Shatter Me
25 Estilhaço de Dor I
Notas iniciais
Lucy:
—Lucy. — Chamou o loiro, com a expressão assustada. O relógio na parede marcava três horas da manhã. Seus olhos azuis estavam claros e ressoavam com a escuridão matutina da noite.
—O que houve? — Termino por dizer, dormente ainda pelo sono.
—Não paro de ter um sonho. — Confessa e não compreendo.
— O que você anda sonhando?
—Morte. Sangue e ruína. Dor. — Ele diz, inexato. Seus olhos parecem reviver seus sonhos nesse momento. — Meu irmão morrendo em meus braços e James se atirando para a morte, irado. A destruição iminente que parece me assolar.
—Sting, querido. — Digo, puxando-o para mim. Ele simplesmente respira fundo, aspirando o ar de meu pescoço, havia dor na sua postura. — Foi só um sonho, por mais real que tenha sido. Nada irá nos acontecer.
—Como pode ter tanta certeza? — Seus olhos azuis pareciam dilatados à meia luz.
—Porque confio em você e em sua força. Duvido que deixe essas coisas acontecerem. — Murmurei, abraçando-o mais forte. — Vou te fazer um chá para ver se consegue dormir? Tudo bem?
—Acho que sim. — Sussurrou. — Obrigado, Lucy.
Desci e fiz o chá silenciosamente, pois a casa ainda estava imersa em sonhos doces. Caminhei com a bandeja até o nosso quarto apenas para não vê-lo mais na cama, sendo que esta havia sido deixada bagunçada e revirada.
—Sting? — Chamo, colocando as coisas no criado-mudo. Noto que a porta do banheiro da suíte está aberta e que a luz está acessa. Caminho silenciosamente até lá, vendo-o submerso em seus próprios pensamentos.
A agua cristalina atingiu seus lábios sem que ele mexe-se. A expressão estava serena, como a de uma criança que dorme no aconchego do colo de seus pais. E sem querer quebrar esse encanto, caminho até o loiro e ajoelho-me ao lado da banheira, tentando não aguçar seus sentidos anormais e acorda-lo.
Mirei-o, o corpo esticado na banheira de porcelana pesada. Havia uma essência vital nele, algo que atraia o olhar sem querer. A definição dos músculos, a suavidade dos contornos, as cicatrizes. Tudo era parte dele e de seu ser, fazia o que ele era hoje e o que poderia ser amanhã. O meu sempre amado, Sting.
Reparei em algo inusitado, algo que me preocupou subitamente. Havia uma tatuagem em seu braço, o direito em que não havia nenhuma marca ou cicatriz, o braço da espada. Em forma de um dragão emergindo do braço dele, ela subia, do pulso ao antebraço, com escamas negras e olhos vermelhos.
—Eu disse que era mais que um sonho. — Resoluta ele, calmamente. Seus olhos azuis estão fixos em mim e na minha expressão assustada. A incredulidade se agarra a minha voz:
—Como...?
—Consegui salvar Rogue no sonho, agora. — Confessou. — Essa marca se formou na minha pele durante o sonho. E agora está comigo.
—Sting isso não...
—Eu sei. — Ele sorri.
Continuo olhando-o pasma e sem que perceba, o Eucliffe levanta-se e me puxa para a água com ele, deixando-me de joelhos ao seu redor. Sua expressão é tão serena e calma que me pergunto o que realmente está se passando pela sua mente agora, se não está descontrolado.
Enquanto o encaro, sinto suas mãos molhadas segurarem as minhas, presas as bordas da banheira. Ele acena de leve, como que para me tirar do choque e une nossos lábios com avidez e cuidado, fazendo-me esquecer de lhe dar a sua bronca merecida. Arrasto minhas mãos, agora livres pela sua pele, indo do pescoço à clavícula e atravessando seus braços musculosos até a tatuagem, sensível ao meu toque suave. Senti-o se arrepiar ao perceber isso, e a sensação passou para mim quando este me puxou carinhosamente e dedilhou meu corpo para tirar as minhas peças de dormir.
E tudo acaba perdendo o sentindo ante a textura de seus lábios e o calor de seu corpo.
Rogue:
Nanami ainda estava adormecida quando acordei. Ela parecia ainda muito abatida.
Tanta coisa havia ocorrido e eu não havia sido um companheiro bom o suficiente para fazê-la ficar melhor. Eu sou uma droga como marido, eu sei.
—Rogue? — Sussurrou, quando abracei-lhe, culpado.
—Sim. — Sussurro de volta em seu ouvido.
—Tudo bem? — Perguntou, virando-se. Seus olhos tinham a estranha tonalidade azulada dos de Rufus.
—Claro. Porque não estaria? — Tento disfarçar o amargor de meus lábios, contudo, mal consigo.
—Você se preocupa demais com muitas coisas. — Disse a morena, sorrindo. — Com James, comigo e com o mundo todo, acredito. Descanse.
Olhei-a com cansaço e virei-me, para ver o teto que havia sido pintado com um céu coberto de imagens de dragões. Dragões e crianças draconianas, na verdade.
—Você deve estar certa. — Comecei — Mas vou ter que ir treinar na neve com Sting para esquecer.
—E aproveitar e ficar de cama também? — Ela riu, aconchegando-se mais perto de mim.
—Talvez.
Hector:
—A que devo a honra?
—Sei do seu aviso e resolvi ignora-lo, como quis. — Respondeu o ruivo em tom lascivo e confiante. — Espero que não me amaldiçoe.
—Ah não. Mas seja rápido, se quiser lutar, façamos isso agora mesmo.
—Se é o que deseja ficarei tentado, mas não é por isso que infringi sua norma, Hector. — E suspirou, cansado. — Suzumme disse-me suas ultimas palavras.
Pisco, alvoraçado por dentro:
—Como?
—Ele me pediu algo, antes de vir a falecer. Algo que não pude contar na presença de tantas pessoas. Algo seu.
Levantei-me, mirando a janela e a vista lá fora. A neve caia e cobria tudo, numa paz imensa e branca. Lembro que depois da morte de Jiemma, a cidade foi sede das maiores tempestades do reino em séculos. Lembro também de ficar preso numa casa isolada, com apenas Sting e Rogue, de vê-los abatidos e chorosos, e de não fazer nada para acalma-los, cego e com as minhas dores.
Agora neva.
Como se a beleza do mundo precisasse ficar escondida para que ela não ferisse a memória de Suzumme. Como se as lagrimas que choramos estivessem se revertido na mais pura manifestação de beleza da natureza.
—Algo meu? — Sussurro de volta, passando a mão pelo vidro embaçado.
—Sim. — Sinto-o me encarar avidamente. — Sei que eram muito próximos...
—Ele era o meu cunhado e meu irmão. Partilhamos batalhas e sangue. Dor e morte. Alegrias e despedidas. Partilhei meus últimos laços familiares com ele e sua digníssima família que me acolheu quando eu mais precisei. Devo parte da minha vida a ele e mesmo assim, jamais poderei pagar a minha dívida.
O ruivo permaneceu em silêncio por alguns minutos, suspirando:
—Sabe que sinto pela sua perda.
—Sei, realmente.
—Ele me disse que não importava se eu não entendesse, que lhe falasse as mesmas palavras. Você compreenderia.
Continuei virado para a janela e vi, distraidamente, Shiro com Kuro e Lili fazendo uma guerra de bolas de neves hedionda. Então vi que eles dois, os reis, treinavam a mais nova.
—Meu réquiem foi tocado, irmão. Prometi que me despediria de você, mas nos veremos num lugar melhor para fazermos isso. A informação que tenho lhe é muito mais preciosa. Sei quem ele é. Ambos. Apesar de não acreditar em meus próprios olhos. Um deles é o inimigo primordial de sua família, aquele que o fez ser o que são. O outro, todavia, era a perfeita imagem de Rogue, antônimos e sinônimos juntos num só. Não sei se estou realmente maluco, ou certo. Cuidado. Proteja-os. — A voz do mago SS da Sabertooth ressoou em meus ouvidos.
Olhei o ruivo por um instante, notando o último resquício da magia de meu cunhado ali. Sua voz, seu clamor, alertando-me:
—Entendeu? — Percebi que até em seus últimos momentos, ele não deixará uma informação fundamental como essa cair nas mãos da Fairy Tail.
—Sim. — Sorri, amargurado. — É a magia de Suzumme, não se preocupe.
—Ele não confiou em mim, mesmo no último instante.
—Era a maneira dele de te agradecer por suas lutas.
O mestre honorário da Fairy Tail olhou-me com seus cansados olhos negros. O mundo pareceu definhar um pouco mais nesse instante.
—Adeus, Gildarts. — Suspiro, virando-me para janela novamente. O ar quente a havia embaçado novamente.
—Adeus, Hector. — Ele desapareceu tão repentinamente quanto havia aparecido, uma hora antes. Um arrepio se apossou de meu corpo e apoiei-me na janela, notando como a neve caía mais intensamente nesse instante.
Proteja-os.
—Como?
Proteja-os!
—Ele está vindo atrás de mim, é? — Toquei a maldição e senti-a queimar só de imagina-los por perto. — Como conseguirá me pegar, então?
Cuidado.
—É hora de reunir o conselho. — Suspiro a mim mesmo, cansado.
Stan:
—Pare! — Gritei.
—Desculpe. — Ele sussurrou, quase inaudível antes meus gemidos e gritos. Seus olhos não estavam fixos em mim. — Isso é por você.
—Pare! Pare! Por favor, pare! — Grito, mais alto e mais forte do que jamais gritei.
Preso estou, num circulo de magia pintado com o próprio sangue do mago negro. Há tanta força nele que eu me esforçava ao máximo para gritar e tentar me soltar, sendo que ambos os esforços foram em vão.
Quando tudo fica escuro sinto-me sozinho e decepcionado. Então abri os olhos e tudo mudou. O teto era pintado com o mesmo azul do céu e as nuvens brancas e fofas pareciam fazer doces desenhos. A luz que entra pela janela banha o quarto bem arrumado e de moveis modestos, mas muito uteis e bem cuidados.
—Radios! Por mais quanto tempo ainda vai ficar dormindo? — Chamou uma voz feminina, em tom de brincadeira. Eu tentei me levantar e deparei-me com um peso sobre meu corpo. Era uma menina bonita, aquela. Seus cabelos loiros esparramados entre nós dois e o choque de senti-los novamente atordoou a mim.
—Micaela? — Chamei incerto, sem compreender o que estava acontecendo. Como?
—Mais cinco minutinhos, Raddy. — Murmurou, aconchegando-se ainda mais sob seu peito. O aroma dela se instalou forte e me fez segura-la, com a dor da lembrança latejando.
—Ei, nii-san. Ora de levantar. — Disse outra voz, agora masculina, do outro lado da porta. — A mãe já está lá embaixo, andando de um lado para outro.
—Certo. Já acordei. — Respondeu ele (ou eu), estranho a esse corpo.
Onde, realmente, estava? E o que estava acontecendo?
—Mi-chan. — Chamou-a, levantando-se. Não estava mais controlando seu corpo, apenas... Assistindo. — Se demorarmos mais, vamos ser arrastados pela orelha lá para baixo.
—Estou cansada, seu inconsequente. — Ela ralhou mal-humorada. — Terá de me carregar, então.
Eu a mirei, os seus e os meus olhos ardendo em desafio. Puxei-a com brutalidade para meus braços e a loira riu, agarrando-se a mim.
Desci as escadas com ela nos braços, rindo de seus grunhidos:
—Bom dia, todo mundo. — Gracejei, vendo Rogue sentado à mesa e nossa mãe ao seu lado, servindo-lhe café.
—Isso são horas de se acordar, vocês dois! — Ela brincou, querendo parecer irritada.
—Desculpe, senhora Cheney. — A loira disse, beijando o rosto dela e de meu irmão. — Radios me arrastou pelo mar a noite toda.
—Como sempre. — Falou o mais velho, calmamente. Sorri a isso:
—Ora! Ela gosta de ir lá. — Rebati e Rogue lançou-me um olhar enraivecido, por mentir novamente. — E falando de gostar de um lugar, quando é que vai para Fujima, Nii-san?
—Mais tarde. — Ele arrumou uma mexa do cabelo que caiu em seus olhos. — Vem comigo?
—E ficar entre você e a sua conquista? Não obrigado. Vou para a capital, dessa vez.
—Capital? — A loira perguntou, confusa.
—Tenho uma exposição para fazer. E vou tentar vender mais alguns quadros, também.
—Lembre-se que o quadro do papai é meu. — Rogue disse, beijando a mulher de quarenta e cinco anos e olhos vermelhos, para depois subir.
—Ele vai ficar na cidade! — Respondi a ele, quase gritando.
—Precisa que eu vá junto? — Micaela perguntou, olhando para minha mãe depois de me mirar.
—Não. Você tem coisas para fazer aqui e não posso arrasta-la para o outro lado do reino por puro egoísmo. Cuide da mãe, por mim. — Beijei sua testa antes de tomar um gole de suco e subir, para arrumar rapidamente minhas coisas para viajar.
Rogue estava fazendo o mesmo, com a mala pronta e o ar de decisão no olhar:
—Ei, onii-san. — Chamei com evidente nervosismo. — Vem aqui.
—O que foi? — Ele perguntou ansioso, olhando para a caixa negra na minha mão. — Não me diga que chegou a hora?
—Uma hora ia chegar, algum dia.
—Há quanto tempo você guarda isso mesmo?
—Dois anos. E desde o dia em que o comprei penso na maneira certa de dá-lo a ela. Nem mesmo agora, sei o que dizer.
—Se você a ama mesmo, as palavras vão vir, acredite. — Joguei a caixinha no ar e olhei-o. Ele me mostrou uma caixa muito parecida, de cor vermelha e um anel de pedras em formato de flor dentro. Era uma coisinha delicada, para uma mulher delicada. — Também estou nervoso.
—Que os deuses dragões nos desejem sorte. — Orei, tremendo um pouco.
—Sim, realmente. — E guardou-a no bolso da jaqueta, onde ficou imperceptível.
Ele deu tapinha nas minhas costas antes que eu descesse e olhasse Micaela. Seus olhos azuis estavam concentrados num livro e ela estava sentada no sofá, talvez esperando-me. Percebi que mamãe havia dispensado sua ajuda hoje e agradeci-a com um olhar de exasperado nervoso.
—Mi-chan. Teria um segundo? — Chamei, sem querer tira-la de algo que gostasse e, por isso, deixa-la irritada. Ela imediatamente identificou o nervosismo na minha voz e pareceu um pouco surpresa por isso:
—Tudo bem, Radios?
Sorri, escondendo a ansiedade:
—Apenas escute. Desde o dia em que ficamos juntos pela primeira vez eu soube que você seria a escolhida. Que seria a pessoa certa para mim. Passamos por muita coisa, ainda mais com nossos gênios, mas apesar disso tudo, continuamos nos amando, como no começo. — E respirei fundo. — Você me fez ser o homem que sou. E é por isso que desejo que seja minha mulher pelo resto de seus dias. — Ajoelhei-me e mostrei-lhe o anel que havia demorado uma eternidade para ser pago e feito. Uma pedra da cor dos seus olhos despontava, lindamente.
Ela, pasma, retinha lagrimas cristalinas, que vieram a cair quando esta caiu em meus braços. Apertei-a forte neles e beijei seus cabelos enquanto ela soluçava, emocionada:
—Idiota! — Sussurrou, ainda agarrada a mim. Sentei-a no meu colo e tentei tranquiliza-la, o que se mostrou impossível com mamãe observando a cena e Rogue a filmando discretamente.
—Te amo pequena. — Sussurro, beijando seus lábios, sem esperar resposta.
—Também te amo, brutamontes. — Sussurrou por entre o beijo, sorrindo.
Então tudo pareceu rodar e alguém pareceu puxar o meu espirito dali. Fui mandado para outro lugar, no escuro, sem conter a dor dessa ilusão.
Era novamente dia.
A cama de solteiro era macia e eu mal tinha condições de levantar. Eu, imediatamente, senti a falta do corpo delgado da loira que não esqueceria e que não estava ao meu lado, esparramada.
Virei-me e tentei adormecer novamente, em vão:
—Rogue! Acorde! — Gritou uma voz infantil, de menina, entrando sem permissão. Continuei virado, sem me importar de estar apenas com a roupa de baixo. — Preguiçoso! — Exclamou novamente, puxando as cobertas no momento em que virei para vê-la.
Tinha a doce expressão confusa em sua face angelical e pequena. Os cabelos loiros estavam bagunçados e as piscinas azuis, arregaladas. A perfeita expressão de Layla Eucliffe:
—Radios? O que faz aqui?
—É o meu quarto. — Digo, sentando-me e esfregando os olhos. — O que você faz aqui?
—Sting-nii me pediu para chamar seu nii-san.
—Não acha que seu doce irmão pregou uma peça em você? — Ela pareceu corar rapidamente com o comentário, mas logo se recuperou.
—Tudo bem, talvez você esteja mesmo certo. — Concordou — Mas já que estou aqui tenho de perguntar. Você está melhor?
Mirei-a com intensidade, dor e ansiedade, sendo que esta logo percebeu:
—O que acha?
—Isso alguma hora vai passar.
—Sim, depois que eu morrer, talvez. — Confirmei.
—Todos estão preocupados.
—Deixem-me sozinho. Uma hora, talvez, consiga parecer mais normal.
—Não foi culpa sua.
—Vá embora. — Grunhi, dormente. — Vá! — Gritei quando ela permaneceu.
—Ela não iria gostar de vê-lo assim. — E saiu tão repentinamente quanto havia chegado.
Afundei o rosto no travesseiro novamente, disperso e com uma dor inigualável no peito. Escutei passos na porta do quarto e alguém fechando a mesma. O cheiro de limão, hortelã e madeira inundou meu quarto:
—Por favor, dois Eucliffe’s numa mesma hora é demais para mim. — Suspiro.
—Você a fez chorar. — Sting rebate, sentando-me na borda da cama. — Como sempre faz.
—Diga a ela que sinto muito.
—Sabe que isso nunca é suficiente. — Mirei-o, os cabelos loiros até o ombro e os olhos azuis de quartzo. Seus lábios vermelhos e finos, a expressão cansada e abatida no rosto. — Não temos mais dez anos, Radios. Ficar na cama é pior, você sabe.
—E o que você quer que eu faça? — Elevei a voz — Eu a perdi Sting, por mero descuido. Se tivesse me precavido, nada disso teria acontecido. Ela estaria aqui, ao meu lado, brincando e sorrindo para mim. — Vejo seus olhos se dispersarem por rápidos segundos. — Não posso trazê-la de volta e jamais superarei sua perda, não importa o numero de garotas que tente usar para substitui-la.
—Mas também não deve ficar assim, nesse estado deprimente. Levante-se e treine para vingar o sangue dela derramado. Não se esqueça, mas tampouco deixe impune.
—Vai me ajudar?
—Se quiser. — Ele sorriu — Mas antes, peça perdão a minha irmã.
—Certo. — E observei-o levantar-se, como se tivesse sentido algo. Seus olhos azuis ficaram da mesma maneira que os de Layla: Cristalinos de tanto poder. — O que houve?
—Ela está aqui. — Gemeu, como se sua dor fosse igual a minha.
—Então corra. — Suspiro e ele vai até a minha janela, abre-a e pula dali mesmo, sem importar com nada. Estiquei-me na cama para vê-lo e percebi que nem mesmo que eu quisesse poderia impedi-lo.
A garota loira sorria para ele, timidamente, enquanto ele galantemente andava ao seu lado. Estava muito bem vestida com um vestido rosa longo, estilo princesa, denotando sua alta classe. Apesar disso, parecia tão apaixonada por Sting quanto ele por ela, mas demonstrava seus sentimentos timidamente, enquanto ele era muito mais espontâneo.
Por um segundo percebo que ele está surpreso e que assente vigorosamente. Ela também o olha, melancólica, e esconde o rosto com um leque, vez ou outra. Percebi que os assuntos o deixavam desconfortáveis, mas mesmo assim, era de extrema importância.
Era sobre mim.
Sting a segurou pela cintura, puxou-a até ele e beijou rapidamente seus lábios. Ela ficou instantaneamente vermelha e percebi que o loiro compreendia isso e aquilo era para acalma-la. Era uma cena adorável de se ver, mesmo com a dose de melancolia indômita que me atingia.
Saí das cobertas determinado a não ser encontrado por eles. Vesti-me com minhas melhores roupas casuais e corri para o salão principal a guilda onde todos pararam o que faziam para me ver entrar. Havia uma pequena roda ao redor de Layla.
—Eucliffe! — Chamei, recebendo a expressa reclamação de seus acompanhantes. A pequena loira era a jovem mais disputada da guilda, por vários fatores. Os pretendentes se afastaram ante a minha presença, intimidados. Encarei-a e percebi que as lagrimas tinham parado e os grandes olhos azuis pareciam ainda brilhar com elas. — Layla, sou um idiota. Perdoa-me?
Ela assentiu timidamente e em seguida puxei-a para meus braços, num abraço apertado:
—O que acha de fugir do seu irmão e da namorada dele? Pelo resto da semana?
—Divertido. — Completou.
Foi tudo que ele precisava ouvir.
Inclinou-se e pegou-a no colo, escutando o murmúrio de descontentamento dos rapazes e o gritinho estridente da sua amiga. Lembrou-se de quando haviam ficado juntos, como verdadeiros amantes e lembrou-se como acreditava que era ela. Talvez sempre tenha sido ela. Então o que Micaela era, afinal?
Enquanto desaparecíamos numa sombra, as coisas mudaram novamente.
Abrir os olhos dessa vez foi doloridamente eficaz.
Reparei que estava amarrado, machucado e preso a uma magia tão poderosa que mal conseguia respirar normalmente. A minha frente tinha um rapaz, suas roupas negras e vermelhas reluzindo na luz dourada que me prendia. Reconheci imediatamente o rosto de Rogue.
Seus olhos carmim estavam fixos em mim, descrentes e angustiados.
—Sting foi atrás dela, você sabe, não?
—De quem? — Consigo murmurar, a mente anuviada.
—Micaela é o nome dela. — Segredou. — Sting disse que era a sua parceira. É não é?
—O que quer com ela? — Gemi, injuriado. — Ela é inocente!
—Tanto quanto Nanami? Ou Lucy? — A voz dele subiu uma oitava. — Sabe o quanto elas sofreram? Lucy... Ela...
—Vocês não entendem o que aconteceria se essas crianças nascessem!
—E porque seu filho pode e o meu não?! — Gritou, com lagrimas escorrendo de seus olhos profundos e vermelhos.
—Não sou um dragão! — Respondi, sem ar. — Desde o dia que nos separamos deixei-o de ser. Só quero que entendam a minha dor! E que não esqueçam o que fizeram comigo.
—O que aconteceria se elas nascessem? — Perguntou baixinho, com lagrimas nos olhos a cintilar. — Porque?
—Haveria uma guerra. — Precipitei-me em dizer — E só um deles sairia vivo.
—Quem faria a guerra?
—Meu mestre.
—E quem é ele?
—Sou eu. — E tudo fica escuro novamente quando Zeref aparece.
Tudo é jogado nas minhas costas e levanto, vomitando o que não havia comido. Minha cabeça girava e todo o meu corpo parecia quer rebelar-se contra mim, indigesto. Havia algo em mim, uma pungente angustia que parecia massacrar meus ideais, que deformava minhas memorias e sentimentos.
Queria voltar para qualquer uma daquelas realidades, onde todos os futuros pareciam melhores para mim. Queria ser mais poderoso, intenso, para não sofrer. Morrer para não sentir.
Acostumei-me, depois de algum tempo a sensação de vazio e inconstância existencial que me abateram. Percebi que talvez fosse esse o intuito desse treinamento lunático. Senti que queria viver, apesar da minha realidade ser a pior possível, e queria fazer as coisas que já deveriam ser feitas.
Queria mostrar a Sting à dor de ser rejeitado. De ter de perder tudo, por opção.
Pensando nisso, inconscientemente, acordei deitado numa cama macia, envolvente. Os lençóis eram fofos, confortáveis por serem de veludo, e artisticamente bonitos, bordados a mão. Senti algo mexer-se quando minha mão tateou a borda e vi Zef deitado, possivelmente exausto, ao meu lado. Seus cabelos desgrenhados e as mesmas roupas que usava quando aplicou em mim seu feitiço.
Puxei-o inteiramente para cama, e acomodei-o de maneira confortável, notando as olheiras negras e profundas embaixo de seus olhos. Até seus lábios pareciam levemente feridos e assim que os toquei com os dedos, eles se moveram delicadamente, tristes, sussurrando perdão. Acomodei-o em meus braços, acariciando seu cabelo e pensando no que ele estava sentindo e porque havia ficado tão mal. E em quanto tempo eu havia ficado desacordado.
Sting:
—Tudo bem, por enquanto. — Respondeu James a nós todos, reunidos na cozinha. — Conheci algumas pessoas legais que me ajudaram a chegar a Magnólia e estou hospedado numa taberna perto do rio.
—Magnólia? — Nanami perguntou, com a expressão azeda.
—É onde preciso encontrar as pistas. Foi onde fomos atacados. — E suspirou. — Mando mais noticia daqui a uns dias.
—James! Não! — Reclamamos.
—E as meninas Jay? — Alois exclamou.
Ele corou rapidamente:
—Estou variando um pouco. — Isso faz o loiro gargalhar. — Testando umas coisas.
—James, por favor... — Rio, notando a expressão de Rogue.
—Eu sei. — Ela sorriu malicioso. — Vou procurar beber por aqui. Sabe? Arrumar briga e esquecer o meu coração quebrado.
—Nada de entrar na Fairy Tail. — Gracejo.
—Claro. — E ele passa as mãos nos cabelos negros, já mais longos — Vejo você daqui a alguns dias. Adeus!
Continuo rindo enquanto o lacrima desliga. Lucy parece divertida também e vejo Rogue sentar-se a mesa, para refletir, com Nanami em seu colarinho, beijando-o no pescoço para alivia-lo da tensão que se instalara nele. Este suspirou, puxando-a para seu colo:
—O que houve? — Lucy pergunta, abismada. Talvez tanto quanto eu.
Se Rogue também estiver tendo pesadelos, podemos ficar realmente preocupados.
—Não sei. Sinto um mal pressentimento, sei lá porque. É como se algo ruim estivesse para acontecer.
—Rogue! — Nanami o repreendeu.
—É a verdade! Você também está sentindo não está, Sting? Escuto-o levantando pela noite com Lucy. Varias noites seguidas.
—Como se pesadelos fossem algo que só estivessem acontecendo agora. — Completei, sem surpresa. Estava, agora, preocupado com a possibilidade de algo acontecer. A batalha na arena de meus sonhos os mataria, eu sabia. — Com o que você sonha, irmão? — Perguntei suavemente.
—São coisas sem nexo. — Sussurrou quando sentei a sua frente. — Vejo você, Lucy e Alois cobertos pelo seu próprio sangue, morrendo. Não sei o que está acontecendo, mas sinto Rufus me acordar, sacudindo-me. Sem entender o que ele diz, chamo Nanami e ele, parece entrar em foco, chorando. Escuto Hector, Minerva e James, mas tudo parece ilógico e daí eu vejo Nanami desacordada, muito ferida, sendo carregada por Mizuki, que também chora.
A continuação de meus sonhos.
—Você sabe o que está acontecendo lá? O que acontece antes? — Pergunto, sem parecer nervoso. O moreno nega:
—Só lembro-me de ver Natsu, uma vez apenas, com uma espada cheia de sangue. Não consigo me lembrar de quem ele machucava, mas lembro que senti em mim a dor do ferimento.
Lucy parecia apreensiva:
—Devem ser apenas pesadelos sem sentido, como os meus. — Retruquei, para acalma-lo previamente.
—O que você tem sonhado então, Sting? — Nanami indaga, desconfiada.
—Eu sonho com meu filho. — Segredo, para sua surpresa. O que era uma meia verdade, porque isso realmente aconteceu logo depois da Lucy perder o bebe. A visão dele me atormentava. — Consigo vê-lo grande, com dois ou três anos e ele me chama e pergunta a mim porque não o salvei. Se não o amo tanto. — Lucy parecia prestes a chorar e a puxei para meus braços, acalmando-a. Nunca havia revelado esses sonhos, mas sabia que isso os distrairia.
—Oh, Sting... — Eles fazem, em uníssono. — Porque não nos contou antes?
—Não era importante. — E virei-me repentinamente para Alois, que estava sorrindo para Hermione, calmamente. Ela estava com seus casacos, já.
—Vou leva-la para casa. — Disse-nos.
—É perigoso demais. — Lucy contrapôs.
—São alguns minutos por um atalho. Nada vai acontecer. — Ele convenceu-se. Olhei inquisidoramente para os presentes e eles não estavam gostando mais da ideia do que eu. Entretanto, Hector os esperaria e guardaria a chegada de Alois até aqui.
—Tudo bem. — Suspiro. — Hector deve te proteger ou algo assim quando você estiver voltando.
—Não precisam se preocupar comigo. — Anuiu o loiro, com um sorriso confiante. — Estou indo protegido. — E levantou para vermos o colar que pertencia inicialmente a James, uma pedra translucida que avisava ao seu dono do perigo. Compreendi que James poderia voltar a qualquer hora para ajuda-lo, agora que estavam ligados telepaticamente.
—Se você diz. — Suspiro novamente. Minha mente parece anuviada, por breves instantes, e percebi que precisava pensar nesses novos detalhes. Agora eu sabia que a Fairy Tail podia estar envolvida nisso tudo. E também que Laxus que poderia estar atacando Rogue e Nanami.
—Sting? — Lucy chamou, estalando os dedos.
—Desculpe, me distraí. — Murmurei a ela. Queria apenas ir deitar e sentir a sensação novamente. De conseguir ver além de Rogue, por breves instantes e entender como poderia protege-los. — Estou com dor de cabeça, depois dessa conversa toda. Preciso da minha cama.
—Quer que te leve chá?
—Não se preocupe com isso. — Exclamei, sorrindo. — É uma soneca matinal.
Alois:
—Não quer ficar mesmo? — Hermione parecia aflita por pouco.
—Ficar seria o mesmo que me deixar preso numa gaiola. — Suspirei. — Preciso ir para casa. Sinto que James deseja falar-me e aqui, só irei assusta-los. Voltarei rápido e nada acontecerá comigo.
—Assim espero. — Ela abraçou-me novamente, tremendo um pouco. — Mande noticias quando chegar.
—Como você quiser. — Dei-lhe um beijo de despedida e vi-a entrar, em segurança na casa de seus pais, que já a esperavam aflitos, acredito.
Pus-me a caminho calmamente, lembrando viva e claramente do atalho. Consegui ver os sinais de Jay ali, como brincadeiras antigas.
Em meus sonhos podia vê-lo e conversar com ele, noite à fio. Dizia-me que estava me sentindo solitário, ferido e inconsolável. Também não havia achado novas pistas do paradeiro do pai, mas que via os sinais de onde ele passará, tempos e tempos atrás. Disse-lhe que as coisas viriam mais facilmente se ele ficasse concentrado em procurar pistas e não procurar se divertir.
Pensando nisso que não percebi a pedra brilhar até ser tarde demais.
E então, das sombras, vi o meu pior pesadelo ganhar vida, com seus olhos riscados de lava flamejante e seu sinistro tom amável.
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