Shalom - As Memórias de John Sigerson
10 Capítulo 10: Vinhos e Descobertas
Notas iniciais
Pois é, chegamos ao capítulo 10. Um número especial, à altura para os próximos fatos.
Era perto da meia-noite quando Holmes e Esther deixaram o restaurante. Os dois foram um dos últimos a abandonar o local, e só perceberam isso ao olhar ao redor. Ambos conversaram sobre praticamente qualquer coisa que lhes vinha à mente, especialmente quando Esther já estava um tanto “solta” demais. O vinho judaico, ele percebeu, era um pouco mais forte do que o comum. Ele poderia ter alertado isso para ela, mas decidiu deixar estar. Esther bebeu três taças completas, o suficiente para deixa-la um pouco mais risonha, mas não a ponto de provocar vergonha. Ela ainda estava consciente de seus atos, ele percebeu, portanto não estava cometendo nenhum pecado. Ora, e por que a moça não poderia se permitir uma extravagância?
Holmes tinha pouco dinheiro para o cabriolé de volta para casa, e precisou terminar com a corrida até onde o dinheiro que ainda tinha em seus bolsos permitia: bem longe da estalagem. Percorreram o resto do caminho á pé, debaixo do leve sereno.
Mal deram alguns passos, os instintos de Holmes o alertaram de que estavam sendo seguidos. Bastava olhar para o chão e constatar as sombras que se projetavam pela lua cheia que fazia naquela noite. Esther andava distraída, ainda um pouco pelo efeito de álcool em seu sangue, mas estava consciente, porém com os sentidos enganados. Cantarolava, repetindo a cantoria do restaurante judaico. Holmes não se importava, mas isso começava a irritá-lo, a medida que o perigo eminente se aproximava. Mas em seu estado, um erro poderia alertá-la de maneira errada á presença de dois homens.
Holmes tentou caminhar mais rápido, e Esther o seguiu sem entender o propósito disso. Quando se deu conta, ambos estavam correndo. Esther olhou para trás e viu o porquê da pressa de Holmes. Dois homens grandalhões, nada amigáveis, faziam o mesmo naquela rua deserta.
-Corre! – gritou Holmes.
-Eu não faria isso se fosse você.
Na noite silenciosa, Holmes escutou muito bem o desengatilhar ameaçador da pistola, e impediu que Esther obedecesse sua ordem, tomando-a pelo braço.
Um assalto, é claro.
Holmes tentou apaziguar, caminhando até os dois sujeitos, com as mãos para o alto.
-Cautela, rapazes. Nós podemos...
-Nada de gracinhas, senhor. Encosta na parede...
Esther parecia amedrontada. Holmes obedeceu à ordem dos dois bandidos, e encostou suas costas na parede, com as mãos para cima. Um deles começou a revista-lo, atrás de algum dinheiro.
Claro, a primeira coisa que o ladrão irá levar será o relógio de ouro, pensou Holmes. Mas para sua surpresa, o ladrão passou os olhos pelo relógio e nada o fez.
-Nada, chefe.
-Então, vamos levar a garota.
Um deles partiu para cima de Esther, e tentou pegá-la pelo braço. Mas Esther não se entregava facilmente, apresentando resistência. Até que ela deu forte pisão no pé de um deles, e Holmes se aproveitou do momento para tomar rapidamente a arma do outro. De arma em punho, Holmes encurralou os dois. Ele ordenou que os dois saíssem dali, mas quando um deles tentou ataca-lo outra vez, Holmes não pensou duas vezes e fez um disparo, contra o pé. Com dores, o bandido ferido gritou e logo foi amparado pelo outro.
-Vão embora daqui! Logo! – Holmes fez mais um disparo, para o alto, e os bandidos fugiram, desaparecendo pelas sombras da cidade.
-Você está bem, Miss Katz?
-Sim... – disse Esther, tremendo. – Por um momento eu pensei que...
-Pensou que...?
-Nada, bobagem minha.
Holmes limpou a arma em seu terno, e a atirou contra o rio que passava ali perto.
-Porque limpou a arma? – perguntou Esther, curiosa, enquanto observava a correnteza do rio.
-Impressões digitais.
-Impressões digitais? O que é isso?
-Cada um de nós tem uma marca única, na palma de nossos dedos. Chamamos de impressões digitais. Com sua licença... – Holmes pegou na mão de Esther, e a fez observar seu dedo contra a luz. – Percebe um desenho em formato de espiral percorrer toda a palma de seu dedo indicador?
-Você me acharia estúpida se eu te dissesse que nunca reparei nisso? – disse Esther, fascinada.
-Não, nem um pouco. Essa descoberta é recente, e ainda estamos trabalhando para melhor desenvolvê-la. O fato é que ninguém tem um desenho igual, nem mesmo irmãos. Imagine o quanto isso seria proveitoso para investigações policiais, uma vez que colocamos nossas mãos em quase tudo? Quantas evidências poderia haver, quantos criminosos seriam pegos, apenas em constatarmos a quem pertence determinadas impressões digitais... Fascinante, não é?
-Como o senhor pode saber de tantas coisas, Sigerson? Não consigo imaginar o que isso poderia ter haver com a Química, ou com a Música a ponto de o senhor conhecer... Ainda mais quando o senhor diz “ainda estamos trabalhando para melhor desenvolvê-la”... Não consigo imaginar benefícios de se saber disso em outra área, que não a da Polícia.
Holmes suspirou, em resposta. – Eu sou um homem curioso, é isso. As novidades atraem meu interesse.
Ainda ressabiada, Esther deixou o assunto como estava.
A estalagem ainda estava agitada, cheia de clientes. Era, afinal, sexta-feira, um dos dias mais movimentados por lá. Mais uma vez, Holmes constatou gente estranha ali, mas ignorou. Abraçou Esther levemente, envolvendo sua mão sobre o ombro dela, como se dissesse que a moça não estava sozinha. Esther, talvez porque estava sob o efeito do álcool, não se esquivou.
-Que noite foi esta... – murmurou Holmes, enquanto retirava o paletó. Esther sentou-se na cadeira, bocejando.
-Gostaria muito de saber, senhorita, algumas coisas...
Esther começou a rir, diante de Holmes, que apenas ergueu uma sobrancelha, incrédulo.
-O que foi? Eu disse alguma piada?
As palavras de Holmes serviram para deixar Esther em um estado de riso ainda maior. Claro. Era o álcool, avassalador em seu sangue. Foi a primeira bebedeira dela, e tudo era culpa sua. Ele deveria ter alertado mais quanto aos efeitos traiçoeiros, mas não. Ele não deveria ter deixado a moça passar do primeiro copo, e estava se arrependendo disso. Agora, que aguentasse as consequências. Por sorte, o ataque de riso terminou, mas Holmes ainda mantinha no rosto um sorriso.
Pare de sorrir, Sherlock. Não há nada de engraçado aqui.
-Acho melhor a senhorita ir dormir, Esther. Tivemos uma noite atribulada, e... – ele disse, sem precisar. Esther já estava fazendo isso, sentada na cadeira. Ao observar a cena da moça, completamente sonolenta, sentada de maneira desajeitada, Holmes sentia graça e ao mesmo tempo culpa. Como será que ela agiria no dia seguinte? As mulheres eram imprevisíveis. Poderia culpa-lo, ficar magoada, com o ego ferido, sentir-se a pior das mulheres por ter bebido uma taça a mais do que devia. Era por isso que ele passou a vida toda longe delas.
Mas não era o mesmo com Esther.
Ele puxou um banco, ficando de frente à Esther. Ficou com as mãos juntas, encostando a ponta dos dedos sobre seu nariz aquilino, pensativo, obervando a moça dormir de maneira desconfortável naquela cadeira.
Havia algo de errado naquela noite. Sim, há algo de errado. Aqueles homens que os cercaram na rua, no que parecia ser um assalto... O instinto detetivesco de Holmes não estava morto. Um bandido vulgar, tal como da espécie daqueles, certamente levaria o relógio, não uma mulher. Sequestro? Não mesmo. A hipótese era absurda, dada que ambos moravam em região pobre, no subúrbio e Esther não aparentava ser uma mulher de posses. Os olhos do marginal percorrendo o precioso relógio de bolso de Holmes não saíam de sua mente. Esther era o objetivo. Mas porquê? Ele sabia que se a confrontasse, ela não iria dizer nada. E isso o angustiava.
Esther. Quanto mais ele a conhecia, mais se surpreendia. Ela não falava muito de sua própria vida. Era fechada, assim como Holmes (ou melhor, Sigerson). Em um mês de convivência, ambos eram completos estranhos, havia criado essa barreira, Holmes acreditava, pela imposição das circunstâncias. Um homem e uma mulher, sem qualquer vínculo sanguíneo, dividindo o mesmo quarto... Em seus bons tempos, a possibilidade disso ocorrer o faria rir, mas agora era a mais pura realidade. No entanto, esta barreira estava ruindo desde a chegada da carta de Mycroft. Ele poderia, simplesmente, sair de sua vida da mesma maneira rápida que entrou, mas sentia-se incomodado com essa possibilidade. E isso o fazia ter medo. Medo de si mesmo, medo do que estava por vir. Ou mesmo, medo do que poderia já estar acontecendo.
Ele respirou fundo, incomodado com suas próprias conclusões. Até que ouviu um suspiro de Esther, que já caíra em sono profundo.
Ignorando todas as convenções, Holmes pegou Esther no colo, e a colocou sobre a cama. Ela estava vestida com uma roupa desconfortável demais para dormir. Óbvio, coloca-la em uma camisola era uma hipótese impensável, concluiu Holmes, mas por que não dar um pouco mais de conforto? Então, ele desabotoou uma parte de sua blusa e desfrouxou um pouco o corpete. Sentiu um leve tremor ao ver o colo de Esther. Isso é natural, faz parte do instinto do homem, é comprovado cientificamente que agimos por instinto, todos nós agimos como animais no final das contas, repetia a si mesmo, tentando desviar seus olhos e atribuir uma justificativa para seu coração disparado. Para terminar com qualquer pensamento tolo, lançou sobre ela um cobertor.
Entretanto, quando ele partiu para retirar os sapatos, Esther balbuciou algo em uma língua estranha, que Holmes só pôde constatar que era russo.
-Sigerson, vy tak ocharovatel'ny * ...
Era algo sobre si, constatou Holmes, ao reconhecer seu nome no meio de palavras estranhas. Esther disse aquilo em um sorriso. Talvez fosse o efeito de uma noite de felicidades que ele proporcionou para ela, algo que ela não deveria sentir há muito tempo, ainda que aqueles marginais tenham tentado ofuscar, em vão.
Por fim, ele retirou os grampos de seu cabelo, deixando-o solto. Sentiu um incontrolável desejo de dar-lhe um beijo na testa. Ora, seria um beijo fraternal, o que havia demais?
Não. Melhor não.
Porquê não?
Ele pôs sua mão sobre a testa da moça, retirando alguns fios de cabelo rebeldes, que insistiam em pairar ali. Ao aproximar seu rosto do dela, porém, foi surpreendido pela própria Esther que acordou, surpreendendo-o com seus olhos ainda sonolentos. Surpreso, Holmes agiu rápido.
-Esther, eu...
Holmes tentou se retratar, ou mesmo explicar, mas era tarde. Ter as mãos delicadas de Esther sobre seu rosto era irresistível. Nem mesmo os pelos grossos que preenchiam quase a metade de seu rosto o impediu de sentir a maciez de sua mão. Estavam tão próximos, estranhamente tão próximos...
Não faça bobagens, Sherlock. Ela está embriagada. No dia seguinte, não se lembrará de nada, se você tiver sorte. Senão, ela irá te odiar, dirá que você se aproveitou dela. Ela não irá te perdoar por isso.
-Não... – murmurou Holmes, não muito convicto de suas próprias palavras, como raramente o era. – Por favor, Esther... Não faça isso... – ele disse, com o rosto a poucos centímetros do dela, a ponto de sentir sua respiração. – Você irá se arr...
Holmes já tinha beijado duas mulheres, em situações bem diferentes daquela. Nas duas, elas basicamente serviram à “um propósito nobre”: a solução de um assassinato e de um roubo. Basicamente, era uma maneira nada ortodoxa de se conseguir informações, criando laços com uma pessoa próxima ao suspeito, ou obtendo acesso à pistas de uma investigação. Os beijos que tinha trocado até então eram frios, que correspondiam de maneira respeitosa, mas não de forma que soasse suspeito. Ainda assim, ele nada sentia. Era quase o mesmo que um aperto de mão a um estranho. Nem a sensação lhe despertava coisa alguma, e ele chegou a pensar coisas erradas em si. Ele jamais sentira atração por homem algum, nem mesmo por seu amigo Watson, com quem dividia apartamento, e isso lhe dava algum alívio por não ser um transgressor à lei britânica. Em contrapartida, embora não revelasse a Watson, ele buscava manter a neutralidade no julgamento do sexo feminino, primeiro desconstruindo a primeira coisa que vem à mente de um homem quando se depara com uma mulher: a beleza. “Que bela mulher!”, ele pensou algumas vezes, e em seguida dizia a Watson que sequer tinha reparado, pois isso não era de seu departamento. Com o tempo, concentrando-se mais nos casos do que na beleza de suas clientes – ou nos perigosos atrativos de uma suspeita em potencial – Holmes foi domando seus próprios instintos.
Mas Esther era diferente.
O beijo que ele trocou com ela fez seu coração bater acelerado. Não que isso não tivesse acontecido antes. Na primeira vez em que deu um beijo, foi por nervosismo. Nas outras vezes, foi a ansiedade de saber se o artifício estava funcionando. Mas não daquela vez. O coração batia forte, e ele buscava cada vez mais pelo calor e pela maciez de seus lábios. Gostava da sensação engraçada de compartilharem o mesmo oxigênio, e de como ela se segurava em seu rosto, áspero pela barba.
Ao ouvir o estalo dos lábios se desencostando, ele sentiu uma pitada de frustração, além da respiração ofegante e de um calor que não cabia em si.
Porquê, Esther, porquê você fez isso?
Enquanto ficava atônito, sem ação e com o rosto completamente ruborizado, quase queimado, Esther voltava para a cama, com os olhos fechados, submersa em um sono profundo, beirando a uma inocência que Holmes sentia ter corrompido. Ao vê-la adormecer, por fim Holmes se levantou, ainda descrente do que tinha acontecido.
Amanhã, tudo iria mudar.
Notas finais
Acho que essa foi difícil pra quem precisou recorrer ao Google Translator, por isso eu vou dar essa colher de chá, rs. O alfabeto russo é muito diferente do nosso.
Então? Parece que Holmes está em uma saia justa... Por isso eu sempre digo: não exagere na bebida, se você não está acostumado. Especialmente se você divide um quarto com a pessoa que você gosta, mas que você não quer que saiba.
(MomentoCaretaOff)
No próximo capítulo, veremos como o nosso Pomposo Detetive vai agir. (Anne que me perdoe o uso do apelido, rs)
Deixem reviews, pessoal!
BadWolf
Fale com o autor