Shatter Me
22 Estilhaço de Compreensão II
Notas iniciais
Stan:
—Você deveria, pelo menos, parar de fumar. — Indago, voltando ao nosso antigo quarto. Cara, esse lugar me traz tantas lembranças, apesar de tudo.
—Parar? Eu voltei a fumar agora. — Ele deu outra tragada rápida e aspirou a fumaça na janela.
Puxei as cobertas até o queixo e reparei que ele me fitava sem discrição:
—Pensei que você ia surtar depois que eu contei o plano. — Suspirou, tragando novamente o tabaco acesso. — Que você teria uma crise e que nunca mais falaria comigo.
—Ah é? — Virei para ele, sem me levantar. Algo na sua expressão denunciava cansaço e impotência.
—Claro. — Fechei os olhos por um momento, sentindo o cheiro carregado do cigarro. Estava cansando física e mentalmente, e apenas passará algumas horas com Zef. Senti a cama afundar um pouco e também o toque inesperadamente quente de sua mão sobre a minha testa. — Você está dolorido?
—O que você acha? — Rosno baixinho, provocando um sorriso em seus lábios.
A cama rangeu novamente e senti algo molhado, frio, em meu pescoço. Um arrepio veio disso e suspirei, negando-me a abrir os olhos.
Senti o cheiro amadeirado de seu perfume contra a minha pele, roçando no meu, totalmente cítrico. A coberta também roçava densamente contra minhas costas, subindo e descendo a minha blusa. Ele me mantinha preso contra si, ronronando meu nome.
—Zef.... — Implorei baixinho, com um suspiro derradeiramente pedinte.
—Preciso de respostas, Stanny. — Comentou com a voz dura. Virei-me para vê-lo e vi seus olhos negros como que bolas de chamas incandescentes. Senti um leve caladrio.
—Que respostas?
—Ainda não consigo acreditar no seu descaso. O que mudou em você? E por quê?
—É simples. — Confirmo, para sua surpresa. — Tenho um novo objetivo agora.
—Tem é?
Sorrio, desconcertado:
—Só não quero que Sting mate ele, sacou?
Tudo o que sei é que essa decisão é, definitivamente, sem volta. Porquê estou profundamente apaixonado pelo idiota chamado Zeref.
Sting:i
A dor assolou-me primeiro, antes de eu poder acordar. Devo ter esperneado ou gritado, pois quando realmente me fiz consciente, estava quase aos prantos.
—Sting!
Olhei-a, ainda com a adrenalina da dor nas veias.
—Lucy.
—Você estava tendo um pesadelo, disso tenho certeza.
—Não me lembro de nada, Lu. — Confirmo, hesitante.
Minha cabeça dava voltas como se estivessem esmurrando-a na parede. Soando de um lado para outro.
—Quer uma agua? — A loira pergunta e sei que ela não quer aparentar estar tão surpresa quanto está. Sei que deve ter sido terrivelmente assustador.
—Vou junto pegar. — Aviso, vendo-a levantar-se antes e colocar o roupão por cima do pijama. — Se quiser, é claro.
Vi o sorriso aparecer, finalmente:
—E há maneira de negar algo de você?
—Não sei, mas sempre há meios de se descobrir não é? — Resoluto, pulando da cama e indo ao seu encontro.
Assim que saímos do quarto percebi o quanto minha casa seria assustadora se eu tivesse, pelo menos, um metro. Os corredores pareciam muito mais estreitos e tudo estava tingido com a escuridão rotineira da noite tardia. Com as luz meio dispersas sem iluminar.
Lucy parecia realmente concentrada em não parecer distraída, mas notei como ela dava cada passada com tênue desconforto. Era a chance que eu precisava:
—Bu! — Assim que toquei seus ombros senti o grito que esperava. Foi tão alto que meus tímpanos responderam da mesma maneira, zumbindo. Ri, tentando não acordar tanto os Cheney quanto Alois e os gatinhos. Percebi que era em vão.
—Sting! — Ralhou ela, sem se conter.
Mesmo àquela distancia escutava seu coração batendo, forte e caloroso pelo susto.
—Estupido! Quase me matou do coração!
—Não resisti, Lu. — Gracejei, mas não deu certo. Ela estava, definitivamente, furiosa.
Permaneci em silêncio, ouvindo como seu ritmo cárdico não diminuía facilmente. Ela desceu as escadas e por fim, passou a esquentar um chá. Sentei-me num dos bancos da bancada de granito e observei-a, a luz da lua branca de inverno, com olhos até então, suspeitos.
—Sting?
Percebi que haviam se passado segundos, ou minutos, sem que nada me viesse a cabeça senão, Lucy.
—Desculpe. Não consigo me concentrar em nada depois de pensar em você. — Segredo, parecendo bobo.
—Acho que isso é normal.
—Normal?
Seus olhos castanhos estavam vibrantes nesse segundo:
—Acho que devemos conversar com James, não acha? — Vi a singela preocupação em sua expressão.
Aquela criança era meu eu mais novo.
—Você quer dizer... Eu. — Completo e para minha surpresa a vejo assentir. Uma xicara veio em concordância também.
—Nós dois sabemos que a única pessoa que pode fazer isso da maneira correta é você.
—Lucy, não sei se ele quer falar sobre isso. É delicado.
—Eu sei.
—E ainda assim, não sei se eu quero falar sobre isso. — Senti a maga estelar se retesar com isso. — É doloroso demais pensar que... — Reprimi o impulso de continuar. Havia muitas coisas que, apesar de eu amar Lucy, jamais revelaria a ela.
—Sinto muito. — Completou, sonoramente triste. — Estou me sentindo uma grande idiota. — E abaixou os olhos.
Libertei-me das minhas próprias amarras do passado e levantei, aconchegando-a em meus braços por vários minutos.
—Um dia... Quando estivermos casados e tudo mais, com as crianças cuidando dos nossos filhotes dragõezinhos... — Ela não deixou de sorrir e vi que tinha conseguido —Eu explicarei para você como isso me afeta, está bem? Mesmo assim... Tentarei orientar James.
—Mesmo?
—Claro.
Alois:
James preocupou a todos nessa manhã, permanecendo no frio por longas horas, abraçado, unicamente, a Cérbero.
Suspirei, tomando as mãos de Hermione antes de abraçá-la. Podia sentir em cada célula de meu corpo o quão abalada ela ainda se encontrava, eu mesmo ainda me encontrava abismado por tudo aquilo. E James... Inconsolável era apenas o que ele demonstrava, ao menos era isso que eu não queria acreditar, por que... Droga, James seria capaz de qualquer coisa.
Não, eu não podia nem pensar nisso. Eu sei, sei que James pode ser instável quando se trata de emoções – todos podemos ser -, mas... Mas...
—Alois... – fungou-a, afastando-se e me olhando nos olhos. – Vai ficar tudo bem, não é? O James, ele vai... Ficar bem... Certo?
Acariciei sua bochecha, secando as lágrimas que escorriam por seu rosto. Era tão triste vê-la daquela forma, tão frágil e preocupada. Me despedaçava tentar e me frustrar todas as vezes que tentei falar com James.
—Vamos tentar trazer nosso amigo de volta Mione, ele vai ficar bem. – lhe disse, uma promessa da qual algo me dizia que não deveria ser feita, que talvez sequer pudesse ser cumprida. – Eu vou fazer de tudo ao meu alcance para que ele fique bem.
E então senti-a abraçar-me novamente. As almofadas do sofá nunca foram tão reconfortantes e quentes, e aquilo era quase um ninho para nos acalentar. Após alguns minutos de silencio, passos chamaram minha atenção, eram tão baixos que, se minha audição não fosse tão aguçada quanto à de meu pai, talvez nunca houvesse escutado. Aconchegando Hermione em meus braços, ergui a cabeça a tempo de fitar James surgir pela porta da cozinha.
Engoli em seco diante da energia sombria que sentia envolvê-lo. Em meus braços, Mione pareceu tremer, e eu mesmo só não havia o feito ainda por causa do choque inicial de sentir aquela coisa maligna cercando meu melhor amigo. Então ele me olhou, nossos olhares se cruzaram e o vermelho que brilhou em seus olhos me pareceu, subitamente, com um mar de puro sangue e ódio; e o que eu não daria para tomar Hermione em meus braços e correr para o mais longe possível de quem quer que fosse aquela pessoa.
Meus lábios tremeram e mantive minha namorada ainda mais perto de mim, apenas por uma precaução que, tenho certeza, não deveria existir.
—James. – sussurrei, sentindo minha voz transmitir tantas dores e preocupações quanto o necessário, mas mesmo isso abalou a face lívida, marcada por lágrimas, que ele mostrava. Eu sabia, sabia que por dentro ele estava quebrado, destruído. Wendy se fora e ele nunca mais a veria, nenhum de nós nunca mais a veria, e isso o estava destruindo aos poucos.
Eu sentia que tinha que ajudá-lo, mas, ao mesmo tempo, sentia que tinha que proteger Mione dele, por que agora ele poderia descontrolar-se. Ele era um Deus, éramos Deuses, e o poder – ainda mais o dele – pode ser facilmente corruptível devido a fortes emoções negativas; e agora, nesse momento mais do que em qualquer outro, James era uma bomba de emoções negativas, apenas esperando o momento para explodir.
—Você... Não quer f-ficar aqui conosco? – arrependi-me pelo gaguejo, mas fora inevitável diante daquele olhar tão penetrante, e daquela face branca de quaisquer coisas. E mais uma vez não recebi uma resposta, apesar de que ele caminhou até o sofá oposto ao nosso e sentou-se de forma meticulosa, cuidadosa, quase como se esperasse que houvesse desconfiando de mim. – Está... Tudo bem? – e então ele me fitou, novamente, nos olhos; e eu vi ali dor, sofrimento, angustia... E vi escuridão, uma escuridão tão alucinantemente enlouquecedora que me questionei se aquela pessoa era mesmo James Cheney.
Depois de um minuto em silencio ele fechou os olhos e recostou-se no sofá. O silencio continuou, apesar de que a cada segundo era como se a aura sombria que rodeava-o engolisse qualquer luz que avistasse, qualquer luz que pudesse dar algum caminho, alguma esperança, ao meu amigo.
Em meus braços Mione tremeu ainda mais, agarrando-se a mim como um balsamo que eu provavelmente era para si; apesar de que eu também necessitava de algo para agarrar, pois aquela aura estava me sufocando e o eu podia sentir o Deus em mim me alertar sobre os perigos que rondavam James.
—Alois. – ouvi a voz de Aoi no andar superior, e quando ergui a cabeça novamente a vi parada ao topo das escadas. – Hermione e... James? — Quando voltei-me a meu amigo, ele havia abertos os olhos novamente e estava me fitando, mas, diferente de antes, seu ódio era quase palpável. – Está tudo bem com vocês?
—Está tudo perfeitamente bem. – ouvi a voz do moreno, e ela nunca soara tão assustadora quanto agora. E eu não tenho certeza se fora sorte, ou azar, que ele estivesse de costas para as escadas quando respondeu, pois, se Aoi visse aquele rosto dele tão macabramente pálido e desprovido de sentimentos, exceto pelas marcas de lagrimas e o vermelho ainda mais profundo dos olhos, eu acredito que ela teria descido para verificar a veracidade daquela resposta, e, algo no fundo de mim, dizia que não aconteceria coisas boas. Apesar de que estar apenas eu e Mione na presença de um James tão sombrio como aquele era... Aterrorizante.
E apesar da distância, eu a vi estremecer, mas ela também pareceu notar a aura sombria de James, talvez qualquer um no raio de um quilometro pudesse notar toda aquela coisa viscosa negra que o envolvia. Respirei fundo, Mione parecia não suportar mais aquilo, eu mesmo sequer sabia como estava suportando aquela coisa esmagadora e cruel.
—Mione, você parece um pouco cansada. – disse, voltando-me para ela e fitando seu rosto marcado pelas lágrimas. – Por que não sobe e vai dormir um pouco, mais tarde lhe chamo e podemos tomar um chocolate quente, ok?
Ela fungou, e seu olhar foi-se para o moreno que ainda me fitava vítreo, e então voltou-se para mim. Seus lábios se entreabriram, mas a interrompi com um beijo. Senti o calor de sua pele sob a minha, suas mãos apertaram forte minha camisa, e mesmo não querendo, separei-me dela e sussurrei para que ela fosse. Despedindo-se sutilmente ela subiu as escadas e desapareceu no andar superior com Aoi.
E numa respiração profunda, quando tive a certeza de que minha Mione não poderia mais ouvir qualquer palavra, voltei-me para James. Engoli em seco sentindo o nervosismo rasgar caminho goela abaixo.
—James... – comecei, não sabendo realmente por onde. Ele estava acabado, e eu não precisava de nenhuma prova além do rastro das lágrimas para ter certeza disso. Mas, de toda forma, ele tinha motivos para isso, afinal, amava Wendy com uma intensidade surpreendente. Eu o vi, dia após dia, dedicar-se a amá-la inteira e completamente. Era como eu e Mione, um pequeno relacionamento proibido, mas o deles era ainda mais proibido que o nosso, afinal, eram guildas rivais. – Eu sei como você se sente... – e apesar dessas palavras, eu não sabia, na verdade, por mais que tentasse eu não conseguia ter uma mínima noção do que ele estava sofrendo. Tentei me por no seu lugar, tentei imaginar ter de me separar de Hermione por sermos de guildas rivais, mas apenas o peso no meu coração por imaginar isso me fazia agradecer aos céus por isso nunca ter de acontecer, por nossa realidade ser completamente diferente. Mas James... Ele... Ele perdeu Wendy. Ele perdeu... Talvez, a única garota que pudesse amar de forma tão profunda.
James:
Cerrei os punhos. Não, ele não sabia, ninguém sabia, ninguém entendia. Eu podia ver em seus olhos o medo enquanto pronunciava aquelas palavras.
Não Alois, você não sabe, mas se eu tirasse Hermione de você, você saberia, ah e como saberia.
E ele ficou em silencio, um pacifico silencio que me fazia ouvir de novo e de novo a voz chorosa de minha linda Dragonesa. Quando tudo se silencia eu chego a ouvir sua voz, angustiada e chorosa, dizendo-me que nunca mais poderemos nos ver. As vezes, ainda consigo sentir o calor de seus abraços, o doce de seus beijos...
—James nós só queremos lhe ajudar. – ele disse, mas a verdade era que o medo transbordava por cada palavra que ele dizia. O loiro, que tanto disse ser meu amigo, tinha medo de mim, era traído pelo próprio timbre de voz. Que patético! – Eu sei que as coisas não estão fáceis, sei que deve doer. Mas eu e a Mione queremos lhe ajudar a superar isso. – quantas mentiras! Eu podia ouvir suas entre linhas; fraco, patético, lamentável, digno de pena. E eu poderia rosnar para ele, ou talvez já houvesse o feito pela expressão assustada que o loiro demonstrou. – Nós... Nós queremos apenas o seu bem... E... Eu tenho certeza de que a Wendy também quer apenas o seu bem.,, — Cale-se, você não sabe de nada! – Ela não ficaria feliz em lhe ver assim e--
—Cale-se! – foi automático o grito que rasgou minha garganta. – Você. Não Sabe. De Nada. – rosnei sentindo a garganta arder, dolorida pelas horas incansáveis que chorei, que lamentei a perda do maior amor da minha vida.
—Eu não sei, é verdade, mas eu não sei por que você não conta. – contra-argumentou a mim, e apesar das palavras firmes, o olhar fora de puro terror. O quão mentiroso ele podia ser?
Pus-me de pé.
—Você é um mentiroso! – o rosnado que ecoou em minha garganta o fez tremer. – Um mentiroso e um medroso. – afirmei, baixo. – Você quer ajudar? Para de fingir que sabe como eu me sinto, para de tentar ser corajoso, para de tentar ser o que você não é e nunca será Alois! – e mais e mais alto minha voz se tornava.
—James eu não--
E antes mesmo que ele pudesse dizer mais mentiras, o soquei com toda minha força. Vi-o cambalear para trás e segurar o nariz sangrento.
—Eu já disse para parar Alois! – disse baixo e firme, enquanto abaixava o punho. – Você não sabe como eu me sinto, você não sabe metade do que eu estou agüentando. Alguém como você, que tem tudo de bandeja, nunca saberia ou entenderia!
Trinquei o maxilar. Minhas visão embaçava-se pelas lágrimas. Meus punhos doíam e empapavam-se no que julgo ser meu próprio sangue. Ouvi pingos, talvez o sangue entrando em contato com o chão, ouvi o coração do loiro mais acelerado que a taxa normal, ele tinha medo, mais do que antes. E então ouvi passos e mais passos apressados.
—James--
—Cale-se! – me aproximei dele. Queria socá-lo mais. Queria bater nele até que minha raiva se esvaísse. Isso era tão injusto! E quando ergui o braço eu vi o temor brilhar nos olhos dele, e gostei disso, e vi o sangue que escapava entre seus dedos. Eu queria mais, queria ver mais sangue. Mas uma mão grande segurou meu punho e rosnei para o impostor antes de puxar o braço para longe.
Recuando três passos até sentir o sofá macio atrás de mim, ergui o olhar para encontrar os olhos azuis sérios do Rei Dragão. O quão irônico isso poderia ser? Olhá-lo, aquele homem que tinha toda a felicidade que desejava e muito mais, apenas me fazia perceber tudo o que eu havia perdido, o doce amor que me havia escapado.
E então pude sentir aquele ecoar baixinho no meu interior. Frio. Gelado. Que trazia consigo as lembranças de quando pude ter Wendy em meus braços. Isso dilacerava-se e, nesses momento, eu tinha a certeza de que nada importava mais, sem Wendy Marvel ao meu lado, nada importava. Tudo poderia ir, desaparecer, e eu não me importaria. Eu poderia me perder naquelas lembranças eternamente, por que nelas eu conseguia ser feliz, nelas eu tinha Wendy, nelas eu não precisava me abrigar, me esconder, e chorar sozinho. Nelas eu era feliz e não havia sombras me sussurrando o quão patético eu era.
Só então notei que o Rei ainda me encarava. Existia, em seus olhos profundos, uma chama tão vivida de decepção que mal consegui sustentar o olhar. Receei tê-lo enfurecido por ter machucado Alois, mas logo percebi que os motivos deveriam ser, necessariamente, outros. E eu tremi com tal pensamento:
—Alois vá para a cozinha. — Ordenou, com a mesma voz que dirigiu a Natsu Dragnell, dias antes. Os pelos do meu braço se arrepiaram imediatamente mediante a estática. Percebi, quase imediatamente, a teimosia de Alois e notei como isso parecia estupido. Aquele homem que naquele momento ordenava não era tão diferente do que não obedecia. — Agora. Vá cuidar desse ferimento. Preciso conversar com esse aqui primeiro.
—Certo. — Vi o tom mudar duas vezes na pronuncia dessas silabas e também notei o brilho insano nos olhos de Alois assim que este se distanciou. Não me importei tanto quanto deveria.
Ousei encara-lo novamente e vi, com mais intensidade que antes, a magoa e a decepção nos seus olhos azuis de quartzo. Reparei também que, se pudesse, tentaria lutar contra ele. Impor-me a ele.
—Nunca pensei que você chegaria tão baixo. — Rosnou, com a voz abatida pelo cansaço, pela raiva e pela magoa. — Desde o dia em que te conheci, rapaz, nunca imaginei que precisaria chegar a esse ponto necessariamente com você.
—Não acha que é muita hipocrisia vir falar dessas coisas comigo, tio? — O deboche fica aparente e a ira do dragão ferve, provocando estranhas sensações em meus poderes.
—Como você pode falar em hipocrisia, pirralho? Tem ideia do que já passei? Do que o seu pai passou?
—Suas vidas são...
—Não ouse dizer perfeitas. — Rosnou Sting novamente e percebi que, a única pessoa que talvez o parasse seria meu pai, ou talvez a própria Lucy. — Diga e eu farei com que seja a única palavra que você dirá por dias! — Vociferou.
—Ah é? E como não são? Você tem a casa que quer, a mulher que deseja e ela ainda o ama! E o que eu tenho? Nada além de falsidade! E ainda do meu melhor amigo.
Percebi algo diferente no Rei Dragão depois que disse isso. Ele simplesmente olhou para o corredor, onde deviam estar todos e riu. Gargalhou das minhas incertezas e angustias, de tudo o que eu acreditava.
Avancei contra ele e senti outra pessoa me segurar, que não o loiro. Vi meu próprio pai segurar meu punho, jogando-me novamente no sofá.
—Ah. Creio que você escutou tudo, não, Rogue? — O tom casual que o Eucliffe assumiu contrastou com a frieza que emanava no homem que, até então, eu admirava.
A resposta veio num silêncio pesado e cansativo, numa troca de olhares claramente intima. Sting simplesmente estendeu a mão e meu pai a segurou, para depois solta-la rapidamente.
—Atacar Sting é estupido demais até mesmo para você, Jay. — O meu pai sussurra.
Mordi o lábio, claramente enfurecido:
—Você não soube educa-lo, Rogue. — Contrapôs o dragão branco, com variáveis tons de deboche e desprazer. — Deixe que eu mostre uma coisa a ele.
Meu pai o encarou seriamente, com uma súbita ira:
—Cale-se.
Eu senti o meu próprio poder responder a essa ordem, sendo que comprimi mais meus lábios um no outro. Meu próprio ser ressoava com ele.
—Essa sua maneira de educação não é nada cordial, Sting.
—Ah é? E você vai deixa-lo se tornar igual a mim em minha amargura? Que ele se destrua igual a mim?
—Você não se destruiu Sting. Olhe como vive hoje.
E foi nesse segundo em que ia me pronunciar, lembra-los que era da minha vida e angustia que recitavam de maneira tão vão, que vi meu pai esbofetear meu tio antes que eu tivesse qualquer reação.
Eu tinha feito a mesma coisa com Alois, contudo, surpreendi-me com a leveza deles, mesmo em relação a isso.
Lucy gemeu com isso, assustada e escutei um sussurro baixo dela, talvez, pedindo paciência. Minha mãe observava tudo em silêncio.
—Então... — Começou o Eucliffe, com um sorriso irônico.
—Parem de agir como se o mundo fosse de vocês! Causaram a minha dor e agora tentam me reprimir!
—Reprimir? Acha que isso é reprimir? — A voz de Sting Eucliffe, apesar do deboche de antes, se altera. Meu pai, mesmo depois de ter batido em sua face puxa-o ferozmente para longe de mim. — Seu pirralho ingrato! Nós te demos algo que nunca tivemos! Somos a sua droga de família e você ainda ousa agir assim conosco?! Nós que te acolhemos?!
—Nunca tiveram ou mataram? — Sinto o olhar até de meu pai em mim. Pura e completa decepção.
—Minha irmã morreu, fedelho estupido. — Rosnou, cerrado os dentes.
—Então agora você se arrepende de tê-la matado?
—Cale a boca, James! — Lucy falou em um tom misto de raiva e angustia.
Virei-me para ela e vi a pura ira em seu olhar, mas em seguida escutei os dois dragões permanecerem em silêncio quanto ao que eu havia falado. Eles estavam de olhos fechados, meditando um com o outro.
—Vá para fora. — Disse a voz do dragão negro, sem alterações. Permaneci parado.
Senti a mão fria de Sting em meu pescoço e logo em seguida rolei pela neve, num turbilhão de branco e cinza. Quando dei por mim tinha Cérbero ao meu lado, rosnando para os dois dragões gêmeos.
Eu consegui sentir o ressoar das espadas irmãs do Eucliffe, como também o rosnado inumano do ferro do Cheney. Teria de enfrenta-los com toda a minha alma e força.
—Não pensei que chegaríamos a esse ponto, mas se é realmente necessário, vai ser feito. — Escuto a voz do loiro, mas mal vejo seus lábios se mexerem.
Não espero que eles se mexam. Avanço correndo, arrastando a minha espada negra pela neva cinzenta e gosmenta. Ela rapidamente foi barrada pela aberração dourada do rei, jogando-a com um rápido impulso para longe.
Avanço de mãos nuas e vejo o Eucliffe socar o chão, tirando qualquer gravidade dele.
Viro no ar, tentando não me machucar na queda. Meu cão rosna em aviso e giro novamente, pousando no chão, com a espada novamente em mãos.
Mal dobrei os joelhos e senti algo chocar-se contra as minhas costelas. Uma dor latente se instala ali, que tentei inutilmente ignorar. Virei para ver meu pai por perto, com sua anormal insanidade.
Girei a espada em sua direção, buscando acerta-lo, cortando apenas o ar a minha volta.
Ele era a sombra na penumbra. A escuridão complexa numa luz abrasadora. Era, definitivamente, o abismo da desesperança mundana.
Sting permanece parado e vejo que ele recita algo. Parece estar rezando a algo.
Encarei meu pai, após esses breves segundos e percebo que nada nele parece normal. Parece... Possuído.
—Pai. — Chamei, docilmente. Não recebi resposta.
Percebi o que Cérbero faria um segundo antes, apenas. Tentei ordenar que ele parasse, mas nada adiantaria. Seus pelos negros reluziam contra a neve, excitados. O cão de três cabeças voou no ar em direção a ele, prendendo-se a pele alva e fria de meu protetor.
Senti o gosto metálico do sangue em meus lábios, pois os mordi de tensão. Escutei o gemido do Cheney, que parecia puramente indignado. O fogo em seus olhos me atingiu rapidamente e a compreensão veio meio segundo depois, como um impulso nervoso correndo por todo o meu corpo e o paralisando.
Um grito rouco saiu de meus lábios e eu caio de joelhos, quase sufocando. Vi, sem perceber, o moreno girar a espada no ar e com ela cortar músculos, ossos e pele. Vi sangue jorrar onde estavam antes três cabeças e também senti nojo de cada gota derramada.
O que eu havia comido no café, horas antes, já estava na neve, misturando-se com o sangue e a lama, como também minhas lagrimas. Uma tremedeira insana tomou conta dos meus músculos quando finalmente levantei os olhos para ver o moreno olhar o parceiro, que permanecia da maneira que estava, antes de tudo isso acontecer.
Quando finalmente consigo gritar sinto uma onda tão forte de poder me assolar que tudo se mistura na minha mente. O pânico e o choque se tornam uma coisa só e minha mente entra em pane. Tanto que estou ouvindo coisas sem sentido. Vendo coisas que não são reais.
Ouvindo a minha verdadeira mãe clamar por mim.
“—Bernie! — Ela roga, enquanto eu simplesmente caio no chão, atordoado. Alguém, que não ela, me acode. Vejo seus olhos negros com riscas carmim neles, parecendo que alguém os riscou com o próprio fogo do inferno.
—Marie, deixe-me cuidar dele. — Ele fala, em tom cuidadoso e saudável. Os seus cabelos negros caiam rentes ao ombro e perdiam-se em suas roupas igualmente negras. Havia algo nele que me era muito familiar.
—Zef, o que está acontecendo? — A voz da minha mãe é densa, urgente.
—Confie em mim, ok? Não vai demorar. — E percebo que ali também está um garoto. Ele me parece mais familiar ainda, apesar dos seus cabelos brancos e pretos.
Noto como o céu está azul e continuo mirando as nuvens brancas que flutuam. Pergunto-me o que está acontecendo. Porque eles estão tão preocupados comigo. Isso sempre acontecia, certo?
—Radios carregue Bernard e me siga. Temos que ir para longe do templo. — O homem diz, suspirando.
—O que vamos fazer, exatamente? — O rapaz pergunta.
Ah, santa familiaridade. Essa voz... Esses olhos...
—Eu tenho que examina-lo longe da mãe. — Explicou, pacientemente enquanto o “moreno” me carregava. — Marie não suportará vê-lo durante o processo.
—Você fez isso comigo, mas eu não sou nada seu. Ele é seu filho e tem apenas... Apenas cinco anos. — Exclama o mais novo, com tom de nojo.
—Uma criança que não deveria ter sobrevivido tanto. Ou a mato ou a selo. O que machucaria menos Marie?
Eu encaro o mais novo novamente e vejo na sua carranca a mais estranha familiaridade. Reconheço Rogue Cheney nele.
—Claro.
Θ
A floresta se fecha ao nosso redor e sinto o poder dele, do meu pai, ressoar em mim.
—Radios, apresse-se.
O rapaz que me carrega bufa, mas não disse nada mais.
Eu me acomodei melhor no peito dele, murmurando:
—Radios... O papai... Ele...
—Shii.
—Por favor... Eu estou com medo. — Choramingo e ele me aperta mais em seus braços.
—Está na hora de descansar, irmãozinho. — E tudo fica negro quando ele beija a minha testa.”
A luz clama me cega por alguns momentos.
Minha cabeça doí e sinto as lagrimas escorrerem sem que eu permita e sinto uma mão acariciar meus cabelos, levemente.
A dor volta quando me lembro de que Cérbero está morto e que nada que eu faça alterará isso. Os soluços que transpõem meu peito fazem com que a pessoa que cuida de mim acaricie com mais gentileza meus cabelos negros e rebeldes.
—Jay... Shii... — Escuto a voz doce de uma mãe. Uma mãe que me adotara e que perdera seu precioso herdeiro. Alguém que poderia me substituir rapidamente.
Porque ela me chama por esse nome? Qual é o meu nome realmente? Quem sou eu?
—Mãe... — Escuto-me murmurar.
—Está tudo bem. Você está bem.
—Cérbero...
—Ele está deitado do seu lado. — E passa a mão na minha testa, massageando-a. — Sei que pode parecer cruel, mas seu tio Sting o colocou dentro de uma ilusão feita pelo seu pai. As ilusões do seu pai, apesar de raramente manifestadas, são poderosas. Foi por isso que você ainda não se recuperou, ou ao menos percebeu que era tudo de mentira.
—Então... Nada daquilo aconteceu?
—Nada até você voltar.
—E aquele sonho? O sonho com minha mãe verdadeira? Nada disso era real?
—Do que você está falando? — A voz da Lohr soa estranha, surpresa. Ela me ajuda a levantar.
Seus olhos castanhos misturados com tons dourados e azuis perdem-se em minhas palavras e vejo preocupação em sua caricia:
—Você sonhava com a sua mãe? Isso já aconteceu alguma outra vez?
—Nunca, desde que a perdi. — Respondo, sentindo um calafrio passar pela minha nuca. — E não foi apenas com ela que sonhei. Vi meu verdadeiro pai e também...
—Ah! Enfim você acordou. — Suspirou o Cheney e virei-me para ele, acusador:
—Como pode?! — Ergo a voz, indignado. — Esteve comigo! Conheceu-me e mesmo assim, me tratou como se nada tivesse acontecido!
A confusão tomou sua face:
—Do que você está falando?
—Como pode me trair dessa maneira Radios! — Rechacei, enojado.
—Radios? Do que está falando? Nanami, o que ele está falando?
—Não sei...!
—Você me abandonou! — Choraminguei, a traição doendo em minha garganta. — Me deixou sozinho e não em ajudou a cuidar da mamãe! Ela era sua mãe também não era? Não éramos irmãos?
—James. O que você está falando?
As lagrimas voltaram a escorrer, injuriada e completamente salgadas.
—James...
—Você mentiu para mim!
—O que está acontecendo? Porque essa gritaria? — Sting pergunta, entrando sonoramente no recinto. Ignoro sua presença.
—Você me usou, Radios! — Grito e o pequeno menino dentro de mim clama, aos prantos, por respostas.
Há surpresa e consternação nos olhos do loiro e por meio segundo, todo seu ser pareceu em pane. Mas tudo some em rápidos flashes de memoria.
O loiro se aproxima de mim, diferente do moreno. Seus olhos azuis aderem às cores do quarto, claro. Seus dedos roçam nos meus cabelos, suavemente, apenas para acalmar-me.
—James...? — Orou, em voz doce e cuidadosa.
—Onde está meu pai? — Choraminga o pequeno Bernard antes que eu consiga contê-lo.
Ele pondera antes de recomeçar:
—Como seu pai o chamava? Qual o seu nome?
—Bernard.
—Não sei onde seu pai está, mas você precisa dormir Bernie.
—Promete-me que não fará aquela ilusão novamente?
Vejo-o sorrir:
—Bons sonhos, Bernard.
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