Ao me virar a floresta já está ali como se tivesse surgido por um truque de mágica. É escura e me parece um pouco úmida. Não é convidativa. Porém ela está totalmente livre da névoa, mesmo que uma pequena quantidade ainda ronde atrás de mim.

As árvores são muito altas, muitas delas são fracas e se juntam no topo, com seus galhos entrelaçados – como se precisassem do apoio uma da outra para se manter em pé. Outras parecem extremamente fortes e independentes. Nenhum raio de sol parece conseguir penetrar lá dentro. Não que haja sol agora, mas a luz cinza não entra, embora esteja claro o bastante para que eu veja o quanto ela é imensa.

O que eu vejo, na verdade, parece mais uma parede de árvores.

A minha única escolha é adentrar na floresta, já que sua extensão lateral não tem fim. Fico feliz por, pelo menos, não ser um lugar que eu possa ficar trancada. Ainda posso correr livremente pela floresta e minha roupa parece totalmente adequada para isso.

Com uma pontada de coragem, sigo em frente. Realmente é muito úmida, algumas árvores ficam tão perto uma da outra que tenho que desviar minha rota para conseguir continuar. “Minha rota” na verdade é só tentar seguir uma linha reta. Em alguns trechos a grama é alta e verde e em outros, são pedras e lama. Imagino como isso me incomodaria se não estivesse com meu coturno, assim nem se quer noto a breve mudança de solo.

Não sei por quanto tempo caminhei sem rumo. Em nenhum momento tive medo de me perder. Nada aqui faz sentido, mas o fato de que assim que sai de casa dei de cara com a floresta, mostra-me que eu não tinha outro rumo naquele momento. Espero que meu próximo destino chegue logo.

Não sinto fome, medo, frio, nem cansaço. O que é muito bom, comparando com a situação em que me encontrei dentro de minha casa.

Mais uns passos e a floresta começa a ceder. Os troncos ficam mais distantes uns dos outros, me dando mais visibilidade a cada passo. Agora posso ver o final, mas se eu devia sorrir para esse fato, o efeito foi o contrário. Ao longe, consigo ver uma montanha. É Ellich, é inconfundível. Porém é mais linda vendo daqui.

Minha cabeça parece dar voltas. Vou encontrar minha mãe? Se eu estive aqui com ela, tem chances de ela ainda estar aqui? A cada segundo novas perguntas parecem surgir em minha mente, mas a que mais me perturba é “por que eu estou aqui?” Não resisto ao impulso de correr para o campo aberto. Todos os sentimentos estão de volta.

A barraca continua no mesmo lugar. Perfeitamente armada, sua entrada aberta. O azul se destacando do resto do cenário. A fogueira feita com pedras e galhos se encontra logo a frente, ela está apagada. Corro até lá, mas a barraca está vazia.

- Mãe! – grito. – Eu estou aqui!

A única resposta que recebo é um rugido. Um urso. Talvez seja melhor que eu ande em silêncio.

Só então noto a pequena faixa do rio separando o lugar em dois. Do outro lado há névoa, então não consigo ver o que tem lá. Ele é calmo e o barulho da água é muito baixo, um pouco relaxante. Sei que é possível que tenhamos pescado aqueles peixes ali. E se eu quiser, posso atravessá-lo. As árvores me cercam por todos os lados – exceto onde está o rio. Posso ver a montanha à direita. Ela está tão longe que a breve ideia de ir até ela me parece absurda.

Consigo imaginar o porquê de termos escolhido esse lugar. É calmo e lindo. A floresta me da uma sensação de total isolação que, imagino, deve ter sido boa em algum momento. Todas as cores aqui são fortes; o azul do rio, o verde da grama rasa, o marrom dos troncos. É uma pena eu não estar me sentindo tão bem quanto aparentei estar nas fotos.

Caminho um pouco pela beira do rio, procurando um lugar em que ele seja mais raso, ou que haja pedras que facilitem a minha passagem. Já estou quase chegando ao começo da floresta quando paro. Tenho medo de que se eu entrar outra vez ele suma e eu fique andando pela floresta de novo. A parte logo em frente da barraca parece ser a mais rasa – embora isso seja mais um palpite — e tem algumas pedras em que posso subir quase em seu limite.

Antes de entrar, tiro meu coturno e as meias. Eles fizeram um papel tão bom até agora que o medo de estragá-los é enorme. Imagino que o caminho não teria sido tão fácil sem eles. Ergo ambos e começo a travessia.

A água é gelada. Posso sentir as pequenas pedras que cobrem o chão. Conforme caminho, o rio fica mais fundo. Quando a água já está na altura do meu umbigo, constato com certo alívio que ela começa a baixar. Mesmo que chegasse ao pescoço, eu não desistiria, mas é ótimo saber que metade do meu corpo continuará seco.

Agora estou com frio. Meu corpo todo treme em função das pernas e de minha bermuda que estão molhados. Uma boa parte do meu casaco também foi molhada, o que o faz ficar pesado. Só espero que seque logo. Olho para trás e, para minha surpresa, o outro lado se encontra absorto na névoa. Viro-me para frente e estou de cara com um cemitério.

Não havia cemitério em nenhuma das fotos. Ele não combina com o cenário, com a floresta. É como se eu tivesse sido transportada de novo para outro lugar. Mas sei que não, ainda vejo a montanha Ellich ao fundo.

Tiro o casaco e, aproveitando a parte que não foi molhada, seco minhas pernas e meus pés. Calço as meias e o coturno. Preferi ficar seca ao invés de manter o casaco, já que com o corpo molhado ele não estava fazendo muita diferença. Agora me sinto um pouco melhor, o ar já não bate gelado em meu corpo.

Respiro fundo antes de seguir para o cemitério. Uso o pé-de-cabra como um escudo na frente de meu corpo. Sei que nos filmes esse sempre é o momento em que as coisas dão errado.

Acho incrível como o cansaço ainda não apareceu. Sempre fui atlética, mas nesse caso, isso não conta. Não acho que em circunstâncias normais eu poderia enfrentar monstros, atravessar florestas e muito menos andar por um cemitério. E, claro, não derrubaria uma parede. Ou sou mais forte do que pensei ou... Ou nada disso é real. Eu bem que queria que tudo fosse um pesadelo, mas não consigo mais me convencer disso. Apesar de tudo parecer fora de minha realidade, os locais são muito reais... O que é bem diferente de meus sonhos normais onde nada parece de verdade.

Nenhuma lápide tem nome. Algumas estátuas de anjos estão posicionas pelo chão. A grama é amarela, faz um barulho estranho enquanto caminho, já que ela está seca. Não consigo ver o final do cemitério, apesar de não ter névoa aqui. Desisto de olhar para as lápides, já que não há nada nelas. Um curto tempo de caminhada pelo cemitério faz com que eu me acostume e o medo passe, assim eu acabo abaixando a guarda e andando com mais facilidade. Avisto uma árvore.

Ela se destaca do resto por aparentar ter vida no meio de tanta coisa morta. E também por ser a árvore que vi nos fundos do pátio de minha casa. Arrepio-me ao lembrar. Ando até ela, rezando mentalmente para que a coisa não apareça. A árvore é normal, não há nada de errado. Mas há uma lápide embaixo dela. Vejo algo escrito, abaixo-me para conseguir ler.

“Nora precisa ser livre” está escrito com uma caligrafia um tanto ruim, parece ter sido entalhado com uma pedra.

Não é uma boa coisa para se escrever em uma lápide, ou para se ler num cemitério quando se está sozinha. Viro-me pronta para ir embora, mas percebo que a lápide da frente também tem algo escrito. Aproximo-me dela.

Por uns segundos eu esqueço como respirar.

- Eu estou viva – murmuro quando o ar volta para meus pulmões. Agora estou com raiva, meus punhos se fecham e eu respiro fundo, só para meu grito sair com mais força – Eu não estou morta!

Chuto a lápide e ela facilmente se quebra ao meio. Não me importa se eu atrair o urso, nem se eu atrair outros tipos de coisas. Apesar de a lápide estar caída e quebrada, o que está escrito nela continua tão evidente que me causa arrepios.

“Lucy Q. Fabray”