vez que tocavam em seu nome. Eu ficava nervoso, ficava ansioso.
— Sabe o que é pior? Doze garotos me chamaram para o baile de halloween ano passado, eu disse não aos onze primeiros porque torcia que você fosse me chamar. Eu disse não, seguido de não, até descobrir que você iria com ela. Minha melhor amiga. Que merda, eu pensei. Aceitei o convite do primeiro garoto que me chamou em seguida porque estava magoada. O baile de halloween desse ano, esperei você me chamar, porém, você e a Lulu decidiram que não iriam. Que merda, eu pensei. Aceitei ir com o Louis porque ele foi a primeira pessoa que me chamou. Foi uma das piores noites da minha vida. Ele estava tentando fazer ciúmes a Ninna e eu fiquei sozinha a maior parte do baile, esperando que você aparecesse e me salvasse do desgosto de estar sozinha. Mas não. Você sempre prefere a Lucy.
Lily sempre gostou de falar. Mas ouvi-la com a voz tão desalenta, seus olhos derramando lágrima após lágrima foi como ver a minha irmã chorando depois da história do Karich. Eu quis matar o Potter e o Malfoy. Agora, eu queria me matar. Tudo que eu havia feito foi entendido de forma confusa, não era por preferir Lucy, era por ter medo de admitir meus sentimentos por Lily. Contudo, ao não fazer isso, ela acabou acreditando que eu não gostava dela o tanto que gostava de Lucy.
— Eu não prefiro a Lucy. — E a para minha surpresa, Lily chorou ainda mais.
— Não tenha pena de mim, por favor. Apesar de eu me esforçar ao máximo para ser alguém que você vá gostar, tudo o que consigo é fazer os outros garotos se interessarem por mim. Não quero que tenha pena de mim. Estou cansada de laços, corações, sapatos. Estou cansada de acreditar em toda aquela baboseira trouxa que tia Hermione me deu quando eu era criança. Essas coisas não existem e eu me enganei a vida toda. Eu tento ser delicada, amorosa, carinhosa e bondosa como aquelas princesas, as pessoas olham, mas não me vêem. Acham bonito, mas não me enxergam. De que adianta eu ser o perfeito exemplo de como uma garota deveria ser se não consigo ser querida por quem realmente sou?
Entorpecido por suas palavras, levei minhas mãos até o seu rosto, segurando-o em minha direção e afagando seu rosto, levando às lágrimas em meus polegares.
— Lils, pare. — Pedi suavemente. — Você está certa sobre ser quem você é. Se você não quer ser "um exemplo de como uma garota deveria ser" não seja. Isso é sobre quem você é e quem você quer ser. — Respirei fundo. Sentindo todo meu corpo tremer e uma coragem que eu não sabia que tinha, beijei levemente seu rosto salgado, tentando fazê-la parar de chorar. — Independente disso, eu amo você. Não prefiro a Lucy em nada. Lucy é minha melhor amiga assim como você. Porém, o que difere o que eu sinto por ela e por você, é que ela é apenas a minha amiga, ela não provoca tremores em meu corpo, frio em minha barriga ou medo de ser rejeitado, porque não a quero. — Finalmente coloquei para fora as palavras que a tempos eu queria dizer. — Eu queria te chamar para ir pro baile. Rose e Lysander sabem o quanto eu queria te chamar. Foi inútil, sou um covarde, tinha medo de receber um não. Chamei Lucy porque sabia que nossa amizade não iria se abalar por isso. Iríamos como amigos. Passei todo o baile tentando fazer ciúmes a você, mas você simplesmente me ignorou. Eu fico nervoso em te abraçar, fico nervoso em beijar sua cabeça. Fico nervoso até em falar com você no meio do corredor. Tenho borboletas no estômago que me deixam tonto quando você se aproxima. Pois é, eu sou apaixonado por você. Não fui pro baile desse ano por que a única garota com quem eu queria ir ao baile era a única que eu não tinha coragem de chamar.
Acho que nunca falei tanto de uma só vez, eu esperei uma expressão de pena ou raiva que não vieram. Lily chorou ainda mais, porém seus olhos estavam cheios de um outro sentimento. Não era raiva ou tristeza. Aquele olhar era exatamente igual ao que minha mãe expressava para o meu pai quando ele dizia coisas bonitas, o mesmo de Lucy para Lysander, o mesmo de Lanna para Albus. Era um olhar cheio de amor e emoção, misturado com o seu castanho magnífico. Essa combinação me deu tamanha coragem que eu jamais tivera.
— Eu te amo Lily Luna Potter, estou apaixonado por você a mais tempo do que posso lembrar. Amo cada versão de você, cada nuance sua, cada detalhe seu. Amo você por inteiro, aquele você que engloba todas as outras e que é a mais crua e real de todas. Amo você do jeitinho que você está agora, sem nenhuma máscara, sem nenhum enfeite, porque a sua alma já me basta.
Inundado daquela coragem, encantado por seus olhos, colei nossos lábios pela primeira vez. Um beijo pelo que eu ansiei por anos, o beijo que eu sonhava todas as noites e acreditava que nunca aconteceria. Eu poderia dizer que foi tão bom quanto o dos meus sonhos. Que ela tinha sabor de morango como nos meus sonhos.
Mas não.
Ela não tinha sabor de morango.
Não foi em nada como nos sonhos.
Foi salgado e molhado pelas suas lágrimas. Seus lábios eram tão cheios e macios que eu fiquei entorpecido. Sua língua era macia como veludo e seu sabor era de framboesa, porque havíamos comido framboesa algumas horas antes.
Não foi como nos meus sonhos.
Foi perfeito.
X
Assim que acordei, a primeira coisa que vi foram dois grandes olhos azuis me encarando, Dominique estava encostada na porta com o rosto vermelho, os cabelos assanhados, descalça e vestindo apenas um pijama de patinhos.
— Dom… — Antes que eu pudesse falar, correu nas pontas dos pés e tapou a minha boca.
— Jay ainda está dormindo, não sabe que eu estou aqui. — Sussurrou, e meu coração deu alguns pulinhos de reconhecimento, depois de quatro anos sem vê-la, era estranho estar ali, com ela ainda sendo ela mesma. — Estou feliz que você esteja aqui. — Continuou. — Mas preciso te dizer uma coisa, e isso é muito importante, muito importante mesmo.
Balancei a cabeça afirmativamente. Dominique estava diferente, o rosto mais adulto e os cabelos menos coloridos. Apenas as pontas estavam rosas e o resto estava loiro, o que era incomum para a antiga Dom.
— Olha, sei que ainda está chateado com seu irmão. — Murmurou me empurrando para o lado e se jogando ao meu lado na cama. — Sei que acredita que foi imperdoável, mas você não é mais uma criança, vai entender.
Era estranho estar assim. Houve uma época, pouco antes de eu começar a namorar com Lanna que eu e Dominique fomos grandes amigos, até ela vir para Nova Zelândia trabalhar com suas invenções mágicas. Então, estar deitado com ela ao meu lado era como voltar em um vira-tempo para momentos muito tranquilos da minha vida. Onde James era a pessoa que eu mais admirava no mundo inteiro.
— Sei que você acha que James te abandonou. Com um mãe revoltada porque o filho fugiu sabe-se lá para onde e ela jogou tudo isso em cima de você. Sei que todas as expectativas que tio Harry e tia Ginny tinham nele, foram para você e que todas as frustrações foram descontadas em você. Que ele foi embora, deixando um bilhete escrito “Se cuida Al” e sumiu por seis meses, sem dar qualquer notícia. Consigo imaginar como deve ter sido horrível.
— Não. — Grunhi baixinho — Não imagina.
— Talvez não. Mas imagino muita coisa, você sabe disso. — Afirmou, encarando-me com aqueles olhos azuis profundos que nem sempre transbordaram suas cicatrizes como agora. Não era novidade para ninguém Dominique tivera uma depressão profunda na infância e na adolescência. — Sei de coisas que você não sabe. Não por ser mais velha, porque sempre me entreguei demais, a tudo e a todos.
— Certo, mas isso não muda o fato de nada. — Dei de ombros, passando a encarar o teto.
— Acha que James viveu esses últimos quatro anos numa boa? Você já entrou no estúdio dele? Não existe ninguém, nem mesmo eu, ou Fred, que ele ame mais do que a você e a sua irmã. Tem desenhos de vocês para todos os lados. Neste natal, ele chorou como um bebê ao receber um presente de Lily, estava tão feliz até perceber que não havia nenhuma carta sua, como todos os anos anteriores. Mas ele te mandou presentes, todos os anos, até quando mal tínhamos dinheiro para nos alimentarmos.
Aquela frase me atingiu em cheio. Não sabia que eles haviam passado necessidade.
— James fugiu da escola Al. — Voltei a encará-la. Seus olhos mostravam uma compreensão estranha. — Não é fácil para um bruxo formado de outro país encontrar trabalho aqui, demorou até que eu deixar o cargo de júnior e os desenhos de seu irmão começassem a fazer sucesso. Todo dia, ele sonhava com o dia que você viria aqui. Ele faz planos para o dia que você vai perdoá-lo.
— Não coloque essa culpa para cima de mim. Ele tomou a decisão dele, não eu. — Cruzei os braços, sentindo minhas orelhas ficarem vermelhas. Sangue de Weasley às vezes é um saco.
— Sabe muito bem que não estou te culpando. Só estou te informando que existe muitas coisas que você não é capaz de enxergar. — Ela suspirou pesadamente, afundando no colchão. — A mãe de vocês vai sempre me detestar, porque ela acha que é minha culpa e talvez até seja…
— Não é sua culpa. Foi uma escolha dele. — Resmunguei, cortando-a.
— Foi uma escolha dele, mas ele fez isso porque achava que eu não ia ficar bem sozinha aqui. Por todas as razões que nós já sabemos, provavelmente ele estava certo. Mesmo com ele, as vezes é muito solitário, principalmente porque papai não aceita muito as decisões que tomei, seja de casamento ou a forma como ganho a vida. Acha que é coisa de adolescente, mas você sabe que não é. Você é a única pessoa que sabia que estávamos juntos. Por isso, acha que ele devia ao menos uma explicação a você. Porém, eu era uma grande amiga sua, e você nunca me pediu uma explicação.
— Porque ele era o meu irmão e não você. — Dei de ombros. — E eu sabia para onde você tinha ido, se não fosse por aquele bilhete de despedida, eu não saberia que ele tinha fugido de hogwarts. Ele não disse para onde tinha ido, o que estava fazendo…
— Porque ele não queria arrastar você para o meio disso tudo. Se qualquer um soubesse que ele estava comigo, todos os Weasleys estariam na nossa porta e os Potters também. Precisamos nos organizar, casar e conseguir nos estabelecermos um pouco, antes de falar o mundo e esse segredo não era obrigação sua de guardar. O relacionamento já era muita coisa, agora imagina tudo isso? Sua mãe sofrendo sem saber onde seu irmão está, seu pai tentando tirar de você essa informação a todo custo, como eu sei que ele tentou. Agora imagina que você soubesse disso…
— Eu teria guardado o segredo! — Praticamente berrei. — Não teria contado para ninguém! Nem mesmo para Rose! Para ninguém!
— Mas a que custo? — Quem falou isso não foi minha prima. Foi a voz quebrada do meu irmão. — Ao custo de todos ficarem com raiva de você quando soubessem que você escondeu? Assim como ficaram de mim?
James havia entrado, estava encostado no umbral da porta — que eu não ouvi abrir — com os braços curvados e o rosto contorcido em uma dor que eu jamais vira. Ele sempre manteve uma postura de força inabalável, que nada jamais seria capaz de o quebrar e, naquele momento, eu podia ver seus pedacinhos em seu rosto.
— Nós nos tornamos as pessoas mais odiadas da família, vivemos a quilômetros de distâncias de todos que amamos para não ver a decepção em seus rostos. Aos poucos, as pessoas voltam a se aproximar, deixam de nos olhar com os olhos da raiva, porém, para alguns, a raiva só piora. Fomos criados como irmão, tio Bill e mamãe não aceitam de forma alguma, eles fingem, mas é difícil. E a última coisa que eu poderia fazer, era colocar você no meio disso.
Era muita informação! Eu havia acabado de ser acordado com essa enxurrada de informações, já bastava tudo que estava acontecendo comigo e Lanna. Agora tinha que lidar com isso. Eu não estava pronto para lidar com nada disso, nada do que estava acontecendo.
— Chega! — Falei, levantando da cama o mais rápido que podia e indo em direção a minha mala aberta. — Vocês não sabem como teria sido se tivessem me contado a verdade! — Bufei, pegando uma calça e uma camiseta. — E vocês não sabem como foi para mim. Sabendo que meu irmão tinha ido embora e não confiado em mim. Todo mundo tinha absoluta certeza de que você havia me falado alguma coisa, qualquer coisa, mas tudo que você me mandou foi um bilhete estúpido que eu nem entendi. — Lágrimas começaram a aparecer nos cantos dos meus olhos. — Quem falou que você havia fugido foi Rose! Ela quem entendeu a porra do bilhete que não dizia nada. Eu não acreditei nela até não ver você o dia todo e começar a perceber a movimentação! — Minha voz estava esganiçada, quebrada, como se o mundo ao meu redor não existisse mais. — Eu tinha certeza que você jamais faria isso comigo, que jamais me abandonaria, que jamais me deixaria no escuro. Que eu não ficaria sozinho, que eu não ficaria me sentindo a pessoa que você menos quer ver, como se tudo fosse melhor e mais interessante que eu. — Rios corriam pelas minhas bochechas, contudo, eu não me importava mais, não mais, não mais. — Como você pode dizer que me ama e não tentar estar perto de mim, e arrumar briga por absolutamente qualquer coisa? Eu não sei se posso mais Lanna…
Quando aquela palavra saiu dos meus lábios, eu entendi e isso me fez cair de joelho, em meios as lágrimas e os soluços.
— Al… — Eu mal podia ouvir a sua voz, seus braços me puxaram para cima e, pela primeira vez em anos, James me abraçou, com força, com carinho e com o amor que eu nem imaginava que precisava.
E eu só chorei até não haver mais lágrimas em meu corpo.
X
Havíamos passado a tarde jogando quadribol. Eu, Ikarus, Viktor — que ainda era muito bom, apesar da idade — e Kaya. Ikarus era um bom jogador também, mas sua irmã era fantástica. Foi muito divertido e tão competitivo que eu estava muito suada, precisando de um banho com urgência.
Enquanto retirava as peças de roupa para adentrar a banheira cheia de água morna, um papelzinho voou do meu casaco — estava usando o mesmo do dia anterior — e por um segundo não lembrei o que era. Eu havia esquecido completamente dele. Peguei o papel e puxei a varinha do bolso.
— Revelium. - Sussurrei com a varinha encostada no papel que imediatamente começou a colorir e se tornou uma fotografia.
Eu usava um vestido florido e estava com o cabelo bem arrumado, Ikarus estava ao meu lado, nós dois estávamos sorrindo e logo em seguida nos beijavamos. Eu não lembrava daquela foto, contudo, não me parecia estranho.
Virei o fotografia e encontrei algo escrito ali.
“Sei que isso vai parecer estranho, mas, você não pode dizer que foi eu, diga que encontrou caído em algum lugar, por favor. Você precisa saber a verdade, isso não é justo com você, nem com ele. Pergunte a Ikarus sobre a caixa embaixo da cama e sobre esta foto, por favor.”
Sem entender muito bem, virei o papel novamente e observei os detalhes daquilo. E quando entendi, senti que eu estava perdendo o chão e tive que me encostar na parede para racionalizar.
Eu não tinha vestido florido, nunca havia usado uma maquiagem como aquela, nem conhecia aquela paisagem. Ikarus parecia muito mais novo, anos mais novo, talvez a minha idade atual, e pela data que estava gravada no final da imagem, 15 de abril de 2019. Eu nem o conhecia. Como eu poderia? Eu tinha 13 anos.
Sem me importar com nada, sai do banheiro o mais rápido que eu pude.
Um lufada de ar frio subiu pelo meu corpo sem agasalhos, eu usava apenas uma blusa e meu par de calças. Contudo, não me importei, eu precisava entender, eu precisava saber. Um ódio subia por todo o meu corpo, sentia que meus batimentos cardíacos em minha orelhas. Não importava que eu estava na casa dos meus sogros, se é que eu podia chamá-los assim dada as circunstâncias.
Ikarus estava deitado sobre a cama bem arrumada, os pés cobertos por meias, suas pernas estavam cruzadas e estava lendo um livro.
— Que PORRA é essa Krum? — Berrei, jogando a foto em seu peito.
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