She Will Listen To You
3 The First Deaths
Notas iniciais
The First Deaths
(As Primeiras Mortes)
A sala em que estávamos era espaçosa, mais arrumada e conservada que todas as outras salas do orfanato, o chão não era apenas de madeira, mas coberto com um tapete, ali me lembrava vagamente a sala da direção da minha antiga escola, havia uma mesa com vários papeis e alguns enfeites em cima separando nós de Cristiny, com uma prateleira encostada na parede com alguns livros, e alguns quadros pendurados.
Eu, Nico e Thalia estávamos sentados de frente para Cristiny a uns 5 minutos em silêncio absoluto, enquanto ela mexia em seu celular, como se nem estivéssemos ali.
— Aham . — disse Thalia chamando a atenção de Cristiny — Posso ir embora?
— Ainda não. — respondeu, sem tirar os olhos do celular.
— Então dá para parar de mexer no celular e dizer o que quer de uma vez?
— Vocês tem que ser punidos de alguma forma.
— A mim você não pode — falou Thalia sorrindo debochada.
—Então saia daqui Srta. Grace, mas eles vão ficar sem proteção, você sabe disso.
Os olhos elétricos de Thalia passavam de mim para Nico, indecisa no que fazer, pensei em hoje de manhã quando Thalia tinha me "acordado" para não perder aula e depois no refeitório, ela parecia corajosa e destemida, não iria sair ia?
Estava crente que ela iria ficar ali, mas ela simplesmente se levantou, mandou um olhar irritado a Cristiny e saiu.
Eu e Nico não tivemos reação nenhuma, eu por estar surpresa demais para mostrar toda a minha indignação, e Nico parecia já saber o que estava acontecendo e o que iria acontecer, na verdade até parecia que achava isso certo, já Cristiny sorriu e colocou o celular na mesa, pensei que nunca iria ver algo assim, mas Cristiny sorria verdadeiramente, sem falsidade, ela parecia... radiante.
— Agora estamos prontos. — disse se levantando — Sem ela aqui, vamos logo ao que interessa.
Cristiny abriu a porta e esperou que nós passássemos por ela.
{...}
Cristiny nos guiou entre os corredores até chegar a uma porta toda de madeira e com detalhes de flores em metal, a tranca e a maçaneta também eram de metal, mas diferente das flores essa parecia mais bem conservada, sem as manchas de ferrugem que os detalhes da porta tinham.
A mulher ao lado de Cristiny mexia tanto as mãos que eu comecei a me incomodar com aquilo, ela tinha a aparência de ter uns 60 anos de idade, me lembrava uma avo, já tinha visto ela antes no orfanato, mas nunca de perto, pelo que eu sabia ela trabalhava na secretária de adoção.
— Vocês vão limpar todas as quatro torres – disse a funcionária séria, mandando um olhar para Cristiny que fingiu não ver — escutem bem, não deixem a porta aberta, sempre tranquem ao sair ou entrar, lá não há energia, é a parte mais velha do prédio, nunca foi reformada por isso são poucas janelas que abrem , terão que usar velas para ver por onde vão... Tomem cuidado.
— Não exagere Pollyanna, eles vão ficar bem – falou Charlotte sinicamente – dê logo o que eles vão precisar.
A funcionaria, Pollyanna, sorriu temerosa me entregando um molho de chaves e quatro velas longas, fósforos e dois candelabros, já que Nico estava com as mãos cheias com os equipamentos para a limpeza.
— O que há lá? – falei com a voz falha.
Não tinha idéia do que havia lá, mas Pollyanna tinha conseguido me assustar.
Até por que, qual seria o motivo para trancar os cômodos? O que afinal tinha nas torres para dar tanto medo em Pollyanna?
— Nada. – respondeu Cristiny friamente – Quero tudo limpo até as seis da tarde, se não estiver do jeito que eu quero quando voltar, vão passar a noite lá em cima.
— Cristiny – disse a velha – não acho...
— Quieta Pollyanna. – cortou Cristiny – Agora vão logo.
Cristiny abriu a porta, que prostetou, rangendo.
Com as mãos tremendo acendi a vela e a coloquei do candelabro, respirei fundo e atravessei a porta sendo seguida por Nico, mas diferente de mim ele parecia normal, sem medo nenhum.
Uma escada de madeira se estendia a nossa frente, apenas a luz do meu candelabro iluminava o lugar, a chama na ponta da vela crepitava formando sombras nas paredes.
Ouvimos um clique e depois apenas nossas respirações eram ouvidas.
Cristiny tinha nos trancado.
Tinha uma ar bem rústico, foi o que pensei quando entramos na primeira torre, mas tudo ali estava um caos.
Literalmente.
Havia tinta vermelha em todo o quarto, e muitas penas por todo o cômodo, me perguntei, quem em sã consciência teria feito algo parecido com isso, mas tirando toda a sujeira, o lugar parecia mais uma casa bem velha e descuidada, o chão era de madeira enquanto as paredes eram de pedra, como Pollyanna tinha dito não havia nenhuma luz ali, e as únicas duas janelas que tinham no cômodo estavam fechadas.
Suspirei, já prevendo que aquilo ia dar um trabalho violento para limpar.
Limpar as quatro torres demorou, e muito, todo o lugar estava imundo tinha penas de travesseiros e tinta por todo o lugar além da poeira acumulada e para piorar os cômodos eram grandes e abafados, e como Pollyanna tinha dito as janelas estavam enterradas, com exceção da janela da torre número três, foi a única janela que se abriu, a luminosidade ali parecia diferente, não chegava a todo o quarto, mas já não precisávamos mais das velas para enxergar, mesmo achando uma boa idéia deixar a janela aberta para pelo menos vir algum ar de fora, a fechei assim que passei para a próxima torre já que o alerta de Pollyanna não saia da minha cabeça.
"Escute bem, não deixem a porta aberta, sempre as tranquem ao sair ou entrar... Tomem cuidado.”
Tanto que todas as vezes que entrava e saia do cômodo checava duas vezes se tinha fechado as portas, mas toda essa preocupação minha servia por mim e por Nico que não parecia nada preocupado, nem eu sabia o por que de tanto preocupação da minha parte, até que depois de uma hora ali dentro, eu já nem estava com medo mais, até ri muitas vezes com Nico durando nossas conversas, ele parecia ser muito legal e era bem divertido, nem parecia ligar por estar ali, de tão relaxado que estava.
Para acabarmos mais rapidamente decidimos que iríamos dividir as tarefas, enquanto eu tirava as penas e o pó dos móveis, ele tiraria a tinta do chão, e assim revezaríamos em cada torre.
A tarde correu bem, o lugar era tão silencioso e tedioso que passei todo o tempo cantarolando para ver se o tempo passava mais rápido.
Mas teve uma coisa.
Eu vi, no vidro da segunda torre, estava limpando a janela, Nico estava do outro lado limpando uma mancha de tinta, eu tinha colocado uma vela do meu lado, com o candelabro apoiado no chão, a luz da chama chegava fracamente no meu rosto, talvez pelo sono já que não tinha dormido a noite ou talvez pelo estresse, mas eu não me vi no reflexo do vidro da janela, aquela não era eu, por um microssegundo eu vi meus olhos cinzas se tornarem brancos e cálidos, e meus cabelos ficarem quase castanhos, e minha expressão era apavorante, minha pele se tornou viscosa, mas entre uma piscada e outra a imagem se foi, e lá estava eu de novo.
Eu não comentei isso com Nico, era bem mais provável que ele me chamasse de louca do que qualquer outra coisa, até eu me achei louca.
Nunca tive medo desse tipo de coisa.
Assombrações, fantasmas, possessão, vampiros, lobisomens, espíritos, não acreditava em nada disso, nem quando criança, sempre foram histórias nada além disso.
Claro que aquela mulher da janela era imaginação, não era agora que eu ficaria com medo disso.
Quando acabamos estava muito cansada, todo o sono acumulado durante a noite tinha vindo de uma vez só, talvez ficar horas e horas no escuro tenha feito o sono se multiplicar, já que eu lutava bravamente para não fechar os olhos e dormir ali mesmo, sentei-me na poltrona perto de mim e passei as mãos no rosto, tentando dissipar um pouco do sono.
— Tire um cochilo, você parece bem cansada — disse Nico — Eu te acordo quando Cristiny chegar.
Eu apenas sorri minimamente e aceitei seu acato, eu nem tinha visto ele entrando na sala, pensei em talvez não fosse uma boa idéia dormir ali, mas já tínhamos acabado, e não tínhamos como chamar Cristiny, nem Pollyanna antes do horário em que elas iriam tirar a gente dali, não devia demorar tanto para que isso acontece, já devia ser umas cinco horas, mas daria para descansar um pouco pelo menos.
Então encostei minha cabeça no encosto da cadeira e me deixei levar pelo cansaço.
O sonho começou de um jeito que eu nem percebi que estava de fato sonhando,por que até no sonho eu estava nas torres, reconheci era o corredor da primeira torre para a quarta torre, eu não estava sozinha, porém não era Nico, nem Cristiny, nem ninguém que eu conhecesse. Na minha frente estava uma mulher, era alguns centímetros mais alta que eu, ela estava de costas para mim, seu vestido era branco e ia até o chão, tanto que não conseguia ver seus pés, o vestido era rendado na saia, com uma faixa que separava a parte de cima da de baixo, que já era diferente, não era colado no busto, mas também não era solto.
— Quem é você? – perguntei, a moça que até agora estava olhando para baixo se virou para mim, seus olhos castanhos estavam transmitindo paz e solidariedade, mas principalmente culpa, seus lábios repuxaram em um sorriso carinhoso e sofrido, eu não entendia o por que de tanto sofrimento, mas queria fazer aquilo parar, queria poder ajudá-la.
— Tome cuidado— aconselhou ela, sua voz era suave como uma mãe falando com um filho – você tem que achar, tem que parar com isso, antes que seja tarde de mais para vocês.
— Achar o que? – perguntei, ela não respondeu apenas desceu seus olhos para sua mão, onde havia uma caixa, nem tão grande nem tão pequena, toda de madeira antiga.
— Você tem que achar— repetiu, soltando a caixa.
Quase via em câmara lenta a caixa descia e descia, esperei pelo baque, mas ele não veio, ela simplesmente desapareceu ali,e logo depois eu já estava sozinha.
Não havia nenhum vestígio de que ela estivesse lá minutos antes.
Eu estava sozinha no corredor, mas sem a presença dela, parecia que ali era muito mais aterrorizante, instantaneamente o ar gelou drasticamente e o piso começou a estalar, fechei os olhos com força para não ver para onde esse sonho me levaria, nem o que me mostraria.
— Mentirosos.
E então acordei.
Ainda estava sentada na mesma cadeira que estava quando peguei no sono.
Procurei Nico, porém ele não estava ali, mas podia ver mesmo no escuro o vão da porta aberta.
Me levantei rapidamente, já sem sono nenhum, e sai pelo corredor.
— Me desculpe! — escutei a voz de Nico, do outro lado da porta da primeira torre, ele parecia até um pouco assustado.
— Desculpas? — disse Cristiny — Eu não quero desculpas! Você acha que isso adianta de algo?
Quando abri a porta que estava encostada, parei quando senti pisar em algo.
Aos meus pés havia uma poça de água avermelhada, mas ela não estava só ali, mas me todo o chão da Torre.
Era a água que tínhamos usado para limpar a tinta, e ainda havia uma pequena pilha de penas caídas no chão no canto do quarto.
O que tinha acontecido ali?
A minha frente Pollyanna e Cristiny estavam viradas para mim enquanto Nico estava de costas para mim, e do jeito que Cristiny estava, ela não estava nada feliz.
— Acharam que podiam me desafiar? Bom saibam que não podem, espero que gostem do tempo que vão ficar aqui, presos.
— Cristiny... — falou Pollyanna, mas foi cortada por uma olhar bem irritado da chefe.
Deixando bem explícito o que queria dizer: "Fique fora disso."
— Nós limpamos tudo — falei tentando fazê-la mudar de idéia, indo até ficar de lado a lado com Nico.
— Estou vendo. — disse sinicamente — Pollyanna pegue o candelabro para você.
— Senhora, eles precisam disso...
— Apenas faça o que mandei Pollyanna.
A velha apenas olhou para mim e para Nico, em um pedido silencioso de desculpas, depois pegou o candelabro que estava na minha mão.
— Aproveitem a noite, amanhã de manhã quero ver tudo isso limpo.
E então, sem nem mais nem menos se virou e Pollyanna foi atrás, ficamos ali escutando os seus passos no chão de madeira da escada, depois o som da porta sendo aberta e logo depois fechada e trancada.
— O que você fez? Estava tudo limpo! — falei logo depois que processei o que tinha acontecido ali, me virei para Nico furiosa — Agora vamos ter que ficar aqui a noite toda, se você não se importava tudo bem, mas não me leve junto com você.
— Annabeth...
— Não! Fica quieto! Não quero nenhuma desculpa agora, só me diga o por que? Por que queria tanto vir aqui? O que você e seus amigos estão tramando? O que há de especial aqui?
Pela sua expressão eu o tinha pegado de surpresa, isso era algo que eu tinha me perguntado algumas vezes durante a tarde, tudo aquilo não podia ser apenas por rebeldia, ele tinha se colocado aqui por algum motivo que eu desconhecia, do jeito que ele praticamente se ofereceu a ser castigado, e ainda tinha Thalia, do jeito que tudo tinha sido feito, uma coisa eu sabia, Thalia tinha nós defendido para deixar Cristiny mais brava, para ela querer dar uma punição muito grande, uma punição especial, já que como Pollyanna tinha reagido todas as vezes, isso nunca tinha acontecido, órfãos nas torres, sozinhos e desprotegidos de alguma coisa, eram tantas lacunas em branco, mas ele teria que falar, por que eu tinha ficado no meio disso tudo e não iria ficar no fogo cruzado vendada.
— Você já vai saber.
— O que? Por que não me diz agora?
— Eles já estão quase chegando — disse sorrindo — não precisa ficar impaciente, você ainda vai me agradecer por ter feito... Isso.
— Duvido muito.
— Não esperava que você descobrisse tanto Annabeth, na verdade ninguém achou que deduziria que de fato havia um plano.
— Você está tirando uma com a minha cara? — perguntei, sem saber se ele estava falando a verdade ou estava brincando.
— Não — respondeu rapidamente — Você está certa, há de fato um plano.
— Qual?
— Não sou a pessoa para te responder essa pergunta.
— E quem é?
— Luke.
— Quem?
— Um amigo meu.
— Moreno com olhos verdes? — perguntei tentando tirar mais alguma informação dele.
— Não, esse é o Percy — disse rindo — Luke é o mais velho, não se lembra dele?
— Não.
— Tudo bem, ainda vai conhecê-lo.
Assenti com a cabeça, mesmo ainda estando brava a curiosidade era bem maior, principalmente agora que sabia que de fato minhas suspeitas estavam certas, que havia um plano, eu queria saber o que era, e ainda se brigasse com Nico sem saber seus motivos, não seria justo.
Supirei.
— Vamos começar a limpar logo.
Ele apenas sorriu constrangido.
Depois de limparmos tudo pela segunda vez no dia, estava totalmente exausta, mas menos do que a primeira vez já que só tínhamos que limpar dessa vez a primeira torre.
Tínhamos tirado toda a água do chão e recolhido todas as penas novamente, quando acabamos a única vela que tínhamos já estava praticamente um quarto do que tinha sido um dia.
Minhas pernas pareciam gelatina, tanto que me sentei no chão, Nico parecia também estar do mesmo jeito ou até mais do que eu já que ao contrário de mim ele não tinha descansado nada.
Quando olhei para ele não agüentei e comecei a rir, não de Nico, mas de toda aquela situação, éramos dois adolescentes, mas do jeito que estávamos parecíamos mais dois velhos, Nico deve ter pensado a mesma coisa já que me acompanhou nas risadas.
Mas então um barulho alto irrompeu e nossas risadas foram cortadas.
Me levantei rapidamente, sobressaltada.
— Quem está aí? — falei.
Vi a maçaneta virar e tremer quando a pessoa do outro lado fez força para que ela abrisse.
— Nico. — disse a pessoa do outro lado — Abra logo essa porta.
{...}
— E qual é o plano exatamente? — perguntei.
Estávamos todos sentados em forma de roda, com o candelabro no meio para iluminar a todos.
Depois de Nico ter aberto a porta, de fato eram os amigos dele.
Thalia, Percy e Luke.
Esse último depois de ter o visto entendi, o por que de ter esperado por ele para explicar.
Luke era, como Nico tinha dito, o mais velho de todos, mas tinha algo diferente, ele parecia ser o... Mais sério entre todos eles, quase não tinha aberto a boca para dizer nada e parecia estar em outro mundo o tempo todo, mas também parecia prestar atenção a cada detalhe a sua volta.
Provavelmente ele era o que sabia de todos os detalhes, sem esquecer nenhum.
Já tinha feito algumas perguntas e as respostas sempre vinham imediatas, eu não entendia o porquê de estarem respondendo todas as minhas perguntas dessa forma, eu havia exigido respostas, mas eles podiam ter recusado e esse era o ponto, por que não recusaram?
— A gente queria as chaves — disse Luke mostrando o molho de chave que estava na sua mão — com isso podemos sair a hora que quisermos, quando quisermos.
— Mas essas chaves são só para as torres então.... há sim a janela sem grade.
— Isso, vamos sair por lá.
— Mas se tinham a chave da porta de entrada por que não conseguiram pegar as outras chaves?
— Essa chave ficava com Cristiny então não foi tão difícil, mas essas ficam com Pollyanna, ela nunca se separa delas ou as deixa dentro do orfanato.
Assenti enquanto todas as peças se encaixavam na minha mente.
— E por que todo esse alvoroço pelas torres?
— Haah isso — falou Thalia fazendo gestos de desdém — não é nada demais, uma superstição, coisa boba, só os funcionários mais velhos acreditam.
— Como ela é?
— Dizem que há um espírito vivendo nesse orfanato, e que ele fica preso nessas torres, mas como Thalia disse é apenas superstição.
— Haah.
Estava aliviada agora, mas ainda me sentia um pouco desapontada, esperava que fosse algo.... Diferente, por assim dizer, não algo como fantasmas, uma superstição boba, que crianças tinham inventado, a única coisa que não entendia nisso era por que Pollyanna ficava com tanto medo disso, mesmo ela já sendo uma senhora de idade, já deveria saber que depois de tanto tempo que aqui não havia fantasma nenhum.
Afinal não estávamos no filme Godbusters.
— Então vocês só querem sair do orfanato?
— Quase isso — respondeu Nico — queremos ter a oportunidade de sair, e como já deve ter percebido é algo bem difícil.
Me limitei a assentir com a cabeça, minhas perguntas tinham acabado e não sabia o que mais falar, eles também pareciam ter o mesmo problema já que ficaram quietos também ou estavam esperando eu raciocinar, não estava com raiva, nem nada parecido, apenas via aquilo como um todo, ao contrário de mim eles queriam sair, eu até os admirava por isso, por que eu sabia que eu não conseguiria fazer o que eles queriam fazer, pelo menos não sozinha.
— E então? — perguntou Percy.
— O que?
— Vai vir conosco? Ou não?
— E-Eu? — perguntei não crendo nos meus ouvidos — Porque eu?
— Não estaríamos aqui te explicando tudo isso se não fosse para você vir conosco Annabeth . — falou Thalia sarcasticamente — Você vem?
— Vamos voltar antes que amanheça?
— Provavelmente.
— Tudo bem... Eu vou também.
Antes que alguém se mexe se um barulho baixo, mas estridente se espalhou pelo quarto, ainda mais no silêncio que era aquela parte do orfanato.
Thalia então pegou um celular do seu bolso e atendeu.
"Thalia"
— Só funciona no viva-voz- explicou olhou para mim por um minuto — Julia! O que foi?
Eu conhecia a Julia que Thalia falava, ela era uma garota de 13 anos de idade, nunca tinha falado com ela, mas ela tinha sido a primeira pessoa que eu conheci ali no orfanato, já que ela que tinha me mostrado o lugar, ela apenas estava no lugar errado e na hora errada então foi incumbida dessa tarefa, eu me lembrava que no final, mais dois garotos apareceram, a puxaram pelo braço, eles pareciam falar até em código.
"Tenho que ir — disse-me ela na hora, antes de ser puxada pelos garotos — qualquer coisa pode perguntar para mim."
"Onde você está? Não me diga que foi sem nós!" — Disse Julia me tirando dos meus pensamentos.
— Já estamos nas torres sim — retrucou — Mas nunca dissemos que vocês iriam também, pelo menos não dessa vez.
"Como assim? ThaliTha! Você disse que iria esperar a gente."
"Ju, me deixe falar com ela!" — disse uma vez de garoto.
"Travis! Espera!"
"Luke! Cara! Nós fizemos a parte mais difícil do plano! Você acha que fazer essas bombinhas de tinta foi fácil?"
— Travis, não tem como vocês irem com a gente! — continuo Thalia — Julia tem medo de altura e o único modo de sair e descendo pela hera e eu sei que vocês não vão querer deixar ela sozinha aqui.
"Tudo bem." — disse o Travis se rendendo.
— Agora me deixe falar com ela de novo.
"Oi"
— Julia por favor fique de olho em Cristiny, se alguma coisa acontecer nos ligue imediatamente entendido?
"Tudo bem, eu e os meninos vamos tomar conta de tudo, tomem cuidado lá ThaliTha."
Então a ligação foi desligada e ela guardou o celular no bolso.
— Vamos.
Descer a torre foi umas das coisas mais difíceis da minha vida.
Eu não esperava que eles iriam descer escalando.
E isso era uma coisa que eu não tinha a menor idéia de como fazer.
Sabia que tinha que fixar os pés e as mãos na hera, mas se não fosse por Percy não teria saído do lugar.
Percy depois de ver toda a minha dificuldade nesse quesito, ficou ao meus lado o tempo todo dizendo exatamente onde colocar o pé e as mãos, a parte mais difícil foi descer pela calha, já que em um determinado momento a hera acabava e o jeito era descer por ali, essa parte foi a mais difícil já que só passava um de cada vez então ele teve que ir me ditando o que fazer.
Mas a altura também não ajudava em nada.
Por isso fomos os últimos a descer da torre.
Depois disso ainda tivemos que andar bastante, já que a cidade mais próxima, pelo que eles tinham me dito, era a trinta minutos andando, tudo isso apenas pela área verde que tinha em volta do orfanato.
Mas eu nem vi o tempo passar, eles ficaram o caminho todo conversando e eu não conseguia não rir com as histórias que eles contavam, menos Luke que ficou o caminho todo praticamente quieto, só as vezes que falava alguma coisa.
Quando chegamos na cidade a primeira coisa que fizemos foi passar em um chaveiro para fazer as cópias das chaves das torres tanto a da escada principal como as das portas das torres.
Depois quando estávamos andando passamos por um parque de diversões, aqueles que só pagavam na entrada e os brinquedos eram todos de graça.
Foi então que Nico teve a idéia de entrar ilegalmente.
Fui totalmente contra essa idéia, mas mesmo assim tive que entrar já que não tinha a menor idéia de como voltar para o orfanato.
Andamos em vários brinquedos antes de decidirmos que estava na hora de ir embora.
E eu não podia estar mais feliz de ter aceitado fugir do orfanato por aquela noite.
A única coisa que eu esperava era ficar nas torres a noite toda sem conseguir dormir ou ficar acordando a todo momento.
Mas agora estava realmente me divertindo, como a muito tempo eu não fazia, talvez antes da morte dos meus pais.
Mesmo quando eu ia para escola na casa dos meu tio. Eu nunca fiz amizades lá, não queria ficar perto de ninguém, sempre que alguém vinha falar comigo eu afastava, e depois de um tempo as pessoas não vinham mais, tinha perdido o costume de me apegar as pessoas, mas era diferente agora, mesmo eu ficando de lado muitas vezes para que eles conversassem sem mim, eles não deixavam, sempre me colocavam na conversa de algum jeito, e eu fui me soltando aos poucos, podia sentir que neles eu podia confiar.
— Rou-bar? — falei sem acreditar no que Thalia dizia.
Estávamos em uma rua bem pouco movimentada, já tínhamos saído do parque à alguns minutos, era umas duas da manhã ainda, e o sono já tinha começado a abalar todos nós, mas eu não tinha idéia para onde iríamos agora, até que Luke parou Thalia.
"Temos que pegar as coisas que precisamos"
"Quem vai começar roubando?"
Tive que esperar alguns minutos para ver se ela estava falando sério mesmo ou se era outra brincadeira.
— Sim — respondeu Thalia normalmente — o único dinheiro que tínhamos gastamos nas cópias das chaves, e ainda há coisas que vamos precisar.
— Não há outro jeito? Temos mesmo que roubar?
— Sim é o único jeito.
— Eu não posso. — falei, a única imagem que vinha em minha mente era os dos meus pais, mesmo quando estava na casa do meu tio e não tinha nenhum dinheiro para comprar comida ou nada na geladeira, eu nunca cogitei algo assim, não queria desapontar os meus pais, nem desonrar sua imagem roubando.
— Tudo bem — falou tirando o celular do bolso — Você e Percy podem voltar para o orfanato temos algumas coisas ainda para fazer e não precisamos de tanta gente.
Enquanto ela falava, tinha colocado o celular no viva-voz, mas ninguém atendeu, apenas caiu na caixa postal.
Quando ela colocou de novo, diferente alguém atendeu.
— Julia.... Percy vai voltar okay? Fique de olho.... Julia? Você está aí?
"Estou" — respondeu, mas não era a voz de Julia, ou de Travis ou Connor, era diferente, era de uma mulher com certeza, mas era áspera e grotesca, saia ainda pior pelo aparelho, eu não entendia o que estava acontecendo, mas não parecia nada bom.
— Essa voz não é da Julia, quem está aí?
"Julia?"— continuou a voz — "Você não deveria querer falar com ela..."
Então o ruído que se seguiu foi estrondoso, como algo se arrastando e quebrando, parecia algo parecido com um rugido.
"Thalia?"— a voz mudou, e agora eu a reconheci, era Julia, mas tinha algo errado ela parecia estar chorando -"ThaliTha é você?"
— Julia o que está acontecendo? Por que está chorando?
"- Estou.... Eles..... Travis..... Não posso.... Mais.... Ficar.... Ela.... verdade....Tenho.... Que...Ir...."- A ligação chiava, quase não conseguia entender o que ela estava falando então logo depois a ligação ficou muda, e só escutei o bip da ligação sendo desligada.
— Se isso for outra pegadinha do Travis e do Connor, eu vou tirar as bugigangas deles.
— Calma Thalia — disse Percy — sabe que eles se divertem muito com isso, e você também aliás.
— Mas agora não é momento para isso — respondeu guardando o celular novamente no bolso — fique de olho neles por mim Percy, e Annabeth pode ficar calma okay? Isso não foi nada. Eles adoram passar trotes e brincadeiras nos outros, e...
Ela hesitou por um momento, provavelmente se decidindo se falava ou não.
— Não vamos roubar tudo o que precisamos, vamos conseguir dinheiro primeiro, vamos roubar apenas o que não der pra comprar okay?
— Obrigada Thalia — falei sorrindo e ela retribuiu.
{...}
— Como eles vão conseguir o dinheiro? — perguntei não conseguindo conter a curiosidade.
Eu e Percy estávamos andando à uns 20 minutos já, mas inda não tínhamos chegado, estávamos em silêncio, mas minha mente não parava de trabalhar, e as perguntas vinham a minha cabeça, sempre fui muito curiosa, conseguia conte-las muitas vezes, mas esse não era um dos casos.
Como Thalia iria conseguir dinheiro tão rápido sem que roubasse?
Tentava ligar com os acontecimentos de hoje, mas parecia que nada fazia muito sentido.
E tinha o "pai" que Cristiny tinha falado outra coisa que tinha esquecido, mas que agora tinha voltado junto com as outras perguntas.
Analisei Percy, mas ele não parecia incomodado com a minha pergunta nem nada parecido, mordi o canto da boca aliviada por que ele pelo menos não tinha ficado bravo comigo ou algo parecido.
Ainda tinha medo de não saber conviver com as outras pessoas.
— Thalia conhece um homem, chamado Zeus — respondeu casualmente — ele foi um dos que adotaram ela, ele não era, como posso dizer...Um cara honesto, ele nem queria uma criança em casa, mas a mulher dele insistiu.
— Ele que é o informante dela?
— Sim, Thalia descobriu alguns podres dele, bem ruins mesmo — ele se virou para mim sorrindo, seus olhos verdes brilhando na noite, tive que desviar os olhos para o chão para me manter concentrada — então ou ele faz o que ela pede ou ela denuncia ele.
— Ele é o "pai" que Charlotte tinha dito no refeitório? É por isso que Thalia não pode ser punida?
— Também, Cristiny já pisou no calo de Thalia e bem, desde então ela tem medo, mas foi apenas essa vez que Zeus interferiu em algo do orfanato, evitamos o envolver ele nesse tipo de coisa.
— Por que? Não é bom ter um magnata trabalhando para você?
— Claro que é, mas não deixa de ser perigoso, se irritarmos ele demais, se formos longe demais, ele pode acabar se voltando contra Thalia.
— Desculpa, se soubesse disso não teria pedido para ela não roubar — Pedi, mas ele apenas fez um sinal de desdém.
— Thalia vai ficar bem, Luke e Nico estão com ela, além do mais a esposa de Zeus gosta muito dela, Zeus não faria algo que deixasse sua esposa triste, ela vai visitar ela todo final de semana.
— Se a esposa de Zeus gosta tanto de Thalia por que ela foi devolvida? Por que não ficaram com ela?
— Foi exigência de Thalia, nós vamos sair daquele orfanato, mas todos juntos, sabe por nós mesmos, na hora certa.
— Você não tem medo? Do que encontrar quando sair de lá?
— Vamos ficar bem — respodeu- e isso inclui você também Annabeth, você faz parte do grupo agora.
— Faço? — falei debilmente, fazendo-o rir.
— Faz. — Respondeu.
Eu sorri, estava me sentindo diferente, era bom saber que fazia parte de alguma coisa, que podia contar com amigos afinal.
Quando chegamos ao orfanato, Percy me ajudou a subir na calha até chegar na parte da escalada, depois disso não foi tão difícil como na primeira vez que desci por ali, a subida parecia bem mais fácil do que a descida, usei os buracos e a hera para firmar o pé, antes mesmo que percebesse já estava dentro da torre, meu peito subia e descia pela respiração que eu tentava normalizar causada pela adrenalina que corria nas minhas veias.
— Foi muito bem escalando – disse Percy, fazendo minhas bochechas corarem levemente pelo elogio, felizmente por estar muito escuro ele não deve ter percebido – pensei que iria ter que te carregar até aqui em cima.
— Fica quieto – falei sorrindo divertida – Vamos procurar os meninos.
A porta como prometida por Travis, estava aberta para nós, ainda conversando nos dirigimos a segunda torre.
Assim que Percy abriu a porta, nossa conversa e risos cessaram, minha garganta se fechou tamanho o horror do que via na minha frente, queria chorar, mas era horrível demais para ter alguma reação.
Na nossa frente, três figuras se estendiam, enfileiradas uma do lado da outra,todas penduradas no teto, com uma corda grosa as segurando pelos pescoços, apenas pelas formas dava para perceber que era dois meninos e uma menina.
Travis, Connor e Julia.
Mortos.
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