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26 Capítulo 25
Notas iniciais
— E então? — Araminta perguntou a Rita, que tinha acabado de atender o telefone. Passava das duas da manhã e as duas tinham ficado acordadas até aquela hora esperando uma ligação de Brynn confirmando que o plano tinha funcionado.
— Está feito. — Rita confirmou, tomando um gole da sua xícara de chá.
Quando Araminta tinha chegado para trabalhar na manhã anterior, simplesmente foi checar toda a sua sala, encontrando as escutas que tinha certeza de que acharia. Em um lugar um pouco menos óbvio do que imaginava: embaixo da mesa sim, mas por baixo da cobertura do tampo, que descolava e ela não sabia.
Depois de descobrirem aquilo, como só havia uma pessoa que teria a audácia de fazer aquilo, rastrearam o telefone de Sophie. Ela estava em um prédio de apartamentos antigos, que só tinha cinco andares. Não foi muito difícil descobrir em qual andar ela estava, então fizeram um dos rapazes da brigada fingir que era um entregador e esconder uma escuta num vaso de planta em frente ao elevador do andar, numa tentativa de descobrir com quem ela estava. Levaram algumas horas até que Sophie saísse de lá, mas o diálogo que escutaram fez aquilo valer a pena.
“— Eu te amo, mãe. Sabia disso? — era a voz de Sophie.
— Claro que sei, filha. Assim como eu te amo.
— Tchau.
— Tchau, meu bem.”
O sangue de Araminta ferveu ao ouvir essa conversa. Sabia que era impossível, mas mesmo a voz era parecida com a dela.
— Temos o endereço dessa mulher e também do namorado da Sophie. — Rita disse. — Qual dos dois mandaria mais a mensagem?
— A mulher. — Araminta disse. Seria bom se fizessem aquilo com Benedict, mas o simples fato de ele ser um Bridgerton (que era o fator que o favoritava aos olhos de Araminta) dificultava a execução de um plano como aqueles. A família era influente e buscaria respostas e aquilo se arrastaria por um bom tempo. A mulher que Sophie tinha chamado de mãe, por outro lado, morava numa região menos rica da cidade e provavelmente não tinha muita gente por ela, se tinha acolhido Sophie como filha, porque Araminta tinha certeza que aquela não era Emily Moulin. — Mas quem é ela, afinal?
Uma rápida pesquisa mostrou que a moradora do apartamento era Andrea Green, que trabalhava para o MI6.
— Está decidido, então. — Rita disse.
Não era a coisa mais horrível que eles já tinham feito. Simplesmente tinham aberto a tubulação de gás do banheiro da suíte do apartamento. Depois, tinham feito com que vazasse gás da cozinha também, já que este tinha um cheiro mais forte, que acordaria os vizinhos.
E foi exatamente isso que aconteceu.
De acordo com o relato de Brynn, eles tinham feito as duas primeiras partes do plano, então os vizinhos acordaram e chamaram os bombeiros, que constataram um vazamento de gás acidental na cozinha e que a moradora do apartamento estava morta.
— Bem, tudo saiu de acordo com o plano. — Araminta disse.
— Sim. — Rita concordou. — Bem, agora que sabemos que isso com certeza funcionou, acho que vou dormir.
— Também.
Assim, pelo resto da noite, Araminta dormiu como uma criança.
Enquanto isso, do outro lado da cidade, Sophie passava uma noite insone, que tinha acabado numa manhã que nem mesmo seus piores pesadelos podiam fabricar. E soube que aquilo ia piorar quando recebeu uma ligação de Conrad.
Se fosse só um delírio dela, Conrad não estaria lhe ligando naquele momento.
— Sophie? — a voz dele estava… cuidadosa.
— Oi. Eu… vi a notícia. Como você está?
— Em choque. Ela sempre dizia que seria assim, mas nenhum de nós nunca acreditou nela.
— Exceto que não foi um acidente durante uma missão. Foi totalmente premeditado.
— Sophie, essas coisas infelizmente acontecem e Andrea, provavelmente mais do que todos nós, tinha plena ciência disso. — Conrad disse. — É um risco que faz parte do nosso trabalho.
— Mas não estava necessariamente relacionado com o trabalho dela e foi minha culpa. — Sophie disse. — Eles disseram exatamente isso e você viu, assim como eu.
— Eles podem ter te usado como desculpa, mas não foi sua culpa. Todos nós sabemos que, no nosso ramo, cada dia é uma caixinha de surpresas, mesmo quando estamos em casa. Isso podia ter acontecido 25 anos atrás ou daqui a 5 anos e não há nada que nós possamos fazer sobre isso. E eu sei que você a amava tanto quanto eu, mas o melhor que podemos fazer agora é fingir estar bem. Nosso contato disse que o Sturoyal descobriu sobre as escutas e a sogra de James associou a você.
— Merda.
Sophie achava que tinha até demorado para Araminta associar ela com os planos dando errado. Quando criança, ela a culpava por tudo, desde o leite ter talhado até a chuva que caía num dia em que aparentemente não ia chover, então estava surpresa que ela tenha demorado tanto para encontrar as escutas e associar a ela.
— Pois é. — ele respirou fundo. — Você tem que ficar alguns dias tentando passar despercebida. Continue sua vida normalmente, não importa o quão difícil seja.
— Tão normalmente quanto possível na semana em que eu estou literalmente fugindo de tudo aqui.
— É. Acho que você deve continuar com as mudanças. Vai ser estranho se você mudar de ideia agora.
— Eu sei. — ela respirou fundo. — Quem…
— Eu estou cuidando de tudo, não se preocupe.
— Aonde…
— No cemitério da rua Nove. No mesmo lugar que Roger.
— Certo. — ela estava agradecida por ele ter interrompido suas perguntas. Não queria fazer aquelas perguntas, por mais necessárias que fossem, porque elas tornariam tudo real.
— Não…
— Eu sei. Não vou tentar aparecer no funeral nem visitar por enquanto.
— Ok. Preciso ir agora, mas volto quando tiver mais informações sobre o que vamos fazer agora.
Provavelmente o mesmo que faríamos se isso não tivesse acontecido, Sophie pensou. A diretoria simplesmente vai dizer que o show deve continuar e aí teremos de fazer isso, não importa o quão difícil seja.
— Tá bem. Se cuida.
— Você também.
Sophie desligou a chamada e afundou no sofá, segurando a cabeça entre as mãos. Aquilo era demais.
Tinha muita coisa acontecendo ao mesmo tempo e ela simplesmente não conseguia processar tudo aquilo. Não conseguia sentir a dor que ela sabia que estaria sentindo em qualquer outro momento porque sua cabeça estava muito cheia e ela não estava se permitindo parar para absorver aquilo.
E continuaria sem se permitir.
Foi para o quarto e começou a colocar peças de roupa dentro de uma caixa para a mudança.
Deus do céu, para onde iria? Seu plano inicial era ficar com Andrea, mas agora isso era impossível, então achava que possivelmente ficaria num alojamento do MI6.
Menos de cinco minutos depois de começar a arrumar suas coisas, ela ouviu uma batida na porta do apartamento. Quando se aproximou e olhou pelo olho mágico, viu que era Benedict.
— Vá embora. — ela disse, um pouco mais ríspida do que normalmente seria. Aquele momento só a lembrava de suas razões para ter terminado com ele e do quão acertada tinha sido aquela decisão. Sim, estava doendo, mas era melhor assim. — Eu não quero te ver agora.
— Eu sei que não estamos mais juntos, mas eu precisava passar aqui pra te ver. Eu vi sobre sua... — ele hesitou um momento — professora no jornal. Queria saber como você estava.
— Ainda mais uma razão para você não estar aqui comigo. Você não percebe? Isso aconteceu por minha causa.
— Soph, eu tenho certeza que não é sua culpa. — Exceto que é e eles disseram isso com todas as letras, Sophie pensou. — Me deixa entrar, por favor. Você não precisa falar nada, mas eu quero te ver e ter certeza de que você está bem.
Ela respirou fundo, tirou a corrente e abriu a porta, encontrando um Benedict aparentando estar ainda mais preocupado (e cansado) do que parecia pelo olho mágico.
A verdade é que ele tinha ido na manhã anterior para o ateliê, ficou bêbado, dormiu a tarde inteira num sofá e passou a noite em claro pintando um 15º quadro para a exposição (que já estava concluída), mas resolveu ver as notícias antes de ir para casa dormir. Assim que viu a notícia sobre a professora de Sophie e os repórteres dizendo que ela era uma agente de segurança, Benedict não teve dúvidas que ela não era exatamente o que tinha apresentado naquele dia.
— Oi. — ele disse, entrando no apartamento e fechando a porta atrás de si.
— Oi. — ela disse, se abraçando e dando dois passos para trás. Não sabia o que mais podia fazer para evitar que se jogasse em cima dele. Não eram mais um casal, mas ela estava muito acostumada a tê-lo por perto.
— Sou eu. — ele disse, dando um passo à frente. — Pode baixar a guarda. Não tem que me dizer nada, mas pode relaxar. Eu só vim aqui para ver como você estava. — Sophie mordeu o lábio inferior. — Não vou tentar nada, mas eu te amo e queria ter certeza de que você estava bem.
— Bom, eu estou bem. — Sophie disse, soltando os braços.
— Certeza?
— Sim.
— Então se eu te abraçar, você não vai começar a chorar, vai? — ele deu um passinho para a frente.
— É assim que você planeja testar se eu estou bem?
— Não acha que é um bom teste? Se você não começar a chorar, eu vou embora.
— Ok. — ela se aproximou um pouco e ele a abraçou com força. E então começou a passar a mão pelos seus cabelos, de um jeito que só Andrea tinha feito antes. Sim, outras pessoas já tinham mexido no seu cabelo, mas ninguém nunca a tinha confortado fora ela e agora Benedict. — Isso já é trapaça.
Ele sorriu.
— Eu estou tentando te consolar e esse é comprovadamente um dos jeitos mais eficazes de fazer isso.
— Você disse que era só um abraço.
— Nunca disse que era só um abraço nem que não estava tentando te consolar. Sinto muito pelo que aconteceu. — ele passou os dedos entre seus cabelos de novo e Sophie sentiu parte de sua resistência indo embora. — Você não precisa ser forte na minha frente.
Ela simplesmente se agarrou com mais força a ele e sentiu as lágrimas estúpidas escorrendo de seus olhos. Benedict a apertou com mais força contra o seu peito, tentando consolá-la. Não importava que soubesse que seu coração se partiria mais uma vez quando fosse embora, ela precisava de alguém com quem contar. Precisava de alguém que entendesse ao menos um pouco o que estava acontecendo, e ele tinha certeza de que Posy não fazia ideia de que Sophie conhecia aquela mulher.
Então, por enquanto, só ficaria ali, abraçado com ela, tentando fazer com que ela se sentisse melhor.
— Foi ela que me colocou nesse mundo, sabe? — Sophie disse, depois de um bom tempo em silêncio. — Ela me encontrou um dia numa praça e me chamou para ir numa missão com ela. Eu tinha 18 anos. É difícil para mim pensar que, na próxima missão em que eu sair, ela não vai estar lá a uma chamada no comunicador de distância. No momento, não sei nem se faz sentido continuar nesse trabalho. Eu sou a razão pela qual ela não está mais aqui e eles disseram isso com todas as palavras. E agora não posso nem ir no enterro da mulher que fez com que eu me tornasse a pessoa que sou hoje.
— O que você diria se fosse fazer um discurso para ela? — Benedict perguntou.
Ela parou para pensar um momento.
— Andrea era a pessoa mais maravilhosa que eu já conheci. Ela viu em mim um potencial que ninguém nunca tinha visto, nem mesmo eu, e cometeu, para citar ela, “a maior loucura e o maior acerto” da sua carreira no dia em que me conheceu. Eu não estaria aqui hoje se não fosse por ela. Não faço ideia de onde estaria, para falar a verdade.
— Continue.
Ela engoliu em seco.
— Obrigada por me acolher quando mais ninguém fez isso e obrigada por ser minha família no momento em que eu estava mais sozinha. Obrigada por ter sido minha mãe, mesmo que eu não tenha pedido que você ocupasse esse lugar, e obrigada por ter me deixado ser sua filha.
Benedict apenas continuou a abraçando por alguns momentos, até que ela o soltou e os dois sentaram no sofá.
— Como você está?
— Bem mal, mas é mais difícil quando se é mais novo. E eu imagino que você saiba bem disso.
— Na verdade, não. Eu perdi meu pai aos 17 anos, mas eu sempre soube que não ficaria sozinho. Que, mesmo que ele tivesse partido e que eu fosse sentir saudades dele para sempre, eu não estaria sozinho porque ainda tinha minha mãe e meus irmãos. Não tenho ideia de como deve ter sido desesperador para você perder seu pai naquela época.
— Foi no verão antes de eu começar o ensino médio. E tudo o que eu conseguia pensar nos dois dias antes de lerem o testamento dele é que eu ia para a rua. Pelo menos ele deu um jeito de fazer Araminta prometer que tomaria conta de mim, mesmo que de uma maneira torta. Agora eu já posso me virar sozinha, mas ainda assim dói e eu estou meio perdida.
— O que é completamente justificável.
— É, mas, neste momento, eu não sei nem se faz sentido continuar no MI6. Eu já venho pensando em sair há quase um ano, mas agora parece mais definitivo. No sentido de que eu sei que é isso que eu tenho que fazer quando acabar com essa missão.
— E o que você pensa em fazer?
— Eu não sei ainda. O pior é que é só isso que eu sei fazer, Benedict. Eu só sei mentir e me esconder em cantos escuros e escutar conversas. Ninguém nunca me notou, nunca me deu atenção de verdade e é por isso que eu sou uma espiã tão boa. — ela riu baixinho. — Pronto, falei. A verdade é que eu posso dizer o quanto quiser que sou uma funcionária secreta do governo, mas eu sou uma espiã.
— Meu bem…
— É sério.
— Eu sei. Mas agora eu também sei que não era assim que você sempre tinha imaginado sua vida. O que você queria ser, antes de tudo isso? — ele perguntou, mesmo já sabendo a resposta. Quase sempre que estava com ela, lembrava disso e pensava em como o destino era algo engraçado. Deviam ter se conhecido na faculdade, se as coisas tivessem seguido os planos traçados pelos dois, mas não tinham, então se conheceram quase uma década mais tarde.
— Princesa astronauta. — os dois riram. — Eu queria fazer faculdade de história da arte e francês, como tinha dito, mas nunca pensei em dar aulas. Eu tinha pensado em fazer pesquisa na área da arte, mas acho que, atualmente, iria querer fazer algo mais voltado pro francês.
— Como o que?
— Hm… sabe uma coisa que eu acho que poderia gostar?
— O que?
— De ser tradutora. Eu já fiz um pouco disso e a Kate tinha sugerido esse posto pra mim quando fui pedir um emprego. Eu descartei quase na mesma hora porque não servia aos meus propósitos, mas é algo que eu realmente consideraria fazer.
— Não servia aos seus propósitos? — ele estranhou.
Sophie viu que tinha falado demais, mas decidiu ser honesta.
— Eu estava na Bridgerton a trabalho. E não, não tinha a ver com ninguém da sua família e nem com a empresa propriamente dita, pode relaxar.
Ele apenas a encarou por um momento.
— Acho que eu tenho meio milhão de perguntas se formando na minha cabeça agora.
— E eu prometo que vou responder todas quando tudo acabar.
— Então não agora.
— Não agora. — ela confirmou. — É melhor que você não saiba por enquanto, mas quando as coisas se resolverem, eu vou te contar. — ele suspirou e simplesmente olhou para ela. — Nossa, você realmente não acha que eu sou doida?
Ele achou graça.
— Eu devia?
— Provavelmente. Qualquer outra pessoa já teria saído correndo a essa altura.
— Não vou desistir de você ou de nós tão fácil assim. Vou te dar todo o tempo que precisar, mas peço que me deixe saber quando o tempo tiver acabado.
— Eu direi.
Benedict olhou para o relógio rapidamente.
— Eu preciso ir. — ele disse, já se levantando. — Vai ficar bem sozinha?
— Vou sim. — Sophie se levantou também e o acompanhou até a porta. — Obrigada por ter vindo.
— Achei que você pudesse precisar de um amigo.
— Eu precisava — de você, não de qualquer um, ela pensou. E então lembrou de algo. — Ei, não é hoje a sua reunião com a diretora da galeria do museu?
— É hoje sim. Daqui a uma hora.
— Você já vai direto daqui, então?
— Sim.
— Espera um pouquinho. — ela parou de frente para ele e começou a encará-lo.
— Soph?
— Shhhh. Estou pensando como resolver a situação do seu cabelo.
— Meu cabelo tem uma situação? — ele perguntou, divertido.
— Ele está denunciando que você dormiu no sofá.
— Como…
— Eu sabia que você tinha dormido no sofá no segundo em que você passou pela porta. Acredite, eu sou mais observadora do que pareço. — ela então passou a mão pelo cabelo dele repetidas vezes, abaixando um redemoinho. — Pronto, está apresentável.
— Não estava antes?
— Não. — ela mordeu o lábio inferior para conter o sorriso, e então ajeitou a gola da jaqueta dele. — Agora está completamente apresentável.
Ele sorriu.
— Bom saber.
O momento parecia tão natural que ele quase foi se inclinando para beijá-la, mas lembrou-se que estava ali como seu amigo e não como seu namorado, e que naquele momento ela precisava muito mais do primeiro do que do segundo. Então deu-lhe um beijo no rosto.
— Tchau.
— Tchau.
Então ele se foi e, mais uma vez, Sophie se viu sozinha. Era bom ter falado com ele e ter tido aquele apoio, mesmo sabendo que a dor continuaria a mesma agora que ele tinha ido embora.
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