Shatter Me
17 Estilhaço de Amor Lunático II
Notas iniciais
Sting:
— Como assim ele desapareceu? — Urro, furioso. Lucy tem a expressão culpada e Nanami faz a mesma coisa, só que para Rogue, que parece estar tendo um infarto ao meu lado.
Eu franzi a testa e tentei não explodir, o que, realmente foi difícil.
Porque ninguém me obedece nessa casa?
— Sinto muito, Sting. — Lucy murmura, seus olhos cansadamente sinceros. —Eles se amam, o que mais eu poderia fazer? E quando foi conosco? Como reagimos?
— Isso não vem ao caso.
— Claro que vêm! — Responde ela, com a expressão injuriada.
— A situação era diferente. A guilda ou mesmo os Dragon Slayers não estavam em tanto perigo.
— Sting, eu quase morri. — Noto como eu mesmo tenho de controlar as lágrimas. As memórias dessa época atingindo-me como uma avalanche de neve e me matando. Ou menos, destruindo-me. — Eu quase te perdi. Para sempre.
— Eu sei... Lucy eu entendo! Eu estou tentando te proteger. Proteger todo mundo. — Digo, aproximando-me dela. — Não posso pensar em perder você novamente. Não depois de tudo o que passamos.
— Ele também é minha família. — Implora ela e me derreto quando a vejo começar a soluçar e engasgar involuntariamente.
Inclino-me e encosto sua testa na minha. Beijo seus lábios docemente. Não preciso mais dizer nada, ou mesmo ela.
— Não tem jeito, vou fazer o que você quer. — Murmuro. Lucy sorri e então a beijo novamente, como premio premeditado de recompensa.
— É uma droga quando fazem isso né? — Rogue diz e percebo que Nanami já está em seus braços.
— Sinceramente, isso é golpe baixo.
Então tudo fica em silêncio por um instante apenas e escuto o vento batendo ruidosamente na janela. E um grito corta a noite, desesperado e dolorido, inconstantemente familiar:
— Sting! — Apela, gritando meu nome. A voz chorosa e fina parece sumir ao som do vento, mas já estou na porta da entrada quando escuto o próximo. — Sting!
Saio de casa e vejo uma tempestade de neve se aproximar ruidosamente. O céu está negro e a neve juntamente com o vento já açoitam a mim, enquanto corro até a figura desesperada. Vejo atentamente Kuro, ainda com o sobretudo, as botas e vejo Toshiro em seus braços, sem qualquer agasalho e sangrando, sobre si e o moreno.
Noto como o moreno chora, com a máxima desesperança.
— Entre rápido! — Grito, nervoso.
Ele corre para dentro e fico na frente da porta, fuzilando o vento que mal me deixa enxergar.
— Vamos ver se você consegue fugir disso. — Digo, notando que os inimigos podiam estar me rondando. Instigo meus poderes até que sinto o chão tremer e preparo-me para atacar, até, ouço um grito novamente dentro da casa.
Mordo os lábios, infeliz e dou um soco no chão, montando uma barreira gigante ao redor da casa e de grande parte da floresta. Não me esquecendo de atribuir certas surpresas.
Corro para dentro de casa, me deparando com um Toshiro quase no pós-morte.
Está deitado no carpete, com o rosto mais pálido do que já era, os olhos fechados e a quase sem respirar. Somando a isso, um ferimento entre as costelas e o diafragma, que parecia profundo e mortal.
Kuro estava parado na frente da entrada da sala, com os olhos incrédulos e estáticos. Estava todo manchado de terra, sangue e neve, com o rastro de lágrimas ainda marcando o rosto corado pelo frio e pela correria.
Passo por ele, dirigindo-me até Alois e Wendy, que estavam debruçados sobre o rei pedinte.
— Pai, ele perdeu muito sangue. — O deus branco diz, arregaçando as mangas. — Vai ser muito difícil.
— Não deixe seu tio morrer. — Falo, com a convicção de que ele curaria aquilo com facilidade.
— Pode deixar.
Uma aura dourada e brilhante toma todo o seu corpo enquanto ele fixa uma das mãos no ferimento e outra mais perto do coração do mago de cabelos brancos. De olhos fechados ele começa a aumentar a intensidade da magia e aos poucos sinto que, minimamente, as coisas ao redor dele vibram.
— Não está adiantando. — Grunhi, com o olhar rude e desesperado.
— Alois-kun deixe-me...
— Não! Não encoste nele. — Grita ele, assustando a pequena Wendy que tentava tocar Toshiro e ajudar no tratamento. — Eu tenho de fazer isso sozinho. Não posso perder mais alguém em minhas mãos. Não como daquela vez.
Então me recordo da cena.
Alois tinha o sangue de Nanami nas mãos, assim como o de Levy, mas não podia salvar o bebê de nenhuma das duas. Mesmo com todo o seu esforço.
— Eu sou o deus da cura, droga. Porque não consigo fazer isso? — Ele geme, com lágrimas quase caindo.
“Ele está selado, Sting. Quebre o selo, agora.”
— Sinto muito, Lucy. — Murmuro, calmamente. Uma chama branca fica fixa na minha mão e a coloco nas costas dele, vendo-o fechar os olhos e sufocar um grito.
A aura dourada ao seu redor, se torna mais forte e vejo os magos da Fairy Tail se afastarem.
Quando Alois abre os olhos, vejo que a cor dele está mudando a cada segundo. De verde para azul, depois para marrom , preto e vermelho. Amarelos, laranjas, róseos, roxos e depois novamente azuis. Algo também se faz presente na postura dele, não é mais insegura, parece até...
Seus olhos estão fixos no albino, que respira fracamente a sua frente. Ele se abaixa e escuta o coração do mesmo, suspirando em seguida.
—Parece que terei de doar meu poder a ele. Acho que isso será o suficiente.– Diz numa língua que desconheço e que, mal posso compreender. Ele me olha espantado e sorri. — Obrigado por me salvar, Sting Eucliffe. Vou mostrar a vocês o que é um deus de verdade. — Tenho certeza que as palavras são para mim, mas não as entendo completamente. Sei que disse meu nome.
Vejo o ferimento começar a parar de derramar sangue e poucos segundos depois, passar a se fechar. Toshiro começa a respirar melhor e Alois apenas sorri calmamente, com as mãos ainda sobre o ferimento.
— O tecido já se curou, mas tenho certeza que está frágil. Quer que continue? — Pisco e ele me olha furtivamente, como se esperasse uma resposta. Então bufa e seus olhos ficam verdes. — Eu perguntei se queria que eu reforçasse os tecidos fracos. Ou por acaso não escutou?
A imponência me faz ferver por dentro, mas ignoro-a, suspirando.
— Faça-o e depois iremos conversar.
Alois, ou quem quer que seja, movimenta as mãos e num toque de magica surge um frasco arredondado no fundo, com um liquido dourado brilhante dentro. Ele puxa a rolha com os próprios dentes e abre o frasquinho, que exala um perfume forte de café com laranja, limão, chocolate, baunilha, morango e grama recém-cortada. Meus sentidos piram.
— O que raios é isso? — Resmungo, surpreso até por conseguir falar normalmente.
— Ambrósia, a bebida dos deuses. — Diz, com a expressão ofendida. — Por acaso, nunca lerão nada a respeito disso?
— Há outras lendas mais importantes que as suas, imortal.
Ele me encara, com os olhos tão negros como a noite, mas depois volta a mirar o paciente, onde derrama exageradamente, sobre o peito e a boca do rei pedinte.
O mesmo resmunga, como se engasgasse e logo se levanta, com a ajuda do “imortal” que possuiu Alois.
Aparentando estar melhor, Toshiro abre os olhos:
— Rogue, leve Toshiro para o seu quarto, por hora. Acho que ele e Kuro deverão conversar quando ele se sentir mais... Seguro.
— Sem problemas. — Ele se abaixa e carrega o rapaz de dezesseis anos como carregaria Alois, Nanami ou qualquer outra pessoa a ele querida. Não é rude e sinto até uma pontada de amabilidade nisso. Seja para qual dos dois rapazes for.
Quando volto meus olhos para o loiro, God Slayer, vejo que ele ainda está sentado.
— Para fora. — Ordeno.
— Como queria, rei dos dragões humanos e soberano da magia branco. Oh nobre, Sting Eucliffe. — E sorri, quase impetuosamente a mim, que apenas engulo um ultimo resquício firme de intolerância.
Kuro:
O quarto de Rogue era ao lado do de Sting (assim ele me disse). Era bem arrumado e tinha uma fragrância suave e confortável de flores. Tinha também um colchão de casal e outro de solteiro no chão, algumas malas perto da janela.
Nada fora do normal.
Ele colocou o meu... Colocou Toshiro no colchão de casal e mirou-me, com a expressão condescendente. Parecia querer ajudar.
— Olhe eu sei que... — Começou e mirei seus olhos fixamente.
— Rogue, eu sei o que vou fazer. Se puder nos deixar a sós. — Digo tentando não ser rude.
— Entendo — Vejo-o sorrir — Não quero ter que voltar aqui, entendeu?
— Pare de agir como se fosse Hector, idiota. — Resmungo, fazendo-o rir antes de sair.
Caio sentado no colchão de solteiro, mirando o albino que aparentava sair de seu estado de choque.
Ele estava bonito como sempre.
Os cabelos esbranquiçados estavam minimamente alinhados, caindo sobre a testa e sobre o olho direito. Os olhos cinzentos estavam bem escuros, em transe, fixos em um ponto qualquer do teto. As maças do rosto cheias estavam num tom de vermelho-róseo, meramente por causa do frio, mas já era um bom sinal. Sua palidez sumia a cada segundo.
Eu queria apertá-lo em meus braços, mas meu orgulho gritava aterradora e tristemente.
Mas e se eu estivesse errado? Eu o tinha feito sofrer daquela maneira?
Sem querer me lembro de dias atrás. Lembro-me de como o calor de seu corpo me abraçando era a coisa mais preciosa que tinha. Que eu me sentia verdadeiramente feliz. Que tocava violino e cantara para o rei pedinte até que ele adormecesse na nossa cama.
Começo a soluçar perante a dor de perder tudo isso, de perder a única coisa realmente boa na minha vida, E então escuto um gemido e vejo Toshiro se levantar para me mirar. Vi que ele havia voltado a chorar incorrigivelmente, ferido:
— E-Eu sinto muito... — Gemeu ele, tentando controlar as lagrimas. — Eu não podia... Devia tê-lo avisado... Fui tão estúpido! Não posso viver sem você, Kuro... Não posso...
— E como quer que eu viva com você, Toshiro? Se sei que não posso confiar em você.
— Mas...
— Você e Ethan namoraram por dois anos. — Lembro amargamente. — Você só me usou como substituto até encontrá-lo novamente ou só brincou comigo, mesmo.
— Escutou o que está dizendo? Acha mesmo que eu faria isso com você?
Mordo os lábios, irritadamente.
Querendo ou não eu havia visto-os juntos.
— Se você me ama do jeito que diz, porque estava daquela maneira com Ethan?
Ele respira fundo e diz:
— Porque ele está noivo e será pai. E porque fiquei três horas inteiras ajudando-o a encontrar um jeito de curar Lucy-nee.
Fico olhando-o, estático.
— Kuro, por favor... Entenda. Eu não quero Ethan. — Ele para, olhando-me com seus grandes olhos prateados — Quero você.
Continuo em silêncio, mas então escuto alguém batendo na porta. A pessoa entrar, mesmo que não demos permissão e então vejo Ethan com a expressão culpada. Viro o rosto irritado.
— Olha... Eu não queria interromper... Mas... — Ele parece nervoso, estranhamente nervoso — Kuro, Toshiro não fez por mal. Entenda... Ele até...
— Até o que?
— Me disse que achava que você ficaria irritado com ele. E bem... Ele não precisou me dizer isso, mas sinto que ele tinha medo que algo assim acontecesse. — O moreno deu um sorriso entristecido, perturbador. — Nunca quis atrapalhar a relação de vocês. Fiquei feliz de saber que, depois de tantos anos, vocês finalmente descobriram o que sentiam um pelo outro.
Sinto meu rosto corar e o encaro, sem hesitar.
— Kuro, não sei se Toshiro lhe falou, mas serei pai... Pai de uma menininha que hoje tem sete meses. Eu nunca fui tão feliz na minha vida... — E olhou solicitamente para o albino, que tentava parar de soluçar, por alguma razão. — Eu ia pedir a ele ser o padrinho dela. — Surpreende-me ele e miro o rei pedinte, tão surpreso quanto a mim. — Olhe, entendo que sinta ciúme de mim, mas esse albino é muito mais seu do que um dia foi meu. Agora, ele é como um irmão mais novo para mim.
Levanto-me e fico frente a frente com ele:
— Se você acha que ele é apenas o seu irmãozinho, consentiria um pedido meu? — Sussurro.
— Depende.
— Por favor, deixe-me em paz com ele. — Sussurro novamente e vejo uma expressão surpresa. — Se não fizer isso, eu e ele vamos sofrer. Eu ficarei louco. E tenho de protegê-lo... Não posso...
— Tudo bem... — Concluiu Ethan, como se aquilo fosse difícil para ele também. — Mas prometa-me...
— Prometo. Se for por causa da sua filha, fique tranquilo que não o afastarei...
— Não é isso. — Respondeu, interrompendo-me. — Prometa que o fará feliz, como eu não fiz e como não farei. Cuide dele, porque nunca mais vai achar outra pessoa que o ame, Kuro. Se perdê-lo, acredito que nunca mais se perdoará.
Fico em silêncio por um instante e o quarto todo também fica, apenas pelo vento açoitando a janela fazendo o mínimo barulho.
— Só espero que não se importe de que ele vai me ajudar por enquanto. Até que Lucy fique completamente bem. Para isso preciso de toda a ajuda possível.
— Tsc. Que seja. Agora vá. — Digo.
Ethan sorri e depois sai, com seu jaleco branco (ou será casaco) balançando atrás dele e a porta se fecha.
Caio de costas no colchão, tão cansado que quase quero dormir, mas então viro-me para Toshiro:
— Eu te amo... — Confesso, sem me importar com as minhas bochechas quentes. — Eu não suportaria viver sem você... Não conseguiria. — Vejo-o chorar novamente e me levanto, com muito esforço pelo cansaço e vou até ele, sentando-me ao seu lado.
— Desculpe... — Choramingou e beijo a sua testa, carinhosamente.
— Não, eu fui o idiota. — Relevo, pacientemente. — Sinto muito, Shiro.
— Promete que nunca mais vamos ter outra briga como essa... Eu pensei que fosse morrer. Eu quase quis... Isso.
— Prometo. Promete que nunca mais agir como idiota e sair na neve sem casaco? — Isso o faz rir. Mas então, seguro a sua mão e me inclino para o lado, beijando o canto dos seus lábios.
Seus dedos se entrelaçam aos meus e ele me beija em seguida, apaixonadamente.
— Shiro... — Digo, sentindo o pequeno anel no meu bolso. Ele estava ali desde o começo e também faz mais de dez dias que o escondo, de forma heróica. Talvez seja cedo demais, ou tarde demais — O que acha disso? — Tiro o anel de prata e ele me encara, confusamente.
— É um anel, ora.
— Isso eu sei. Mas estou querendo dizer do que ele representa, entende?
Ele cora e sorrio.
Sting:
O vento açoita o meu cabelo, bagunçando-o da pior maneira possível. Arrumo-o quando vejo que miraculosamente, o ser que possuiu Alois — Seja ele deus ou não — está todo agasalhado.
— Comece a explicar. — Ordeno e ele sorri, abismado.
— Os sentimentos desse garoto por você são fortes. É como um pai para ele, mas talvez... Não para mim.
— Quem é você?
— Eu sou a outra metade, que você libertou. Sou o deus Sol, Apollo.
— O que você quer?
— Quero ensinar a esse garoto que sou o que ele sempre sonhou. Você viu, Sting, como ele se portou quando não conseguiu curar aquele rapaz, não viu? Como ele estava prestes a entrar em desespero se você não tivesse me libertado?
— Mesmo assim, não é certo. Alois... Ele é... Ele é humano... E esse é o corpo dele. O corpo dele que você está ocupando.
— Eu realmente sinto muito, mas...
— Quer o corpo dele, não é? — Deduzo e o ele reage corando. Isso o assusta e ele toca as bochechas, surpreso. — Não pode fazer isso.
— Mas esse corpo também é meu! Os poderes dele são meus!
— Porque vocês não se unem? — Seus olhos brilham, da mesma cor dos meus.
— Unir?
— Formar um. Os dois se tornarem um ser, apenas.
— Eu não... Eu não... — A expressão dele pareceu confusa. Os cabelos loiros ficaram agitados pelo vento, estranhamente desleixados. Os olhos dele tomaram um tom verde escuro, como as folhas da floresta no inverno. Parecia perder o controle. — Eu não posso me perder.
—Você não irá se perder... Apenas, vai representar parte da consciência dele. — A confusão em seus olhos se torna vã — Um alter-ego que pode se libertar, com muito esforço.
— Isso é brilhante...
— Assim, poderão dividir o mesmo corpo sem que eu precise ficar tirando e colocando um selo nele toda hora. — Contrapus e isso o deixou animado.
— Como poderei explicar isso a ele? Mesmo sendo quem sou...
— Alois não é burro. Ele vai entender quando te vires. Apenas diga que... Está ali para ajudá-lo e que vocês cresceram juntos. São como um.
— Bem, acho que entendo porque ele te admira tanto. — E sorriu, parecendo contente. — Você realmente é alguém que se deve seguir.
E desmaiou.
Eu o peguei antes que caísse no chão, seguro-o contra meus braços, carregando-lhe para dentro.
Natsu e Lisanna miravam-me surpresos e suspirei, vendo que deveria dizer a eles o que havia acontecido:
— Era só... Um problema de...
— Múltiplas personalidades. — Adivinhou Erza, ao lado.
— É. — Concordo, deixando meu corpo relaxar, pelo menos um pouco. — Vou levá-lo para cima. — Subo as escadas e caminho rapidamente para o quarto. Lucy está deitada e Ethan está sentado na cadeira à frente da cama, anotando algo.
Fico surpreso ao vê-lo ali:
— Minha nossa, o que houve? — Pergunta ele, surpreso.
— Não é nada... Ele só está cansado. Vai medicar Lucy?
— Vim verificar como ela estava. Pelo visto, adormeceu por causa da medicação. — Responde-me, continuando a anotar algo. — Ela me contou sobre o bebê. — Começou, quando pousei o God Slayer na cama e ele se encolheu. — Estou tratando disso, não acho que não poderão ter filhos novamente.
— A minha preocupação não é, necessariamente, essa. — Explico, tentando parecer casual. — Ela te disse que foi premeditado?
— Sim. Que foi seqüestrada.
— Ah, entendo. Então sabe com o que estou preocupado não é? Ou porque reagi daquela maneira, quando me aproximava de você e Toshiro. — Seus olhos azuis estão totalmente obsoletos em mim. São como scanners, que rastreiam tudo em mim. — É proteção.
— Zelo. — Completou, em voz suave. — Eu sei. E também não deve parecer, mas estou ansioso para ir para casa. Estou pensando até em enfrentar essa tempestade.
— Algum motivo em especial? — Canso de ficar na cama e me sento, há tempos não converso “normalmente” com alguém.
— Minha noiva. — Segreda. — Ela está grávida de sete meses e morre de medo de tempestades. — Vejo-o dar um meio sorriso encabulado.
— Se eu pudesse, controlaria o clima, mas não tenho esse dom. Sinto muito. — Dou um sorriso e ele ri, calmamente.
— Eu não me preocuparia com isso. — Ethan fala, calmamente — Bem, posso te fazer uma pergunta?
— Claro.
— Como você agüenta tanta gente na sua casa? — Eu rio, porque nem mesmo eu estou conseguindo me aguentar, ultimamente.
— Não sei. Se quiser me acompanhar, posso te mostrar uma das maneiras mais legais de suportar isso.
Eu me levanto e ele faz o mesmo.
Descemos as escadas juntos e mostro a ele meu piano, branco e de cauda, com uma fina camada de poeira de um mês. Sento-me e vejo Ethan puxar uma cadeira na cozinha para observar.
Coloco as mãos nas teclas, dedilhando as teclas, sentindo o som da musica fluindo e aquietando a todos os presentes na casa. A musica dança sobre mim, trazendo com elas frias lembranças boas, que a tanto se foram. De pessoas perdidas que adoravam essa musica. De amores que se deixavam adormecer nessa melodia.
Um sorriso triste se formou em meus lábios.
Muitos mais mortos.
Mais lembranças.
Paro de tocar e vejo que todos os meus convidados estão espalhados por todos os cantos da cozinha, sentados ou em pé, fascinados.
— Sting, isso... — Começa Nanami e Rogue ri disso, divertido.
— Vocês nunca ouviram Sting tocar antes... Acho que é normal essa surpresa. — O moreno comenta. — Ele nos fazia parar de ter pesadelos tocando uma melodia... Como se chamava?
— Lacie. — Murmuro, ainda mais nostálgico.
— Certo. — Laxus disse, com um sorriso animado. — Que tal tocar mais uma?
Volto a tocar.
E paro.
Escuto um barulho no andar de cima e corro, para o meu quarto. Lucy está abaixada, como se tivesse caído. Os cabelos loiros levemente desgrenhados e os olhos sem muito brilho.
Eu a coloco em meus braços, erguendo-a e fazendo com que ela passe seus braços em torno do meu pescoço. Ela tenta sorrir, mas sei que está com dor:
— Está maluca? — Pergunto, naturalmente assustado.
— Eu acordei e estava me sentindo bem... Pensei ter ouvido você tocar e...
— Lucy, você não pode se levantar. — Eu a puxo para os meus braços e a carrego, de volta para cama. —Repouso.
— Sabe que eu odeio ficar deitada.
— Vamos ter que discutir sobre isso? — Pergunto, sem deixar de estar nervoso. Minha voz sai autoritária e ela abaixa os olhos.
— Eu...
— Você vai ficar na cama e parece que eu vou ter que te vigiar de perto. Se eu quiser que você melhore. — Informo e ela parece surpresa. — Porque eu preciso que você fique bem logo. — Confesso.
— Sting... — Sento-me na cama e beijo-a, intensamente.
Lucy passa suas mãos frias sobre o meu pescoço e as desce, trazendo um arrepio com isso. Arfo, separando-me um pouco e ela geme, pedindo por mais. Atendo, colocando-a contra a cabeceira.
— Aqui não. — Sussurro de volta e a carrego.
— O que?
— Shii. — A porta se fecha e tranca, automaticamente e vou com ela até o banheiro, onde vou dar um “banho” nela. — Não vai ser a primeira vez que dividimos a banheira.
— Sting! — Ela esconde o rosto, mas ri.
Isso já me parece melhora o bastante.
Stan:
Eu o encontro sentado perto de uma arvore.
Ele arfava, pesadamente e me surpreendo, vendo que ele só tinha saído para fazer uma ronda rápida.
— O que houve com você? — Pergunto, preocupado. Tento levantá-lo e vejo-o gemer, com sangue manchando a camisa branca por baixo do agasalho de lã de botões.
É a primeira vez que o vejo ferido dessa maneira.
— Zeref, pelos deuses, o que houve?
— Eu fui pego de surpresa. — Gemeu ele, com os olhos negros. — Maldito seja... Não pensei que estivesse tão poderoso.
— Quem?
— Sting Eucliffe.
— Vocês... Lutaram?
— Não... — Responde, inspirando com dificuldade. — Eu acertei um amigo dele com a faca e antes que eu pudesse me distanciar o suficiente, ele me atingiu com uma onda de energia. Magia branca dos dragões.
Mas a magia de Sting...
— Além do que, não pensei que ele já tivesse condições de me machucar, mesmo sendo o rei.
— Isso foi idiotice. — Murmuro. — Eu disse que algo ia dar errado.
— Lembre-me de seguir os seus conselhos, Stan. —Brinca, quando consigo colocá-lo de pé e transportá-lo longe, duas cidades mais longe.
Estamos no quarto, com uma enorme cama de casal. Deixo-o na cama e ele simplesmente cai, quase desacordado. Talvez a dor física, que ele não sente há tempos, seja mesmo quase insuportável.
Preparo uma vasilha de água e também varias toalhas e panos pequenos. Vejo que ele realmente está desacostumado com a dor física e que, não compreendo o que, o impede de gritar. Sua expressão é a de pura e total aflição.
— Só não se mexa. — Pedi, tentando parecer tranqüilo.
Odiava fazer curativos, mesmo que em mim mesmo e vê-lo daquela maneira acabou trazendo lembranças dolorosas sobre o poderio ofensivo de Sting. O que me surpreende é que eu não sabia que o Rei Dragão poderia machucar Zeref, o mago imortal.
Isso me deixa assustado, pois, para mim ele era realmente invencível e imortalizado por cada um de seus “amados”.
Corto a sua blusa branca com uma faca pequena, tirando-a de seu peito e vendo uma queimadura profunda, vermelha alaranjada cheia de pus, pele cinzenta e sem vida. Pego um pano e assim que a toco, tentando limpar o sangue, o moreno grita sonoramente.
— Ah! — Ele geme, curvando o corpo quando tiro o pano e o encaro perplexo.
— Eu mandei ficar parado. — Ordeno, em voz baixa.
Aquele é o ferimento principal, mas vejo mais queimaduras perto de seu ombro esquerdo e de seu pulso e punho direito. Ele havia tentado conter a magia, pelo visto.
Molho um dos panos limpos na água e o torço, para apenas ficar úmido. Começo a limpar a parte de fora do ferimento, onde a queimadura era mais leve. Zeref se contorce, angustiado, mesmo ao toque mais simples e mais distante do ferimento.
Consigo limpar todo o ferimento no abdômen com muito esforço para não causar mais dor ao mago e, sem limpar a parte mais ferida, tenho de ir aos outros, também machucados da mesma maneira.
O ombro o faz gritar desesperadamente, com um simples movimento e, assustadoramente, consigo ver parte da sua clavícula.
— Me perdoe por isso. — Peço, baixinho.
— Pelo que?
Coloco o pano — outro — limpo e cheio de água no ferimento. Ele grita tanto que lagrimas caem de seus olhos, desesperadamente. Limpo rapidamente, vendo que era mais grave do que eu previa. Quando termino, deixando-o ainda bem exposto, tenho medo de que Zef tenha desmaiado involuntariamente.
Tiro a pele e o pus das mãos, sendo que não escuto nenhum grito em sobreaviso dessa vez. Por ser uma queimadura pequena, posso enfaixá-la sem precisar das os pontos, coisa que terei de fazer com os outros dois.
Levanto-me, suado e sujo de sangue e pele morta, mirando o moreno que, semi-consciente, permanecia olhando para o teto, com o olhar vago.
Abro um dos armários e pego uma garrafa de dois litros de Uísque. Com ela, linha de nylon e uma agulha pequena. Mais ataduras e pano. Água e toalhas. Tomo um gole, tentando fazer com que consiga fazer isso sem vomitar.
Está quase dando certo.
— Agora vamos para a parte difícil. — Digo, dando a ele a garrafa. Ele a segura com a mão boa tremula, colocando-a perto do rosto. Arrumo a linha e o resto das coisas quando vejo-o tomar um grande gole.
— Nunca senti tanta dor na vida... Bem, talvez já uma vez. — Segredou, em voz baixa e tremula. A água já estava cheia de panos e a agulha e a linha prontas. Agora preciso me preparar apenas para os gritos. — Acho que a pior dor da minha vida foi a rejeição. Inúmeras vezes, porém.
— Muito bem. —Sussurro a mim mesmo.
Termino de limpar o terrível ferimento no abdômen e vejo que por sorte, nenhum órgão vital tinha sido atingido. Zeref parece querer continuar a falar:
— Eu vivi como nenhum outro humano suportaria viver. Amaldiçoado, renegado, temido. Há anos, nenhum ser vivo consegue se aproximar de mim. Eu desejei morrer. Achei que Natsu Dragnell fosse o rei dragão quando o encontrei em Teroujima, mas me enganei.
Coloco a agulha na sua carne, puxando-a de um lado para o outro, numa perfeita linha reta. Seus olhos perdem o brilho rotineiro:
— Quando você terminar isso, saia da cidade. Vá o mais longe que puder, Radios.
— Porque? — Pergunto, cozendo sua pele o mais delicadamente que posso.
— Usarei todos os meus poderes para regenerarem esses ferimentos. Como custo, vou matar muitas pessoas. Fique longe, para o seu próprio bem.
Respiro fundo.
— Sim, eu farei isso. — E fecho o ferimento no abdômen calmamente.
— Seu irmão... — Começa e antes que eu continue, costurando seu ombro ele fala novamente. — Rogue, não é mesmo? Eu o vi. Ele estava usando uma aliança. — Eu sei disso.
— E o que isso tem demais?
— Você deve esquecê-lo. — Completa ele, olhando-me nos olhos.
— Não posso.
— Então sua missão fica cada vez mais insuportável. — Concluiu, com a voz áspera e gasta. — Matar seus sobrinhos... Ferir sua cunhada e juntamente com ela, seu irmão. Como você suporta essa dor? — A agulha em minha mão para, antes que eu o fure. Meus dedos tremem e estou contendo lagrimas estranhas, que chagaram numa péssima hora.
Miro seus olhos e vejo que, apesar de parecer consciente, vejo que ele está num estado de alucinógeno terrível. Mas não deixa de falar a verdade.
— Cale a boca. — Resmungo e continuo curando-o, mesmo que as minhas lagrimas caiam sobre seu ferimento.
— Você vai ter de escolher. Ou Rogue e seus crimes ou a mim e a sua vingança. — Sua voz soa vã e desconexa, como se ele devaneasse entorpecida e tristemente. — Ainda me pergunto qual será a sua escolha.
Keith:
Abro os olhos.
Estou deitado numa cama macia e o ar tem cheiro de coisa caseira.
Viro-me e vejo a senhora Eucliffe ao meu lado, como se guardasse meu sono.
Remexo-me, tentando me levantar e ela me olha confusa, levantando-se para me ajudar.
— Keith você não pode se mexer. Descanse.
— O que...? Como vim parar aqui? Eu estava na ilha e...
— Não sei. — Seus olhos, iguais aos de Sting parecem tristemente confusos. — Você apareceu na porta de casa todo coberto de sangue. Sorte que não era seu.
— Sangue... — Então a chuva de sangue não tinha sido um sonho. — Klaus ... ele...?
— Não o vi. Vocês estavam juntos? O que houve?
— Não sei. Talvez tivesse vindo inconscientemente. Não sei. — Se estou aqui, Klaus pode estar...
Com Charlotti.
Sento-me e esfrego a cabeça.
— Sempre que eu o vejo assim, sinto que algo ruim aconteceu ou vai acontecer. — A senhora diz e sinto um arrepio.
— Você tem razão. Ainda não aconteceu, mas virá em breve. — Suspiro. — Preciso me preparar, Mama. Faça o mesmo.
Levanto-me e saio da casa, a passos rápidos.
Automaticamente, quando dou o primeiro passo fora da varanda dos Eucliffe’s sinto minha energia ser drenada.
“Veja.
Veja o que seu futuro reserva ao seu filho, Weisslogia.
Vejo Sting amarrado a uma fita vermelha e também vejo que ele estende a mão até uma garota, também loira, que também está amarrada a essa fita. Vejo um rapaz de cabelos negros e olhos vermelhos e vejo o bastardo de Zeref, ambos, de costas um para o outro, como homônimos, gêmeos. Talvez prestes a lutar um contra o outro. Uma sombra contra outra.
Há uma criança sentada no chão, observando-os e ao lado dela, Zeref, com a mesma expressão. Eles se encaram e o pequeno ri inocente e alheio a tudo, puxando inconscientemente a fica do rei dragão para o mago negro.
A fita que liga Sting há jovem se rompe, mas o pequeno segura a da garota, sendo entrelaçado por ela. Sting se dirige a Zeref, com a espada na mão e a fita cortada pendendo sobre o ar.
Só então, tudo fica turvo.”
Sting:
Cinco dias se passaram.
Hoje é a missa de sétimo dia de Suzumme, ao qual, não pretendo ir.
Alois tem treinado incessantemente na neve, aprendendo que, apesar do tempo, ele pode fazer certas proezas notáveis.
O estado de saúde de Lucy melhorou duzentos por cento. É como se tivesse voltado no tempo. Agora Ethan a liberou para sair do quarto, mas ainda recomenda que ela não se esforce ou treine demais.
Voltei a treinar também.
Já que tenho os anéis dos reis celestiais, nada melhor que aprender a usa-los como complemento.
Sei usar dois, dos três que ganhei.
— Muito bem. — Digo, sentando-me na neve e vendo Alois, com um animo renovado, treinando. Ele tem evoluído bastante. — Tempo?
— Pode ser. — Responde, puxando algumas mexas teimosas para trás. Sua expressão anda mais seria agora.
— O que descobriu?
— Que ele é um gênio. — Suspiro — E que, tecnicamente, isso faz de mim um gênio também.
— Muito bem. Quer testar esse anel? — Jogo o anel de Tyler para ele, mesmo que não seja, exatamente, sua praia um anel que controla a terra.
Ele o examina, com olhos minuciosos e vejo que ele e o deus estão usando o corpo agora, ao mesmo tempo. Cada olho fica de uma cor, um azul e outro verde.
— Um anel de ouro maciço. Dentro dele tem uma pedra, mas nunca senti uma pedra igual a essa. — A voz de Alois está seria e sei que ele não está acostumado a Apollo. Talvez seja apenas questão de tempo. — Parece parecido com Lancelot, apesar de ser totalmente diferente.
— Pode virar uma arma, mas não tem diretamente as propriedades como Lancelot o tem, certo?
— Exatamente.
Ele coloca o anel no dedo polegar e este se encaixa a ele, moldando-se na mão inteira e cobrindo-a igualmente.
— É um tipo de magia formidável. Outros deuses faziam isso. — Comentou, ainda com os olhos multicoloridos.
— Consegue usá-la? — Pergunto, em tom desafiador.
Tinha minhas espadas, um escudo e uma lança. Acho que vou repassar essa arma para ele.
— Você só pode estar brincando comigo. — Ele desdenha, calmamente.
Ele começa a fazer movimentos circulares com a mão, como se empunhasse uma lança e imediatamente um bastão de ouro surgiu em sua mão. Mas ao invés de uma lança, um tridente com a lamina negra surgiu, com duas fitas — uma branca e uma azul — presas perto do cabo de apoio a lamina de ferro.
Acho que quero trocar agora.
— Muito bem. Dê-me ela aqui. Pegue a lança. — Digo e nós trocamos os anéis, vendo que sou melhor com um tridente do que com uma lança.
Uma do dragão e outra do tigre. Ambas as armas reluziam a espera do combate.
Alois bate no chão com força, fazendo uma pequena onda se erguer e vir na minha direção. Giro o tridente e o empurro contra o chão, fazendo-o trincar aos meus pés. Neve derretendo em todos os lugares.
— Ok, então tome isso! — Alois/Apollo diz, apontando uma esfera maciça de magia em minha direção. Ele bateu nela com a lança, ganhando mais velocidade.
— Ah é? Vamos ver então. — Eu a rebato de volta e ele desvia, abaixando.
Sem querer, a magia acerta alguém chegando e explode.
Alois fica com a lança apoiada no chão, piscando e voltando ao normal. Agora, pelo menos, ele consegue controlar um pouco mais o outro individuo dentro dele.
Três magos estão protegidos por uma barreira, sendo que o mais velho dentre ele detém a expressão divertida.
— Se soubesse que estariam treinando, mesmo nessa época, teria vindo com menos roupas. — Hector diz, com seu cachecol branco e o seu sobretudo creme. Minerva e Hermione sorriram, cúmplices, e Alois acenou a elas, sendo que não poderia ficar tão agarrado à namorada com Hector por perto.
— Lembre-me de avisá-lo da próxima vez. — Argumento e ele abre um sorriso maior. — É bom vê-la também, Minerva.
— Igualmente, Eucliffe. E Lucy?
— Lá dentro, no escritório. — Ela estava passando a maior parte do tempo lá, lendo sobre toda e qualquer coisa.
— Vou chamá-la. — Alois diz. O anel voltou ao seu estado normal e ele o jogou para mim, mas antes que entrasse, Minerva o impede:
— Pode deixar, Alois. Eu vou chamar a sua mãe, já que vocês quatro tem muito o que conversar. — Só então percebo que Hermione está muito quieta e que, Hector está assustadoramente calmo.
A expressão que Alois faz, sinceramente, me faz ter dó dele.
Vamos ver no que isso dá.
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