Notas iniciais
Bem, veremos como os dois se comportaram depois de toda a pequena confusão do último cap... Caps gêmeos, porque sei que esse não acrescenta a quase nada, mas também não dá para misturar essa parte com a outra...

Watson tinha acabado de chegar de Cambridge. Willian White foi um de seus primeiros clientes, desde que retornara da Guerra do Afeganistão, e ultimamente sofria do coração. Com a saúde já debilitada, Watson fazia questão de, como bom médico, fazer a consulta em sua casa, e ele tinha feito mais uma dessas, e para seu agrado, White estava bem.

Ele já estava com dinheiro suficiente para comprar um anel de noivado para dar a Sophie e oficializar o compromisso. Ele lembrava-se do momento em que a pediu em casamento. Ela ficara atônita e com o rosto vermelho como um tomate, e demorou a dar a resposta. Talvez eu tenha agido pouco cauteloso, ele pensou.

Ele não tinha consultas naquele dia, e como sabia que Sophie estaria trabalhando na escola, Watson decidiu fazer uma visita à Holmes em Baker Street.

Assim que chegou, foi recebido por Mrs. Hudson.

–Então, Mrs. Hudson, como ele está?

–Parece que ele está em um daqueles humores, doutor.

Watson franziu o rosto. – Nenhum caso, não é?

–Não. – respondeu Mrs. Hudson, enquanto colocava o sobretudo de Watson no cabideiro.

–Certo. Obrigado, Mrs. Hudson, eu vou vê-lo agora.

Watson subiu as escadas e encontrou Holmes envolto em seu kit de Química, ao que parecia fazendo algum experimento estranho, tamanha era a fumaça que envolvia o quarto.

–Holmes? – perguntou Watson.

–Não se aproxime, Watson. Estou manipulando um dos venenos mais perigosos do mundo. – disse Holmes, com entusiasmo, enquanto segurava delicadamente um frasco com um líquido vermelho.

–Estou vendo. Aliás, eu gostaria de saber se você está bem.

–Sim, eu estou. – ele disse, entediado. – Nenhum caso, como é de se esperar, visto que a notícia de minha volta ainda não está disseminada. Quero dizer, muitos não acreditam no que ouvem, e cá estou eu, preso em meu apartamento, apenas com a chance de receber um ou outro cliente insistente. – ele bufou. – Mas vejo que você está feliz, especialmente porque já comprou o tão esperado anel para sua amada.

Watson ficou surpreso. – Como você sabe?

–Ah Watson, nada fiz de muito inacreditável. Posso deduzir que você acabou de compra-lo no ourives da Oxford Street por essa sacola que carrega em sua mão direita e também pelo seu dedo de mesma mão estar visivelmente marcado. Sinal de que você experimentou algum anel recentemente, e só posso crer que não o encomendou, precisou comprar um de segunda mão.

–Nada lhe escapa, Holmes. – ele sorriu. – Comprei um anel de segunda mão, porque o aluguel em Kensington aumentou nos últimos tempos. E eu realmente planejo pedir Sophie em casamento. Quero dizer, eu já fiz o pedido e ela aceitou, mas vou oficializá-lo com o anel. Eu... Queria convidar você para... Ser meu padrinho.

Holmes franziu uma sobrancelha. – De novo, Watson?

–Ora, mas você é meu amigo!

–Tudo bem, eu aceito. – disse Holmes, um pouco a contragosto, recebendo um leve tapa no ombro em agradecimento.

Holmes tentou sorrir, mas era difícil. Desde o que acontecera entre ele e Esther ele sentia-se ainda mais culpado. Watson não merecia ser enganado, mas também não merecia sofrer mais uma desilusão. Ele era um homem sensível, embora não declaradamente, e as recentes perdas e traumas que sofreu o havia machucado o bastante.

Ele e Esther conversaram durante o jantar, quando Esther retomou sua receita – uma sopa de legumes de nome judaico, pensou Holmes. Decidiram que não iriam revelar a Watson o que aconteceu, nem levar aquele “erro” adiante. Holmes argumentou que sua vida era perigosa e que Esther merecia sossego depois de tantas perseguições.

Já sem a presença de Watson, Holmes ficou pensando na reação de Esther. Nos momentos em que ela encarava o prato, que parecia hesitante em dar um desfecho... Não, isso é coisa da minha cabeça. Uma mulher não se apaixona por um beijo, ele pensou. Há uma série de desencadeamentos que culminam em um beijo. E o que desencadeou aquele? Lembranças.

Ele lembrou-se dos momentos felizes – sim, ele era obrigado a admitir, felizes – em Montpellier, quando viviam com dificuldades, dividindo um mesmo quarto. Lembrou-se das caminhadas que faziam nos fins de semana no parque que havia na cidade. Lembrou-se de quando ambos caminhavam até o laboratório, conversando. De quando jantavam juntos e ela lhe dava a carne de porco que havia em seu prato. De certo ressentimento dela, ao vê-lo chegar tarde, cheirando a fumo e perfume vagabundo, em suas idas ao bordel atrás de dinheiro como violinista. Do ciúme – sim, foi ciúme – que sentiu, ao ver outro homem admirá-la ou olhá-la com malícia. De suas risadas, de suas brincadeiras, do tom de sua voz, descompromissado, distraído, como se pudesse viver um dia de cada vez, algo que ele só soube quando esteve com ela. Estas eram lembranças, ele constatou amargamente, de uma vida que não existia.

Lembranças que só pertenciam a John Sigerson.

Ele enxergava a necessidade de concentrar suas forças em Dmitri. Este sim era uma ameaça muito maior á vida de Esther, talvez até maior que o Conde Ivanov. Ambos planejaram sobre seus cursos. Certamente Dmitri mudaria a tática. Iria deixar a vigilância da casa e seguir para a escola, como estava fazendo timidamente antes. O caminho mais rápido seria causar a deportação de Dmitri, fazendo-o cometer um crime grave. Não havia jeito, teriam de esperar, como bons caçadores esperam pela melhor oportunidade.

Holmes abasteceu seu cachimbo, e deu algumas voltas em seu apartamento. Ele estava sozinho naquela noite deliciosamente fria, mas sabia que perto dali outra pessoa também estaria sozinha. E lhe doía saber que seria por pouco tempo.

Abriu a gaveta lentamente. Olhou para seu novo abastecimento de cocaína. A solução sete por cento, dentro do vidro, era sedutora. Ultimamente, cada vez que a droga percorria suas veias, Holmes sentia os tempos de Montpellier mais próximos. Ele era capaz de ver Esther, entre a névoa de suas alucinações, sorrindo e lhe olhando daquela maneira que só ela era capaz de fazer. Suas marcas de picada no braço, provocadas pelas agulhadas, estavam cada dia mais visíveis, mas ele não se importava. Apenas a cocaína lhe aplacava naquelas horas de solidão.

Já com a seringa vazia, Holmes deitou-se sobre a poltrona e esperou que Esther viesse lhe visitar outra vez, certamente para lhe contar sobre algum professor chato do instituto. Sem trocar palavras, ela sorria, diante de si. Ela estava de volta para ele, e era isso que importava. Sendo alucinação ou não.

ooooooooo

Desde a morte de Maggie, as crianças andavam tristes pelos cantos. Esther pôde estar presente em seu velório, e cumprimentar rapidamente sua família. Mas a dor que ela sentia todo dia, ao ver que não havia uma maça sobre sua mesa, essa doía.

Esther tinha ficado satisfeita com o anel de noivado, mas ainda assim, não conseguia se sentir feliz como imaginava, diante de um provável casamento com um homem bom e honesto. Desde o momento em que entrara na sala, exibindo um anel gracioso na mão direita, uma aluna mais atenta percebeu, enquanto Esther escrevia no quadro negro.

–Professora, a senhora vai casar?

Ela, que estava de costas para a turma enquanto escrevia, ficou surpresa. Ouviu-se um burburinho das meninas cochichando. De maneira surpresa e um tanto divertida, Esther virou-se para a sala, imediatamente calando as vozes infantis.

–Quem perguntou isso?

–Eu, professora. – disse uma menina, ruiva e sardenta, com ar esperto. Era Natalie Carter, uma das meninas mais inteligentes da sala.

–Como você chegou a essa conclusão, Miss Carter?

–O seu anel. – ela disse, timidamente.

Esther suspirou, e se aproximou da menina. Acho que, se Holmes viesse a ter uma filha, seria algo assim, ela pensou. Mas logo seu pensamento se dispersou dessa idéia tão estranha, ao ver que a menina sardenta ansiava por sua resposta.

–Você está certa, eu vou me casar.

Ouviu-se mais um burburinho na sala. Embora achasse a situação divertida, Esther sabia que precisava manter sua autoridade, algo difícil diante de tantas meninas curiosas.

–Ele é bonito, Professora?

Esther sorriu. – Sim, ele é.

Em seguida, vieram mais perguntas, como “como será a casa”, “qual vai ser a Igreja?”, “vocês terão um bebê?” e coisas assim, deixando Esther atordoada diante de tantas perguntas, algumas das quais ela sequer tinha se questionado. Quando todas as meninas estavam falando ao mesmo tempo, Esther as interrompeu.

–Ei, agora podemos voltar à aula? – perguntou, com diversão.

Imediatamente as meninas se calaram, e Esther continuou com sua aula.

Notas finais
Agora é correr para o outro, rs... Dá para imaginar que Dmitri não deixará isso barato... Prevejo mais confusão para o nosso casal de teimosos. Vocês vão ver. Até o próx. cap.