Shatter Me
23 Estilhaço de Compreensão III
Notas iniciais
Sting:
Rogue desaba na cama, com as mãos repuxando os cabelos negros oleados. Os olhos carmim cansados e abatidos. A confusão espalhada pelo seu sangue.
—O que foi isso? — Gemeu.
—Vocês mexeram demais com ele. — Respondeu Nanami. —Mexeram com as memorias adormecidas dele.
—Realmente. — Concordei. — Então é melhor que você fique longe, Rogue.
—Porque? Com quem ele me confundiu?
—Nenhum de nós pode saber. É algo dele, em seu íntimo. — Olho o rapaz que soluça mesmo em sonhos. Seus lábios murmuram doces sons de criança.
A sensação de enjoo não sai de mim, juntamente com o nome. Ouvi-lo ser gritado por James (Bernard) a Rogue foi, certamente aterrador. A sensação de pânico ainda atormenta meu coração.
Radios.
O mestre tinha dito-me que ele jamais se lembraria quem era. Que nunca mais seria o gêmeo de Rogue Cheney.
Mas ele estava errado.
Radios tanto havia se lembrado, como fazia parte do passado de James, filho de Rogue. Mas quem seria forte o bastante para liberta-lo? O pai de James?
—Sting? Você está bem? — Pergunta o moreno, calmamente, sem emoção. Sinto a culpa chicotear meu ombro e costas.
—Claro. — E tomo a decisão mais perigosa da minha vida — Volto mais tarde para vê-lo.
Alois:
Claro que havia sido uma má ideia.
—Alois. — A voz do meu pai ressoa na entrada da cozinha, onde ele se situava. Encontrou-me com mamãe, sendo que ela ainda estava segurando a bolsa de gelo encima do meu nariz.
—Tudo bem, mãe. Já cicatrizou completamente. — Disse Apolo enquanto eu focava toda minha atenção para os olhos prismáticos do dragão branco.
—E James? Tudo bem? — Pergunta Lucy, simplesmente.
—Dormindo. Foi apenas... Um pesadelo.
—Ah.
—Para o escritório, Alois. — Ele chama, aproximando dela o suficiente para depositar um beijo em sua testa. Replicando, mamãe consegue segura-lo por mais alguns segundos, inquirindo-o com seus magníficos olhos castanhos. — Lucy, explicarei tudo na cama, se você permitir, mas agora preciso conversar com ele. Por favor, deixei-me fazer o que devo.
Suspirou sofregamente:
—Vá logo, então. — Responde, levantando-se junto a mim.
Eu a olhei uma ultima vez e deixei Apolo matutar sobre os motivos dele querer nós levar até o escritório e discutir algo lá, a sós.
Não era, definitivamente, um bom sinal.
Assim que chegamos ao escritório ele nem ao menos notou-me ali. Foi direto para seus preciosos livros enquanto eu me recostava numa das poltronas confortáveis da sala. Nunca o vi pegar tantas coisas diferentes, devolvê-los e voltar a bagunça-los. Percebi que era dessa maneira que ele organizava suas ideias e que alguma coisa havia acontecido no quarto de James para deixa-lo dessa maneira. Isso me deixou ainda mais preocupado.
—Pai... — Chamei, sem tentar quebrar o seu raciocínio. Não adiantou muito, pois ele virou-se repentinamente para mim, surpreso.
—Ah. Você ainda está ai. — Os cabelos loiros balançaram, exatamente no segundo em que ele desafiava qualquer lei da gravidade existente. Ficou pendurado numa das estantes, procurando algo como se realmente não existisse ar, ou ao menos, estivesse colado na parede.
Havia algo em sua mão e eram dois encadernados, um velho e um novo, com as folhas presas por um fio dourado trançado, que realmente parecia ouro. Seus olhos azuis perderam-se novamente e vi neles, no momento em que se reencontraram um estalo de poder se estabeleceu em seu ser.
Alois, seu pai não está normal. Algo vai acontecer.
—Um de seus olhos está translucido e o outro dourado. — Num salto leve, voltou ao chão, sentando-se na sua habitual cadeira. Os livros que ele desejava despencaram assim que ele estabeleceu-se. Foi uma visão assustadoramente divina. — Sua intervenção não deve ser escutada, deus.
Engoli em seco, sentindo o próprio alter-ego resmungar algo mentalmente.
—Eu quis começar isso de tantas maneiras... Mas não sei como fazê-lo sem me quebrar por completo.
—Como?
Azuis escuros.
—Por causa da ilusão, James não tem mais certeza de quem realmente é. Isso não parece ser complicado, mas acontece que ele tem memorias reprimidas dentro de si. Algo que alguém fez questão de esconder por algum motivo. — Ele respira — Você não deve estar entendendo porque estou falando isso exatamente com você, não é? — Meneio a cabeça, concordando. — Sua tarefa é delicada.
—Por quê?
—Porque envolve duas consciências, ao invés de um só. — E respirou fundo, passando a mão no caderno mais novo. — Você precisa invadir a mente de James, retirar o lacre e ao mesmo tempo, ajuda-lo a entender o que aconteceu.
—Pai... Eu...
—Eu não posso fazer isso. Não posso estabelecer esse laço com ele, pois não temos tanta intimidade.
—Laço?
—A partir do momento em que se consegue invadir a mente e rever as memorias se cria algo tão forte que nem mesmo o esquecimento pode afetar. Um laço cognitivo que será carregado até a morte.
Azuis turquesas.
—Mas por que devemos invadir a mente dele?
Ele olha-me nos olhos, mas nada diz e dirige a mim o diário mais usado.
—Leia-o. — Fala. — James lerá o outro e depois, quando ele estiver bem e terminar de ter lido, iremos conversar.
Abro a boca, irritadiço.
—Preciso saber o que está acontecendo! — Apollo interrompe, jogando-me do lado errado da minha mente.
Azuis cobaltos.
—Eu disse, sem interrupções. — E levantou-se, voltando-se para seus livros e pergaminhos novamente. Uma sombra cobriu seus olhos após isso. — Você pode sair agora. — Olho-o indignado e levanto, pegando o encadernado com puro nojo e raiva.
Saio da sala batendo a porta, cerrando os dentes de tanto ardor.
—Alois! — Hermione desce as escadas correndo. Poucos minutos se passaram desde a confusão e o desmaio de James. Ela parece igualmente apavorada, como se ainda estivesse vendo o moreno nesse momento.
—Hermione. — Ela desaba em meus braços e beijo seus cabelos, tentando acalma-la.
—Aoi me disse que James te feriu. Está tudo bem? O que aconteceu?
Enrolei uma mexa de seus cabelos ruivos com o dedo e depois a coloquei atrás de sua orelha. Beijei sua bochecha com suavidade.
—Vamos subir e lá no meu quarto a gente conversa direito. — Ela pareceu confusa, mas não negou quando a coloquei em meus braços e subimos escada acima, sem dizer nada.
James:
Tio Sting estava sentado à borda da cama, com um caderno na mão, despreocupado. Seus olhos azuis estava serenos e calmos, como se esperassem pacientemente por algo que aconteceria, quer ele quisesse ou não.
—Que bom que você já acordou. — Disse suavemente.
—Onde estão todos?
—Lá embaixo, esperando noticias minhas. — Passou as mãos pelo cabelo. — James, ainda sabe quem sou?
Olhei-o fixamente, sem compreender. Então, meus sonhos pingaram levemente na minha memoria, como ácido.
—Sim, tio. — Murmuro e o vejo sorrir.
—Rogue está um pouco chocado com o que você disse, mas compreendo a sua perturbação. Eu vou dar um jeito de arrumar as suas memorias James. Entender porque fizeram isso com você.
—Como fará isso?
—Dessa maneira. — E entregou-me um caderno de couro simples, bem cuidado, amarrado por um cordão de lã dourado. Cheirava à velharia e familiaridade. — Sua tarefa é ler isso, sem que seus pais saibam o que é. Coloque algum tipo de magia especifica nele, não sei o que fará, mas em hipótese alguma, deixe-os ler.
Assenti, atordoado.
—Quando terminar, me procure. Não creio que vá demorar mais que horas.
—O que acontecerá quando tudo estiver lido? — Uma súbita energia se transpassou pelo seu corpo.
—Iremos conversar sobre o que fazer com você. — E saiu silenciosamente.
Alois:27 de Janeiro de X977
Meu nome é Rogue Cheney.
Esse caderno é, na verdade, a mais intrigante das tarefas que recebi, em minhas poucas semanas no templo do dragão. Aqui, nessas folhas, devo expressar meus mais tênues sentimentos. Sejam orgulhosos ou impertinentes.
Não importa.
Tenho apenas sete anos e um passado que um adulto jamais suportaria, acredito.
Fui abandonado por meus pais humanos e criado por uma das criaturas mais temidas no mundo: Um dragão.
Mas nunca estive realmente abandonado. Tenho um irmão gêmeo e ele é meu suporte, meu elo e meu definitivo yang. Seu nome é Radios Cheney e fomos criados juntos por esse dragão, Skiadrum.
Sempre amei meu pai, pois ele era meu céu e estrelas. Meu ídolo. Aprendi tudo o que sei graças a ele e sempre o admirei, por sua sabedoria e força.
Até aquele dia.
Foi há exatamente um seis meses (eu mal consigo me conformar, ainda), num dia de lindo céu azul. Ele ficou maluco quando viu Radios manifestar sua força em relação a mim, que não tínhamos poderes iguais e que, se algo acontecesse ele me protegeria e não o contrario.
Lembro que não dei a devida importância até o momento que o vi avançar em meu irmão, desprotegido. Atirei-me entre eles e o protegi, enfurecendo-o ainda mais. Lembro que perdi a consciência por vários minutos e quando a recobrei, meu dragão estava morto aos meus pés, sendo que o meu corpo e de Radios estavam completamente encharcados de sangue.
Não me lembro de alguma vez ter chorado tanto quanto naquele dia, ou de ver Radios tão desolado e triste, mesmo sem derramar uma lagrima sequer. Sempre fomos assim. Eu derramava as lagrimas dele e ele prolongava o meu silêncio.
Após isso, fugimos com tudo o que podíamos carregar, temendo a fúria dos aldeões que viam nosso pai como protetor de seu território. Andamos por terras desoladas até que encontramos esse templo, três semanas atrás.
Aqui é o nosso novo lar.
23 de fevereiro de X977
Se existe uma pessoa que merece ser castiga é Sting Eucliffe.
Nessas semanas que estamos aqui esse idiota já conseguiu me tirar do serio tantas vezes que Radios tem tomado as minhas dores e, inevitavelmente, o odiado também.
Meu irmão tem o defeito de ser destemidamente forte, sem se importar com mais ninguém além de mim. Amo isso nele, mas também temo, pois Sting é igualmente forte e tendencioso. Eles são tão semelhantes que às vezes me pergunto se não é por isso que se odeiam.
Ontem mesmo vi Radios treinar até seus punhos sangrarem e cuidei de seus ferimentos, lhe dando o maior sermão. Ele ouviu em silêncio e depois me obrigou a treinar com ele, pelo resto da tarde e grande parte da noite.
Temo que algo aconteça.
25 de fevereiro de X977
O progresso de meus poderes está alarmante, segundo o mestre.
Ele acredita que serei um oponente digno dos outros dragon slayers em pouco tempo. É apenas em outro estagio que podemos lutar uns contra os outros.
Estou tão perto de ficar forte que sinto o gostinho da ansiedade em meus lábios.
29 de fevereiro de X997
Radios e Sting se desentenderam novamente. Tive de apartar a briga e acabei levando alguns golpes de ambos os lados. Estou com um corte fundo na mão e hematomas na coxa direita.
O mestre chamou-me para visita-los depois disso e treinei intensivamente por varias horas, o que me resultou num progresso nunca visto antes — palavras dele próprio.
Agora vou começar a treinar com a turma avançada.
24 de Abril de X977
Eu me apaixonei pelas lembranças que tenho, pois não a quem recorrer.
Radios tem treinado intensamente por tantas horas que mal nos falamos e o Eucliffe tem me atormentado ainda mais. Diz que sou fraco e que Raddy vai se tornar um verdadeiro dragão diferente de mim. Que ele é um oponente digno do dragão branco.
Isso me humilha, mas Radios jamais percebe isso e essa distancia que tomamos um do outro machuca ainda mais que as doces palavras que dispõem a mim, o mais fraco dentre todos.
Desejo chorar e extravasar tudo, mas sinto que isso me humilhará ainda mais. Então vou treinar até o meu sangue sair de minhas unhas. Até meus músculos estalarem. Até eu esgotar cada resquício de força ou poder ou dor que existir em mim.
Serei forte.
Serei o Rei Dragão dessa era.
30 de Abril de X997
Mal consigo segurar a caneta.
Minha mão doí ao escrever essas letras tremidas e mal feitas, mas sei que elas são a causa de um bem maior.
É a única alternativa.
James:30 de Maio de X977
Nenhum homem pode viver por outro, sonhar por outro. Ser outro além dele mesmo.
Fiz algo terrível e não há nada que possa fazer além de seguir com ela. Enfrenta-la pelo resto de meus dias.
Meu nome é Sting Eucliffe.
E eu sou um dragão.
E vou contar o meu crime a você, estupida folha de papel.
Há muitas coisas que desejo falar de Rogue e Radios Cheney do que da tragédia que os acometi a fazer.
Desde o momento que chegaram, senti a força deles.
Yin e yang juntos, como o pressagio do caos, desmedidos e singelos sem que nada abalasse o lado mal ou ao menos corrompesse o lado bom.
Antes deles chegarem, tive inúmeras aulas dizendo que apenas o oposto do dragão o poderia ferir fatalmente. E os opostos, se juntos, seriam meus inimigos mais poderosos.
Rogue sempre foi o mais discreto e calmo, invasivo e frio. Dos dois, era o que eu mais tinha medo do progresso. Sentia nele algo que não se identificava no irmão gêmeo: a frieza e a bondade de fazer o que se deve ser feito, seja o que for. Era o menor dos dois, raquítico, mas extremamente inviolável.
Radios é explosivamente perigoso, forte e insuficientemente calmo para ser frio, mas detém muito mais poder que seu irmão. Se canalizado, ele era imensamente difícil de provocar e igualmente difícil de enfrentar. Nessas situações, Rogue era o único que poderia detê-lo.
Com isso, é possível notar a minha apreensão, já que eu era eruditamente forte, mas não tinha habilidades, tanto mentais quanto Rogue ou físicas quanto Radios. Era inferior em muitas coisas e também não conseguia controlar nenhum poder. Desengonçado e irritante, eu era um problema a ser consertado.
Obviamente, não nos demos bem desde o primeiro encontro.
Radios e eu nos estranhamos desde o primeiro momento e Rogue era fácil demais de provocar. Eu era o perfeito tormento dos dragões gêmeos. Agora sei que jamais poderia mudar essa relação e odeio-me por isso.
Alois:01 de Maio de X977
O mestre está assustado com a minha evolução. Desde ontem tenho praticado com Sting e Radios, os dois ao mesmo tempo, e tenho vencido. Às vezes fico tão cansado que mal consigo desviar dos dois, e Radios luta contra Sting sozinho, mas isso logo passa e volto com tudo contra eles.
A cada dia aprendo mais coisas.
Sinto que serei mais forte, se continuar e me esforçarei com tudo o que tenho para isso.
E cada vez mais admiro meu irmão mais novo. Ele tem desafiado Sting toda vez que ele tenta falar algo idiota para mim. Eu quero ardentemente me igualar a ele, para sermos os melhores.
12 de Maio de X977
Apanhei tanto que mal consigo me mexer e meu irmão está da mesma maneira, gemendo na cama ao lado. Sting ficou sumido por três dias e quando voltou nos desafiou e nos humilhou publicamente, com uma força que considerei inumana até mesmo para ele.
Radios está com o olho esquerdo sem abrir e mal consegue abrir a mão. Eu mal consigo mexer a pena.
Ainda não entendo o que aconteceu.
17 de Maio de X977
Radios não consegue entender porque Sting nos derrotou juntos. Eu compreendo seu estupor e razão, mas não compreendo sua obsessão pela revanche.
Sting me pediu desculpas por ter me dado uma surra, que não sabia exatamente o que estava fazendo e tentei ajuda-lo a se lembrar de como ele tinha feito aquilo. Descobri que ele é muito mais solitário do que eu imaginava, que sempre estava sozinho, por ser inconstantemente forte.
Obviamente meu irmão odiou a proximidade e ralhou comigo, furioso, me chamando de traidor. Isso me irritou profundamente, mas decidi não responder à altura. Aquele assunto não competiria a ele enquanto ele agisse como um idiota.
20 de Maio de X977
Foi-nos dada a tarefa de conviver e treinar juntos, todos os opostos.
Nenhum dos dois encrenqueiros gostou disso e eu acabei ficando no fogo cruzado novamente.
Sting tem se mostrado um ótimo amigo escondido. Ele lê coisas em línguas que jamais poderia entender e me explica cada sentido, obscuro ou não, de tudo sem que eu precise pedir. Por ordem do mestre, ele mesmo têm nos dado aulas de erudição, ou seja, aulas sobre o passado e o futuro. Sobre nós mesmos.
Radios tem desprezado isso, mas em compensação, dedica-se a treinar total e plenamente para derrotar nosso professor.
Tenho medo do que está porvir por causa disso.
James:30 de Maio de X977
No começo, odiei muito mais Rogue que Radios, mas percebi que a bondade tinha ido, unicamente, para ele e não para o outro, que, conforme notei isso, passou a nutrir o mesmo ódio que eu tinha por ele.
Enquanto Radios treinava fisicamente e Rogue tentava se igualar, a tanto, a ele, eu ficava estudando seu comportamento obsessivamente. Descobri cada desvio de segundo de seus golpes, suas maneiras de mostrar cansaço e seus maiores defeitos no temperamento.
Adequei-me aos seus movimentos, sendo categoricamente cuidadoso em relação aos seus avanços. Vencê-lo era a coisa mais simples a se fazer, mas era difícil de se executar e era a parte essencial do meu objetivo secreto: Ser superior aos gêmeos sem que eles notassem.
O mestre ficou preocupado com esse meu comportamento a principio, mas pareceu mais tranquilo quando desmaiei no segundo dia, devido ao cansaço mental que me induzia.
No quarto dia destruí qualquer chance de Radios ou Rogue. Juntos, nenhum deles podia me deter e com a ajuda de meus poderes recém-descobertos, os machuquei tanto que apanhei dos dragões mais velhos, mais tarde. Lembro-me de chorar naquela noite, pois toda a minha vida parecia um caos inacabado e sem jeito, sem que meu pai pudesse me ajudar. Eu não tinha ninguém e era repreendido na única coisa em que era bom.
No dia seguinte procurei Rogue e lembro-me de ver a sua expressão assim que me viu, de pensar que ele me odiava pelos seus olhos vermelhos faiscando de agitação. Mas enfim descobri que a faixada do moreno não era totalmente verdade e que a pureza o levaria a conviver harmonicamente comigo, a me ajudar.
Passamos a viver no mesmo quarto e nem por isso o yang deixou de me odiar. As desavenças entre nós dois não eram paradas nem mesmo por Rogue, mais. Às vezes eu chegava a rezar a quem quer que me ouvisse e tentava esfriar a cabeça lendo sem parar, por horas seguidas na madrugada, para acalmar a fúria dentro de mim.
Mas um dia, simplesmente não consegui.
E foi ai que destruí tudo.
Alois:28 de Maio de X977
Não consigo parar de chorar.
Quero Radios aqui. Quero que ele brigue comigo novamente e que possamos fazer coisas idiotas de novo. Que possamos dormir juntos como quando Skiadrum ainda estava vivo.
Tudo parece ter perdido o sentido.
E eu só tenho esse maldito ovo para me lembrar dele, esse ovo que chamei de Frosch. O pedaço do meu irmão que não conseguirei esquecer e que não será apagado do mundo ou de mim.
Eu só quero morrer.
——X——
Hermione está deitada em meu colo enquanto respiro com dificuldade.
Como? Tio Rogue nunca havia falado de Radios! Isso não podia ser verdade.
——X——
Tudo porque eu não fui forte o bastante para impedi-los.
Nós dois sofremos as consequências de enfrentar os poderes de Sting Eucliffe, eu desacordado e ele absorvendo uma energia totalmente nociva. E isso foi apenas uma válvula de escape para que os lideres tomassem a decisão mais cruel que poderiam nos dar.
Porque nos separar no mundo, apagando nossas memorias se podem nos matar? Porque esconder um passado e meia vida por caprichos? Porque tirar a única família que temos?
O que farei? Como viverei sem meu outro eu?
——X——
Fechei o caderno e deixei que me cérebro entendesse toda a informação. Deixei que a dor chegasse a todos os meus poros antes de deixar a minha amada na cama e descer as escadas correndo, com as lagrimas salgadas rolando juntamente com a compreensão.
Eu encontrei os cinco adultos reunidos na mesa, tomando chá. Meu tio ainda parecia perturbado enquanto meu pai estava calado e serio, com um pergaminho antigo a sua frente. Ele me percebeu meio segundo antes dos outros e em pouco tempo já estava em seus braços, soluçando, prometendo coisas que mal entendia.
—Alois. — Mamãe estava preocupada, mas o loiro apenas negou e me puxou para seus braços, como se eu fosse uma criança de três anos mimada, e por sobre seu ombro para me levar para o escritório. Eu sabia que ele não contaria a ela, mas abstive-me de preocupa-la ainda mais.
Assim que a porta estava trancada e eu, acomodado numa das cadeiras, soluçava, disse-me:
—Entende porque preciso de você?
Fechei o punho com força, rangendo os dentes:
—O que fizeram com ele?
E nesse instante, alguém bateu a porta.
James:30 de Maio de X977
Pela manhã não me juntei aos outros, estava cansado por não ter dormido as horas recomendadas a nós. Rogue me procurou e levou-me comida, mas recusei enjoado. Algo estava errado comigo, como se meu subconsciente previsse que eu faria algo ruim a alguém.
Lembro-me de ter saído para ver o céu e ter lembrado como Layla e eu brincávamos antes de todas as tragédias que nos acometeram Lembro-me de ter chorado naquela hora, sem perceber Radios me observar.
Ele provocou-me, sem ligar para meus sentimentos, e isso me descontrolou por completo. Nunca senti tanta raiva de um ser vivo quanto senti dele naquele momento, pois tinha profanado a memoria dos meus entes queridos.
Não me lembro de nada após isso, de como cheguei ao ponto de deixar ambos em estado de quase morte. Mas lembro-me de estar preso no chão por uma magia antiga e de estar ouvindo os gritos de Radios por Rogue. De ouvi-lo implorar para que parassem e que o deixassem ir; a culpa era toda minha e não ele. Lembro-me da dor que senti quando ouvi seus gritos agudos de dor e da minha própria dor durante o processo.
Faz duas noites que não consigo tira-los da minha cabeça. Rogue não se lembra dele e Radios simplesmente desapareceu. É como se eu fosse a única pessoa no mundo que se lembrasse dele, que soubesse da sua existência.
Eu destruí o futuro de dois irmãos por simples descontrole.
Capricho.
O mestre disse que não poderiam existir dois dragões negros e que o mais velho dos gêmeos deveria ser o escolhido. E eu ajudei nisso! Tudo o que fiz só o incentivou a colocar tal plano em pratica e nada do que eu fizer agora poderá remediar isso.
Duas vidas foram apagadas para sempre e eu, apenas eu, serei o responsável por isso.
——X——
—Jay? — Fro chamou, vendo-me petrificado e com o caderno na mão. Seus olhinhos pareciam curiosos e estranhos.
—Ah, Fro. — Sussurrei, chamando-o para meu colo. Entendi que tinha lido aquilo mais rapidamente do que esperava e muita coisa passava a fazer sentido nas palavras de Sting. Dava para entender o seu suplicio emocional. — Onde estão todos?
—Lá embaixo, no chá da tarde. — Respondeu enquanto eu levantava da cama rapidamente e jogava as cobertas para trás. — Aonde Jay-kun vai?
—Descer para tomar um ar. — Respondi.
Peguei a minha jaqueta, na cadeira ao lado, e abri a porta, descendo as escadas vagarosamente. Aoi estava na mesa com meu pai e minha mãe. A Lohr veio até mim preocupada e abracei-a.
—Mãe estou bem! — Respondo suas perguntas antes que ela as faça. Seus olhos castanhos passam por todo o meu corpo. — Onde está o Sting-kun?
Ela pareceu confusa e disse:
— No escritório com Alois. — Beijei sua bochecha e fui para lá, com o caderno ainda preso dentro da jaqueta.
Caminhei calmamente até o escritório e bati na porta, docemente. Foi o dragão branco que me atendeu e logo vi o meu melhor amigo aos prantos. Descobri que ele também devia ter lido algo. E se estava aqui, teria força para me ajudar?
—Então você já terminou. — Falou, enquanto eu me sentava na cadeira ao lado do loiro mais novo. Ele apenas me olhou e vi seus olhos bicolores brilhantes se fixaram em mim:
—Jay você também leu?
—O diário do seu pai? Sim, eu li.
—Do meu pai? Eu li o diário do tio...
Olhei-o surpreso e entendi exatamente o que aconteceria naquele segundo. Alois precisava entender a dor que isso representava e eu, bem, preciso entender a mínima razão de sofrer disso.
—Acho que ambos entenderam o que fiz, não? — Suspirei concordando. — Agora precisamos saber se você deseja fazer isso, Jay. Está preparado?
Senti a dor das memorias quebradas estalar na minha mente, subitamente familiar e então olhei o god slayer do meu lado, chorando por algo que não havia se acometido a ele ou a alguém realmente muito intimo a ele.
Ele tem um coração bom demais.
—E porque não estaria?
Fale com o autor