She Wolf - Entre Deusas e Lobas
2 Não se luta contra Badb.
Notas iniciais
"Cardem a matou" Aquilo ecoou por toda a sala, várias e várias vezes. Se tornando mais real a cada eco.
Na vida, em algum momento recebemos notícias, descobrimos coisas que nos fazem sentir como se tudo parasse ao nosso redor evapora-se e estivéssemos presos no nada, atônitos a tudo. Sulis sentia-se assim. Conheceu diversas Herdeiras de Zynn, mas Biccer era especial. Ela era sua amiga, sua amada. E Cardem, o Urso lhe arrancou aquele sorriso.
A deusa continuava imóvel, seu olhar estava perdido, como se olhasse para além de tudo isso, na esperança de encontrar Biccer viva.
Sentia raiva, não de Cardem, mas dela mesma. Era uma deusa e mesmo assim não podia salvar a única pessoa que importava. De Cardem sentia ódio, por causa dele não podeira viver seu luto, não existia tempo para o pesar em uma guerra.
— Hij. — Sua voz aos poucos voltava para seu corpo. — Não espalhe a notícia ainda, vão descobrir, mas precisamos de tempo antes da histeria. Uma guerra está vindo, então vamos agir como se já estivéssemos em uma.
O fauno acenou positivamente com a cabeça. E a deusa reparou em alguns detalhes que lhe tinham passado despercebido. Fios prateados faziam agora parte da barba do guerreiro. Seus olhos estavam cansados e ao seu redor as olheiras eram bem visíveis e se juntavam a linhas de expressões mais fortes. Hij estava envelhecendo. Mas o que ela queria? Ele é mortal.
Mortal.
Cardem também era um mortal. Dentro de algumas cetenas de anos, ninguém se lembraria do que tinha acontecido. Todas as mortes, batalhas, tudo iria ser em vão. Todo aquele derramamento de sangue por nada. Irônico.
No final das contas, Sulis acabaria sozinha. Pensou na sua visão, nos corpos estirados no chão, nas crianças órfãs escondidas entre as árvores. Cardem conseguiria o que tanto queria. Ser rei, mas rei de um povo morto. Quando seus olhos enxergariam isso?
— Não alarmei a ninguém e nem farei. Mas a senhora precisa saber de mais duma coisa. — A deusa o olhou com clemência, não queria mais notícias ruins. E Hij conhecia aquele rosto. — Não é algo ruim. Biccer me enviou uma carta, ela sabia que eu lhe entregaria, já que de uma forma ou outra, você apareceria na Tábua Rósea. O fauno caminhou até um banco de madeira, pegou a carta e entregou a deusa. Que começou a passar os olhos pelas letras.
Eu sei que vou morrer.
Eu sinto que ele voltou.
Eu não preciso que alguém venha conversar comigo. Até você receber essa carta eu já vou está morta. É um pouco assustador, eu sei. Mas talvez seja melhor agora, ainda estamos de luto por Frenhines e não quero que nenhuma lágrima seja derramada por mim, não temos tempo.
Ninguém pode esconder nada de mim. Sei que Cardem não tem outro objetivo, se não a minha destruição para obter o poder de Zynn, mas por nossa sorte e azar dele, ainda acha que só tenho Faer como filho. Mantive Evellyn e Boyne em segredo. Faer, sendo um menino, não pode herdar os meus poderes, então, supostamente, assim que Cardem consegui me matar, o poder vai para ele, mas não posso enganá-lo por muito tempo, por isso já mandei as meninas para o reino das fadas, por enquanto elas estarão protegidas.
Meu marido quer que eu fuja, não adianta. Cardem iria atrás de mim em qualquer lugar do planeta, não descansaria e um rastro de mortes evitáveis nos seguiria também. Não quero isso. Aqui eu sou mais do que uma bruxa de olhos vermelhos. Eu ajudo os doentes da vila, sirvo de conselheira para aqueles que me procuram com dúvidas. Sou o elo entre os humanos e todas as criaturas mágicas. Não posso simplesmente fugir e deixá-los a mercê do que só os deuses sabem que pode acontecer. Sei que minha vida corre perigo, mas o que é uma vida sem propósito?
Perceba como algo mudou na magia. O outro plano está mais pesado, mais movimentado e cheios de burburinhos. Cardem se aliou a eles. Não esperava nada diferente, as sombras nunca gostaram de mim e do meu equilíbrio, sempre pensaram que era poder demais para uma humana.
Evellyn, lembre-se dela e de Boyne, por favor amiga. Elas precisam chegar até Stonehenge, ir pro templo, e treinarem, lá estarão seguras, o poder de Zynn vai lhe proteger. Elas não podem ir sozinhas, nem com Faer, ele chamará a atenção de Cardem. Não precisa haver muitas pessoas para acompanhar, eu designei Makiriann, uma aprendiz minha para cuidar delas, mas enão é boa com espadas, muito pacífica. Preciso de alguém mais forte. Só pensei em duas pessoas. Nale e Targonne. São filhas de uma linhagem de guerreiras com muitas histórias, como não posso pedir para Nale deixar a coroa, eu escolhi Targonne. Sei que essa decisão parece tola e precipitada. Mas confie em mim, ela é uma loba, e não é a primeira vez que uma delas protegem crianças.
Até minha deusa.
Biccer.
— Aquela maldita sabia que algo estava acontecendo. — A fala soava confusa no meio de tantos soluços e do pranto. Não queria chorar, mas já não era algo que controlava. Parecia uma patética que não terminava nem uma linha de raciocínio. — Ela sabia. — O desespero tomava cada vez mais sua voz. — Sabia e não contou para ninguém. Não contou para mim. Como sempre teimosa, pensando que conseguiria lidar com tudo do seu jeito.
— Não a culpe, Biccer não era de fugir, estava certa nesse aspecto.
A profeta permaneceu em silêncio, organizando seus pensamentos e refletindo sobre o que teria de fazer. — A roda está perto de se quebrar. Proteger as meninas é nossa prioridade. Arianrhod deve pressentir a mudança. Marcarei uma reunião o quanto antes, não podemos interferir diretamente, entretanto, juntas podemos pensar em algo.
— Eu vejo medo nos seus olhos Sulis. Medo do que à por vir. E isso lhe faz sofrer. Você sabe como o futuro não é algo imutável. Não o imagine agora. — O guardião a puxou para seus braços, dando um pouco de conforto. Não suportava uma visão tão humana da deusa, tão alcançável. — Eu não vou dizer que tudo vai ficar bem. Porque eu não sei. Só podemos tentar fazer o certo agora. Não esqueça do mais importante, você é uma deusa, precisa ser forte por todos nós. Principalmente por Biccer. Não deixe Cardem ter esse gosto, ele não merece.
Sulis permaneceu em silêncio, não existiam mais palavras terrenas para expressar tudo que estava passando dentro dela. Abraçou Hij ainda mais forte, queria sentir seu cheiro, memorizar o momento. Viver o presente.
— Está um pouco melhor?
Sulis concordou com a cabeça. — É só que ...
— O que?
— A carta mencionou Frenhines.
— Frenhines lutou bravamente. Aqueles romanos foram covardes, quebraram o acordo. Todos pensavam que a paz era duradoura ...Então eles chegam e matam uma rainha para invadir sua tribo de lobas.
— Frenhines se sacrificou pelas licantropas e por nós. Como toda rainha, pensou em seu povo primeiro. Graças aos deuses Bedeléia conseguiu fugir do cerco e alertou as outras. Infelizmente quando as lobas chegaram, a maioria dos homens tinham fugidos, e os dois que sobraram foram feitos de prisioneiros.
— E como estão agora?
— Mortos e enterrados. — Sulis não tinha nenhum remoço nas palavras, foi ela mesma que acendeu a fogueira. — Confessaram que estupraram elas antes de matarem. A pena não poderia ser outra.
— Uma coisa ainda me deixa confuso. Por que os romanos apareceram justamente agora, e só para as licantropas? Se Cecilius quer tentar novamente conquistar essas terras, ele não mandaria só uma porção de guerreiros. Mandaria todo seu exército, e o espalharia por todo canto e não duvido que se uniria a Cardem.
— Sem contar que o número de soldados não era nem tão grande, assim que eles chegassem a tribo as outras guerreiras o matariam.
— A não ser que eles não queriam chegar na tribo.
Os dois se entreolharam e falaram ao mesmo tempo. — Uma emboscada!
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