She Looks so Perfect
1 Capítulo Único - She Looks so Perfect
Notas iniciais
Ela observava calmamente o reflexo da gigante e brilhante lua no imenso lago à sua frente. Apesar de estar um pouco abafado naquela noite, o cercado de árvores tornava aquele lugar um pouco mais refrescante, o que a fazia se perder nos seus pensamentos sem nenhuma interferência externa.
O dia decorrido passava como um filme em sua cabeça. Era incrível imaginar como elas foram do inferno ao céu em questão de horas e aquele quebra-cabeça chamado "Barden Bellas", que já não parecia mais fazer nenhum sentido há um bom tempo, finalmente foi remontado. A sensação de se reencontrar; reencontrar a batida e a combinação perfeita de vozes e tons, era uma das mais satisfatórias que se poderia ter. É como voltar a enxergar após um período na escuridão.
Alívio.
Alívio era a palavra.
Não há nenhuma outra palavra que poderia descrever o que a maioria das Bellas sentiram ao finalmente enxergarem através da espessa névoa que se formou e elas, enfim, pareciam encontrar o caminho certo para derrotarem o Das Sound Machine, conquistarem o mundial e as colocarem de volta em seu merecido lugar: o topo do pódio.
A maioria, apenas. Ela não estava nem um pouco aliviada. Ao contrário do que tentou demonstrar durante a fogueira, a última coisa que Beca estava naquele momento, era confortável. Naquele momento, todas elas se abriram umas para as outras, Chloe se abriu para as outras. Foi honesta e sincera com todas no que dizia respeito aos seus medos e suas perspectivas e, em troca, recebeu o apoio e o suporte de todas as garotas, porque é isso que famílias fazem. Talvez aquela fosse a deixa perfeita para que ela também se abrisse e contasse toda a verdade por trás do seu estágio e a busca desesperadora por uma vida fora da universidade. Seria apoiada, com toda a certeza. Ninguém seria capaz de julgá-la. Todavia, ela foi uma covarde. Reprimiu todos os seus sentimentos, os engoliu e abaixou a cabeça. Permitiu-se conviver com aqueles monstros ao invés de expulsá-los. E a troco de quê?
Medo!
Medo irracional.
E esse medo, que não a permite libertar seus próprios monstros, poderia fazê-la se perder no caminho e colocar em risco a existência das Bellas. Ela poderia ser só uma, mas elas sempre funcionavam assim, em conjunto. Nenhuma é 100% enquanto uma for 99%.
Mas ela sabia.
Sabia melhor do que ninguém.
Ela observava calmamente o reflexo da gigante e brilhante lua no imenso lago à sua frente. Seu corpo estremecia com seus pensamentos perturbados que demorariam a dar-lhe algum tipo de paz. Seus dedos – em carne viva, vale mencionar – latejavam de dor enquanto seu dente os mordiscava levemente, pois já não havia mais unhas para arrancar. Suspirou esfregando os olhos que pesavam de sono.
— Não deveria ficar aqui fora tão tarde – ela ouviu a voz aguda de Aubrey atrás de si. – Essas armadilhas de urso não estão de enfeites.
— Bom, elas estão fazendo um excelente trabalho capturando Bellas desavisadas – Beca retrucou, recebendo uma pequena risada de Aubrey como resposta.
A loira se sentou ao lado de Beca, agarrando as pernas com os braços. As duas ficaram em silêncio pro alguns segundos. Observavam o pequeno ondular do lago e apreciavam o incansável canto de uma cigarra. Aquela era a natureza em sua pura e bela forma.
— Então... – Aubrey quebrou o silêncio atraindo a atenção da garota que estava ao sue lado – Irá me dizer por que está aqui a esta hora?
— Estou apenas observando... Você sabe... A passagem! – Ela deu os ombros, tentando parecer o mais verdadeira o possível.
— Claro! Noite passada você dividiu uma barraca com nove garotas, neste calor, mas, por acaso, hoje, quando vocês têm quartos duplos e confortáveis, é que você resolve se isolar de todas e apreciar a paisagem noturna – ela mantinha um pequeno sorrido estampado em sua face.
Beca a encarou por um tempo e depois abaixou a cabeça, suspirando. Seus dedos vieram ao encontro de seus lábios e ela novamente tentou roer as unhas que já não estavam mais lá.
— Beca, sou eu. O que está acontecendo?
— Não é nada – respondeu, ainda com os dedos entre os dentes e sem olhar para a loira.
— Nada de "não estou com problemas" ou nada de "nada que eu tenha coragem para te contar"?
— Nada que eu tenha coragem para te dizer.
Beca se endireitou respirando fundo e sentindo-se derrotada. Aquela era, definitivamente, uma conversa que não queria ter – especialmente com Aubrey, mas que deveria ter. Ela precisava ter, quem sabe uma luz se acenderia.
Posen a olhava séria e com as sobrancelhas arqueadas, um pequeno bico começava a se formar em seus lábios. Era uma expressão típica que fazia quando estava diante de algo que não a agradasse, o que não era muito difícil de acontecer. Já entendendo que não teria mais como escapar da curiosidade e preocupação dela, por alguns segundos Beca considerou falar, mas mudou de ideia assim que abriu a boca. As palavras simplesmente travaram em sua garganta e tudo que ela conseguia emitir era alguns grunhidos. Bufou alto.
— Quer saber, Aubrey? – fez uma menção de se levantar do banco em que estavam sentadas – Esqueça. Não é nada que...
— Beca! – Aubrey a chamou num tom forte de voz, fazendo com que a outra parasse instantaneamente e voltasse a se ajeitar no banco – Tudo bem. Entendo que não queira falar, mas eu estou vendo nos seus olhos o dia inteiro que tem algo que quer colocar para fora.
Mitchell nunca havia a visto daquela forma. Calma e atenciosa, mas intensa e séria ao mesmo tempo. Lembrava-se de uma Aubrey Posen neurótica e incansavelmente competitiva, que não parava para ouvir as outras em nenhum momento. Até que ela mudou. Mudou, pois aprendeu o quão liberativo tudo pode ser quando você se dispõe a falar sobre seus problemas com pessoas que confia. E Beca se lembrava muito bem daquele dia; pode-se dizer que foi o dia em que assumiu a liderança das Bellas. Ela foi uma parte fundamental na mudança de Aubrey e talvez por isso agora estava diante dela, pedindo-lhe um voto de confiança.
Mordeu os lábios inferiores e abaixou a cabeça mais uma vez, respirando pesadamente. Internamente, estava tentando reunir toda a coragem que conseguia.
— Certo! Vamos fazer o seguinte – a loira jogou uma de suas pernas para o outro lado do banco, olhando a garota frente a frente. Beca levantou os olhos e ajeitou-se no mesmo instante – um jogo de adivinhação. Eu tento adivinhar qual o seu "problema" ou o que quer que seja que esteja te incomodando. Se eu acertar, já é meio caminho andado, mas se eu errar, juro que volto a te deixar em paz e não te obrigo a nada.
— Parece justo – respondeu após um tempo pensativa. Pôde ver um pequeno sorriso se formar nos lábios da outra, mas logo desmancharam e a seriedade voltou a tomar conta de seu semblante.
— Seu problema não é algo recente. É algo que vem se acumulando há anos. Ele tem uma forma, cabelos ruivos, olhos azuis e atende pelo nome de Chloe Beale. Acertei?
Aubrey deu uma pequena risada ao ver a expressão de Beca, que mantinha as sobrancelhas arqueadas e sua boca formava um "O".
— Sabe, eu não sou tão estúpida quanto pensam – se glorificou, empinando um pouco seu nariz.
Naquele instante, Beca não sabia como se sentir. Por um lado, estava feliz, pois não teria que explicar a parte mais embaraçosa — em sua concepção -, mas, ao mesmo tempo, estava tensa, afinal, fazia uns bons meses que não via Aubrey e mesmo assim ela sabia e compreendia o que se passava com ela. E se ela percebia, não seria muito difícil que as pessoas que convivem com ela percebessem também; isto incluía Chloe.
— Você sabia? Todo esse tempo? – perguntou, o desespero que a confusão se misturavam em sua voz.
— Eu desconfiava, acho que é o mais certo de se dizer. Mas agora que tenho a confirmação, devo dizer que não entendo por que manteve essa postura em relação a tudo isso.
"Bom, eu também não entendo", ela pensou. Gesticulou um pouco com as mãos e tentava encontrar alguma explicação lógica para poder responder. Mas as palavras estavam tão enroladas quanto a sua cabeça. Se parabenizou por sua habilidade em complicar coisas simples e xingou-se mentalmente.
— Eu realmente gostaria de entender isso – começou a falar com um pingo de ansiedade em sua voz – quero dizer, não deveria ser tão complicado, não é? Estou apaixonada, grande coisa.
— Beca, não sei se te avisaram, mas você tem um incrível talento para dramatizar as coisas. Consegue compreender o tamanho do caos que está transformando algo simples?
— Jesus! – exclamou deprimida, passando as mãos pela face, num gesto de completa derrota e amargura. Sim, entendia como estava sendo uma digna "drama queen" e se odiava por isso.
— Como isso... Quando isso aconteceu? – Aubrey perguntou e Beca deu os ombros, suspirando.
— Não sei bem exatamente. Levou um tempo para eu perceber e entender o que eu realmente sentia, sinto, por ela. Quando isso começou foi na mesma época em que conheci Jesse. Realmente senti algo forte pelos dois, mas acho que confundi tudo.
"Talvez Jesse fosse apenas aquela pessoa que têm tudo em comum comigo e seria um amigo íntimo e leal; e Chloe seria a pessoa que eu queria ao meu lado todos os dias. Que eu abriria meu coração e convidaria a fazer parte do meu mundo e que jamais deixaria partir"
Ela deu uma pausa em sua explicação, soltando um novo suspiro. Seu rosto era uma mistura de lamento e alívio, enquanto os de Aubrey eram de seriedade. Ela não iria falar nada enquanto Beca não terminasse de contar a história toda.
— Houve um momento em que Chloe viciou em um maldito aplicativo de encontros. Não sabia bem, mas eu me sentia incomodada quando a via usando aquilo, conversando com alguém através daquilo; e quando ela ia aos encontros, algo horrível me remoía por dentro. E foi quando eu me peguei chorando, porque ela comentou que estava indo para o terceiro encontro com um cara chamado Jake, e que eles estavam caminhando para algo sério, foi que entendi que eu estava perdidamente apaixonada.
"Mas naquele momento eu e Jesse já estávamos num estágio mais avançado da nossa relação. Tentei investir nisso, passar mais tempo com ele e me dedicar mais. Nada adiantou. Só que eu já não tinha mais coragem de voltar atrás com ele e me explicar com Chloe, nem quando ela me disse que as coisas entre ela e Jake esfriaram. Eu simplesmente deixei para lá. E, para ser sincera, acho que lidei melhor do que imaginei com tudo isso."
Aubrey, que estava com os braços cruzados e ouvia a tudo atentamente, umedeceu os lábios e ajeitou a sua postura. Interiormente, ela já sabia de tudo isso. Como uma boa observadora, entendia tudo que se passava, então, não se chocou ou lidou com a história de Beca como se fosse algo novo ou surpreendente.
— Certo! Mas é esse "deixei para lá" que não me entra na cabeça. E, se você conseguiu lidar até agora, o que houve para ficar nervosa assim?
Beca mordeu os lábios e passou uma das mãos pelos fios de seu cabelo. Um expressão triste tomou conta de seu rosto.
— Deixei para lá, porque entendi que o que senti por ela, nunca senti antes, sabe?
— Por uma garota? – perguntou.
— Por alguém – respondeu. "Oh!", exclamou Aubrey. – e, bem, isso me assustou. De verdade. Em minha vida toda, sempre foi eu, meus fones e meu notebook, junto com meus mashups. Ser totalmente dependente de alguém e ter meus sentimentos ligados à alguém é algo que nunca cogitaria. Só que a Chloe apareceu sendo tudo aquilo que sempre temi, mas... A melhor coisa que já aconteceu comigo.
"Ter a Chloe do meu lado sempre foi algo bom. Ter o privilégio de ver de perto o sorriso dela, ouvir a voz suave dela... Ela parece tão perfeita. Perfeita pra mim. É difícil nutrir tudo isso por anos e depois ter que se separar. Então, Aubrey, respondendo a sua pergunta, o que mudou agora é isso: estamos indo embora. São vários os motivos pelos quais aceitei fazer o estágio, mas a decisão maior de me afastar um pouco foi de tentar me acostumar com uma vida sem Chloe. Achei que isso funcionaria, só que eu estava enganada"
Aubrey viu os olhos de Beca se encherem com lágrimas e notou um certo esforço da garota para deixá-las lá. Não podia negar que havia ficado mexida com a forma como ela se abriu e deixou tudo desabar.
Ainda com os braços cruzados, ela se ajeitou no banco e suspirou.
— Escute, Beca – começou a falar, chamando a atenção da garota, que ainda tinha os olhos um pouco marejados – eu não sou experiente nessa coisa de se apaixonar. Não devo ter passado por essa situação mais do que três vezes na minha vida toda. Apaixonar-se é algo íntimo, pessoal. Ninguém se apaixona por nada. Se nos apaixonamos, é porque essa pessoa é algo importante para nós. Mas cá entre nós, acho que seus sentimentos por ela já passaram de paixão.
— Porra! – Beca deu uma risada nervosa – Era exatamente isso que eu estava temendo.
— Jesus, Beca. Pra que complicar? Está percebendo o quanto isso tá te sufocando? Por qual motivo você está se permitindo sofrer tanto assim?
— Aubrey... Você entende como é doloroso dizer o quanto gosta de alguém e não receber isso de volta?
— Bem, você sabe?
Beca não respondeu de imediato. Engoliu seco e abaixou os olhos, em seguida deu os ombros.
— Não!
— Claro que não, você nem ao menos tentou – falou incrédula – e isso não está certo. Você está sofrendo; seu relacionamento está sofrendo. Jesse pode estar sofrendo. E se Chloe te corresponde, ela está sofrendo. Isso não é justo com ninguém, Beca. Nem mesmo com você. Por favor, entenda isso de uma vez.
As palavras de Aubrey a atingiram de forma única e fria. Era a dolorosa e cruel realidade batendo-lhe no rosto e ela estava certa. No final, ninguém sairia bem dessa história e guardar aquilo não era a melhor opção, apesar d'ela tentar fazer-se acreditar que era.
Na medida em que a conversa passava, Beca sentia o peso de sua decisão aumentar mais ainda. Começou a pensar em coisas que nunca havia pensado antes, como a sua relação com Jesse. Ele existia e eles eram namorados, mesmo ela já não correspondendo mais nada por ele. Também havia a chance de Chloe a corresponder, mas isso era algo que ela nunca havia cogitado, nem mesmo quando ela flertou dentro da barraca na noite anterior.
Beca ficou um tempo pensativa, absorvendo todas as palavras de Aubrey. Certamente, já não havia mais nada a se fazer a não ser contar a Chloe toda a verdade, mas como e quando ela iria já não era certo.
— Eu preciso ir – Aubrey anunciou, levantando-se do banco. Deu pequenos tapas em sua saia, tirando um pouco de terra – mas ouça o meu conselho: conte a Chloe. Seja honesta com você mesma: você não está sabendo lidar om isso. Vai dar tudo certo, desde que te conheci, coragem é algo que percebi que não te falta. E, no final de tudo, não podemos ignorar que é de Chloe que estamos falando. Mais imprevisível que ela só a Amy Gorda.
As duas deram uma pequena risadinha e se despediram. Ela observou a loira desaparecer entre as fracas luzes que alguns postes emitiam. Continuou sentada no banco, observando o lago por mais alguns minutos. Logo atrás dela estava uma pequena construção com alguns quartos, e Chloe estava num deles, a espera de Beca. Será que ela podia imaginar que dentro de alguns minutos, seria surpreendida com a notícia de que sua melhor amiga estava perdidamente apaixonada por ela? Quanto isso mudaria sua vida? Ela a odiaria?
Tantas perguntas e só havia uma forma de saber a resposta.
Beca suspirou derrotada. Precisava por um fim na sua angústia e era melhor que fosse naquele momento. Reuniu toda a coragem que conseguiu e se levantou, dando uma última olhada no lago. O reflexo da lua ainda reluzia ali e deu uma sensação de paz e calma, o que seria essencial para ela nos próximos minutos.
Só que ela percebeu que "calma" era a última coisa que teria, pois assim que abrira a porta de um dos quartos cedidos por Aubrey – como uma pequena recompensa por terem conseguido reencontrar a harmonia -, Beca avistou o jeans que Chloe havia usado na fogueira completamente jogado no chão e ela apareceu na porta do banheiro usando uma camisa azul bebê e apenas uma calcinha. Ela reconheceu bem aquela calcinha, pois era a sua calcinha, uma baby rib brief vermelha que havia comprado na American Apparel.
— Ah, Beca... – Chloe disse animada enquanto mantinha sua escova de dentes dentro da boca. Fez um sinal para que Beca a esperasse e voltou para o banheiro.
Um pouco trêmula com a visão que tivera — não sabia bem o motivo, uma vez que já havia visto Chloe completamente nua no chuveiro -, ela fechou a porta atrás de si e respirou fundo. Não havia mais como voltar atrás.
— Espero que não se importe – Chloe voltou ao quarto, recolhendo seu jeans e jogando-o em sua mala. – Está muito calor para eu vestir a calça e as minhas calcinhas sou desconfortáveis sem nada por cima.
— Fique a vontade – arfou, atravessando o quarto – não há nada em você que eu já não tinha visto.
A garota deu uma pequena risada e se sentou na única cama que havia no quarto. Ele estava parcialmente iluminado pela fraca luz que saía de um abajur. A luz da lua o ajudava na tarefa.
— Por que demorou? – Perguntou.
Beca sentou-se ao lado dela, agradecendo pelo quarto estar um pouco escuro. Seria mais difícil de Chloe ver o seu rosto aflito e cheio de ansiedade. Já começava a sentir suas mãos suarem e ela nem havia começado a falar algo.
— Fiquei conversando com Aubrey, não vi o tempo passar – deu os ombros, tentando não deixar algo transparecer em sua voz. Aquela resposta pareceu ter sido o suficiente, pois Chloe não fez mais perguntas.
A ruiva se virou na cama em direção a criado mudo e começou a vasculhar em busca de algo. Naquele instante, Beca já mexia seus dedos com rapidez, em busca de algo para aliviar a tensão. Como abordaria a garota para poder contar-lhe tudo? Sentia se sufocar cada vez mais, mas não havia nada a se fazer.
Um pequeno ruído eletrônico ecoou pelo quarto silencioso no mesmo instante em que ela abrira a boca para chamar a outra. A cama começou a vibrar e logo em seguida parou. Tateou o edredom até encontrar o seu celular jogado e ele voltou a vibrar e emitir alguns sons. Várias notificações apareciam abruptamente, em sua maioria, mensagens de seu pai e de Jesse. Pensou que talvez seu celular conseugira captar algum sinal e mensagens atrasadas agora chegaram.
— Uau! Jesse deve estar preocupado – Chloe falou maliciosa, trazendo uma expressão semelhante ao seu rosto.
Beca lia as mensagens de Jesse com os olhos baixos. Desde o início da manhã, seu namorado havia mandado quinze mensagens, todas perguntando sobre como ela estava e como os resto das garotas estavam. Era nítida a preocupação dele, mas notou uma coisa em especial: não eram mensagens carinhosas. Na verdade, pareciam mensagens casuais. Se alguém de fora lia, jamais imaginaria que aquela era uma troca de conversas entre um casal. E aquilo foi essencial para que tomasse a sua definitiva decisão. Foi quase como um incentivo do próprio Jesse.
Respirando fundo, ela desativou as notificações do celular e os jogou de volta na cama. Chloe voltou a se ajeitar na cama e virou-se para Beca.
— Sim, ele mandou algumas mensagens... – disse dando os ombros.
— Você tem sorte. Fiquei sem sinal o dia todo e quando consegui um, tive um total de zero mensagens de preocupações – Chloe reclamou enquanto balançava o próprio aparelho e o colocou de volta no criado-mudo.
Beca ficou quieta por um instante, pensativa e aquilo chamou a atenção da outra garota.
— Beca – chamou – está tudo bem?
Havia uma preocupação no rosto da ruiva, era possível ver pela lua iluminando uma parte de sua face.
Umedeceu os lábios antes de responder.
— Está. É só... – começou a responder e respirou fundo mais uma vez. Mudou um pouco sua posição na cama, ficando mais confortável. – Quero te contar algo, mas tem de prometer que não contará a ninguém.
— Claro! – exclamou repetindo os movimentos dela.
Ok! Já era um começo. Falar de seu relacionamento com Jesse era uma boa maneira de entrar no assunto. E sentia seu coração começar a dar sinal de desespero.
— Eu vou terminar com o Jesse.
Chloe arqueou as sobrancelhas e sua boca ficou boquiaberta por uns segundos.
— Meu Deus... – disse baixinho.
— Sim! Eu sei! Já faz um tempo que venho pensando nisso. Farei logo após o mundial.
— Por quê? Digo, sei que é algo pessoal, mas... – ela parecia bastante intrigada com aquilo. Por um instante, Beca jurou ter visto um pequeno brilho nos olhos azuis dela.
Seu coração começou a acelerar gradativamente e suas mãos começaram a suar mais uma vez. Ela ainda brincava com os dedos e evitava fazer contato visual.
— Acho que eu e ele já não fazemos mais sentido, sabe? Acredito que já tirei tudo que poderia tirar deste relacionamento...
— Entendo – sussurrou. Em seguida, Beca deu uma pequena risada nasal e riu nervosa. A garota a sua frente tinha uma expressão de confusão e estava um pouco assustada.
— Quem eu quero enganar? Eu nunca tive apaixonada por ele. Nunca – sua voz começava a se agitar e ela começava a transpirar de nervoso. Seu coração já estava num ritmo completamente anormal e sua respiração falhava – Achei que estive, no começo. Mas logo me dei conta de que estava apaixonada por outra pessoa.
Beca fez questão de olhar profundamente para os olhos de Chloe, que neste momento estavam visíveis, mesmo que num quarto escuro. Ela mantinha a expressão confusa e agarrava a gola da própria camiseta.
— O que quer dizer, Beca?
Mitchell não respondeu imediatamente. Chegara no ponto em que não havia mais volta. Era agora ou nunca. Respirou fundo novamente e umedeceu os lábios mais uma vez, mordendo-os em seguida.
— Se lembra da primeira vez que se apaixonou? Lá na adolescência... – começou calma – Todos os dias eram como a primavera. O frio na barriga, a felicidade que sentia apenar em ver aquela pessoa; as olhadas indiscretas nas aulas de natação e os desenhos rabiscados nas carteiras. A ansiedade em abrir o armário e encontrar um cartão no dia dos namorados. Era uma sensação única e especial.
"Mas quando tudo isso acabou, veio aquela incerteza e o questionamento de que se algum dia iríamos sentir aquilo novamente. Bom, pelo menos comigo foi assim. E, de fato, eu nunca me senti novamente, até uns três anos atrás. Eu me apaixonei, não na mesma intensidade, mas bem mais do que na primeira vez. E sempre escondi isso porque tinha medo demais de revelar"
Definitivamente, havia algo diferente no olhar de Chloe. Beca não sabia dizer o que era, mas se sentia cada vez mais confortável ao notar. Era quase como uma conexão entre elas.
— Medo do quê? – perguntou, uma ponta de desespero escapou-lhe.
— Eu não sei. É uma pessoa incrível e única. Ouvi-la cantar, falar... Sentir o toque dela em minhas mãos e poder observar toda a dedicação que ela tem com o que ama... É demais para mim, me assustei com tudo isso. Por quê será que nunca disse nada? Por quê eu aceitei Jesse?
Chloe pareceu entender tudo o que Beca quis dizer. Seus olhos ainda eram incrédulos, mas ela parecia tremer, assim como a outra tremia.
Beca tentava mostrar-se calma, mas internamente não estava. Seu sangue fervilhava em suas veias e certamente sua costela já havia se quebrado tamanha era a pulsação de seu coração. Uma gota de suor escorreu por suas têmporas.
É necessário citar a cena em que Beca se encontrava. Por um momento, parecia como se os abajures não estivessem mais ali. Tudo estava iluminado somente pela luz do luar. A silhueta de Chloe era contornada com uma extrema delicadeza. Seus cabelos ruivos eram o que mais estavam em evidências junto de seus olhos. Ela estava mais linda do que jamais esteve e aquilo mexia com Beca.
— Beca, nós aceitamos o amor que achamos merecer – a ruiva respondeu num pequeno sussurro, deixando entender que havia lido o livro que ela havia lhe dado de presente. Mitchell não pôde evitar dar um pequeno sorriso.
— O que você faria em meu lugar, Chloe? O que você faria se estivesse prestes a contar a pessoa que você gosta que está apaixonada por ela?
Um pequeno êxtase subiu na ruiva. Ela deu um sorriso e se endireitou na cama, aproximando-se mais ainda de Beca.
— O que eu faria? – perguntou com a voz trêmula. – Primeiro, eu pediria para a pessoa fechar os olhos, assim...
Suavemente, ela levou uma das mãos até o rosto de Beca, cobrindo-lhe os olhos. O toque dela a fez tremer mais ainda. Sua mão era suave e estava quente.
— E, sem seguida, eu... – sua voz perdeu-se nos ar.
Houve um minuto de silêncio. O ritmo cardíaco de ambas podiam ser ouvidos, bem como suas respirações.
Beca perdia o controle de si mesma a medida em que sentia a respiração rápida e morna de Chloe bater-lhe no rosto. Estremecia feito alguém que acabara de sair de um banho gelado no inverno.
Então aconteceu.
Seus lábios se tocaram.
Uma excitação percorreu os seus corpos.
Agradeceu os olhos vendados, eles tornavam os lábios de Chloe mais vívidos e mais intensos contra os seus e eles eram macios e molhados.
Já não tinha mais coração, podia garantir isso. Na verdade, nem sabia como ainda estava consciente. Era algo que queria há um bom tempo e mal pode assimilar quando aconteceu.
Chloe se afastou após uns segundos. Mantinha um pequeno sorriso nos lábios e um brilho intenso nos olhos. Beca pôde ver, através da luz da lua, que suas bochechas estavam levemente coradas.
— Então, eu esperaria para ver se a pessoa iria me corresponder...
Em êxtase, Beca sequer deixou Chloe terminar de falar. Segurou o rosto da garota com as mãos e avançou delicadamente sobre seus lábios mais uma vez, dando um beijo mais intenso que o primeiro. Estava tremendo e quase explodindo de felicidade e, finalmente, alívio.
Os lábios da ruiva se abriram um pouco e ela sabia exatamente o que ela queria: aumentar a conexão entre elas. E assim foi feito. As línguas se deslizaram umas nas outras e havia um doce – e gostoso – sabor de marshmallow.
Os braços de Chloe passaram por volta da cintura de Beca, apertando-a num abraço. Seus corações descompassados podiam ser sentidos, tamanha era a forma como ela a segurava. Ela certamente estava desafiando a impenetrabilidade, pois estava quase fazendo com que seus corpos ocupassem um mesmo lugar.
Beca sentiu suas costas baterem com força no colchão. Ainda estava com os lábios e o corpo presos em Chloe e ainda assim demoraram para se separar. Aquilo estava bom demais para pararem. Era como se a existência delas dependesse daquele beijo e, no fundo, realmente dependia.
E da forma abrupta que o beijo começou, ele parou. A garota se ergueu sobre Beca, olhando-a nos olhos. Sua respiração estava falha e sua boca avermelhada. Um enorme sorriso se formava.
— Não acredito, Beca – disse firme, mantendo o sorriso. – Não acredito que escondeu isso de mim por todos esses anos. Estava planejando me contar algum dia?
Havia um misto de alegria, ansiedade e confusão na voz de Chloe e aquilo gerou várias sensações em Beca. Sua ficha do que aconteceu ainda não tinha caído, então tudo que podia fazer era manter um sorriso bobo na face.
— Sinceramente, Chlo? Eu não... – começou a responder, perdendo-se na própria felicidade – O fato de eu ter sumido este ano foi porque procurava me acostumar a não ter você por perto. Então, creio que não planejava isso.
— Não acredito – ela repetiu, segurando os pulsos dela acima da cabeça. – Eu te odeio. Eu te odeio, Beca Mitchell.
O sorriso de Chloe não poderia ser maior. Ela se inclinou e mais uma vez tornou a diminuir todo o espaço de distância entre elas. Agora, era um beijo mais suave e erótico.
E foi só naquele instante que Beca havia percebido que, sim!, ela amava Chloe Beale e Chloe Beale a amava de volta. Não poderia estar mais feliz, mas o que seria delas agora? Seus planos mudariam? Para onde iriam? Ainda havia muito no que se pensar e conversar.
— Chlo, espere... – Beca suplicou sobre os lábios dela. Chloe se ergueu mais uma vez.
— Não, Beca! – exclamou agitada – Já perdemos tempo demais escondendo isso uma da outra. Não há mais o que esperar.
Ela ainda não havia ingerido toda a situação. Tudo foi tão rápido que ela precisava de um tempo para assimilar e certamente levaria uns dias. Mas, nessa história toda, ela já deixou tanta coisa "pra lá", não faria mal nenhum deixar mais essa. Deixar os pensamentos sobre o futuro delas para lá. Agora era a hora de aproveitar o momento, não tinha nada o que pensar. Chloe estava acima dela, descendo os lábios em seu pescoço. Era realmente melhor do que ela jamais imaginaria.
Na manhã seguinte, Beca ainda não havia assimulado o que aconteceu, mas despertou mais leve e mais feliz que nunca havia despertado. Não se lembrava como a noite tinha terminado – talvez dormiram se beijando, era o mais provável. Acordou abraçada em Chloe, que tinha sua cabeça deitada em sue colo e suas mãos estavam unidas. Despertou-a com um pequeno selinho e elas passaram mais uns minutos da manhã se beijando.
Na hora de ir embora, bastou apenas uma troca de olhares e uma piscadela para que Aubrey entendesse tudo que Beca queria dizer. Ela retribuiu com um pequeno sorriso e um ar presunçoso.
Elas decidiram não dizer nada para as Bellas até o dia do mundial. Era uma notícia e uma situação grande para se lidar e concordaram que nada poderia tirar o foco do grupo, pois, apesar de estarem vivendo um pequeno paraíso particular, a existência das Bellas ainda era uma incógnita. Com o passar dos dias, elas conversaram vez ou outra sobre o futuro.
Talvez a decisão de não contar nada a ninguém tenha sido a melhor. Seus encontros amorosos eram feitos escondidos, o que deixava tudo mais divertido. Trocavam rápidos beijos durante os intervalos das atividades e acordavam mais cedo do que as outras.
Amy Gorda agora estava ocupada com seu relacionamento com Bumper, ela saía em diversas noites e voltava apenas de manhã, dando um pequeno espaço para que Chloe pudesse subir ao quarto de Beca e elas podiam passar a noite juntas.
Outra situação que Beca foi forçava a viver, foi com as novas invasões ao seu banho que Chloe fazia. Mas agora era pra algo bem mais excitante do que cantar Titanum. Dessa vez, já não tinha muito o que reclamar, pois adorava ser surpreendida.
Na medida em que os dias passavam, a formatura e o mundial se aproximavam. Beca começou a preparar o terreno para poder terminar com Jesse, mas de certa forma, ele já sabia o que estava por vir. Ela entendeu isso quando viu um brilho diferente no olhar dele quando perguntou se deveria acompanhá-la na viagem à Copenhagen. Com certeza desembarcariam lá como namorados, mas não decolariam de volta juntos. Ficou aliviada ao ver que Jesse não complicaria – possivelmente ele também já tinha a ideia de romper com tudo, mas o faria após o mundial para não preocupá-la.
No dia da formatura, Beca entregou um pequeno presente à Chloe: uma mixtape com canções de 1994 que ela havia gravado no estúdio em seu horário de almoço. Era algo simples, mas foi muito bem recebido pela ruiva e se tornou mais especial do que jamais imaginara.
Nunca esqueceria que sua primeira vez com ela seria ao som de "Can You Feel the Love Tonight?" de Elton John. Aquilo não fazia nem um pouco o estilo de Beca, mas quem se importava?
A forma como se assumiram perante a todas foi um pouco diferente do que planejavam. Foi a um oceano e alguns países de distância do lugar em que queriam, mas foi uma situação um pouco cômica.
Haviam acabado de ganhar o Mundial de A capella, derrotaram os Das Sound Machine e garantiram que as Barden Bellas continuassem em atividade. Era um combo de felicidade tripla e todas estavam extremamente eufóricas com tudo. Cantavam enquanto erguiam a taça, já quando desceram do palco.
Provavelmente elas se animaram um pouco mais do que deveriam e não conseguiram se controlar quando seus olhares, que transbordavam alegria e prazer, se cruzaram. Eram apenas para se abraçarem, mas o toque e o choque de calores acabou se tornando algo a mais e antes que elas pudessem se dar conta, estavam se beijando. Um beijo caloroso e urgente.
Um silêncio se formou no pequeno camarim delas. Todas estavam numa pequena roda, com Chloe e Beca no centro. As expressões variavam entre estupefação e malicia. Emily quase deixou o troféu escapar de seus braços e mantinha as sobrancelhas arqueadas.
Beca sentiu o ar lhe faltar e viu que Chloe compartilhava o mesmo olhar de medo.
— Você me deve cinquenta dólares – elas ouviram a voz de Amy ecoar pela sala pequena num sussurro. – Sério, Cynthia, estou desapontada com você, era a última pessoa que deveria perder essa aposta.
Cynthia-Rose fez algum comentário, que Beca não conseguiu captar, pois estava preocupada demais com o que havia feito.
— Ahn... Ok... – Beca virou-se para as garotas. Estava um pouco trêmula. Não havia se preparado para aquilo e precisava improvisar – Sei que estão se perguntando, mas... Nós... Bem, nós iríamos contar a vocês...
— Vamos, Beca, pare... – Amy a interrompeu – Se vai pedir desculpas, pare. Nós estamos seriamente chateadas por terem escondido isso de nós.
Ela mordiscou o canto dos lábios e olhou de esguia para Chloe, que abaixou a cabeça. Como puderam ser tão burras?
— Se vocês tivessem se assumido antes... – Amy falou alto, com um pouco de raiva e ansiedade na voz. – Se tivessem nos contado, se assumido, nós não teríamos que aguentar o chato do Jesse por todo esse tempo.
Uma gargalhada saiu de Beca, que fora acompanhada por Chloe. Todas as outras riram e concordaram com a posição de Amy Gorda. No final de tudo, não estavam chateadas.
— Vocês sabiam? — Chloe perguntou
— Tá brincando? Tava na cara de vocês.
A viagem de volta aos Estados Unidos foi bem mais animada. Estavam mais relaxada, pois já conquistaram o mundial e agora só precisavam ir para casa e desfrutar de tudo.
No avião, Beca sentou-se junto com Chloe e Emily. Num determinado momento, a ruiva saiu para ir ao banheiro e ela ficou a sós com a possível nova capitã das Bellas. Ela citou sobre estar feliz pelas duas. "Havia algo nos seus olhos quando você olhava para ela" Emily comentou "Era perceptível! Isso não merecia outro final".
Quando finalmente chegou o dia de partirem, Beca se sentiu apreensiva. Era um pouco triste ver as coisas empacotadas. Passaram três anos todas juntas e agora cada uma seguiria seu caminho. Emily ficaria, foi apenas o seu primeiro ano e agora cabia a ela continuar a estrada. Tinha uma talento nato, então o grupo estaria em boas mãos.
Chloe decidiu que passaria um tempo dividindo uma casa com seu irmão, no Alabama. Havia uma comunidade de jovens de baixa renda por lá e ela iria ministrar algumas oficinas de canto, tal como disse na fogueira. Porém, Beca tinha seu estágio e não poderia deixar Geórgia dessa maneira.
— É um estado vizinho – Chloe sussurrou quando conversaram sobre isso num momento um pouco inoportuno. – Tenho um carro, não deixaremos de nos ver nunca. Não vai se livrar de mim tão fácil, Beca Mitchell.
Na última noite delas, ela começou a andar pela casa, dando uma última olhada em tudo. Passou pelas coisas de Chloe e notou um pequeno mapa largando. Ela havia traçado em vermelho a rota mais fácil para se chegar ao Alabama. Ao lado do mapa, duas garrafas de whisky.
Beca não conseguiu evitar dar um sorriso largo.
Sentiu um par de braços apertar-lhe na cintura e os lábios macios de sua garota depositarem um beijo em seu pescoço.
— Estou partindo amanhã. O que me diz?
Não houve respostas faladas. Ao invés disso, ela se virou e ficaram frente a frente. Beijou-lhe ternamente. Esta era a sua resposta.
Existia uma vida fora da universidade e Beca não poderia ficar mais feliz em saber que passaria com ela junto de Chloe.
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