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7 Capítulo 06
Notas iniciais
— Feliz ano novo, Benedict. — Sophie disse e então tomou um gole da sua cerveja. Estava numa praia no norte da França, completamente sozinha, bebendo para comemorar a passagem do ano e o início de um novo.
Não era o primeiro ano novo que ela passava sozinha e com certeza não seria o último, mas, por alguma razão, nesse ano estar sozinha era estranho, de uma forma que não tinha sido nos anos anteriores.
Podia ser porque tinha passado o Natal com Andrea, Conrad e Daisy, a filha dele, e agora imaginava que podia estar com os três na sala da casa de Andrea em Londres, se empanturrando e bebendo e contando histórias do ano que tinha se passado. Podia ser porque nos anos em que passava a data sozinha preferia dormir a tentar comemorar. Podia ser porque não achava que devia estar na França, já que sua missão principal no momento era o Sturoyal e eles estavam cada vez mais focados na Inglaterra. Podia ser porque sua única amiga no país, Vivienne, estava passando o ano novo com seus pais e não bebendo numa praia com ela. E, por último, mas não menos importante, podia ser porque tinha pensado em Benedict e onde ele poderia estar.
Ela acreditava que ele estaria com a família porque ele parecia muito ligado a eles. Nas poucas horas em que ficaram juntos, tinha falado da mãe, do irmão, da cunhada e da irmã, que era a sua maior apoiadora e pior pesadelo, já que nunca lhe dava mais que 20 minutos de paz por vez.
Todo o pensamento sobre família e festas de fim de ano no geral a deixava triste. Mesmo quando seu pai era vivo, nunca tinha tido festas de final de ano lotadas de parentes, nem uma irmã com quem implicar. Posy tinha ocupado esse lugar em sua vida até certo ponto, mas não completamente porque jamais seria capaz de desobedecer uma ordem direta da mãe.
Sophie refletia no ano que tinha se passado e se sentia satisfeita. Tinha tido sua cota de missões bem sucedidas (apesar do fiasco que tinha sido o Incidente do Big Ben, que ainda a fazia tremer de raiva), saído algumas vezes com Vivienne e se divertido jogando buraco com Andrea e Conrad dentro da van.
Entretanto, sua noite favorita do ano tinha sido a que passara com Benedict.
Agora, ela se arrependia de ter saído tão cedo, apesar de saber que foi o melhor. Imagina como eu estaria agora?, ela pensou. Se só ficando com ele uma vez eu já estou desejando feliz ano novo pro oceano e pensando nele, imagina quão pior seria se tivéssemos passado o domingo juntos?
Sophie simplesmente terminou de tomar a sua cerveja enquanto observava algumas pessoas celebrarem juntas apenas a alguns metros de onde estava. Como não tinha vontade de se juntar a elas, nem de continuar sozinha na praia, simplesmente se levantou e voltou para o hotel onde estava ficando. De manhã bem cedo iria para um restaurante da cidadezinha onde estava, onde um apoiador dos Stuarts se encontraria com o dono de um banco francês e, apesar de achar que não seria nada (afinal, o apoiador também era dono de um banco e eles eram amigos de longa data), tinha de estar lá. Ela estava frustrada só de pensar na manhã seguinte. Toda a ação estava acontecendo na Inglaterra, dado que já tinham conseguido o apoio internacional suficiente e ainda mais apoio francês deixaria qualquer britânico com um pé atrás, mas estava presa à França por ser uma das poucas agentes a falar francês.
Ela respirou fundo ao chegar no hotel, jogando a garrafa numa lata de lixo próxima. Entrou no quarto, tomou um banho quente e se preparou para ir dormir.
— Feliz ano novo, Sophie. — ela sussurrou para si mesma pouco antes de fechar os olhos.
***
Meses depois, em agosto, Sophie achava que podia considerar que o ano estava indo bem, mas a passos muito lentos. A reunião que acompanhou na manhã do ano novo não tinha dado em nada, já que eles só estavam falando sobre suas famílias e como tinham passado o final do ano e blá blá blá. Nada que fosse relevante para a segurança nacional do Reino Unido. Eles citaram a possibilidade de subornar um deputado para votar uma lei que reduziria o pagamento dos impostos pelas empresas (Sophie quase revirou os olhos ao ouvir isso), mas o político corrupto em questão era problema da França, não dela ou do MI6.
Ainda teve de acompanhar esse mesmo banqueiro por mais um mês, até que finalmente convenceu os seus superiores do que já sabia há bastante tempo: não conseguiria mais nenhuma informação relacionada ao Sturoyal dele. Tinha descoberto algumas outras coisas que encaminhara ao serviço de inteligência francês. A verdade é que aquele banqueiro estava envolvido em muita coisa errada. Além do Sturoyal e do suborno ao político, também estava envolvido num esquema de tráfico humano e, por mais revoltada que estivesse e o quanto quisesse fazer aquele homem horrível pagar pelos seus crimes, estava fora de sua jurisdição porque nenhum cidadão do Reino Unido tinha sido vítima desse esquema. Ela entregou todas as provas e gravações que tinha, mas o serviço de inteligência francês disse que não tinha ninguém para dispensar e apurar tudo isso.
Então, como não estava com mais nenhum alvo oficial, perguntou se poderia assumir o caso. Houve um tanto de negociação entre as duas agências de inteligência, mas decidiu-se que Sophie teria jurisdição para esta missão em específico, e que só teria acesso parcial ao banco de dados, afinal ainda era agente do MI6.
Ela ficou até junho atrás do banqueiro, mas, pelo menos, conseguiu fazer com que ele fosse preso e descobrissem o envolvimento dele com quase tudo, exceto com o Sturoyal, porque não os interessava que aquilo fosse descoberto naquele momento. No dia em que tudo foi concluído, chamou Vivienne para jantar com ela e comemorar. Como a amiga acreditava que ela era designer gráfica de uma revista britânica, Sophie disse que tinha finalmente terminado uma arte muito difícil e que isso era motivo de comemoração. Recebeu os parabéns de Andrea e Conrad, que disseram que queriam comemorar com ela o resultado de meses de trabalho duro, mas os dois estavam em Londres, então isso teria de esperar um pouco.
— Você viu que Reynaud Degarmo foi preso? — Vivienne comentou no jantar.
— Quem? — Sophie se fez de desentendida.
— O dono do banco Degarmo. Foi tudo o que passou no jornal hoje. Ele estava envolvido de esquemas de corrupção passiva até tráfico humano.
— Minha nossa. — ela fingiu choque, como se não soubesse de tudo aquilo há cinco meses e como se não tivesse chamado a amiga para jantar para comemorar o fato de que ele tinha sido preso.
— Um grandessíssimo filho da puta. Você não tem noção de quão revoltada eu fiquei vendo as notícias.
— Eu imagino. — ela disse, já provando um pouco mais do seu vinho. Queria mudar de assunto logo. — Quer comer agora? Eu testei uma receita nova de lasanha.
— Por que tentar mudar o que já era perfeito?
— Porque podia ficar ainda melhor.
— Nossa, como é ruim ser sua cobaia. — Vivienne disse, ironicamente, já se levantando do sofá e indo para a cozinha, enquanto Sophie agradecia do foco dela ter sido tirado daquele tópico.
Agora, dois meses depois, sabia os efeitos que isso tinha provocado no seu alvo principal: o Sturoyal tinha perdido uma grande fonte de financiamento e agora procuravam por outra.
Então, estava numa festa em Paris onde seriam distribuídos prêmios a vários empresários por suas marcas terem sido as mais lembradas entre os parisienses. Era uma grande bobagem, mas estava previsto que Lucille Bourreau, uma outra prima dos Stuart, casada com um grande empresário francês, estivesse lá para se reunir com outros possíveis investidores.
E lá estava Sophie, misturada entre os participantes, mas, desta vez, como uma garçonete. Não foi difícil se infiltrar, já que tinham interceptado a lista de pessoas que iriam trabalhar lá naquela noite e adicionado Jeanette Gage, uma loira, também conhecida como Sophie de peruca e lentes verdes.
Estava tudo correndo bem, e ela tinha conseguido colocar uma escuta na mesa de Lucille quando parou lá para deixar algumas bebidas. Estava voltando para a cozinha quando uma pessoa esbarrou nela. Para a sua sorte, a bandeja estava vazia, então quando a bateu contra o peito, não sujou a camisa. O homem que tinha esbarrado nela, a segurou pelos cotovelos, impedindo que ela caísse.
— Pardon, monsieur. — ela disse, impulsivamente, ainda sem olhar para ele.
— Eu que peço desculpas, afinal eu esbarrei em você. — ele disse, e só então foi que Sophie olhou para ele.
E reconheceu o irmão de Benedict.
Por que ela tinha que ser tão boa com rostos? Só tinha visto o homem de relance umas duas vezes naquela noite e conseguiu reconhecê-lo, mesmo que agora ele estivesse completamente careca, parecendo um pouco abatido e com olheiras marcando o rosto.
E que porra ele estava fazendo ali?
Ela conseguia fingir não estar chocada de encontrá-lo ali, mas ele a encarou por alguns momentos antes de soltar seus cotovelos.
Como se a estivesse reconhecendo.
Me fodi, ela pensou.
— Me desculpe a pergunta, mas já nos conhecemos? — ele perguntou, então não tinha certeza de quem ela era. Ufa. — Você me parece terrivelmente familiar.
— Eu te servi um canapé mais cedo. — Sophie mentiu, forçando um sotaque francês. Não saberia dizer se ele realmente tinha comido alguma coisa antes, mas achava que nem ele saberia responder a pergunta, de tão distraído que estava.
— Ah, Deus. — ele passou a mão pelo rosto. — Sinto muito, minha cabeça está em outro lugar. Minha filha está doente e minha esposa acabou ficando sozinha com ela essa semana.
— E você está aqui enquanto queria estar lá.
— Basicamente isso. Tive que decidir entre ser um pai ruim ou um CEO ruim essa semana e infelizmente o primeiro venceu por necessidade. Pra completar, ontem foi o aniversário dela e… — só então foi que ele percebeu que ainda estava falando e que tinha revelado um tanto de sua vida para aquela mulher. — Novamente, desculpe. Você não deve querer ouvir um estranho reclamando de seus problemas em uma festa, principalmente se você não está com tempo para isso.
— Não precisa pedir desculpas. — Sophie disse, ainda forçando um sotaque. — Às vezes só precisamos desabafar.
— Obrigado por escutar. Tenha um bom trabalho hoje à noite. — ele sorriu e aquele sorriso lhe lembrou tanto de Benedict que seu coração doeu um pouco.
Ela não entendia por que lembrar dele ainda doía tanto. Já tinha tido vários casos de uma noite, mas aquele tinha ficado com ela, mesmo já fazendo mais de seis meses desde aquela noite.
— Obrigada.
Eles se afastaram e, inferno, agora ela passaria a noite com Benedict na cabeça.
Não que ele fosse o pior pensamento de todos os tempos, mas não era algo que ela quisesse pensar naquele momento. Ainda assim, não tinha como parar o seu pensamento. Será que ele está aqui também?, ela pensava, enquanto voltava para a cozinha, um pouco eufórica e um pouco apreensiva. Por mais que eu queira reencontrá-lo, agora seria uma péssima hora. Por que eu escolhi usar lentes justo hoje?
Apesar de ter passado a noite inteira na expectativa, não encontrou Benedict lá. Seu irmão saiu cedo da festa, mas ela tinha mais o que observar fora o irmão de uma paixão platônica, então não conseguiu ver quem estava com ele, mas, de alguma forma, sabia que não era Benedict.
Sabia que deveria estar aliviada por seu disfarce não ter sido arruinado, então por que não sentia alívio, apenas frustração?
***
Em outubro, Sophie decidiu que precisava sair da França. Os Stuart tinham desistido de buscar mais aliados lá e agora estavam focados exclusivamente no Reino Unido. Andrea tinha ido se encontrar com ela para discutirem aquilo, o que desanimou Sophie um pouco. Quer dizer, se fosse para ela voltar para casa, a reunião já aconteceria lá, certo?
— Como as coisas estão indo? — Andrea perguntou, se servindo de uma xícara de café. Estavam sentadas na cozinha de Sophie, onde podiam conversar livremente, sem o risco de alguém entreouvir, e teriam essa conversa enquanto tomavam o café da manhã.
— Bem paradas nos últimos tempos. — Sophie disse, já cortando uma fatia de bolo. — Acho que eles realmente desistiram de buscar apoio aqui. Inclusive, eu nem entendo por que passaram tanto tempo aqui.
— Acabou se tornando um pouco como a terra deles. Já fazem mais de 300 anos desde o Decreto de Estabelecimento, então, apesar de terem mantido raízes na Inglaterra e de terem se mudado de volta há 100 anos, ainda há muitas conexões com pessoas poderosas.
— Conexões que não podem ser ignoradas quando se planeja um golpe. — ela concluiu.
— Exatamente. — ambas sabiam que aquilo era apenas papo furado, então Andrea decidiu ir direto ao ponto e discutir o que a tinha levado até ali. — O que você acha de voltar para Londres?
O coração de Sophie acelerou. A resposta simples seria “SIM, POR FAVOR”, mas ela sabia que, mesmo estando com a pessoa mais próxima de uma família que tinha, Andrea ainda estava ali como representante oficial do MI6, então tinha que se portar com uma postura formal.
— Eu já disse algumas vezes e repito: se tiver alguma oportunidade de ir para Londres, eu adoraria voltar para lá. Ou pelo menos para algum lugar da Inglaterra.
— Como você mesma observou pela falta de ação aqui pelos últimos meses, o Sturoyal tem se focado muito no Reino Unido e acreditamos que eles estão se preparando para um golpe.
Sophie estranhou a última informação.
— Mas já? Pensei que James queria assegurar que tivesse uma rainha antes de tentar tomar o trono.
— James está noivo.
Ela engasgou com o café.
— O que?
— James Stuart está noivo. — Andrea repetiu.
— Por que eu não sabia disso até agora? Quer dizer, eu não sabia nem que ele estava namorando.
— Porque ele foi irritantemente discreto sobre o relacionamento. Nós já tínhamos percebido que ele estava com alguém, mas, com toda a discrição que ele estava impondo, imaginávamos que fosse alguém que ele não considerava digna para o posto de consorte. Aparentemente, ou ele mudou de ideia quanto à mulher, ou esse foi seu plano desde o princípio: fazer com que acreditássemos que não era nada sério.
— Já sabem quem é a noiva?
Andrea respirou fundo.
— Rosamund Reiling.
Se não fosse pelos anos e anos de treinamento, Sophie tinha certeza que não conseguiria não gritar “ROSAMUND REILING?”, mas conseguiu evitar. Tinha um perfil privado no instagram, com uma foto sua de costas, só para poder checar uma coisinha ou outra e acompanhar as pessoas que conhecia antes. Rosamund era youtuber (e relativamente influente) e provavelmente a pessoa que conhecia que mais compartilhava as coisas da sua vida, então sabia que ela estava namorando com um cara sem Instagram e cujo rosto ela não mostrava, mas jamais imaginaria que fosse James.
Inferno, ela tinha até feito um vídeo com ele a maquiando, mas usando uma máscara de rosto. Sophie tinha visto o vídeo num dia que estava muito entediada, mas não tinha conseguido identificá-lo porque usava uma máscara de V de Vingança. E então lembrou dos comentários do vídeo, em que várias pessoas o chamavam de “reizinho que sabe maquiar”, todos com a curtida de Rosamund. Eu sei que é só uma grande besteira e uma forma de demonstrar afeto, mas isso vai fazer muito mais fácil para eles. Honestamente, puta que pariu, Sophie pensou.
— Rosamund Reiling. — ela simplesmente repetiu, lentamente. Estava chocada demais para dizer qualquer outra coisa.
— Eu sei. Sua queridíssima meia-irmã está tentando se tornar a rainha da Inglaterra.
— Porra.
Era a única palavra que Sophie conseguia achar para descrever a situação.
— E nós estávamos pensando em usar sua proximidade para nos ajudar a conseguir mais informações.
— Certo. Mas vocês tem que saber que eu não sei quão útil eu poderia ser. Desde a morte do meu pai, se falei com ela três vezes foi muito.
— Sabemos disso, mas o nosso foco não é a Rosamund. Recebemos algumas informações de que a mãe dela pode estar usando dinheiro da empresa em que é acionista para financiar o Sturoyal.
— Mas não tem provas.
— Não. Então o que nós queríamos é que você conseguisse um emprego na empresa dela para tentar descobrir algo. Se conseguir acesso à casa delas, é um bônus.
— Um trabalho infiltrado, então. — Sophie concluiu.
— Exato.
Andrea sabia que ela tinha vontade de fazer um trabalho do tipo de novo desde que terminou o anterior, 3 anos antes, então a resposta que recebeu foi a que estava esperando.
— Quando eu começo?
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