She Falls Asleep
11 Capítulo 11
Notas iniciais
- Acho que poderíamos usar o dinheiro. — Atena contra-argumentou, sabendo que o marido não estava satisfeito. Era muito fácil perceber quando Frederick estava irritado ou não, e nesse momento, era óbvio que não se encontrava em suas melhores condições. — Escute, sei que não gosta do palácio, mas Annabeth estará lá como criada também, e ela já não vem nos visitar faz um tempo, por isso pensei que não ia doer me oferecer para o emprego.
A expressão nervosa de Frederick se tornou mais suave quando o nome da filha foi pronunciado, e foi assim que Atena sabia que conquistaria sua confiança. A conversa dos dois era referente a festa de comemoração de chegada do futuro marido da princesa Rachel, portanto, Perseu Jackson, filho do homem que havia resgatado Annabeth das mãos de Dionísio; Atena nunca poderia demonstrar sua eterna gratidão à família Jackson, no entanto, raciocinou que, sendo uma mera serva na festa ela poderia ver a filha, e, além disso, retribuir de uma forma muito pequena ao homem que havia salvado sua filha servindo alimentos e bebidas para os ricos. Uma ajuda minúscula, claro, que não se comparava ao tamanho ato de heroísmo de Perseu Jackson e seu aclamado pai. Não conhecia Sallina Jackson pessoalmente, e ouvira falar coisas terríveis sobre o seu comportamento, mas, de qualquer forma, só tinha o que agradecer. Frederick, por outro lado, apesar de também extremamente grato pelas ações dos Jackson, detestava com todo o seu ser a família real: Nunca gostara do Rei James Dare (alegava que era corrupto e egoísta) e muito menos da falecida Rainha Vanya, que julgava ser vulgar e tão mimada, rechonchuda e disprovente de intelecto quanto à filha Rachel Elizabeth Dare, e por este motivo não estava contente quando a mulher o comunicou do serviço que pretendia prestar. De forma ou outra, Atena realmente não se importava com a opinião de Frederick, estava mais o avisando do que pedindo sua permissão.
Depois que Frederick voltara da Casa de Leilões no dia que Annabeth fora vendida, o casamento dos dois deteriorou-se rapidamente — muitas vezes, Atena pensava que já estava deteriorado anteriormente, e a perda da filha fora só um gatinho — e logo, a mulher percebeu que teria de fazer uma escolha. Disse ao marido que se Annabeth fosse vendida (não importava para quem) ela iria reunir os meninos (seus outros filhos) e partir para uma vida na cidade, no entanto, fora obrigada a usar o pensamento lógico para tomar sua decisão final: Se realmente abandonasse Frederick e levasse os quatro meninos com ela, onde moraria? Poderia viver de favores até que arrumasse um local fixo, mas até lá, como conseguir dinheiro? Mason já tinha idade para ajudar e se virar sozinho, mas John e Kyle, os gêmeos, tinham apenas oito anos de idade e mesmo se frequentassem escola pública, o que fariam durante a tarde? Sem contar Giovanni, o caçula, de apenas cinco anos! Dependia muito de a supervisão de um adulto, e ela não poderia deixá-lo sozinho ao longo do dia. Se fosse vigiar os meninos, por outro lado, não teria tempo para trabalhar, e, consequentemente, não teria dinheiro para botar comida em seus pratos e muito menos para pagar o aluguel de qualquer local que estaria morando, afinal, nos dias atuais, nada era de graça. Apesar da enorme dor no peito que a ausência de Annabeth havia deixado, Atena fora obrigada a seguir com sua vida como se nada houvesse acontecido, pelo bem de seus outros quatro filhos que também precisavam dela. Poucas palavras eram trocadas entre ela, Frederick e os meninos — Mason sabia muito bem o que havia acontecido com a irmã mais velha, e, à medida que John, Kyle e Giovanni cresceram, estes logo foram informados também — mas ainda assim, Atena fazia o seu melhor para que ao menos seus corajosos filhos tivessem uma vida digna. Com o novo emprego de Frederick na Guarda Real, a família recebia uma razoável quantidade de dinheiro, e nunca mais passaram fome novamente. Ainda assim, Atena preferia mil vezes morrer da mais terrível cólera do que ter de viver sem a filha, mas ainda assim, foi o que fez.
Não esperava reencontrá-la: Quando um senhor de status e de muito dinheiro comprava uma moça bonita e inteligente como Annabeth, era basicamente impossível esta ter permissão para retornar à sua casa, mesmo que para uma visita; no entanto, Atena punha-se a pensar: por que Annabeth haveria de querer visitá-los? Afinal, eles haviam a abandonado, e não o contrário. Porque haveria de querer ver a família que a havia trocado por... Dinheiro? E se a culpasse? E sua amada Annabeth, sua primogênita, seu maior orgulho, culpasse Atena por não salvá-la, por deixar que tamanha crueldade fosse cometida? Tais pensamentos assombraram a mulher por anos e anos, e ela nunca mais dormira em paz; sonhava com a filha quase todas as noites, com sua doce risada.. Qual seria sua aparência agora? Teria mudado muito? O som de sua risada ainda seria o mesmo? Dessa maneira pôs-se a viver por sete anos, sempre se perguntando, sempre imaginando, sempre sofrendo pela perda de seu mais precioso tesouro, sua joia perdida, vendida como se não possuísse nenhum valor. O único pensamento que tranquilizava Atena era que ao invés de morar com o vil e grosseiro Dionísio, que transformava suas servas em escravas sexuais, ao menos Annabeth estava a salvo na casa de Poseidon Jackson, o médico, que ao contrário de muitos outros nobres, possuía a fama de ser um homem bom e misericordioso.
Quando Mason aparecera certo dia no portão da casa com um enorme sorriso estampado no rosto e uma muleta debaixo dos braços, Atena saiu de dentro da casa já lhe cobrindo de broncas por ter se machucado (de novo) quando percebeu a moça alta e loira atrás dele. Atena sentiu as pernas tremerem quando reconheceu o físico da moça; os cabelos dourados eram dispostos em cachos longos e soltos que caíam até metade de suas costas. Tinha as feições delicadas, como as de uma princesa, uma boca pequena como um botãozinho de rosa e os olhos cinza mais brilhantes e bonitos que havia visto... seus olhos cinza.. Mal podia acreditar que a moça-mulher a sua frente era sua Annabeth, ainda mais bela do que antes... Os bons cuidados que recebera havia transformado seu corpo magro e fraco em uma estatura esguia, ainda que carnuda; deuses, era a mais bela mulher que já havia visto, e era sua filha, sua Annabeth, vindo para casa depois de tanto tempo... A filha que pensava nunca mais ver, sua joia perdida.
Depois daquele reencontro de Annabeth com a família, a moça havia voltado para visitar várias outras vezes, e com frequência trazia cupcakes, brownies, bolos e tortas da casa dos Jackson e passavam horas conversando: Annabeth, que sempre possuíra um coração bondoso fora rápida em perdoar o pai e em se misturar com a família como se nunca houvesse partido; Atena sentia tanto orgulho de sua menina... E agora, ainda mais amor e compaixão, e procurava passar todo o tempo livre que possuísse com ela; era por essas e outras que ela havia de aceitar o emprego de um dia de duração no palácio, já que Annabeth também estaria lá como serviçal, provavelmente nas cozinhas, como ela havia comunicado à mãe em sua última visita.
- Está bem. — Frederick concordou, sabendo que nada que dissesse interromperia a vontade de Atena. Podia detestar a família real com todo o seu ser, mas o homem havia aprendido a nunca mais contraria sua esposa quando ela falava, e essa vez não seria exceção.
XXX
Após o combinado de Annabeth e Percy — de que ele a levaria para o palácio junto dele — a mansão dos Jackson coincidentemente entrou num caos de preparações; afinal, Perseu havia morado lá desde que nascera e era querido e amado por todos os criados, que queriam fazer sua saída o mais confortável possível. O moço, por outro lado, se encontrava num misto de tristeza, culpa e felicidade: Tristeza por estar abandonando os pais e sua amada vida na mansão, culpa por ter sido egoísta ao estabelecer que Annabeth viria com ele (mesmo que ela tivesse concordado) e felicidade, já que apesar de todos os obstáculos, ela estaria ao lado dele. Não sabia como as coisas seriam no palácio, afinal, só seria Rei quando James Dare falecesse e depois que pedisse Rachel em casamento formalmente; pelo que Sally havia lhe ensinado durante os anos, ele provavelmente participaria de bailes de comemorações das quinzenas e reuniões de Estado, principalmente, para a discussão de assuntos como a Economia e Estratégia Bélica.
Para que a ida de Annabeth para o palácio não parecesse suspeita — Percy sabia que a primeira a protestar seria Sally — o moço comunicou ao senhor seu pai que faria uma pequena lista de criados que gostaria que o acompanhassem, dessa maneira a presença de sua amada ficaria melhor mascarada. Poseidon concordara sem reclamações ou restrições, como Percy suspeitara, e assim logo pôs-se a escrever sua "lista". Adicionou de pronto o velho cozinheiro Gerry, que sempre havia alimentado Percy com guloseimas sem que os pais soubessem, e Afrodite também, que além de sempre ter sido uma ótima costureira e muito querida era a mentora e confidente de Annabeth, e ele não queria separá-las. Sua lista também incluía Olga, a velha ama que durante a infância lhe contara as melhores histórias de Terror e também Ada, uma velha lavadeira. Por fim, incluíra Annabeth; antes de concluir sua lista, no entanto, uma lâmpada acendeu-se em sua mente: E Nico? Apesar de ter cólera de ciúme do menino dos estábulos, Nico sempre havia sido seu amigo, e Percy também teve de levar em consideração o fato de que ele estava disposto a cuidar de Annabeth se ele não pudesse, e isso já era motivo suficiente para adicioná-lo à lista; antes de fazê-lo permanentemente, no entanto, Percy pensou justo conversar com Nico primeiro, e deixar claro que não pretendia provocá-lo ao levá-lo para o palácio.
Desceu aos estábulos durante a tarde, e, como esperava, Nico ignorou sua presença quando o viu e continuou desembaraçando a crina de um corcel marrom.
- Posso ajudar? — Nico perguntou em uma voz mais irritada do que educada, e Percy quase sorriu. Costumavam ser amigos, costumavam passar tardes e tardes conversando e aprontando as piores travessuras, e infelizmente tudo houve de mudar com a chegada de Annabeth, e, agora, não adiantava chorar sobre o leite derramado. Antes que cortassem um a garganta do outro, precisavam estabelecer uma espécie de acordo.
- Suponho que tenha sido informado sobre minha lista. — Percy disse calmamente, se apoiando sobre o tronco de uma pequena árvore ao lado do estábulo. Queria analisar as primeiras reações de Nico antes que dissesse o que havia de ser dito.
- Todos já sabem. — Nico respondeu com certa indiferença, escovando mais rapidamente a crina do corcel antes de alimentá-lo com um sabugo de milho esverdeado. — Escute, se veio aqui para se gabar, ou, não sei, pedir conselho alheio, faça logo. Cavalos não costumam se lavar ou se treinarem sozinhos.
- Justo. — Percy fez que sim, colocando as mãos nos bolsos da calça. Como Nico pediu para que ele fosse rápido, assim o fez, cortando logo para o ponto principal. — Escute, Nico... Acredito que seja óbvio que levarei Annabeth comigo, mas em breves momentos de uma reflexão simples julguei não estar retribuindo o favor que você me prestou... Quando pensei que ia ter de me separar dela, você ofereceu cuidar dela, protegê-la, dar-lhe uma família, coisa que, de certa forma, nunca poderei fazer.
- Não fiz isso por você. — Nico balbuciou, com a cara mais fechada do que a de segundos atrás; nunca havia gostado de discutir Annabeth com outros. — Fiz isso por ela, e nada mais.
- De qualquer forma, ajudando-a, você indiretamente me ajuda, vê? Por isso estou agradecendo. — Percy deu de ombros, sabendo que por mais que tentasse ser direto, suas palavras sempre, mesmo que indiretamente, estariam provocando Nico. — De qualquer forma... Ainda não entreguei a lista ao senhor meu pai. Refleti, e acredito que deveria avisá-lo que faz parte dela, e que partirá para o palácio, também.
As palavras de Percy certamente pegaram Nico de surpresa; este colocou de lado a escova para cavalos e procurou esconder seu estampado espanto, mas não era possível; agora, Percy estava em vantagem, quase conseguia lê-lo como uma enciclopédia aberta; de qualquer forma, não estava ali para brigar e muito menos para causar desaforo, portanto, pôs-se a explicar.
- Mesmo ela estando perto de mim no palácio, nunca será inteiramente minha. Não poderei caminhar com ela como aqui faço, nossas conversas serão muito menos frequentes e só os deuses sabem se meus lábios tocarão os dela novamente... E como isso fará com que ela sofra. — Percy forçou as palavras para fora da boca, já que confessar tais informações em voz alta era tudo, menos fácil. — Eventualmente, eu me casarei com a Princesa Rachel, e, portanto, Annabeth será forçada a se casar também, como toda moça é, nessa idade, e com você por perto, ela poderá se casar com você. Afinal, o pedido já foi feito, ela só precisa dizer sim. Prefiro que ela se case com você, que, apesar de tudo, é meu amigo, e como sempre soube, um homem digno e responsável. Você nunca bateria nela, a violentaria ou abusaria de sua inocência como muitos outros, e saber que ela está a salvo do mundo perverso da corte já me enche de alívio.
Nico pareceu se acalmar conforme Percy falou; tudo que saía da boca do futuro monarca fazia sentido. O amor de Nico por Annabeth era suficiente para sustentar o casamento dos dois, um casamento em que ele seria devotado a protegê-la como sempre quis. E, quem sabe, após anos e anos de Annabeth finalmente se conformar que Perseu Jackson sempre fora de Rachel Elizabeth Dare, ela passasse a amá-lo, também.
- Você é um porco egoísta, é o que você é. — Nico cuspiu no chão ao lado de Percy antes de pegar uma cesta repleta de maçãs e movê-la para a parte fechada do estábulo, onde os cavalos não a alcançariam. Mesmo que ele houvesse acabado de dizer as palavras que Nico queria ouvir, isto ele nunca confessaria. Aproximando-se de Percy novamente, voltou a falar. — Novamente, estou fazendo isso por ela, e não por você. E que os deuses o amaldiçoem, pois nunca, nunca merecerá tamanho amor de uma mulher como Annabeth. Agora, se me dá licença.
Antes de esperar pela resposta de Perseu, Nico desapareceu atrás do estábulo, provavelmente para treinar alguns dos corcéis. Percy deixou escapar um suspiro de alívio, já que havia imaginado que a conversa seria mil vezes pior. Ao menos, Nico havia aceitado a condição de ir ao palácio e manteria sua promessa, a promessa de garantir que Annabeth tivesse alguém para com quem dividir o resto de sua vida.
XXX
Em seus aposentos, Sally Jackson penteava os longos cabelos castanhos ondulados com calma; raros eram os momentos que não havia nada pendente para ser resolvido por ela, e graças aos bons deuses o marido estava em seu consultório, próximo ao Hyde Park, e só voltaria mais tarde. Assim que trançou o cabelo e aplicou uma colônia leve de dormir no pescoço, algo dentro de seu armário semiaberto chamou sua atenção: um leve brilho dourado, quase que uma faísca. Sabia muito bem do que se tratava, e sentiu uma pequena pontada no peito como sentia todas as vezes em que pensava no objeto. De vez em quando, muito raramente, ela permitia-se andar até o armário e examinar a minúscula caixa de música, a caixa de música que tocava uma suave canção de Dezembro... A canção de dois amantes.
Não. Ela não podia ceder. Pelo amor dos deuses, já era uma mulher de quarenta e dois anos, e não uma adolescente, para deixar-se entregar aos desejos do coração e da alma. Ela tinha deveres, deveres como esposa do mais importante médico da Inglaterra e possivelmente da Europa, além de ser mãe do futuro Rei. Mas talvez... Talvez se só abrisse a caixa por breves segundos, e deixasse a melodia tocar... O desejo dentro de si poderia ser aquietado e ela mais uma vez esqueceria o objeto... Certo?
Já era tarde demais; logo abria a porta do armário completamente, e suas mãos trêmulas seguravam a pequena caixa de madeira como se fosse seu mais precioso bem, e, agora que Sally parava para pensar, nenhum de seus colares de rubis, esmeraldas ou quaisquer diamantes se comparava àquela tosca caixa de música, mal esculpida e velha; posicionou-a no criado mudo ao lado da cama, ajoelhando-se ao chão antes de, com as unhas, cuidadosamente abri-la. Prendeu sua respiração por simples surpresa quando a música começou a tocar.
O casal de namorados esculpido em madeira girava em torno de si mesmos, segurados pela mola presa ao pequeno tablado também de madeira; os olhos de Sally encheram-se de lágrimas rapidamente. Fazia quanto tempo que não chorava? Meses? E, principalmente, fazia quanto tempo que não chorava por ele? Anos? Oh não, chorava sim, chorava internamente, sem que ninguém visse ou escutasse, estava em constante luto, luto por sua felicidade, luto por uma vida inocente, luto eterno por aquele que ainda amava e nutria seu ser de paixão, mesmo que não estivesse mais no mundo dos mortais. Enquanto seus dedos gentilmente acariciavam cada detalhe da caixa de música, sua memória viajou para a época mais feliz de sua vida, quando tinha acabado de completar dezesseis anos, e não havia Poseidon e nenhum dever a ser cumprido... Apenas ela... E seu amado...
Fechou a caixa tão logo quanto a abrira. Já havia fraquejado, e a melodia já havia escutado, agora bastava. Escondeu-a novamente no armário e fechou a porta deste, enxugando as lágrimas que ameaçavam cair antes que algum criado chegasse pedindo sua atenção. Algum criado... Atenção... E pensar que tudo havia começado daquela maneira... Com um criado que um dia amou...
Notas finais
Pra quem está se perguntando, a Thalia volta no próximo. Até parece que ela ia perder a festa..
Bom, tirem suas próprias conclusões!!
Logo logo vou atualizar Vainglory também, então podem ficar tranquilas, ok?
Adios!
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