Notas iniciais
Ruby não soube - ou não quis - lidar com seus sentimentos em relação a Belle e isso trouxe consequências devastadoras para a vida das duas.

Capítulo 2 – Damaged

"Mas há muita beleza na sua alma e muita inocência. E eu não posso jamais fazer isso com você." – Talvez ela não tenha pensado muito no que estava dizendo, apenas disse, meio que por impulso, sem pensar muito nas consequências. Apesar de que isso era bem de seu feitio, falar ou fazer algo sem pensar muito nas consequências.

A tal frase dava a entender que Ruby achava Belle uma pessoa frágil. Embora Ruby melhor que ninguém, sabia o quão forte aquela mulher era. De modo que, posso afirmar com muita certeza de que essa era a ultima coisa que Ruby teve a intenção de dizer.

Depois de proferir tais palavras, Ruby a encarou, de uma forma que nunca havia feito antes. Foi ai então que ela teve a certeza, de que o que ela sentia por Belle não era apenas uma ilusão. Ou apenas um desejo de alguma forma se satisfazer com uma mulher. Não que ela nunca tivesse ficado com uma garota. Incontáveis foram às vezes que ela tinha feito isso, e muitas delas ali mesmo naquele bar, naquela pista de dança e até mesmo do lado de fora da boate.

Mas em nenhuma dessas vezes, ela sentiu o que sentiu naquele leve toque em Belle. Acredito que de certa forma, ela nunca tenha se sentindo assim por ninguém, nem mesmo por Peter e talvez fosse por isso que ela se afastou aquela noite. Dando um passo pra trás e não só abandonando Belle naquela boate como também abandonando qualquer chance de ter algo com ela.

Sua cabeça nunca estivera tão cheia e seus pensamentos tão confusos, como naquela noite enquanto ela andava por entre as pessoas em seu caminho. Tudo o que ela pensava era em como ela havia sido estúpida. Em todos os sentidos. Primeiramente, havia sido muito infantil da parta dela ter abandonado Belle daquela forma. E em segundo lugar, havia sido estupidez não a ter beijado. Quer dizer, o que havia a perder? Talvez apenas a amizade de Belle, mas isso provavelmente ela já havia perdido. Pelo menos era o que ela pensava, enquanto passava pelas pessoas que ainda formava uma fila do lado de fora da boate.

Por que ela não podia ter isso? Ela pensava, olhando para trás, passando por um casal que se beijava com tamanha paixão que chegava a dar nojo. Mas ela queria isso? Ela se questionou, enquanto abria a porta do carro, olhou novamente para o prédio, agora um pouco distante. Naquele momento então, ela não mais pensava em Belle. Pensava em sua vida, passado, presente, futuro, Ruby e Red. Que querendo ou não, eram duas pessoas diferentes que de algum modo se completavam.

Será que em algum momento da vida de Red, ela quis casar e ter filhos? Será que em algum momento ela desejou ter um Príncipe e um castelo só seu? Ela sabia que a resposta era sim. Eu não posso te dizer o quanto ela amou Peter, mas sei o que eles tiveram foi forte o suficiente a ponto de marcar Ruby. Marca-la de tal modo que se aproximar de outra pessoa como fez com ele, era impossível.

E talvez esse fosse o segundo motivo pelo qual ela deixou Belle para trás. Então ficamos com duas teorias para tal evento: A primeira diz que Ruby foi embora por medo de se apaixonar novamente e a segunda diz que ela foi embora por medo de machucar Belle como machucou Peter. Provavelmente as duas teorias se completam.

Ela então ligou o carro e saiu dali, parou próximo a um taxista (que já a conhecia muito bem) e pediu que ele esperasse por Belle e a levasse para casa, pagando-o logo em seguida. O taxista gentilmente concordou e Ruby o agradeceu arrancando com o carro logo em seguida.

Apertou gentilmente o volante de couro, enquanto se ajeitava no banco do carro, colocando o cinto de segurança logo em seguida. Aquela não era uma noite comum, ela pensou enquanto arrancava com o carro novamente.

Devido ao seu lado de loba, ela era capaz de sentir o mundo de uma forma mais intensa. Provavelmente você já deve ter tido um daqueles pressentimentos onde parece que seu dia vai dar todo errado (ou certo), então você passa o dia inteiro esperando por essa quebra de expectativa que às vezes nunca vem. Com Ruby era assim, ela era sensível o bastante para saber quando algo daria errado e geralmente estava certa. Porém agora ela ignorava tal pressentimento, embora cada célula de seu corpo a avisava de que algo ruim estava a caminho, ainda assim, ela ignorou.

Pois afinal, o que mais poderia dar errado essa noite?

A estrava estava deserta, apenas o carro de Ruby deslizava por aquela estrada solitária. O silêncio no carro fazia com que ela refletisse cada vez mais sobre sua vida, e a cada novo pensamento ela sentia-se cada vez mais um lixo. Não ousou ligar o rádio, pois sempre acreditou que músicas apenas eram capazes de piorar o estado de espírito da pessoa numa hora como essa. Dirigiu então envolvida no próprio silêncio, um silêncio cheio de culpa, arrependimento e uma vontade enorme de voltar ao passado.

Porém em qual de seus passados a vida foi mais fácil? O passado de Red, cheio de mentiras, culpa e uma serie de assassinato nas costas? Ou o passado de Ruby? Onde só havia vazio, promiscuidade e de novo mais vazio?

De qualquer modo os dois passados de alguma forma se completavam, Ruby jamais poderia lavar as mãos de sangue de Red e esta por sua vez jamais poderia preencher ou extinguir o vazio da vida de Ruby. Ela era ambas, sempre seria. Não importava o quanto ela tentasse fugir, ou ignorar, ela sempre seria as duas. Então por que ainda assim era tão difícil aprender a seguir a vida dessa forma? Por que era tão difícil acreditar que nunca chegaria um momento em sua vida, em que o universo daria um jeito e ela acharia uma forma de ser feliz?

Ela questionava demais a felicidade, – a própria felicidade — pois conviveu durante toda a sua vida com Princesas, e todas elas tinham sonhos de um dia conhecer o tal do Príncipe Encantado. E talvez o problema fosse esse: Ela não queria um príncipe encantado ou um castelo. Mas ela queria sim o'Felizes para sempre', a diferença era que ela trocaria o castelo pela casa mais simples do mundo, portando que ao invés do príncipe, ela tivesse uma princesa.

Estava quase chegando em casa, estava a uma distancia de apenas dois quarteirões, quando então resolveu olhar para o céu. E o céu daquela noite era espetacular, anos se passaram e ainda se falavam dessa noite, da noite das estrelas que não brilhavam em Storybrooke e sim resplandeciam. E foi inevitável não sorrir com essa visão, pois era de longe a coisa mais linda e intensa que ela já havia presenciado.

Até a Lua – que esta noite era minguante — estava perfeita. E geralmente ninguém presta muita atenção para Lua Minguante. Geralmente a Lua Cheia sempre é a protagonista do céu. Mas não para Ruby, pois ela sabia apreciar todas as luas e com essa não foi diferente. Porém algo além das estrelas e da Lua chamou mais atenção, algo que deixava um rastro no céu, um rastro de fogo. Algo desgovernado, que mais parecia sem rumo, voando em chamas no céu, como uma fênix.

Um meteoro — ou estrela cadente, como preferir -. Ruby sabia pouco sobre estrelas cadentes, mas sabia que elas concediam desejos. No caso dela, o que ajudaria mesmo era um milagre, porém ainda assim ela fez um pedido. E então, assim que viu a tal bola de fogo, fechou os olhos, sem se preocupar muito com a estrada a sua frente e então pediu, em um tom mais baixo que um sussurro, que mais parecia um pensamento. Pediu baixinho, talvez por vergonha, pois parecia tão idiota fazer um pedido a uma estrela. Ou talvez porque não acreditasse que merecia que o pedido fosse realizado

"Por favor, me traga afelicidade!"

E o que aconteceu em seguida, ninguém nunca pôde contar com exatidão, pois aconteceu mais rápido que um piscar de olhos. Tão rápido que Ruby nunca chegou a abrir os olhos, de modo que aquele céu estrelado foi a ultima coisa que ela viu aquela noite. Permita-me dizer, mesmo embora eu não tenha visto o tal céu, acredito que se ela tivesse morrido aquela noite, e a ultima coisa que ela tivesse visto fosse aquela imagem, a vida inteira dela já teria valido a pena. Apenas fico feliz por ela não ter morrido, caso contrário não faria sentido algum contar essa historia.

Acontece que aquele meteoro não estava sem rumo, e em um piscar de olhos o que antes cortava o céu como uma fênix, agora caia como uma bomba em direção a Storybrooke. Ninguém nunca conseguiu descrever tal evento tão bem, de modo que por falta de fatos e provas, pularei tal descrição e vou partir para as consequências do evento.

O meteoro não deixou apenas um rastro no céu, mas como também foi responsável pela destruição de uma rua inteira de Storybrooke. Anos mais tarde, a rua seria conhecia como: 'Rua da Estrela caída'. Não foi só aquela rua que teve sua historia mudada, o impacto que o meteoro causou, destruiu não apenas as vidraças das lojas e causou um pequeno incêndio. Mas arrastou também o carro de Ruby por alguns metros. O carro girou inúmeras vezes, com uma Ruby inconsciente dentro dele, parando apenas quando atingiu um poste derrubando-o sobre o carro e causando um efeito dominó no poste seguinte.

O cenário era de destruição em toda aquela rua – agora sem energia devido à queda do poste – se via apenas cacos de vidro por toda a parte e pequenos rastros de fogo pela extensão do asfalto. Uma cratera enorme que exalava fumaça, um Camaro 1975 ao longe completamente destruído e uma Ruby que havia sido jogada do carro completava o cenário de destruição.

Ela se encontrava deitada há poucos metros do carro, com o rosto coberto de sangue e sabe-se lá Deus quantos ossos fora do lugar. A garota abriu os olhos por alguns breves segundos, estava completamente confusa, e sentia cada um de seus ossos moídos. Ela não conseguia entender onde estava ou o que havia acontecido.

O pouco tempo que permaneceu acordada, antes de perder novamente a consciência foi tão breve que ela apenas teve tempo de olhar novamente para aquele céu. E sabe quando as pessoas dizem que quando a gente esta morrendo nossa vida inteira passa pelos nossos olhos? Bem, isso é mentira. Quando estamos morrendo, tudo o que vemos e pensamos é em todas as coisas que nunca tivemos ou fizemos. E naquele breve instante que Ruby olhou para aquele céu, tudo o que ela viu foi Belle. Seu rosto contornado nas estrelas, e de fato ela concordaria comigo se pudesse: a vida inteira dela tinha valido a pena. E até o céu sabia disso.

–x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-

O taxista puxou assunto uma ou duas vezes e quando percebeu que não teria nenhuma resposta calou-se, permitindo que Belle se afundasse em seu próprio silêncio. E então ela nem notou quando a estrela cadente cruzou aquele céu, embora o taxista tenha chamado à atenção dela. A garota estava muito concentrada no próprio silêncio, em um transe tão profundo que só foi despertada quando sentiu o chão estremecer, como se tivessem batido em algo. Mas a verdade era que o impacto da estrela com o chão há algumas quadras dali havia sido tão forte, que mesmo eles estando distantes foram capazes de senti-lo. O carro ziguezagueou um pouco na estrada, mas rapidamente o taxista retomou o controle da direção, botando o carro novamente na estrada.

"O que foi isso?" – Belle perguntou um pouco assustada.

"Não sei bem." – Respondeu o taxista. – "Foi como se tivéssemos passado por um pequeno terremoto. Acho que vou encostar para ver o que aconteceu. Parece que foi algo mais a frente." – Ele continuou, parando no encostamento logo em seguida.

Saiu do carro logo, deixando Belle sozinha imaginando o que poderia ter acontecido. E milhares de coisas passaram pela cabeça dela, menos o que de fato havia acontecido. Passaram-se alguns minutos e o taxista não havia voltado ainda, eles estavam um pouco distantes do acidente, de modo que ele teve que caminhar um pouco para poder ter certeza do que tinha acontecido.

Belle começou então a ficar preocupada e talvez ate um pouco entediada, saiu do carro, sentindo o impacto do vento gelado em seu corpo e caminhou sozinha, indo na mesma direção que o taxista havia ido. A rua estava deserta e silenciosa, mas à medida que ela avançava era possível ouvir vozes e uma sirene um pouco distante, mas não distante o suficiente para não ser ouvida. Ela sentiu então seu coração apertar na medida em que avançada cada vez mais, virou em uma rua, agora já conhecida por ela e pôde ver a destruição que o meteoro causara.

Ali era uma rua comercial, de modo que não havia nenhuma casa, apenas lojas. E as vidraças de todas as lojas encontravam-se detonadas, andou mais um pouco e então parou, a próxima rua que entraria seria a dela, e a da lanchonete da vovó. E então seu coração ficou mais apertado, e a respiração mais curta, e a cada passo que ela dava era possível ver mais destruição. Sua mente então automaticamente preencheu o que havia na rua seguinte e ela não gostou nada disso, não sabia explicar o que estava acontecendo. Apenas sentia e via tudo o que havia acontecido ali alguns minutos antes, ela nem precisou chegar próximo ao local para saber exatamente o que havia se passado com Ruby.

Anos mais tarde alguém perguntaria a ela, como ela sabia que Ruby havia sofrido um acidente aquela noite, mesmo antes dela saber que um acidente havia acontecido de fato. E ela responderia que não sabia explicar, apenas sentiu. E no fundo era verdade, ela não sabia explicar, mas ela não apenas 'sentiu' que havia algo de errado com Ruby. Ela sentiu de fato que Ruby não estava bem, foi por isso que ela parou antes mesmo de virar a rua, e se tivesse virado teria visto o acidente, teria visto as pessoas próximas ao carro de Ruby, teria visto o corpo dela que foi atirado a vários metros dali. Teria visto a cratera que havia se formado naquela rua, teria visto mais vidros quebrados, postes derrubados e a escuridão causada devido a isso.

Ou talvez não tivesse visto mais nada, pois sua atenção estaria voltada ao corpo de Ruby completamente machucado, para a quantidade de sangue espalhada pelo seu rosto cobrindo seus olhos e descendo até sua boca. Para o braço em uma posição anormal, já deixando claro que o havia quebrado. Mas ela não precisava ter visto a cena, ela não queria ter visto a cena, porém não teve escolha, a cena foi inevitavelmente pintada em sua mente à medida que ela se ajoelhava no chão sentindo-se enjoada, sem controle alguns de suas pernas.

Permitiu-se obedecer a vontade do seu corpo de se entregar, quando percebeu, já se encontrava completamente ajoelhada, enquanto lagrimas lavavam todo o seu rosto, e ela nem notou que elas escorriam. Nem notou que ela chorava copiosamente, um choro de desespero, sentindo seu coração tão apertado que provavelmente havia se perdido dentro de seu peito.

Ela também não notou que o frio aumentava e que agora ela tremia. Não só de frio, mas de medo. Seus lábios agora se encontravam roxo e seus joelhos doíam em contato com o asfalto. Porém essa dor era a ultima que ela sentia e a que ela menos se importava. Como eu disse antes ela sentiu tudo, e quando eu digo tudo eu me refiro a cada dor que Ruby sentiu. Por isso a dor do joelho era quase imperceptível, embora as pequenas pedras do asfalto agora adentrassem na sua pele branca a tornando vermelha, talvez mais um pouco fosse possível fazê-la sangrar.

Ela sentiu os joelhos arderem, sentiu uma pontada forte na cabeça, como se algo a tivesse atingindo, sentiu sangue quente escorrendo pelo seu rosto. Porém não havia nada disso, ela apenas sentiu, quando o gosto do sangue por fim atingiu a sua boca, sentiu todo o corpo dolorido e sua pele congelar. Tudo o que ela sentia era frio e dor, e o frio só aumentava até que se tornou tão insuportável, como se o corpo dela fosse a qualquer momento entrar em colapso. Sua mente girou mais do que devia, a visão se tornou turva e então ela caiu, ali mesmo no asfalto gelado, sendo encontrada minutos depois pela Xerife Swan, que passava por ali em direção ao acidente.

–x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-

Belle só acordou muito tempo depois, em uma cama de hospital, com Rumple ao seu lado, que agora tentava acalmá-la a fazendo ficar na cama. Mas tudo que ela queria fazer era tirar o acesso venoso de sua mão e ir atrás de Ruby. Rumple então a segurou mais forte na cama. Ele esperou que ela se acalmasse e então a soltou, chamando um enfermeiro em seguida, que tirou o acesso venoso dela e deixou novamente os dois sozinhos. Belle olhou para a mão agora sem nenhuma agulha a furando e percebeu então que não sentia mais dor, quer dizer, só nos joelhos, se perguntou quanto tempo ela havia permanecido ajoelhada e por quando tempo estivera naquele quarto.

"Um pouco mais de duas horas." – disse Rumple, parecendo ler os pensamentos dela.

"E enquanto a Ruby?" – Ela perguntou, se preparando para levantar da cama. – "Como ela está?" – Seu tom de voz ultrapassava as barreiras da preocupação, tomando um tom de tristeza com um pouco de desespero. Rumple, porém nada disse, apenas repetiu o que estava dizendo desde o começo.

"Você precisa descansar."

"Não eu não preciso!"- Ela bradou. –"Eu preciso é ver como ela está! Eu preciso me certificar que ela esteja bem, você não entende!"- Ela continuou se afundando naquele travesseiro. Sentindo-se tão exausta e deixando isso transparecer muito bem.

"É claro que eu entendo." – Rumple respondeu, porém não fazia ideia do quando ele não havia entendido. Ainda assim ele continuou: — "Ela é sua amiga e você está preocupada." – Continuou, acariciando os cabelos castanhos da garota que o impediu de continuar. E chateado não era bem a palavra certa pra descrever Rumple nesse momento, pois ele estava furioso.

"Você não entende!" – ela disse o fazendo então perceber que de fato ele não entendia.

"Então me explique." — A voz dele era seca, tentando ao máximo não deixar claro que ele estava profundamente irritado, embora não houvesse necessidade, já que Belle não estava muito preocupada com ele. Na verdade ela não estava preocupada de forma alguma. E ele notara, o que o deixou mais furioso.

Quando Emma havia ligado para ele horas atrás, avisando sobre Belle, ele pensara que seria uma ótima oportunidade de tentar reconquistá-la. Mas agora com ela acordada e deixando bem claro que a sua única preocupação era Ruby, ele percebeu então que seu plano de reconquistá-la não havia tomado o rumo que ele esperava. E talvez nunca tomasse, ela estava diferente, ele notou, não o notava mais como antes. Não falava mais com ele como antes. Já não era mais a mesma.

Era isso que ele pensava, mas a verdade era que ela ainda era a mesma, o que mudou mesmo era o que ela sentia por ele. Ela já não sentia mais nada por ele, era essa a verdade e pra ser sincera, tenho certeza que ele já notava isso há muito tempo. Só não conseguia admitir, só não conseguia deixá-la ir. Ele não era acostumado a perder, não queria se acostumar a isso. Belle era dele por direito e seria até o fim de seus dias. E vale lembrar que ele é um ser imortal, de modo que para ele, ela seria dele para sempre.

Era isso que se passava dentro da cabeça doentia de Rumple. E nada tiraria isso de sua mente, e nada ficaria entre eles. Ele só não contava que Belle deixaria de amá-lo de uma hora pra outra. Acontece que ninguém simplesmente deixa de amar uma pessoa de uma hora pra outra, isso não acontece, as pessoas dão sinais de que o amor aos poucos vai se acabado. Entenda, não existe amor eterno. Não existe magia para fazer um relacionamento dar certo, mas existem meios de prolongá-lo.

Isto é, se você saber perceber que ele está enfraquecendo. Talvez Rumple tivesse perdido os sinais, talvez eles não sejam tão explícitos, talvez sejam sutis. No caso de Rumple, infelizmente devo lhe dizer que foi ele o pivô de tudo, ele devia saber melhor. Devia ter imaginando que quando mandou Belle embora de seu palácio, ela talvez não voltasse. Mas ela o amou uma vez, isso eu sei. Assim como eu sei que amar é um verbo e no caso deles esse verbo está conjugado no passado.

"Não sei se consigo."- Belle disse, sentando-se na cama sentindo que os joelhos ainda doíam. Ela passou as mãos pelos cabelos, e então o encarou, ele estava em pé ao lado de sua cama, e logo em seguida sentou-se no espaço vazio da cama na medida em que ela cruzou as pernas para lhe dar espaço. Ela parecia estar muito confusa. Mas estava mais preocupada, queria logo se livrar de Rumple e ver como estava Ruby, ainda sentia seu coração apertado, de modo que então sabia que as coisas não estavam 100%.

"Tente." – Rumple insistiu, tentando controlar o ódio que crescia dentro dele. Pois agora ele sentia que ela não só não mais o amava, como havia outra pessoa em sua mente. Ele estava um pouco errado, devo dizer, não havia só alguém na mente dela, como também alguém em seu coração. E ter consciência disso tornavam as coisas muito difíceis.

Entretanto não é tão fácil assim, admitir que esta gostando de alguém. Pelo menos é isso que eu acho que passava na mente de Belle. Talvez por isso a confusão, talvez por isso a cabeça dela doesse tanto ao pensar a respeito. Talvez doesse mais porque, agora ela pensando mais a respeito, ela tinha a certeza de que não começou de uma hora para outra e definitivamente não se tratava apenas de atração física.

"Eu acho..."- Ela começou a dizer, olhando bem dentro dos olhos de Rumple – "Quer dizer-" – Continuou, tendo que voltar ao começo da historia. — "Você sabe que já não existe mais nada entre a gente, não é?"- Ela deu uma pequena pausa, não porque precisava da confirmação dele, pois não precisava. Ainda assim deu uma pausa, para se certificar de que ele havia entendido. Não queria deixar nada inacabado.

"Eu pensei que -" – Ele a interrompeu, quando ela já ia começar a falar outra vez.

"Eu sei que pensou" — Continuo. – "Mas não, não existe mais nada entre a gente. Não vou negar que uma vez existiu. Como também não vou negar que já cheguei a pensar como teria sido se você tivesse me permitido entrar na sua vida." – Então ela deu outra pausa e se perguntou se foi ai que ela começou a pensar em Ruby de outra forma. Se foi quando ela teve consciência de que o que sentia por Rumple havia de fato acabado, que ela então permitiu que Ruby invadisse sua mente.

Talvez ela nunca soubesse a resposta disso. Ela sabia porém que de fato ela pensava muito em Ruby, pensou nela algumas vezes em situações muito íntimas e sentia se envergonhada logo depois. Evitava cada pensamento que ela tinha por Ruby, se sentia suja quando os tinha, mas às vezes era inevitável. Ela gostava de pensar nela, não sentia vergonha ou sentia-se suja todas às vezes. Na maioria das vezes ela se sentia bem, se sentia feliz, se sentia completa. Porém não se sentia normal. Então ela tentava pensar em Rumple, pensar em quando eles estavam juntos, em como ela sentia quando estava com ele. Imaginava-se junto dele como se imaginava com Ruby, e a resposta foi não. Ela nunca pensou nele da mesma forma e quanto mais ela se martirizava com essa ideia, mais a vida que eles haviam tido desvanecia em sua mente, dando então mais espaço pra Ruby.

Foi ai então que ela percebeu que Rumple era só uma memória em sua vida, quando de fato ele se tornou só isso. E quanto mais ela se esforçava em pensar se um dia eles podiam dar certo novamente, mais ele se tornava uma antiga memória. Um tipo de memoria que se esquece com o tempo. E se por acaso algo traz essa memoria de volta, em um dia qualquer, você apenas sorrir, pensa na pessoa e continua sua vida. O triste é quanto tal memoria não te faz sorrir e ao invés de continuar sua vida, você volta a se questionar novamente e começa a se perguntar em qual momento do relacionamento tudo começou a dar errado...

Belle então tentou não esquecer Ruby, já não mais tentou ignorar os pensamentos que vinham durante o dia, principalmente à noite. E não se sentia envergonhada de pensar nela de tal forma e também já não se sentia suja em relação a isso. Mesmo quando os pensamentos eram muito fortes, a ponto de não apenas fazer a sua cabeça doer, como também fazer seu corpo pulsar com a ideia de sentir seu corpo no dela.

Inúmeras foram as vezes que ela atendeu essa urgência de seu corpo e de sua mente, permitindo que seus dedos fizessem o trabalho que ela tanto queria que Ruby fizesse e quando ela então acabava ela não se sentia anormal, apenas sozinha. E quanto então via Ruby no dia seguinte, isso então passava e ela se sentia completa novamente. Ela pensou que nunca precisaria contar isso a ninguém, pensava que era só uma fase, que um dia talvez outropríncipe entrasse em sua vida e tudo voltaria a ser como antes. Mas ela não queria que as coisas voltassem a ser como antes, ela gostava de como se sentia agora, gostava de como Ruby a fazia se sentir. Ela não precisava que outro príncipe entrasse em sua vida, ela só precisava de coragem para admitir que o que ela precisava mesmo era de uma princesa.

"Eu acho que eu demorei muito pra botar meus pensamos e desejos em ordem." — Ela começou novamente a dizer – "Mas agora eu sei exatamente o que eu devo fazer e dizer. Sei exatamente o que quero. Não sei por que neguei tanto, quer dizer... Eu não precisava deixar obvio pra ninguém, apenas pra mim mesma. Mas quanto mais eu pensava, mas eu negava." – Deu uma pausa, estava claro que Rumple não estava entendo muita coisa, mas também estava claro que havia de fato outra pessoa na vida dela, ela nem precisava dizer mais nada, mas mesmo assim ela disse.

"Acontece que eu não preciso mais negar nada."- Continuou, a essa altura, ela falava mais para si mesma do que para Rumple. – "Eu realmente gosto dela, não da forma que eu gosto de você. De uma forma mais intensa. De uma forma mais verdadeira e desculpa se isso te machuca. E eu pensei que talvez esse pensamento sumisse com o tempo, mas não... Apenas aumentou. E eu já estava acostumada a ignorar o que eu sentia, apenas seguia meus dias, então ela me surpreende e me convida pra sair. E eu que até então não tinha nenhuma expectativa pra esta noite. Eu só não queria passar mais uma noite sozinha, lendo um livro qualquer."

"E passar a noite com ela, me parecia uma ideia incrível, talvez eu devia ter pensado melhor, talvez eu devia ter dito 'não'e então ela teria ido só, teria encontrado alguém no bar e passado a noite por lá. Não teria se machucado, mas pensando melhor, ela não teria se aproximado de mim naquela forma, não teria me tocado. E eu não teria jamais sentindo todo meu corpo se estremecer com apenas um simples toque."

"Meus pensamentos então não teriam parado por um segundo ou dois, sei lá. Eu nunca teria me sentindo tão bem em toda a minha vida. Ela me fazia bem antes, só o fato de pensar nela, já era o bastante. E agora que eu senti seu toque, seu hálito em meu rosto. Bem, agora eu quero mais. Agora eu quero me sentir bem todos os dias, agora eu quero que ela sinta o mesmo. E eu sei que ela quer o mesmo."

"Não sei por que ela ficou tão confusa, não sei por que ela saiu e me deixou lá sozinha... Só sei que eu preciso dela mais do que já precisei de alguém antes. Só sei que ela precisa acordar, porque tem tanta coisa que ficou sem ser dita-" – Então ela parou, em algum momento do qual ela não mais se lembrava, lágrimas começaram a surgir em seu rosto.

E em algum momento do qual ela nunca saberia, o ódio tomou conta de Rumple de uma forma que nunca tinha tomado antes. Ele nunca a tinha feito sentir daquela forma. Ele nunca havia se sentindo dessa forma e talvez nunca fosse sentir tal sentimento. Prometeu a si mesmo então, que faria de tudo pra impedir esse amor, que Belle seria dele e que o amaria novamente. E ele iria até o fim com isso, Belle não podia sentir o ódio, ou ler os pensamentos dele, pois se pudesse não teria lhe dito mais nada. Mas já que ela não podia sentir o ódio ou ler seus pensamentos, ela então continuou a falar e o que disse fez o ódio dele crescer a tal ponto que agora nada o faria voltar atrás.

"E eu realmente preciso dizer." – Continuou enxugando as lagrimas dos olhos. – "Eu realmente preciso dizer que a amo."

Notas finais
Obrigada a todos que estão lendo.
Criticas, sugestões e comentários são bem vindos.