Se eu estivesse sonhando já teria acordado. É assim que funciona comigo. O vilão aparece, eu congelo de medo e acordo.


Sento no chão do meu quarto. Fico atrás da porta, segurando-a com meu peso, só para garantir que nada vá entrar por aqui. Acho que sentar não é bem a palavra certa. Acho que eu devia usar desmoronar.


Sempre pensei que eu fosse corajosa. Mas talvez todo mundo pense isso de si mesmo... até que dá de cara com um monstro em sua própria cozinha. Algumas vezes paraliso com o medo, tive sorte de reagir dessa vez. Mesmo que minha reação tenha sido correr, foi melhor do que nada.


Encosto a orelha na porta, tento escutar qualquer vestígio de que aquela coisa possa estar por perto. O silêncio é total. Passando a adrenalina do momento, começo a sentir dores em meus pés. Sei o que é, tenho medo de olhar. Pode ser que algum pedaço de azulejo ainda esteja grudado nele, ou tenha entrado na minha pele enquanto eu corria desesperadamente para meu quarto.


Talvez eu esteja louca. Talvez algo no meu cérebro não esteja funcionando direito.


Meus pés já sujaram o carpete do meu quarto, agora tem duas bolas vermelhas rondando onde meus pés estão. Como vou sair daqui? Não me preocupo tanto com a dor. É o menor dos problemas agora. Tenho que arranjar um jeito de levantar e sair daqui. Talvez eu consiga quebrar a janela e assim pular. É, estou no segundo andar, mas não tenho muito a perder já que não tem como meus pés ficarem piores.


É o que digo para mim mesma, só para ter coragem de seguir com esse plano.


Com a primeira tentativa de levantar, percebo que meu corpo está pesado. E não é pesado como quando estou cansada, é como se alguém estivesse me mantendo presa no chão. Não posso levantar. Jogo-me no chão e começo a me arrastar em direção de minha cama. Fico feliz por, pelo menos, não estar colada ao chão. A velocidade com que me movo é tão lenta que penso em desistir umas três vezes antes de chegar à cama. Apóio meus braços na mesma e uso a força de ambos para erguer meu corpo. É mais fácil do que imaginei que seria. Fico deitada de bruços por uns segundos, comemorando mentalmente essa pequena vitória. Mas não dura muito.


A porta do meu quarto se abre. Escuto o grito da coisa outra vez. Parece continuar agonizando. A cada segundo o quarto fica mais escuro – como se já não estivesse escuro o bastante. Só tenho tempo de olhar para trás antes de perder a consciência.


O vento sopra violentamente lá fora, mas tudo bem. Eu estou no conforto de minha cama. Segura e quente.


Não demora para que minha mente traga de volta os últimos acontecimentos. Abro os olhos e ponho-me sentada rapidamente. Não está escuro, o que é um alívio, mas a luz cinza voltou. Está frio outra vez. Eu continuo sozinha e, talvez, delirando.


Meus pés não doem mais, o que faz passar pela minha cabeça que a alucinação acabou e eu finalmente estou acordada. Quero muito acreditar nisso, mas não posso ficar me enganando desse modo. Ainda estou com minha camisola, estou com meu casaco de moletom preto e velho, ainda sinto frio e ainda estou sozinha. Cruzo as pernas e me inclino para olhar a sola do pé direito. Há várias cicatrizes, mas é como se já estivessem curadas. O pé esquerdo se encontra na mesma situação. Apalpo-os para ter certeza de que não tem nenhum pedaço de azulejo lá dentro, mas não há nada, nem sequer alguma dor. Quando tempo fiquei desmaiada?


Piso no chão e fico feliz por poder andar livremente dessa vez. Agora não tenho a necessidade de pular da janela, agora posso sair pela porta da frente. Hesito antes de abrir a porta de meu quarto, temendo que esteja trancada. Fecho-a logo depois de sair. Testo as mesmas portas da primeira vez, elas se encontram na mesma situação de antes. Desço as escadas. Pretendo passar pela sala e sair da casa, mas algo me incomoda. Eu realmente devo encontrar algum calçado. Ficar incapacitada para andar e, possivelmente, de correr, pode ser a pior coisa num momento como esse. Porém, meu quarto está vazio. O de minha mãe está escuro de mais para que eu tenha coragem de entrar lá.


Viro-me para a cozinha. Com sorte a lanterna ainda esteja embaixo do balcão. Isso facilitaria minha vida. Ando com cuidado até lá, com medo de que as coisas aconteçam como antes. Só então me lembro do barulho ensurdecedor que ouvi antes de ficar escuro. Isso continua sem explicação. Na verdade, tudo é um grande mistério para mim. Entro na cozinha e espero alguns segundos, mas nada acontece. Acho que é carta verde para que eu prossiga.


Abro todos os armários, não há nada neles. Gavetas se encontram vazias, exceto uma em que achei um pé-de-cabra. Não sei exatamente para o quê se usa algo assim, mas pode ser útil como arma. Subo de volta e vou direto ao quarto de minha mãe. Abro a porta e espio lá dentro. Poucos segundos e sei que é impossível que eu entre. Parece que algo me espera na escuridão, pronto para me pegar. Fecho a porta.


Como se já não fosse ruim o bastante, uma tremenda dor de cabeça me atinge. Agora já não sei se tremo de frio ou de medo.


Só quero encontrar alguém. Alguém precisa me dizer que vai ficar tudo bem, dizer que não estou sozinha nessa. Preciso de minha mãe, de Rachel, de Puck ou até de Finn. Qualquer um, por favor.


Sei que ninguém atenderá ao meu chamado mental. Tenho de ser esperta. Respiro fundo e sigo para meu quarto. A luz aqui é muito boa. Só então tenho a curiosidade de olhar para fora, mas o resultado não é muito animador. Há uma névoa tão densa que mal posso ver a rua que passa na frente de minha casa.


Isso prova que preciso de proteção. Não sei o que vou encontrar lá fora. De preferência, tenho de tirar essa camisola e vestir algo com que possa me movimentar bem. Meu armário continua aberto e o cabide ainda está lá dentro. Caminho até ele e miro a parede rosa. Começo chutando, mas não parece surtir muito efeito – ainda mais que estou sem calçados. Uso o pé-de-cabra, um tijolo começa a fraquejar. Muito tempo depois consigo ver uma pequena fresta. Isso me anima e volto a trabalhar com mais força.


Um pequeno pedaço da parede já está no chão, mas ainda não é o bastante. Avisto o armário de minha mãe do outro lado. Tem roupas lá, eu poderia simplesmente puxar. Mas outro objetivo já surgiu em minha mente. Preciso entrar lá e tentar achar mais algum tipo de arma, mas claro que não o farei se ele continuar imerso na escuridão. Desse modo a luz do meu quarto vai invadir o de minha mãe como se fosse uma grande janela.


Quando finalmente termino, poucos tijolos ainda estão entre meu armário e o de minha mãe. A luz já entra e posso ver a cama bem no centro, o cômodo, abajures e alguns livros. Há algo em cima da cama que faz sombra. Atravesso o armário, empurrando cabides com roupas para o lado e sento-me na cama de minha mãe. Meus braços doem pelo trabalho pesado. Nunca pensei que poderia derrubar uma parede, mas é incrível o que podemos fazer quando a situação nos pede. Ao meu lado se encontra um coturno marrom de cano baixo. É meu número. Há também um par de meias ao lado dela. Coloco ambos. É confortável.


Antes de seguir, tento achar algo anormal no quarto, mas tudo parece igual aos outros dias. Dou uma olhada embaixo da cama e acho uma caixa de papelão em que está escrito com uma caneta preta “Ellich”, a letra é igual a minha. Não sei o que quer dizer. Tenho dúvidas sobre se isso não seria invadir a privacidade de minha mãe, já que ela nunca me mostrara a tal caixa. Concluo que preciso de todo o tipo de informação. Puxo-a e levo junto comigo de volta ao meu quarto, cuidando para não esquecer o pé-de-cabra.


Sentada em minha cama começo a examinar a caixa. A letra sem dúvidas é minha. Abro-a. Dentro há fotos, várias fotos. Nelas eu e minha mãe sorrimos animadas, sempre há a mesma montanha ao fundo. Também tem fotos de uma barraca, fogueira, peixes. Então nós acampamos? Nunca acampei em minha vida, tenho certeza. Largo as fotos, não me preocupo em fechar ou esconder a caixa outra vez.


Assim que piso no corredor eu escuto um barulho. Um click que indica que alguma porta foi aberta. Sei muito bem que é a do banheiro. Seguro a maçaneta e tento escutar algum barulho antes de decidir entrar. Há ruídos de vento, mas nada mais. Decido abri-la.


Claro que não foi a melhor escolha.


O banheiro se encontra com manchas de sangue por todo o lado. O vaso, a pia, o Box, o chão e as paredes. Tudo o que costumava ser branco, agora é vermelho. Uma grande quantidade exagerada de moscas ronda em especial o lixo, mas claro que não vou olhar o que tem lá dentro. Por alguns segundos só fico ali segurando a maçaneta, registrando o que vejo. Nunca vi algo do tipo, achava que só era possível em filmes. Meu estômago começa a revirar e estou pronta para fechar a porta outra vez quando noto uma única coisa que não está suja de sangue.


Um pacote transparente no chão. Tem algo dentro que se parece com roupas. É o que preciso, outra vez. Cambaleio até o pacote, cuidando para só respirar pela boca. Assim que o pego, corro para fora do banheiro.


Dou uma tossida antes que consiga respirar direito, mas a imagem de todo aquele sangue não sai de minha cabeça. Largo minha arma improvisada e abro o pacote. Retiro a roupa de dentro e jogo o pacote no chão, já que a parte de baixo estava em contato com o chão e, por isso, ensangüentada.


Uma regata marrom e um short Jeans claro. É só o que tenho. Não preciso pensar muito para saber de onde elas me são familiares. Estavam nas fotos de “Ellich”. Por mais que não me ofereçam proteção, serão mais úteis do que minha camisola. Jogo minha camisola no chão e visto-as. Não resisto ao impulso de me olhar no espelho do corredor antes de ir. Realmente me pareço com a Quinn da foto. Exceto pelo cabelo desgrenhado, a sujeira pelo corpo e a evidente falta de humor.


Sem mais delongas, desço as escadas e saio pela porta da frente. Tenho medo de não poder voltar. Ando pela grama com cuidado enquanto fecho meu casaco. Tive que o manter, já que estava tremendo de frio. Vou penetrando na névoa e, assim que atravesso a rua, percebo que o verde está muito mais evidente. Não sei para onde vou, mas tenho certeza que qualquer lado que eu siga, vai acabar exatamente no mesmo lugar.


Seguro a ferramenta com as duas mãos na frente do meu corpo, pronta para atacar qualquer coisa que se mova. Alguns passos e a névoa já se dissipou quase totalmente. Olho para trás, me perguntando se ainda poderia ver minha casa, ou quem sabe, voltar.


Ela não está mais lá. Tem um grande rio até onde minha vista consegue alcançar, no lugar em que devia estar a rua que recém atravessei. Sempre fui uma boa nadadora, mas sei que agora... voltar já não é uma opção.