Shape of my heart

1 Capítulo Único


Zoro realmente não sabia se ele escolheu essa vida ou se esse tipo de vida o escolheu. Talvez não houvesse outro jeito, talvez fosse a única coisa em que ele era bom. Talvez ele realmente gostasse disso. De usar suas espadas não como um mero hobby, mas como um modo de vida. E uma luta real com consequências reais nunca se compararia a uma competição.

Desde que ele deixou o Japão, essa é a única vida que ele jamais conheceu, a de um assassino profissional. Ele não era particularmente ambicioso, nem se importava com o dinheiro. Ele só gostava de lutar e queria sobreviver. Pagar suas contas, cuidar do seu marimo, talvez sair deste prédio horrível. Isso certamente era uma prioridade agora, pois ele descobriu que seu vizinho era um traficante famoso e o lugar estava sempre cheio de pessoas perigosas, e às vezes policiais. O tipo de gente que ele não podia arriscar ter farejando ao seu redor.

Entretanto, hoje realmente não tinha sido exatamente uma escolha. Ele deixou seu apartamento para nunca mais voltar, mas nem sabia que isso iria acontecer quando ele começou seu dia.

Ele chegou em casa, como sempre, depois de um trabalho, e encontrou um dos filhos de seu vizinho fumando na área comum. Sanji, como ele ouviu alguém chamá-lo alguma vez.

Ele não era o mais novo deles, mas com certeza parecia. Mesmo que todos parecessem quase iguais, sendo gêmeos e tudo mais, ele parecia muito mais frágil e magricela, e ainda mais pálido que seus irmãos. Suas perninhas pendiam da varanda, e ele as movia sem parar, encarando suas próprias pernas cheias de curativos até suas minúsculas botas de couro. Zoro notou os machucados nos locais descobertos onde a pele exposta revelava todos os tipos de cores, púrpura nos mais frescos, amarelada nos mais antigos.

"Você não é jovem demais para fumar?" Ele perguntou à criança loira, que não poderia ter mais de doze anos.

"Não." O garoto disse, soprando um pouco de fumaça em direção ao teto. "Você não vai me dedurar, vai?"

"Por que eu faria isso, garoto?"

"Não sei. As pessoas gostam disso, eu acho. Meus irmãos adoram." Ele explicou. "Eles adoram o olhar no rosto do meu pai quando eu o desaponto. Faz com que se sintam melhor consigo mesmos, eu acho. ”

Zoro não gostou do jeito que o garoto parecia. Não como uma criança, mas como alguém já espancado pelo mundo e decepcionado com ele. Ele apenas olhou para o menino e foi direto para seu apartamento, voltando alguns minutos depois com um pouco de gelo em uma toalha.

"Aqui." Ele entregou para o garoto. "O da sua coxa direita parece horrível."

O garoto loiro olhou para ele por alguns segundos antes de pegar a toalha e sorrir. Era o tipo de sorriso que Zoro não achava que veria em um garoto assim, quente e brilhante, que iluminava todo o rosto, até mesmo seus cabelos loiros pareciam menos pálidos e mais dourados agora.

"Você é gentil para um velho rabugento." Ele continuou sorrindo inocentemente, mesmo dizendo coisas assim. "Você já comeu?"

Zoro balançou a cabeça.

"Então eu vou cozinhar para você!" Ele se levantou tão rápido que quase bateu a cabeça na sacada. "Vou comprar algumas coisas no mercado da esquina. Vai ser super-rápido, eu juro. "

O homem de cabelos verdes podia simplesmente se afastar, mas Sanji olhou para ele com tanta expectativa que não conseguiu.

"Ok." Ele resmungou. "Seja rápido, criança."

Zoro ficou esperando por ele em seu apartamento, mas logo ouviu uma comoção vindo da casa do vizinho. Através do olho mágico, ele tentou ver o que estava acontecendo, embora não fosse difícil de adivinhar.

Havia muitos capangas, e ele podia ouvir os gritos e berros enquanto a família de Sanji era eliminada, certamente devido a algum problema no negócio de drogas de seu pai. Isso era realmente bastante comum. Matar uma família inteira para ensinar uma lição, para mostrar o poder de alguém, para não deixar nenhuma testemunha.

Então, ele viu a pequena figura de Sanji atravessando o corredor, passando por um homem armado que guardava a porta da sua casa e vindo direto para o apartamento de Zoro. O garoto era corajoso o suficiente para fazê-lo sem vacilar, mas de perto Zoro podia ver o quanto ele estava tremendo e respirando mais rápido a cada minuto.

"Por favor abra a porta." Zoro podia ver Sanji murmurar as palavras através do olho mágico quando tocava a campainha muitas vezes. "Por favor."

Parecia que estava prestes a chorar. Provavelmente o pobre garoto estava pensando que Zoro estava com medo de abrir a porta ou algo assim.

O que obviamente não era o caso. Ele só precisava não ser visto, não se envolver nisso. Ser pego nesse fogo cruzado seria um maldito pesadelo. E ter que explicar as coisas para um policial também não parecia ótimo. Por isso, ele não queria abrir a porta.

Mas ele não poderia deixar Sanji lá, esperando para morrer.

Então, é claro, ele o deixou entrar, enquanto o menino empurrava uma sacola de compras nos seus braços e se movia para sentar à mesa, segurando as pernas e parecendo muito pequeno encolhido na cadeira.

Zoro ficou sentado com ele sem jeito por alguns minutos, sem saber o que dizer exatamente.

Eles deveriam ir embora agora, ele sabia disso. Era melhor partir antes que a polícia chegasse para bisbilhotar a respeito dos assassinatos. Então ele pegou o essencial, que era seu estojo com as espadas, a sacola de compras e o aquário do seu marimo, e encorajou Sanji a subir em suas costas para que eles pudessem sair dali.

O garoto ficou quieto durante toda a caminhada até a pousada mais próxima, e isso era esperado, Zoro supunha. Toda a família dele foi assassinada, então esse não era exatamente o dia mais agradável da vida desse garoto. Zoro estava tranquilo com o silêncio, era geralmente uma coisa mais agradável do que conversa e palavras desnecessárias.

Entretanto, quando finalmente chegaram ao quarto, ele sentiu que deveria pelo menos dizer alguma coisa. Não que ele fosse bom em palavras, mas era estranho deixar o garoto continuar olhando para a parede sem dizer nada.

"Sinto muito pelo seu pai." Zoro disse enquanto servia um copo de leite para os dois.

Sanji não deu sinal que havia escutado de imediato. Ele estava apenas olhando para o pingente em sua gargantilha, segurando o objeto prateado como se fosse algo precioso, passando os dedinhos finos no metal.

"Não sinta." Ele finalmente disse, erguendo o olho azul para encontrar o de Zoro. "Eu nem gostava deles. Eu até me sinto meio idiota por me sentir mal, mas simplesmente não consigo evitar. ”

Zoro sabia que havia muitos garotos que odiavam completamente sua família perfeitamente comum e pacata, mas esse garoto nem conseguia odiar a sua família abusiva aparentemente.

"Você não é idiota, garoto." Zoro disse com mais carinho do que gostaria de dizer. "Quero dizer, você é claro, mas não por causa disso."

O garoto olhou para ele com as sobrancelhas encaracoladas franzidas, mas Zoro podia ver seus lábios se curvando em um sorriso.

“Sabe, minha mãe me deu isso. Antes de morrer alguns anos atrás. O garoto voltou a encarar o pingente. “Ele tem o nome dela gravado. Sora. ”

"Significa céu." Ele traduziu a palavra para Zoro, provavelmente desconhecendo sua origem japonesa, mesmo que o sotaque de Zoro fosse tudo menos sutil. "Bem legal, né?"

"Eu acho."

“Bom, ela sempre dizia que nomes são coisas importantes e especiais e coisas assim. Mas aí ela deixou que ele me desse o nome de Sanji. ” O loiro revirou os olhos.

Zoro nunca pensou no nome daqueles gêmeos, mas agora que Sanji apontou isso, parecia a maneira mais preguiçosa possível de nomear seus filhos. Ainda mais preguiçoso do que Zoro chamando seu marimo de marimo.

"Qual é o seu nome, aliás?" Sanji perguntou curiosamente.

"Zoro".

"Bem, esse é um nome ainda mais estúpido." Zoro quase engasgou com o leite que estava bebendo, derramando o líquido sobre a mesa. Ele olhou irritado para o garoto que parecia apenas estar gostando de seu sofrimento e decidiu que ele era definitivamente um merdinha muito irritante e que já era hora de ir para a cama.

"Ei, Zoro." Sanji o chamou quando o garoto já estava deitado na cama, coberto e pronto para dormir enquanto Zoro estava quase apagando a lâmpada.

"Hum.”

"Você é um assassino, certo? Meu pai costumava dizer isso. Ele disse que podia sentir o cheiro em você. ” Zoro não sabia exatamente o que o homem queria dizer com isso, se era apenas sua aura em geral, ou se Zoro realmente cheirava a sangue, a morte.

"Esqueça isso."

"Mas acho que é bem legal". O garoto disse e ficou quieto por alguns segundos antes de adicionar. "Você pode me ensinar como ser um também?"

"Não." Ele viu o beicinho de Sanji depois da sua resposta.

"Por que não?"

"Vá dormir."

“Você poderia usar alguma ajuda. Eu sei cozinhar, posso fazer praticamente tudo o que você precisar, sério. ” O garoto declarou, barganhando. "E eu ... bem, eu realmente não tenho outro lugar para ir."

Zoro suspirou ao ouvir isso. Ele imaginou que quase qualquer lugar seria melhor para esse garoto do que ficar ao seu lado. Então ele simplesmente desligou a lâmpada e murmurou as palavras vou pensar.

Antes que ele pudesse sair do lado da cama, Sanji passou a mão minúscula em torno de dois dedos de Zoro, enquanto lhe desejava boa noite. E Zoro ficou tão assustado que se esqueceu de afastar a mão.

Ele desejou que fosse uma boa noite. Ele desejou que esse garoto dormisse bem e não tivesse pesadelos hoje. Ele desejou que houvesse algo mais que ele pudesse fazer por ele, mais do que arrastá-lo para sua vida bagunçada.

Ele apenas desejava que Sanji estivesse feliz e sempre sorrisse aquele sorriso brilhante dele.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.