Notas iniciais
Para a surpresa de todos, larguei a preguiça de lado. :)

Chicago era uma cidade belíssima.

Relatos de viajantes sempre diziam que as cidades norte americanas eram muito parecidas com Londres em suas construções, mas a semelhança de seus prédios não correspondia ao burburinho elétrico de seus moradores que percorriam as ruas úmidas e quentes no verão. Havia algo nos americanos, algo que Nico nunca pudera identificar, que fazia deles aventureiros e dispostos e até um pouco mal educados, diferente dos sempre sérios, frios e comportados britânicos. Algumas vezes, quando o sol se punha no horizonte e refletia nas janelas sujas de seu apartamento alugado, Nico sentia falta da Inglaterra, de sua neve tão gelada quanto o coração dos homens e mulheres que o cercavam. E então, quando pensava na prisão de falsa liberdade que sua vida como servo um dia havia lhe dado, agradecia por ter a oportunidade de construir uma identidade diferente da de pertencer por coleira a um nobre qualquer.

Sua criação feita dentro de muros de casas de ricos limitou suas habilidades: havia sido um menino de estábulos a vida toda, e não havia muito mais que soubesse fazer por dinheiro que não envolvesse alimentar, limpar e escovar equinos. Havia carruagens nos Estados Unidos, muitas, até, mas Nico queria mais para si do que permanecer em seus antigos serviços. Sem experiência e sem cartas de recomendação era difícil encontrar qualquer serviço moribundo que o aceitasse. Ele e Thalia passaram seus primeiros meses no Novo Mundo em uma pensão imunda e mal cuidada, em que os quartos eram muito pequenos e as camas muito fétidas; pagavam por sua estadia com o serviço que ela arranjara no próprio estabelecimento, lavando lençóis e limpando os quartos imundos de seus suspeitos hóspedes. Nico lia os jornais todas as manhãs, e dormia com o pesar da decepção no peito e os braços de Thalia ao redor de si.

Demorou a que se acostumasse completamente com a companhia da dama Grace. Ela era espirituosa, como já soubera desde o início, mas foi uma estranha por muito tempo antes que começasse a revelar os seus segredos, e ele os dele. Ele a consumira sem ser seu marido, e ela o acolheu sem ser sua esposa. Era uma reação mútua de segurança e talvez algo mais; Thalia estivera lá quando ele abandonara o país em que morara desde seu nascimento, ele estivera lá para recolher suas lágrimas de ansiedade nas noites em que nenhum dos dois realmente sabia o que o futuro lhes planejava, e ambos estiveram presentes quando Nico arranjou o emprego como aprendiz de marceneiro. Não era muito, mas foi o suficiente. Por um ano, assistiu seu mestre e praticou seus novos conhecimentos até que pudesse ganhar pelo seu trabalho na marcenaria. Trabalhar com madeira era melhor do que trabalhar com cavalos, e o salário era melhor do que conseguiria na Inglaterra fazendo o mesmo. Ele gostou do serviço de maneira que tornara-se um passatempo.

Economizaram por um ano, então dois, e enfim, mudaram-se da pensão para o pequeno apartamento que residiam agora. Não pertencia a eles, mas o aluguel era razoável e Thalia fez com que se parecesse com um lar. Logo faria quatro anos que os dois residiam no Novo Mundo, e às vezes, Nico pensava em Annabeth. Pensava em Afrodite, nos Jackson, e nos anos que carregara nos ombros a confundir amor por compaixão pela criada que havia sido como uma irmã. De vez em quando, Nico recebia cartas de Afrodite, que ainda trabalhava no palácio. Ela estava feliz, e ouvir os contos de alguns conhecidos era purificante quando o ar congestionado de Chicago se tornava muito pesado.

Como ela disse que o faria, Nico sorria todas as vezes que pensava em Annabeth, e em vez de ressentimento ou tristeza, lembrava-se dela com saudade e esperança de que estivesse bem, tão bem como ele estava.

XXX

O nascer do sol era ainda tímido no horizonte nova iorquino.

A luz gentil percorria o tecido delicado e alvo da cortina e iluminava o berço de madeira branca em que a criança dormia com tranquilidade. Era um bebê calmo desde o dia que nascera, agraciando a vida de seus pais com a bênção e a promessa de uma nova vida que por tanto tempo fora desejada.

Percy se lembrava de quando a segurara pela primeira vez, logo que a parteira a limpara e a enrolara numa manta de crochê. Era tão pequenina. Nascera um mês antes do tempo certo, e Annabeth tivera muito medo, assim como ele, mas assim que os choros de frio do bebê saíram dos braços da parteira, um alívio imenso tomou conta do casal. Ambos haviam esperado muito tempo por aquele momento, e o caminho que tiveram de percorrer para que ali chegassem havia sido longo e tortuoso.

Haviam colocado os pés nas terras de Nova York há quatro anos atrás. O período de adaptação que seguiu foi mais fácil do que Percy poderia imaginar: a cidade era parecida com Londres de muitas maneiras, e tinham uma boa casa, em um bom bairro, e bons vizinhos, que não se importavam de onde viessem e se eram nobres, servos ou viajantes a fugir. Poseidon não se instalara muito longe, e os visitava de vez em quando. A casa dos dois era modesta, pintada num tom simpático de azul, e com um pequeno jardim a cercar sua porta. Não demorou para que se sentissem mais à vontade ali do que se sentiram na cidade natal durante todas as suas vidas. Perseu pensava nos companheiros e na mãe, e Annabeth, nos amigos e na família, mas os dois sabiam que pertenciam àquele mundinho particular que construíam juntos.

Percy ofereceu os seus serviços à Marinha Americana e foi muito bem recebido. A conexão inexplicável que possuíra com o mar durante toda sua vida lhe dava prazer em estar sempre a treinar ou a patrulhar perto de suas ondas e seu delicioso aroma de sal. Não demorou para que ele e Annabeth se casassem no forte militar na praia de Long Island. Ela desceu sozinha em direção ao altar, corada e vestida de branco, e apesar de não confessar para ninguém, ele havia ficado com os olhos cheios de lágrimas ao lembrar-se da menina magrinha de olhos tristes da Casa de Leilões de não tanto tempo atrás, e como ela era finalmente só dele.

O casamento não tardou, mas Annabeth apenas o amou como mulher quase dois anos após a chegada deles ao Novo Mundo. Suas cicatrizes eram muitas, e ela ainda tinha medo, mas Percy lembrava-se muito bem da noite em que chegara em casa e a encontrara nua debaixo das cobertas, e como ela a beijou e disse que o amava. Foi gentil, como ele esperava que fosse, e ela tremeu contra seu peito antes de adormecer, mas logo, era como se o acontecimento que a violara tanto nem tivesse acontecido. Annabeth ainda tinha pesadelos, e ele também, mas o consolo em saberem que estavam seguros nos braços um do outro, e enfim, juntos depois de tantas lágrimas era suficiente para que adormecessem novamente.

Não planejaram ou decidiram ter filhos. Nunca realmente haviam conversado sobre o assunto antes de Annabeth descobrir que estava esperando um bebê pela falta de suas menstruações e a dor em seus seios. Havia sido Poseidon quem confirmara com certeza, num misto de cortesia profissional com alegria impossível de esconder por saber que ganharia seu primeiro neto ou neta. A gravidez foi calma e sem grandes acontecimentos: Annabeth era o tipo de grávida que não reclamava e não tinha a menor mudança de humor a não ser pelos ocasionais choros injustificáveis. A cada vez que o crescimento em sua barriga era perceptível, aumentava o amor pela criança que nem conheciam e que Percy nunca soubera que tanto queria. O bebê nascera numa manhã gelada de Inverno, trinta dias antes do que deveria nascer, mas era uma menina saudável, com cinco dedos em cada mão e pé -- ele havia contado! Deram-lhe o nome de Dianna; Dianna Rose Jackson, com sua pele macia de pêssego, seu nariz pequenino de botão, os lábios rosa. Olhos verdes como jade, como os do pai, e os cabelos dourados da mãe.

Dianna mexeu-se devagar em seu berço, soltando um pequeno bocejo ao abrir os grandes olhos verdes. Ela soltou um de seus barulhinhos contentes de bebê quando Percy gentilmente acariciou seus cabelos louros, e ela sorriu para ele como se soubesse o quanto ele a amava. O olhar de Percy flutuou para a cama de casal ao lado do berço, e Annabeth dormia virada para ele. O rosto de sua esposa já era iluminado pelos raios de luz, mas ela dormia em paz. Logo, Dianna choraria para ser amamentada, mas por enquanto, Percy limitou-se a admirar suas meninas e perguntar-se como havia se tornado tão sortudo, apenas por ter levado pra casa uma garotinha há onze anos atrás, que segurava o coração dele em suas mãos até hoje.

Notas finais
Tomara que eu não tenha desapontado... :) Mais uma vez, obrigada por lerem!!! Foi um prazer compartilhar a história com vocês. Pra quem estiver interessado, comecei outra fic de época, também Percabeth: http://fanfiction.com.br/historia/458469/Crimson/ Até a próxima, folks!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!