Shamandice
6 Um punhado de areia
Um punhado de areia
"O conhecimento sobre alguém é como um punhado de areia: mais escapa pelos dedos quanto mais se tenta retê-lo ou aumentá-lo"
O dia estava infernalmente quente, até mesmo para os cavaleiros que gostavam do calor, e Camus era, de longe, o mais incomodado. Sempre que podia, o cavaleiro de gelo corria para a Sibéria quando a temperatura do Santuário parecia que ficaria acima dos 30ºC por mais de dois dias, mas, diante da ordem taxativa de Atena, de nenhum cavaleiro de ouro sair sem um motivo relevante, o francês viu-se confinado naqueles típicos dias de verão mediterrâneo. Por ele, ficaria em sua gélida casa, que ele próprio resfriara, mas compromissos sociais demandaram sua presença exposta ao sol: apesar de Máscara da Morte não ser o mais popular dentre os cavaleiros de ouro, havia um tempo que Atena instituíra sua política de aprofundamento dos laços entre seu alto escalão e decretara dia de festa sempre que um de seus guardiões dourados ou seus cinco fiéis protetores de bronze faziam aniversário. E todos os cavaleiros mais próximos a ela eram intimados a comparecer e a se inter-relacionarem. Naquele dia, por causa do calor, a festa ocorria às margens do lago próximo ao Salão do Grande Mestre.
Muito enfadonho, diria Camus. Todos se reuniam, conversavam, bebiam com moderação (até Atena se retirar), comiam e, no final, cantavam parabéns ao aniversariante. Todos se divertiam, todos conversavam, todos comemoravam. Todos que tinham amigos, claro. E o francês, desde que perdera Milo, vivia em constante isolamento e solidão. Poucos ainda arriscavam uma troca de palavras com o aquariano, pois raramente dava em algo; então, ele passava quase despercebido naqueles dias de festejo. Agora, incomodava-o olhar para todos os lados e ver que era o único sozinho, afinal. E pensar que, antigamente, Afrodite colava nele mesmo com os protestos de Milo; agora, o sueco nem olhava em sua direção...
Distraiu-se, por fim, examinando as taças sobre a mesa farta, montada para servi-los ali mesmo, ao ar livre. Não que fossem tão interessantes que merecessem uma análise primorosa, apenas estavam tão abandonadas quanto ele. Preferia estar em casa. Solidão por solidão, preferia estar na Sibéria, não derretendo ali. Mas, na verdade, desejava mesmo era estar no lugar de Shaka, que ouvia entretido Milo falar e gesticular, animadamente embriagado. Queria Milo de volta, apesar de não admitir para si esse desejo claramente. "Saudades", explicava-se, sentimento natural após tanto tempo convivendo com alguém. E, ademais, sempre achara o escorpiano uma companhia agradável, senão não teria sido amigo dele por tanto tempo e aturado suas crises de infantilidade, sua promiscuidade e seu gênio quando eram apenas amigos.
– E então, Camus, o que acha da festa? – perguntou-lhe Atena, que se aproximara naquele instante do cavaleiro de gelo.
– Muito bem preparada. Aldebaran se superou nos detalhes – respondeu ele, sem entusiasmo. Se bem que ele não era de demonstrar mesmo entusiasmo.
– É, tem razão – concordou a deusa.
Não que ela tivesse prestado atenção no que ele dissera; apenas queria sua companhia e ouvir sua voz. Trocaram mais algumas palavras desinteressadas, por ocasião, apenas para fingirem uma conversa, até Afrodite e Aldebaran pararem ao seu lado, em busca de champanhe.
– Parabéns pela festa, Aldebaran – disse Camus, como sempre fazia.
– Né? Ficou mara, não? – orgulhou-se o taurino, inflando o peito – Se fosse dentro do salão eu já tinha até decidido a decoração das janelas, mas acho que o lago deu um toque mais especial do que as cortinas dariam. Escolhi vermelho para os detalhes porque acho que é a cara dele, não concorda? E também tentei colocar bastante comida italiana no menu, afinal aniversário alude a nascimento, a terra natal, certo? Pena que as pizzas virão só depois do pôr-do-sol... Mas o importante é que virão! Eu pedi para...
Aldebaran continuou seu monólogo como se todos estivessem empolgados em ouvi-lo. Na verdade, Afrodite era o único que prestava minimamente atenção, enquanto escolhia uma das taças e depois bebia vagarosamente seu líquido. Apesar de falar demais e em alto tom, o brasileiro era uma boa companhia e o pisciniano gostava de passar algum tempo a seu lado algumas vezes. O melhor de Aldebaran é que ele nunca fazia inquisições a respeito do que falava, então era só fingir escutar quando ele abria a matraca e parecia que nunca mais pararia de falar que tudo ficava bem.
– ... e eu não acho que deveríamos deixar isso passar em branco, né, Atena? Afinal, aqueles moleques tentaram fugir do Santuário durante o treinamento, o que é inadmissível...
Desde quando o assunto mudara de festa para tentativa de fuga? Camus nem percebera essa mudança. Atena também não parecia muito entusiasmada com a conversa. Agora que não estava mais sozinha com o aquariano, ficar ali perdera a função. Assentiu com mais algumas frases de Aldebaran e retirou-se quando, por sorte, Tatsumi requisitou sua atenção longe dali. Mas aquilo não era suficiente para que Aldebaran se calasse. Continuaria falando alto e animado enquanto tivesse companhia.
– E aí, Deba! O que tem de mais nos morangos? – perguntou Shaka, aproximando-se do pequeno grupo, a fim de buscar algo para saciar a sede.
– Falaê, Shaka! Estava eu aqui a contar sobre os aprendizes que encontrei fugindo do Santuário. Acredita que um deles teve a cara de pau de dizer que não estava fugindo, que só estava atrás de morangos? Não se fazem mais jovens como antigamente... – respondeu Aldebaran solicitamente. Afinal, alguém mais estava interessado no que falava!
Camus, se fosse o indiano, teria tentado passar despercebido, pegado o que queria e voltado para onde estava. Agora Shaka fora tragado também para aquela conversa interminável. Aquilo significava que Milo estava sozinho... Ou não. Talvez significasse exatamente o contrário. Talvez Milo tivesse encontrado uma parceira e os dois tivessem escapulido para um local mais reservado. O peito do aquariano queimou com aquela hipótese. Porque não podia voltar a incomodar a promiscuidade do grego apenas como incomodava antes de se tornarem amantes? Agora se sentia sufocado só de imaginar aquelas mãos tocando outros corpos. Ainda não estava acostumado com a perda de sua posse exclusiva.
– E porque não falamos para Milo dar uma olhada?
O nome do escorpiano sendo pronunciado por Aldebaran trouxe a atenção de Camus para a conversa novamente. Que tinha Milo? Que demandava ser visto?
– Né, Camus? Milo é de onde mesmo? – perguntou o cavaleiro da segunda casa.
– Corfu, uma ilha no oeste da Grécia – respondeu Camus, prontamente, apesar de não saber qual era o assunto. Não só ele era o arquivo vivo do Santuário, como também tinha tido como melhor amigo Milo durante muitos anos. Naturalmente, a ficha de Milo era a que melhor sabia ali no Santuário. E era tudo o que precisava saber para responder a pergunta.
– Estão vendo? Milo é perfeito! Com certeza ele conhece essa sopa Borou-borou e encontra um lugar que venda os ingredientes!
Ah! Então era sobre culinária! Só Aldebaran mesmo para falar sobre aquilo. Camus devia ter imaginado que não era nada importante. Mas Milo lá sabia cozinhar? Ele já tinha preparado pratos simples, mas esse tal de "borou-borou" não devia ser como fazer um "arroz à grega".
De repente, ouviram Afrodite rir. O que era tão engraçado?
– Ih... que que há, Dite? Enlouqueceu? – perguntou o taurino, franzindo a testa.
– Não não, Deba, desculpe aí. Estava tentando me controlar, mas não deu. Foi mal.
– E qual foi o motivo da graça? Conte-nos, quem saiba a gente possa rir também – perguntou Shaka, em tom repreensivo. Independentemente do motivo, aquilo tinha sido falta de educação, e o indiano era meio que o "pai" de Afrodite também. Ele tinha um fortíssimo instinto paternal.
– É que vocês estavam falando de pedirem para Milo preparar esse Borou-borou e eu imaginei a cara dele quando vocês pedissem...
– Mas Milo é um excelente cozinheiro, se é que não sabe – corrigiu o loiro.
– É lógico que eu sei, Shaka. É só que Borou-borou é uma comida típica de Corfu, e essa foi a graça!
– Não entendi. Isso não deveria ser o óbvio? – perguntou Aldebaran, confuso. Peixes devia ter bebido muito e não estar raciocinando direito. Se bem que nunca soubera do cavaleiro ser fraco com bebidas... – Quero dizer, acho difícil que ele nunca tenha provado Borou-borou, afinal, é a comida mais famosa da cidade dele!
– Oh, sim, é a cidade em que ele nasceu, o que não significa que seja a cidade dele, não?
Os três olharam para Afrodite, como se tivessem se perdido no meio da conversa. Camus revirou mentalmente todas as informações que lera sobre Escorpião e tudo o que ouvira desde que o conhecera, mas nada, em lugar algum, indicava que o sueco estava zombando-lhes. Milo sempre dizia que era de Corfu, que nascera em Corfu, que Corfu era uma ilha grega... De fato, Milo nunca dissera: "Passei a infância em Corfu". Todos deduziram aquilo. Camus deduziu aquilo. Corfu e Ilha de Minos eram os únicos lugares que o grego mencionava como lugares em que morara, fora o Santuário. Haveria um terceiro?
– Volta o bonde que passou meu ponto! – exclamou Touro – Milo é de Corfu, certo? – Afrodite assentiu – e Borou-borou é uma comida típica de lá, certo? – o cavaleiro assentiu novamente – E Milo não conseguiria fazer essa sopa pra nós? Cara, ainda que ele não tenha vivido a vida inteira lá, imagino que em qualquer lugar da Grécia em que ele dissesse que era de Corfu alguém saberia fazer isso e teria mostrado pra ele! Porque sempre que você sai da sua terrinha e vai pra outra cidade e comenta sobre o lugar de onde vem, se tiver uma comida típica, a primeira coisa que comentam é dela! É que nem lá na minha terrinha: se encontrar baiano, pergunta sobre o acarajé!
– Ok ok, já falei demais. Se assim preferem, vão lá, peçam para ele e vejam o que ele responde. Eu só queria estar junto para ver a expressão dele... Mas tanto faz. Vamos voltar a aproveitar a festa, que, aliás, está muito boa, Aldebaran. Ah! Já ia me esquecendo! Tenho que falar com Saga! Até mais, pessoas.
Afrodite despediu-se apressado, como se não quisesse ficar com eles nem mais um minuto além do necessário. Na certa queria evitar que ficassem lhe perguntando sobre o passado do inimigo, que devia estar ligado ao dele de alguma forma que ele queria proteger a qualquer custo. Mal tinha ele se virado quando Touro chamou-o.
– Hey, Dite! Já que você foi amigo de infância de Milo, por acaso você não saberia fazer essa sopa, saberia?
– Sinto muito, Deba. Mas Milo e eu pouco mais conhecemos do mundo grego fora o que o Santuário nos apresentou. A Grécia sempre foi apenas o país em que ele nasceu e nada mais.
E saiu, sem dizer mais alguma palavra. E daí que acabara de responder uma das perguntas que mais se faziam sobre onde Milo e Afrodite se conheceram? Agora, para assombro de Camus e Shaka, ambos sabiam que fora fora da Grécia. Da Grécia! Do país cuja língua pátria Milo sempre dera a entender que era a única que sabia! Do solo que Milo sempre dera a entender que fora o único em que pisara antes de ir ao Santuário! Do lugar em que todos sempre imaginaram ser onde estavam as raízes do escorpiano!
Era difícil definir quem estava mais chocado com a descoberta: se era o francês ou o virginiano. Um porque sempre acreditara saber tudo sobre o amigo, sempre se gabara de conhecê-lo plenamente; o outro porque podiam não saber muito sobre seu passado, mas pelo menos todos sabiam que nascera e fora criado na França e dali seguira direto para a Rússia. Ou seja, o dado que mais importante de sua identidade, ele nunca escondera ou maquiara. Mas parecia que Milo queria manter não só seu passado com Afrodite escondido de todos. Quem era, afinal, o cavaleiro mais misterioso do Santuário?
Incrível como um simples fato pode perturbar a mente por horas. Shaka e Camus pouco se lembraram do que acontecera na festa após aquela conversa, pois passaram o tempo todo mais preocupados procurando indícios que os levassem ao nome de outro país onde Escorpião passara a infância. E em como podiam ter levado quase uma década para descobrirem algo tão elementar sobre alguém que ambos consideravam o melhor amigo.
Aquela noite, Shaka não conseguiu dormir. Pensava em quantas coisas mais ele não sabia sobre o amigo e que, ao menos ele assim considerava, fossem tão relevantes quanto saber que ele, ao contrário do que todos pensavam, não morara na Grécia durante a infância. Talvez alguém achasse que era uma tempestade num copo d'água, mas como ele poderia se dizer profundo conhecedor de Milo se ele nem sabia onde o escorpiano havia sido criado? As pessoas sempre carregam muito dos costumes e da cultura de onde crescem. Mas o cavaleiro sempre parecera tão grego! A começar pela língua, que era a única que já o ouvira utilizar. Após essa revelação, ele bem que podia ter até uma família!
Aqueles que queriam ser cavaleiros e se submetiam ao treinamento, quase como regra, eram órfãos. Ora, que pai, conscientemente, iria mandar, ou no mínimo permitir, uma criança treinar suicidamente, no fim do mundo, para proteger uma deusa que a maioria acreditava existir apenas na mitologia? Os candidatos costumavam ser crianças abandonadas em orfanatos ou pelas ruas. Como a maioria dos cavaleiros também não tinha filhos (morriam muito cedo!), ele também não se lembrava nem de cinco casos de crianças treinando porque o pai era cavaleiro ou a mãe amazona. E também não tinham muito contato com as pessoas de fora do Santuário. Por qualquer lado que se olhasse, veria órfãos ou pessoas largadas pela família, que nem sabiam viva ou se preocupavam com ela.
Por isso, quando Milo e Afrodite mostraram se conhecerem, apesar de pairar a dúvida de onde se conheceram, todos pressupuseram que tinham vindo do mesmo orfanato (da Grécia, de preferência). Saber que o amigo não tinha vivido em Corfu punha em cheque tudo o que ele acreditava saber do passado do escorpiano antes de terem se conhecido. Lembrava-se vagamente de uma vez Milo ter dito vivera em Corfu quando o conheceu. Era mentira?
Queria lhe perguntar. Por que Afrodite podia saber algo que ele não? Iria perguntar. Mas decidira esperar... Será que conseguiria se segurar? Queria esperar até que Milo resolvesse contar...
Sentou-se na cama e encostou-se na cabeceira. Não conseguiria dormir se ficasse pensando naquilo. Olhou Milo dormindo tão tranquilamente, agarrado ao travesseiro, uma perna para fora da cama. Acariciou suavemente os cabelos ondulados do grego que lhe cobriam levemente a face. Gostava tanto daquele menino problemático! Poucos conseguiriam lhe tirar o sono por um motivo daqueles.
Havia quem dissesse que Shaka nutria um amor reprimido pelo escorpiano. Ninguém poderia entender os sentimentos do indiano pelo grego a menos que tivesse vivido o mesmo que ele.
Shaka, desde sempre, tinha estado sozinho. Não conhecera os pais. Antes de ser recolhido por um abrigo budista, morara num barraco pendurado à margem do rio Ganges com mais vinte e duas crianças e uma velha em míseros 40 m². Aos três anos, fora trocado por um saco de farinha e entregue em um templo budista, onde o mais jovem exceto já vivera mais de meio século. Não tivera amigos. Todos, todas as crianças com quem vivera em seus primeiros anos de vida, a velha, as crianças da vila próxima, tinham medo dele ou achavam-no estranho demais, se não louco. Falava com Buda? Ninguém normal afirmaria isso. Os monges tratavam-no bem porque intentavam se aproveitar do fato. Ele sempre assistira, sozinho, crianças brincando ou em companhia dos pais. Ele queria um amigo, já que não podia ter uma mãe. Acabou levado para se tornar cavaleiro ainda pequeno. Treinou sozinho e os poucos "amigos" que fez ou logo morreram ou tentaram tirá-lo do caminho para conseguir a armadura. Vivera sozinho, sem nunca haver recebido carinho verdadeiro de alguém. Não que fosse frustrado por isso. Acostumara-se com a solidão, mas sentia vontade de ter amigos.
E assim foi por praticamente 12 anos, até conhecer Milo. Conheceu-o antes de conhecer Afrodite, pois este fora mandado ao Santuário apenas quatro meses após o grego. Os três tornaram-se muito amigos, no entanto Milo sempre foi o mais querido para Virgem, pois sempre fora o que mais nele confiou e por quem expressou afeto. Para o indiano, o escorpiano fora não só seu primeiro amigo verdadeiro, como também a primeira família que teve. "Família" no sentido de alguém unido a ele por laços mais fortes do que a amizade, com sentimentos de carinho, respeito e cumplicidade recíprocos, que envolviam brigas, reconciliações e extrema intimidade. Milo era, ao mesmo tempo, como um irmão e filho para Shaka, alguém por quem ele perderia várias noites de sono só para ouvir suas queixas, mágoas ou travessuras, a quem ele desejava toda a felicidade do mundo, independente do que tivesse que fazer para obtê-la. Nutria, sim, um forte amor por Milo: um misto de amor paternal, fraternal e por sua pessoa. Um amor incondicional, como apenas alguém da família é capaz de ter. Um amor completamente livre da luxúria.
E durante toda a noite que ficou pensando no passado de Milo a única conclusão a que chegou é que continuaria amando-o independentemente de qualquer coisa.
oOo oOo oOo
Apesar de Milo não ser uma das pessoas mais atenciosas do mundo, ainda no café da manhã ele já tinha a certeza de que algo não estava bem com Shaka. Estava incomodado com algo? Preocupado? Irritado? Sabe-se lá. Mas que não estava normal, ah!, isso ele não estava! Perguntou algumas vezes o que havia ocorrido, mas Virgem afirmara sempre que não havia nada errado. Após a décima vez perguntando a mesma coisa e recebendo a mesma resposta, desistira, antes de irritar o amigo com sua insistência. Não fez mais perguntas durante a manhã. Treinaram juntos, conversaram sobre seus discípulos, foram junto ao refeitório na hora do almoço. Tal qual todos os dias. Milo não iria correr o risco de discutir com a única pessoa que lhe sobrava no mundo dentre todas as que já considerara as mais importantes. Se Shaka dizia que não havia nada errado, não havia. Pelo menos ele faria de conta que acreditava. Se um dia o amigo quisesse falar, ouviria; se não, tudo bem. Aprendera a respeitar o silêncio naqueles anos que passara ao lado de Camus. Faria daquele um dia tão normal quanto os demais.
Mas isso não dependia apenas dele.
Entravam, os dois amigos inseparáveis, no refeitório, distraidamente, entretidos com a própria conversa, quando Milo sentiu o impacto em seu rosto e, pego totalmente desprevenido, sentiu seu corpo girar e quase tombar no chão, se ele não tivesse tratado de recuperar o equilíbrio o mais rápido possível. Haviam-lhe socado o rosto! Mal seu cérebro conseguira processar a informação e ele ouviu a voz daquele que mais odiava, estranhamente descontrolada:
– Seu filho da puta! Eu vou te matar, desgraçado! – gritou Afrodite a plenos pulmões, àquela altura já segurado por Aioria, Máscara da Morte e Mu.
– Seu imbecil retardado! O que pensa que estava fazendo? – retrucou Escorpião, já querendo partir para a briga, mas também já estava sendo segurado por outros cavaleiros. Que importava se ele não entendia o motivo daquela agressão? O que importava é que o haviam atacado e não podia deixar o fato passar em branco.
– Como você se atreveu a fazer aquilo?
– Eu é que pergunto como você se atreveu a me dar um soco, seu merda! Quem vai te matar sou eu!
– Então, venha, veja se é capaz!
Ninguém jamais havia visto Afrodite tão alterado. Milo era normal, ele sempre externara suas emoções com mais facilidade do que a maioria dos cavaleiros de ouro. Aqueles dois sempre haviam brigado, alguns achavam que chegava até a ser engraçado, mas, naquele momento, eles realmente pareciam que iriam se matar se assim os deixassem. Shura olhou para Shaka, que o ajudava a segurar Escorpião, procurando ver uma luz que explicasse o que estava acontecendo, mas Shaka estava com uma expressão tão confusa como nunca tinham visto. Por qualquer ângulo que se olhasse, era uma cena única. Os dois se agrediram mais um pouco com palavras antes de começarem a delinear minimamente o motivo da confusão.
– Você achou mesmo, Milo, que eu não ficaria sabendo do seu cartãozinho com flores, é? – gritou o pisciniano, tentando se soltar para bater novamente no inimigo – Você sabe que Claire não sabe mentir!
– E eu nunca pedi para que ela mentisse! Por acaso você ficou sabendo o porquê eu mandei o cartão e as flores?
– Não me interessa o motivo! Era para você nunca mais se aproximar dela!
– Você é a criatura mais desprezível que eu já conheci! Cara, ela está morrendo e a culpa é sua! Desculpa aí, mas eu não consigo fingir que está tudo bem e simplesmente ignorá-la depois de tudo que aconteceu!
– Ah, é, eu já ia me esquecendo o quanto você é bom em manter promessas!
– Essa promessa eu não quebrei! Se esqueceu de que eu nunca fiz o seu teatrinho? E eu não mencionei o seu nome em momento algum!
– Não era esse o combinado!
– Dane-se o combinado! Eu tenho sangue correndo nas veias, só não vou visitá-la porque não posso sair daqui!
– Você não tem nada a ver com isso! Você tem que se preocupar é com Antoi, não com ela!
– Acontece, darling, que Antoi não significa para mim nem um décimo do que ela significa, além de estar muito bem de saúde, por sinal!
– E você acha mesmo que ela ficará melhor só por receber um cartão de melhoras de você? Se liga! A essa altura, vai fazer tão mal quanto se eu aparecesse por lá!
– Você NUNCA iria fazer mal a ela, muito pelo contrário! Mas não que eu tenha imaginado alguma vez que você iria lá, senão eu teria te contado assim que fiquei sabendo!
– Claire não tinha nunca que ter te contado!
– Acorda, Afrodite! Eu vi no jornal semana passada! Não falo com Claire há um mês!
– Ah, agora vai querer que eu acredite que você não só costuma ler o jornal como lê o daquele lugar? Acha que sou idiota?
– Acho! Se não fosse, não continuaria agindo como um!
E voltaram aos xingamentos. Não ouviram nenhuma das vezes em que outro cavaleiro falou, esqueceram-se de que não estavam sozinhos, esqueceram-se que nunca falavam de algo que remetesse ao misterioso passado de ambos. Foi necessária a intervenção de Camus e Saga, que foram os últimos cavaleiros de ouro a chegarem, e utilizaram-se de sua extrema proximidade com Atena para impor ordem e fazerem os dois inimigos se calarem. O clima estava tenso. Saga levou Afrodite e Camus, Milo. A primeira dupla foi para uma praia deserta, e a segunda para uma das ruínas do Santuário, deixando os dois encrenqueiros o mais longe possível um do outro e das demais pessoas.
O escorpiano não disse uma palavra, nem durante o caminho, nem durante o sermão. Não ficou de cabeça baixa porque não era seu estilo, entretanto também não encarou Aquário em nenhum momento. Camus nem sabia o porquê estava perdendo seu tempo falando com ele. Sabia que ele não estava prestando atenção, e ainda que, milagrosamente, estivesse, suas palavras não fariam a menor diferença. Lamentava sua primeira conversa a sós com o ex-amante após o rompimento ser por um motivo daqueles... Falou o quanto quis e, esgotadas as repreensões, dispensou Milo, que se virou e saiu em silêncio. Aquilo era tão... não-Milo. Ainda que não prestasse atenção no sermão, sempre se defendia ou fazia piada com a seriedade de quem o repreendia, que normalmente era o próprio Camus. Não parecia ter ficado em silêncio por entender o papelão que fizera ou concordar com a bronca, tampouco parecia achar-se culpado.
Saga não teve mais sucesso em sua conversa com Afrodite, que também nada dissera, apesar de manter uma expressão muito mais zangada do que a de Milo. Passado o sermão e dispensado o sueco, Gêmeos encontrou-se com o francês, para discutirem o ocorrido e se deveriam contar para Atena. Deveriam, com certeza, uma vez que muitos presenciaram a cena, que poderia ter terminado tragicamente, e antes que alguém – Aldebaran – desse com a língua nos dentes e falasse primeiro. Atena ficaria furiosa... Mas como nenhum dos dois estivera presente no começo, deviam obter o máximo de informações possível antes de contarem para a deusa. A quem perguntariam? Normalmente, seria a Shaka, mas estando Milo envolvido o indiano era a pessoa menos indicada para tecer um relatório imparcial. Aldebaran exageraria, como era típico dele. Máscara da Morte e Shura tinham ideologias muito fortes, o que poderia acabar prejudicando o relato. Mas Mu estivera presente. Na certa, ele era o mais indicado para contar exatamente o que acontecera, apesar da forte ligação com o virginiano. Poderiam, depois, conversar também com Aioria, já cientes dos detalhes da ocorrência, apenas para complementação do relato. Decididos, partiram em busca do tibetano.
Já Shaka, preocupado, esperava a volta do amigo. Temia que já tivesse sido punido, que não tivesse mantido a calma, que tivesse piorado ainda mais sua situação. Porém, se tivesse sido levado por Saga, o indiano estaria muito mais temeroso, mas tendo sido Camus duvidava que este fosse capaz de algo que realmente machucasse o ex-amante, independentemente do que tivesse acontecido entre eles. Eles ainda se amavam, não? A frieza do francês não seria tão gélida a ponto de ignorar tantos anos de dedicação. Além do mais, não fora Milo que começara a briga, não seria justo ele receber uma punição mais severa do que Peixes. E Camus era, de longe, o mais querido de Atena, que sempre concordava com suas opiniões, então, quem sabe, aquilo não pudesse ser benéfico para o grego? Ah, estava tão preocupado! Já fazia mais de uma hora que os dois haviam sido levados!
Andava de um lado para outro, na entrada de sua casa, esperando avistar, a qualquer momento, o melhor amigo subindo aquelas escadas, quando viu Afrodite surgir ainda com cara de poucos amigos. Interceptou-o logo, a fim de obter alguma informação.
– Milo ainda não foi liberado?- perguntou, aproximando-se dele.
– Não sei, a última vez em que o vi foi a mesma que você – respondeu Peixes, friamente.
– E foi tudo bem com Saga?
– Sim. Ele apenas falou e falou.
– Hum... Você sabe que Atena não vai ser tão benevolente assim não?
– Sei – respondeu Peixes, enquanto passava pelo amigo para continuar seu caminho.
– Dite! — chamou Shaka – Você não saberia, por acaso, onde Milo está, saberia?
– Não. Não o vi, não sei para onde Camus o levou, nem se eles já não estão mais juntos e nem para onde ele iria. Mas se eu fosse você, esperaria sentado a volta dele.
Sem mais uma palavra, Afrodite virou-se e seguiu seu caminho. De fato, não queria conversar. Tudo bem. Independentemente de tudo, o virginiano ficaria ali, esperando pela volta do amigo o tempo que fosse necessário.
E esperou. Esperou horas. Anoiteceu, e nada de Milo! Ninguém o vira, ninguém sabia dele. Camus jurou tê-lo liberado antes de Saga ter liberado Afrodite e que nem percebera a direção que o escorpiano tomara ao se afastar. Eles não podiam deixar o Santuário, mas ninguém ali tinha notícias do cavaleiro. Será que saíra imprudentemente? Atena já ficaria brava o suficiente com ele pela briga, imagina por uma desobediência dessas! Shaka estava desesperado.
A lua já estava alta quando Afrodite desceu novamente e parou perto do amigo desconsolado. Ainda estava com cara de poucos amigos, mas bem mais suave. Provavelmente passara as últimas horas refletindo sobre o que fizera. Bom. Seria melhor para a situação de Milo se Afrodite reconhecesse sua culpa. Mas o cavaleiro não parecia ter descido metade das Doze Casas apenas para demonstrar ter pensado no que ocorrera; havia outro motivo.
– Ainda preocupado com Milo? Falei para esperar sentado – disse o sueco, encostando-se num dos pilares da Sexta Casa e examinando uma mecha do próprio cabelo. Não queria olhar para Shaka. Na verdade, nem sabia se queria mesmo ter ido até lá e se isso seria o melhor.
– É claro que estou. Milo é meu melhor amigo, você sabe – respondeu Virgem.
– Então vá até onde ele está — disse Afrodite, com desdém.
– Se eu soubesse onde ele está, não tenha dúvidas que eu estaria lá também. Acontece que todos os lugares que eu pensei que ele poderia estar são fora do Santuário, e não acho que ele desobedeceria Atena nessa situação.
– Ele não faria isso mesmo... – Peixes suspirou, antes de prosseguir a fala – Ele está na área do baixo Santuário, perto da praia em que Medusa petrificou aqueles aprendizes que tentaram fugir.
– Como você sabe? – estranhou Shaka. Não era como se Milo vivesse naquele lugar.
– Porque quando ele quer fugir do mundo porque está com raiva e não pode sair do Santuário, é para lá que ele vai.
Shaka olhou fixamente o cavaleiro de Peixes. Ele próprio nunca reparara aquilo. Aliás, ele só tinha visto Milo naquela região uma vez, por acaso. Por que tinha que ser justo o sueco a dizer-lhe onde encontrar o amigo? Se tivesse sido qualquer outro a dizer aquilo, ele não teria acreditado, mas fora Afrodite, ninguém menos. O único que possivelmente sabia tanto, ou mais, do escorpiano quanto ele.
– Obrigado – agradeceu o virginiano, correndo para o lugar indicado.
Enquanto corria para onde o amigo deveria estar, muitas coisas passavam por sua cabeça. Cada dia mais, sentia conhecer menos Milo. Os últimos dois dias haviam sido um avalanche em seu íntimo, abalaram profundamente sua auto-confiança. Por que Escorpião, de repente, parecia tão distante? Sentia como se corresse e corresse e nunca pudesse alcançar o coração do amigo. Não sabia nada de sua origem, de sua terra, de seu amigo de infância, e nem todos os lugares que o grego costumava ir em determinadas situações! A ideia de dividi-lo com Camus lhe era absolutamente natural e aceitável, mas por que o fato de ser Afrodite que o conhecia tão bem incomodava tanto o cavaleiro? Aquela proximidade, aquela intimidade... Se tivesse sido o cavaleiro de gelo a contar-lhe do lugar, não estaria tão aflito. Por que se sentia daquele jeito?
Tão logo chegou ao baixo Santuário já avistou Milo bebendo com alguns outros homens. Aquela área era conhecida por baixo Santuário porque era ali que costumavam ficar os seguidores de Atena que não conseguiram uma armadura. Eram os primeiros a morrer no caso de um ataque, mas seu valor era proporcional a sua força. Eram os peões, que serviam apenas para atrasar invasores. Homens de coragem, Shaka admitia, mas não eram uma boa companhia para cavaleiros, especialmente cavaleiros de ouro. Milo era tão impulsivo e insensato...!
– Hey, não acha que já passou dos limites? – perguntou ao amigo, assim que se aproximou dele.
Escorpião não respondeu e ele suspirou. Não tinha jeito mesmo. Puxou o amigo para fora da cadeira e longe das garrafas de bebida. O grego apoiou-se no amigo, para se equilibrar. Estava muito bêbado, realmente. Do nada, abraçou Shaka e sorriu.
– Você sempre vem e sempre diz a mesma coisa – disse Milo, apoiando a cabeça no ombro do outro – Parece que ainda tenho treze anos e você veio me buscar, como meu irmão mais velho.
– Às vezes eu tenho cá minhas dúvidas se você realmente não tem mais treze anos... Venha, vamos para a minha casa.
– Isso é tão igual àquela vez – murmurou Milo e Shaka corou imediatamente.
– Milo! Você sabe que esse é assunto proibido, não?
– Sei sei... Você tem uma bela bunda, já te falei alguma vez?
– MI-LO!
– Tá, parei! – disse o escorpiano, rindo da vergonha do amigo — Mas ainda não entendi qual o problema...
– O problema é que você está bêbado e eu não sou gay! – sussurrou Virgem, puxando o amigo de volta às Doze Casas, receoso que alguém ali ouvisse a conversa.
– E quem está afirmando o contrário?
– Ninguém, mas esse assunto me incomoda, você sabe!
– E por quê?
– Porque sim, oras!
– Não, é sério, eu realmente não entendo isso. E faz anos que eu não entendo isso. Não é a hora de falarmos sobre?
– Não é hora, nem lugar. Vamos para casa, aí você dorme e quando acordar esquece esse assunto, beleza?
– Foi tão ruim assim?
– Não é que foi ruim, mas eu não gostei, entende? Ah, Milo! Vamos simplesmente embora, ok?
Milo não disse nada. Sabia mesmo que Shaka não gostava de falar sobre aquilo. Em todos aqueles anos, jamais haviam conversado sobre aquela noite em que o indiano fora buscá-lo no bar, daquela noite em que tudo o que Milo queria era poder se afogar, em que se sentia a pessoa mais desprezível e miserável do mundo.
O indiano realmente odiava aquele assunto, fugia dele desde que aquilo acontecera. Na verdade, nunca entendera o porquê fizeram aquilo naquela noite. Nunca tinha sentido qualquer tipo de desejo pelo amigo, tampouco tivera problema de hormônios. Simplesmente tinha acontecido. Não se lembrava nem como começara, talvez por ter passado os últimos anos esforçando-se ao máximo para esquecer o ocorrido. Nunca haviam conversado sobre aquela noite, pois sempre que Milo, e sempre ele, tocava no assunto, Shaka dava um jeito para a conversa não ir adiante. Talvez devessem mesmo conversar, mas Virgem ficava tão incomodado... Não era como falar sobre suas noites com diversas mulheres. Não era como ser assistido durante o sexo. Era um tabu, era seu segredo mais secreto, e assim queria que fosse para sempre.
Chegaram em casa pouco depois da meia-noite. Shaka levou Milo até o banheiro e ajudou-o a tomar banho. Eram amigos de copo e alma, várias vezes se ajudaram em épocas de bebedeira, quando vomitavam pelas ruas ou mal conseguiam parar em pé. Após o banho, o indiano ocupou-se em secar os longos e ondulados cabelos loiros do amigo, enquanto este terminava de se enxugar e se vestir, como fizeram tantas vezes. Não sabia se era porque eram cavaleiros, mas o efeito do álcool costumava passar mais rápido para eles do que para a maioria das pessoas, então podia-se dizer que Milo já estava quase sóbrio, mas estranhamente silencioso. No normal, o grego já estaria entrando no 4º round das fofocas, mas ainda não havia iniciado nem o primeiro. Parecia absorto em outro mundo, muito distante do Santuário e do amigo. Muito próximo de Afrodite, na certa. E aquilo incomodava Shaka mais do que ele sabia explicar. Se estivesse pensando em Camus, pelo menos...
– Ah, Milo, você deixou cair a... – começou a dizer o cavaleiro assim que viu a camiseta do escorpiano cair no chão molhado, mas foi calado por um beijo ardente do amigo.
À princípio, ficou estático pela surpresa, depois se debateu um pouco, tentando se soltar. Balbuciou "não" e "pare" diversas vezes, até que, por alguma razão que desconhecia, deixou-se levar pelas carícias do amigo, assim como fizera quando ambos tinham 13 anos, após resgatá-lo de um bar...
oOo oOo oOo
Os dias que se seguiram à briga de Milo e Afrodite foram tensos. Havia os que esperavam ansiosamente por um encontro dos dois inimigos e os que faziam de tudo para impedir que esse encontro ocorresse, pois ninguém sabia o que aconteceria. Mas os dois não se encontraram, ou pelo menos não foram vistos juntos. Na verdade, Milo praticamente não fora visto naqueles dias, assim como Shaka também passara um tempo sumido. Na certa os dois estavam juntos, treinando ou se divertindo em algum lugar solitário do Santuário.
Quando Aldebaran entrou na Casa de Aquário e arrastou Camus para o almoço de confraternização, o francês desejou estar tão desaparecido quanto Escorpião. Não gostava desses encontros, principalmente ao ar livre como aquele seria. O taurino não contara a ninguém que tipo de almoço seria porque gostava de ver as caras surpresas dos amigos. O calor, que já estava insuportável para alguém que vivera na região siberiana durante anos, pareceu ainda mais intenso quando chegaram na clareira em que o brasileiro planejara o piquenique. Um piquenique! Camus se sentiu como se regredisse 15 anos no tempo diante de algo que ele considerava tão infantil. Crianças faziam piquenique com os pais, adultos não. E parecia ainda mais infantil com aquela toalha xadreza, branca e vermelha, grande o suficiente para acomodar todos os cavaleiros de ouro em roda! Pelo menos não havia uma cesta colocada no meio da toalha...
– Ah, mas que belo dia! – exclamou Deba, abrindo os braços e inspirando profundamente, como se pudesse sentir o aroma de todas as flores do Santuário – É o dia perfeito para um piquenique com os amigos! Vamos, vamos! Sentem-se todos!
Apesar de alguns deles não estarem com a maior boa vontade do mundo em participar daquele almoço, a alegria do brasileiro era tamanha que ninguém, incluindo Máscara da Morte, teve coragem de reclamar ou do piqueniquem ou do calor ou por ter parada de treinar em um momento tão delicado quanto aquele que o Santuário vivia. Todos sorriram, sentaram-se e procuraram parecer satisfeitos. Peixes costumava brincar e dizer que Aldebaran era o Embaixador da Boa Vontade dali. De fato, ele era o único querido por todos, porque ele queria todos muito bem.
Sentaram em roda, mas sem respeitarem a ordem das Doze Casas: Saga, Afrodite, Máscara da Morte, Shura, Aldebaran, Mu, Aioria e Camus. Uma serva de Touros servia os cavaleiros quando Aldebaran, de súbito, percebeu que dois cavaleiros de ouro ainda não estavam lá.
– Ué! Cadê Milo e Shaka? Você foi chama-los, certo, Celeste? – perguntou o brasileiro à serva que os servia.
– Sim, falei apenas com Escorpião na casa de Virgem, mas ele disse que os dois viriam em instantes.
– Ele disse mesmo que os dois viriam? Porque então ainda não chegaram? – desconfiou o cavaleiro e a serva repetiu o que havia dito – Esses dois, viu! Se não fossem eles, eu juraria que ficaram namorando e se esqueceram de nós!
– E vai que estão mesmo? – brincou Aioria – Shaka tem uma serva gostosona!
– Você sabe como ele é, jamais encostaria na própria serva... Mas eu queria dizer que se não fossem aqueles dois eu poderia jurar que os dois estavam namorando, sabe, um com o outro. Mas do jeito que eles gostam de mulher é inimaginável a cena, não? Já pensaram? Aqueles dois sendo gays! Acho que eles nunca tocariam em homem. Na verdade, eu aposto que eles nunca fizeram isso!
– Deba, querido, se eu fosse você, tomaria mais cuidado com as palavras – aconselhou Peixes, com naturalidade – Sabe, você nunca pode apostar que conhece alguém muito bem, porque as pessoas são verdadeiras caixinhas de surpresa. Um dia, quando você menos espera, tudo o que você acreditava saber sobre elas escorre pelos seus dedos como se fosse um punhado de areia.
Camus fixou seu olhar no cavaleiro da décima segunda casa. Ele estava falando de Milo, com certeza! Mas o que o cavaleiro sentiu nas palavras do colega não foi ódio, nem raiva, mas sim um misto de mágoa, tristeza e algo mais que o francês não conseguiu identificar. Naquele momento, Afrodite não parecia o invejoso sem coração que fazia de tudo para transformar a vida de Escorpião em um inferno, como Camus sempre acreditara, ele até poderia se passar pela vítima da história! A cada dia, Aquário tinha mais certeza que sabia muito pouco do passado daqueles dois cavaleiros, que chegaram tão amigos ao Santuário e, teoricamente do nada, passaram a se odiar tão profundamente. Quem era, afinal o culpado por tanta mágoa e tanto ódio?
– Ora, Dite, não seja tão pessimista! – exclamou Aldebaran – Todos aqui somos como uma grande família, nos conhecemos há tanto tempo que é claro que podemos afirmar algumas coisas sobre qualquer um de nós. Não é como se alguém pudesse fazer algo que colocasse em xeque tudo o que acreditamos saber uns sobre os outros!
– É mesmo? Então, Deba, permita-me afrouxar um pouco os seus dedos: Milo tem bastante experiência com homens. Ele transa com eles, ele gosta deles. E mais cavaleiros aqui também gostam, só que preferem manter isso para si.
O cavaleiro de Aquário prendeu a respiração. Afrodite não seria capaz de revelar a todos que o francês e o escorpiano mantiveram um longo romance, seria? Não que Camus quisesse esconder sua homossexualidade, ele apenas nunca contara porque não gostava de jogar sua vida privada na boca do povo. E Aldebaran tinha grande dificuldade de manter sua boca longe do povo.
– Há! Essa foi boa, Afrodite! Agora, fala sério, você acha que alguém acreditaria nisso? – perguntou Aioria, com um tom de incredulidade na voz.
– E o que eu ganharia mentindo? Se não acreditam, deixem que o tempo prove a vocês que estou dizendo a verdade. E não deve demorar até que eles tornem aquilo público.
– "Eles" quem? Aquilo o quê? – quis saber Saga, mas o sueco apenas sorriu, pegou um dos bolinhos de bacalhau, deu uma mordida e elogiou a serva de Aldebaran que preparara a comida deliciosa.
Saga percebeu que ali ninguém arrancaria mais uma palavra do cavaleiro de Peixes sobre o assunto. Também não puderam arrancar nenhuma revelação de Escorpião porque os dois cavaleiros faltantes permaneceram faltantes até o fim do almoço. O que eles ficaram fazendo apenas Afrodite seria capaz de adivinhar.
Continua...
Notas finais
E obrigada, obrigada MESMO, a quem escreveu as reviews, quem leu, quem esperou e quem pretende continuar lendo!
Enfim, espero que gostem. E, mais uma vez, muito obrigada a todos que leem!
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