She and my Fear
1 Capítulo Único - She and my Fear
Notas iniciais
Espero que gostem de mais um passeio pela minha mente louca e relativamente interessante...
Enfim, boa leitura...
Leandro Alexander segurou firme a peça de madeira que serviria como suporte para a nova prateleira no lugar com uma das mãos e a outra usou para colocar o parafuso e apertá-lo com uma chave Philips, sentindo um par de olhos acompanhando todos os seus movimentos.
— Ainda bem que eu já tinha furado a parede ou isso aqui ia sair muito, muito torto. — O jovem murmurou em tom de brincadeira, sem desviar a atenção de sua tarefa para a porta aberta do quarto. — Tá me deixando um pouco nervoso me secando assim.
— Foi mal, Lena. — Mya riu, erguendo as mãos em sinal de paz. — Mas um homão desses no meu apartamento só de bermuda e top? Claro que eu ia vir babar um pouquinho.
Leandro soltou um risinho envergonhado e finalmente encarou sua amiga. — Agora é o nosso apartamento, Myamor. — Corrigiu-a sorrindo mais. — Caramba. Ainda não acredito que conseguiu me convencer a fazer faculdade em São Paulo!
— Ah, qual é? Foi uma ótima escolha a se fazer. — Ela cruzou os braços e encostou-se ao batente da porta, falando com um ar animado. — Além de estar estudando na melhor das instituições de ensino da sua área no país, você vai poder ir ao teatro sempre que tiver a fim, muito mais filmes vem pros cinemas daqui, tem bem mais lugares abertos 24 horas...
— E estou perto de você. — Leandro interrompeu sabendo que, no fundo, nenhum dos outros motivos havia sido tão persuasivo.
— É. Tem isso também. — Mya colocou um dos cachos atrás da orelha enquanto um tom rosado tomava suas bochechas e um sorriso de canto surgia em seu rosto. — Enfim, eu me distraí com as suas curvas. Na verdade, eu vim pra dizer que o almoço tá pronto.
— Obaaaa! — Ele comemorou batendo palmas como uma criança. — Vou só me jogar uma água. To todo suado. Não é legal almoçar com uma pessoa nesse estado.
— Ok. Eu te espero.
— Você é um amor, Mya. — Leandro fez questão de parar para dar um selinho em sua amiga ao passar por ela para sair do quarto.
— Não vai pegar uma toalha, mocinho? — Ela perguntou aumentando o sorriso.
— Ah é.
Minutos depois, ambos estavam sentados à mesa conversando, rindo das maiores besteiras possíveis e saboreando a comida, aproveitando a companhia um do outro.
Mya procurava analisar bem os detalhes de Leandro. Desde as expressões, os tons de voz, jeitos de falar e comer até os movimentos das mãos. Tudo.
Ele parecia feliz de verdade em estar ali, sem forçar nenhum sorrisinho sequer. Isso deixava seu coração muito mais leve, pois o garoto sempre se disse um cara feito para cidades pequenas, mas ela sabia que ele tinha potencial para conquistar o mundo se quisesse. Por isso sempre o incentivou a estudar fora de seu estado natal.
Claro, querer tê-lo por perto também era um dos motivos para promover tanto São Paulo em seus discursos estimulando-o a sair de Roraima, porém o que realmente queria era o bem de seu amigo.
— Isso estava muito bom. — Alexander sorriu repousando a colher no prato vazio. — Vou te recompensar bem no jantar, pode aguardar. — Finalizou a frase com uma piscadela.
— Na verdade, eu tava pensando que a gente podia sair hoje e comer fora essa noite. — Ela sugeriu animada. — Assim você descansa um pouco desse lance de mudança e se distrai.
— Seria legal, miga. Mas eu to banhado em óleo de tão liso. — A resposta veio em tom de brincadeira. — Só vou ter dinheiro lá pra semana que vem.
— Lena, eu te fiz vir morar a três mil e trezentos quilômetros da sua zona de conforto! — Apontou de forma enfática. — O mínimo que posso fazer é bancar uma noite divertida.
Leandro riu passando os dedos por seu cabelo curto e escuro. — Está bem então. O que tem em mente, Myamor?
— Um amigo meu, o Lipe, tá atuando em uma peça. Podíamos assistir e depois comer uma pizza ou ir pra um barzinho tranquilo, talvez com música ao vivo, pra tomar alguma coisa e tals.
— Por mim, fechou. Que horas saímos? — O garoto estava realmente animado, seria seu primeiro passeio de verdade após sua mudança já que os dias anteriores foram gastos resolvendo assuntos da faculdade e se instalando no apartamento.
— Quatro e vinte, quatro e meia.
— Beleza. Dá tempo de tirar um cochilo.
Depois de deixar a cozinha em ordem, os dois foram juntos para o quarto de Mya já que a cama de Leandro havia sido comprada, mas ainda não entregue, então estavam compartilhando a da garota por enquanto. E ela estava bem longe de reclamar dessa situação, pois seu amigo adorava fazer cafunés e tinha mãos incríveis quando se tratava de massagens.
(...)
O relógio de parede da sala marcava quatro e vinte e três (o que queria dizer que eram quatro e quinze) quando Mya finalizou sua maquiagem com um batom matte e foi para o sofá esperar Leandro, que começara a se arrumar depois.
Mais ou menos cinco minutos se passaram até que o garoto surgisse em seu campo de visão vestindo uma calça jeans azul escura, uma camisa xadrez azul e preta abotoada até o fim e uma gravata preta. Para completa o visual, o óculos de grau repousava no rosto redondo, dando um charme a mais.
— To bonito? — Ele perguntou com um sorrisinho de canto.
Mya pensou em cancelar o táxi, puxar Leandro pela gravata de volta para o quarto e ter uma diversão um pouco mais física àquela tarde. Porém, já havia dito a Felipe que iria ver a peça e ele ficou bastante animado por finalmente ter a chance se matar sua curiosidade sobre o tal Leandro Alexander de quem sua amiga falava vez ou outra. Seria chato desmarcar assim em cima da hora.
— Você tá maravilhoso, Lena. — Limitou-se a responder depois de alguns segundos de silêncio. — Não conheço gordinho mais sexy.
O garoto aumentou o sorriso. — Obrigado. Acha que se eu fizesse o FTM* ficaria mais fácil pra você se acostumar com meu nome?
— Desculpa, eu achei que não te incomodava eu ainda te chamar assim.
— Não incomoda. — Leandro tratou logo de tranquiliza-la, sentando ao lado dela no sofá e olhando-a nos olhos. — De verdade. Só incomodaria se me chamasse pelo meu nome de registro porque nunca achei que combinasse comigo. Mas adoro esse apelido. Eu mesmo que escolhi quando era só um pirralho de quinze anos que ainda nem sabia que era menino.
— Talvez seja melhor eu começar a te tratar pelo seu nome. — Mya constatou. — Vai ficar confuso pras pessoas ao redor me ouvindo falar “o Lena isso, o Lena aquilo”.
— Só se quiser, Myamor. Quero que se sinta à vontade comigo, então prefiro que em algum dia daqui muito tempo “Leandro” ou “Alexander” flua da sua boca do que você comece a se forçar a dizer agora pra se acostumar.
— Desculpa, me distraí com sua boca e meio que não ouvi nada. — Confessou corando um pouco. — Pode repetir?
Leandro sorriu divertido e se inclinou para frente, iniciando um beijo lento e envolvente. E Mya foi rápida em rodear os braços em seu pescoço e aprofundar o contato.
— Você tá muito gostoso com essa roupa. Para de me beijar agora ou a gente não sai mais hoje. — Ela disse com os lábios quase ainda calados aos dele.
— Sendo bem sincero, eu não diria que ficar aqui com você é uma ideia ruim, não. — Respondeu com um sorriso safado.
— Concordo. Mas vamos sair sim. — Mya o empurrou de leve pelos dois ombros. — De noite quando a gente chegar, vou por em prática minhas ideias pecaminosas com esse seu corpinho delicioso.
— Quem te vê falando assim comigo deve até achar que eu não presto.
— Mas você não presta, mocinho.
— Ah é.
(...)
A peça era bem engraçada apesar de ser curta. Leandro e Mya se divertiram bastante tanto durante o espetáculo quanto comentando sobre ele na companhia de Felipe enquanto caminhavam em direção ao bar e restaurante que o ator costumava ir com seu grupo depois dos ensaios e recomendou para o jantar daquela noite.
Ao se aproximar do local já dava para ouvir a voz de Matheus e Kauan soando baixinho das caixas de som, o dvd estava justo na faixa que era um dos maiores sucessos do ano: Que Sorte a Nossa.
Havia a área interna e a externa do restaurante, então os três estavam decidindo se comeriam do lado de dentro ou de fora. Foi então que Alexander percebeu que havia um gato parado há um metro de distância, observando-os com curiosidade.
O garoto agarrou a mão de sua amiga e deu um passo para trás dela, dizendo. — Acho que eu prefiro comer lá dentro.
Mya olhou na mesma direção e fez uma careta. — Qual é? Eu achei que já tivesse superado o medo de gatos.
— Não é medo, tá? Eles só me deixam um pouco nervoso. — Leandro rebateu fazendo um biquinho irritado. — Ele tá me encarando. Bora entrar logo, por favor.
Depois de revirar as íris castanhas, Mya seguiu na frente para escolher a mesa, com Leandro ainda segurando com força sua mão.
Felipe vinha logo atrás com uma expressão indignada. — Como assim, cara? Gatinhos são a coisa mais fofa do mundo. Não dá pra ter medo deles.
— Fofos?! — Alexander se virou de imediato para encarar o ator. — Fofos? Você já viu o olhar dessas criaturas?
— Vai começar. — Mya passou a mão da própria testa até o queixo.
— É maligno! Sem mais. — Completou a linha de pensamento sem se importar com o comentário cético de sua amiga.
— Ele está só brincando, não é Mya? — Felipe questionou com o cenho franzido em descrença.
— Pior que não. — Ela respondeu puxando uma cadeira para se acomodar.
Assim que os três sentaram à mesa, um garçom apareceu para entregar os cardápios e anotar os pedidos.
Depois que o rapaz se afastou, Mya deu uma boa olhada em Leandro que estava bem à sua frente, então um sorriso começou a brotar em seus lábios. — Eu acho que tive uma ideia pra te ajudar com seu medo de gatos.
— Qual? — O jeito como era encarado o deixou nervoso e ansioso ao mesmo tempo.
— Você vai ver.
— Ui. Misteriosa. — Felipe brincou causando riso nos outros dois.
(...)
Mais de um mês havia se passado desde o dia da peça e Mya ainda não dissera uma palavra sobre sua ideia de como fazê-lo superar seu medo de criaturinhas tão pequenas e, às vezes, inofensivas, então Leandro decidiu parar de perguntar e acabou esquecendo o assunto.
Por isso estava completamente desprevenido naquela tarde de sábado quando chegou ao apartamento depois de fazer as compras para a próxima semana e encontrou uma trilha de adesivos que imitavam patinhas no chão.
Desconfiado, seguiu-as até seu quarto e se surpreendeu com a visão: Mya sentada de pernas cruzadas na poltrona que em geral era usada para fazer leituras.
Ela usava uma tiara de orelhinhas de gato preto combinando com o delineador estilo gatinho, as três linhas desenhadas de cada lado do rosto imitando bigodes felinos e o batom que chamava atenção para a boca.
Porém essa atenção era disputada pelo corpo escultural vestido com um corpete preto transparente ligado as meias 7/8 finas por alcinhas estreitas.
Leandro engoliu em seco enquanto a devorava com os olhos.
Mya sorriu e se levantou da poltrona, caminhando até ele de forma lenta e sensual. Segurou-o pela gravata e aproximou seus rostos.
— Está com medo de mim?
Sem conseguir pronunciar uma palavra sequer, o garoto apenas balançou a cabeça em negação.
Aumentando o sorriso, Mya empurrou Leandro para a cama e sentou sobre o quadril dele...
Quase uma hora depois, Leandro estava deitado nu e suado olhando para o teto de seu quarto com uma expressão abobalhada no rosto e a respiração quase normal.
— E então, migo? Consegui te ajudar com o seu medo? — Mya perguntou, olhando-o com um sorrisinho de canto.
— Talvez. — Ele respondeu virando o rosto para encará-la. — Acho que se continuar tentando, vai funcionar direitinho.
— Tu não presta. — Disse rindo.
— Nem um pouco. — Confirmou. — Ei! Um dia eu posso escrever sobre isso? Porque tipo... Uma amiga usando uma fantasia sexy de gatinho pra ajudar o amigo com uma semi-fobia estanha? Cara, quem pensa nessas coisas?
— Gente estranha quinem a gente. — Riu mais uma vez. — Pode. Mas do jeito que tu é enrolado, esse negócio só vai sair daqui uns dois anos.
— Não exagera, vai.
—Ok, me avisa quando postar.
— Combinado.
— Já se recuperou?
— Já.
— Ótimo. Porque ainda não acabei. — Mya voltou a ficar por cima de Leandro e beijá-lo com intensidade.
Mas para sua surpresa, o garoto enrolou seu cabelo na mão e puxou para trás, assim quebrando o contato só para poder dizer. — Não, não. Agora é minha vez.
E em um movimento rápido, inverteu suas posições, deixando-a embaixo de si e dando início a um beijo ainda mais selvagem.
(...)
Quando Mya chegou da faculdade naquela terça-feira, encontrou Leandro sentado à mesa com o notebook aberto e fones de ouvido, cantando Hearts Don’t Break Around Here – Ed Sheeran em um ritmo completamente errado.
Tentando não rir, se aproximou e beijou-o na bochecha enquanto colocava a sacola de livros novos que trazia consigo em cima da mesa. — Oi, migo.
— Oi, Myamor. Como foi a aula? — Ele perguntou sorrindo e tirando um lado do fone para poder conversar melhor.
— Foi tranquila.
— Que bom. Eu terminei de fazer a comida tem uns dez minutos, então tá quentinha.
— Obaaa. — Mya comemorou batendo palmas como criança, um hábito adquirido por excesso de convivência.
— Vou já comer contigo. Deixa só terminar aqui.
— Tá fazendo o que?
— To postando “She and My Fear”. — Leandro desviou o olhar da tela um instante para piscar para ela.
— Não acredito que vai mesmo postar isso, Lena. — Mya riu balançando a cabeça em negação.
— E eu não acredito que você duvidou. — Sorriu finalizando a postagem e desligando o notebook.
Notas finais
Sem zoar o menino por ter medo de gatos... Lendo a lenda egípcia dá de entendê-lo...
xoxo
Atenciosamente, Leo A. Santana...
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