Shalom - As Memórias de John Sigerson
42 Capítulo 42: Cartas Sobre a Mesa
Notas iniciais
Mycroft estava fumando seu charuto jamaicano, presente de uma autoridade, quando Holmes e Esther chegaram à seu apartamento, em Pall Mall. Fazia uma noite fria e estava chovendo, que fez com que a conversa se desse próximo a lareira.
Mycroft ofereceu a Holmes um copo de brandy, e quando iria se preparar para pedir ao mordomo que pegasse um suco para Esther, Holmes interveio, com humor.
–Esther pode beber brandy, Mycroft. Ela se deliciou essa semana com um prato de camarão, portanto já está impura.
–Oh, é mesmo? – perguntou Mycroft, surpreso.
–Sim, eu não tive escolha. Ou era camarão ou pernil. Ao menos camarão é mais delicioso.
Ambos os irmãos soltaram uma leve risada. Esther, por final, se rendeu, e também riu um pouco de si mesma.
–Mas me diga, a que devo suas visitas?
–Mycroft, algo de extrema importância envolvendo o passado de Esther ocorreu recentemente. O Conde Ivanov já sabe que ela está aqui em Londres.
Mycroft sentou-se lentamente em sua poltrona, e deu de ombros.
–Já fui informado disso, Sherlock. Sabíamos que isso um dia iria acontecer, não é? Além de quê, Miss Katz não pode ficar completamente incógnita a vida inteira.
–Ela está correndo riscos, Mycroft.
Mycroft sorriu. – Ela está muito bem vigiada. Há homens empregados garantindo sua segurança, dentro e fora de casa.
–Pois então, porque não acabamos logo com o mal pela raiz?
–Sherlock, Sherlock... Eu não herdei tamanha disposição para agir. O Conde Ivanov é um tubarão em um mar de sardinhas. Pegá-lo de uma vez por todas iria requerer uma investigação minuciosa e... Eu já tenho meus probleminhas para resolver, você sabe disso. Mas tranquilize-se, ela está protegida. Podemos garantir que não seja raptada, nem levada para fora da Inglaterra.
–Ainda assim, meu irmão... Uma menina morreu hoje, porque comeu uma maça que seria entregue a Esther. Ela era aluna dela. Alguém envenenava todas as maças que Esther recebia dessa menina com o intuito de dopá-la e certamente leva-la... Uma criança que se chamava Miss Howard morreu esta tarde por isso.
–Miss Howard? – o sobrenome despertou o interesse de Mycroft. – Seria filha de Sir Alfred Howard, o banqueiro?
–Ele mesmo. – confirmou Esther. – Por quê?
Mycroft pareceu seriamente preocupado.
–Sir Howard é suspeito de facilitar o trabalho de agentes secretos russos, inserindo-os no meio social. Ele está sempre presente em bailes, e facilita a entrada deles na sociedade, apresentando-o à pessoas interessantes e mesmo oferecendo empregos de fachada em seu banco.
–Oh! Então, ele é o Cisne? – disse Esther, em código.
–Um suspeito em potencial, eu sempre achei. Mas não há nada de concreto para o pegarmos por Traição à Rainha. Além de quê... Ele é um dos maiores antissemitas que já tive o desprazer de conviver.
Esther sentiu um aperto no peito. – A filha dele era tão gentil e carinhosa. Decerto não herdou o preconceito do pai.
–Ou talvez porque ela não sabia de sua verdadeira religião. Eu sinto dizer, Miss Katz, que há aqueles que ainda possuem inimizade e preconceito contra o seu povo. Não sei explicar, apenas devem pensar “é judeu, então não presta”. Sou colega de um judeu, o Mr. Schneider, que diz que é inveja, porque vocês costumam ser ricos e bem-sucedidos nos negócios.
Esther soltou uma risada.
–Certo. Mas então, Sherlock, eu te deixo liberdade para fazer do problema de Miss Katz mais um de seus pequenos problemas. – ele disse, com algum menosprezo debochado, mas respeitador. – Meus colaboradores podem obter um bom dossiê a respeito desse Dmitri Kyznetsov enquanto eu asseguro que ela ficará em boas mãos.
–Tudo bem, meu irmão.
Holmes decidiu deixar Esther em casa, pelo adiantado da hora. Sua casa ficava tão próxima de Baker Street que ele poderia seguir para casa à pé, se quisesse. Estava chovendo forte, e Esther o convidou para entrar.
Ele percebeu que ela morava em uma boa casa, grande o suficiente para uma pessoa que morava solitária. Enquanto o levava à sala, ela explicou que mantinha uma empregada, chamada Mrs. Lewis, que cuidava de tudo durante o dia. A casa, Holmes percebeu, tinha um toque bastante sutil de Esther, que ele mesmo pôde perceber quando compartilhavam o mesmo quarto. Embora ela fosse judia, não havia nenhum vestígio de sua religião na casa.
–Sua casa é bastante aconchegante. – ele observou, enquanto ela lhe servia chá.
–Sim, eu sempre sonhei em ter uma casa como essa.
–Esther, eu agradeço o chá, mas preciso ir. – disse Holmes, deixando a xícara sobre a mesa, fazendo o de costume: mal consumindo a metade da comida.
–Por favor, Sigerson...
–Holmes...
–Holmes, não vá agora. Eu preciso conversar com você.
Holmes suspirou, e embora já estivesse se levantando, tornou a se sentar no sofá. Esther aconchegou-se, antes de começar.
–Holmes, eu gostaria de entender porque você não contou a Watson tudo que aconteceu a você e... Que já me conhecia desde antes.
Holmes suspirou, e ficou em silêncio por alguns minutos.
–É simples, Esther. Eu contei a ele que estive esse tempo todo na América. Se eu contasse sobre você, sobre como conheci você, muita coisa teria de ser dita junta, e minha história estaria seriamente comprometida.
–Mas então, por quê você não contou a verdade?
–Eu não quero que ele pense que usei esses quatro anos para me divertir. Não foi nada disso. Eu fugi para o Oriente porque estava sendo caçado pelo único homem que sabia que eu estava vivo. A região por onde andei nos dois primeiros anos eram tão perigosas que eu sabia que ele jamais se aventuraria, aliás, eu também poderia ser atacado, morto. Mycroft me desaconselhou a ir, e de fato me ofereceu uma viagem aos Estados Unidos, mas eu não quis. Há lugares na América que seriam perfeitos para os planos de Moran. Ir à América, uma terra de Lei fraca e repleta de assassinos de aluguel, seria minha sepultura. Embora o Tibete fosse hostil a qualquer estrangeiro, e por muitos momentos eu cheguei a temer por minha própria vida, eu estava seguro de certa forma, e podia refletir um pouco a respeito de mim mesmo.
–E a que conclusões chegou?
Holmes olhou rapidamente para Esther, e continuou.
–Bem, que havia muitas coisas em mim, conceitos a respeito de mim mesmo que estavam errados. Eu... Com o passar do tempo, nestes anos de reclusão, cheguei a conclusão de que eu não era uma máquina fria e sem sentimentos. Os eventos que passei em Reichenbach marcaram a minha vida de maneira dolorosa, que acho que só posso comparar... à morte de minha mãe. Eu vi Watson se desesperar ao perceber erroneamente que eu tinha caído das Cataratas, eu o vi chorar, coisa que jamais teria presenciado de um soldado tão calejado como ele. Meu reencontro com Mycroft, quando ele veio me encontrar em Roma, sob o pretexto de trabalhos diplomáticos, foi... Uma das coisas mais emocionantes de minha vida, e especialmente quando contei a ele os meus planos de ir ao Tibete. Ele não queria que eu fosse, mas no fim, deu-me os documentos de John Sigerson e disse “cuide-se, e volte vivo para arrumar essa bagunça”.
–Eu sinto ter de dizer isso, Holmes, mas você chegou a todas essas conclusões e ainda assim não consertou a si mesmo.
Holmes olhou para Esther, abismado. – Não?! Ora esta, dizes isto porque não me conhecia, Esther!
–Você não pensou em Watson um momento sequer! Porque não contou a ele que estava vivo? Ora Holmes, ele sofreu muito com sua morte, e depois enfrentou a perda de Mary e do bebê...
–Eu sei. – interrompeu Holmes. – A morte de Mary Watson e do bebê era algo que jamais imaginei que fosse acontecer, e se eu tivesse previsto com toda a certeza eu não teria o deixado acreditar que eu estou morto. Mas eu já tinha chegado longe demais para contar a verdade. Bem, se me permite Esther, eu tenho que ir. Boa noite.
Aquele foi um momento de desconforto. Ambos pararam frente a frente, a centímetros da porta. Em outros tempos, trocariam ao menos um breve abraço, ou qualquer cordialidade, mas Holmes apenas acenou com a cabeça friamente, já com a cartola na cabeça. Próximo da porta, Holmes observou Esther uma última vez antes de sair. Ele a conhecia o bastante para saber que ela estava reflexiva, e mais do que isso, temerosa em dizer alguma coisa. Antes de sair, ele esperou por mais alguns segundos.
Foi o bastante para Esther tomar coragem.
–Eu me lembro, Holmes.
Holmes ficou aturdido. – Lembra-se?
–Eu me lembro... Daquela noite... Em Montpellier.
Holmes baixou seus olhos, envergonhado. Esther observou sua reação, desacreditada.
–Claro. O “Grande Detetive”, o solteirão convicto da Inglaterra e desprezador do sexo feminino, conviveu por quase dois meses com uma mulher, dividindo um mesmo quarto... Chegou até mesmo a beijá-la! Depois, agiu como se nada tivesse acontecido.
Houve silêncio.
–De-Desde quando? – foi apenas o que Holmes teve coragem de perguntar, nervoso. – Desde quando você se lembra? Ou você foi dissimulada o bastante a ponto de me fazer acreditar que não se lembrava porque estava bêbada?
Esther não se abaixou com a ofensa. – Só o que posso dizer é que... A lembrança foi ressuscitada.
Holmes lembrou-se de vê-la beijando Watson. Uma memória desagradável, mas que sem dúvida, remetia ao que ela estava dizendo.
–Entendo.
De braços cruzados, ela ainda parecia disposta a não acabar com o assunto.
–Há algo que ainda queira me contar? – ela perguntou.
Holmes não compreendeu, e ficou irritado. – Acha que eu a beijei sem consentimento outras vezes? Acha que o fato de ter acordado em sua cama, sem sapatos ou com a camiseta desabotoada, significou que...?
O próprio Holmes se interrompeu. – De fato, Miss Evans, a senhorita realmente não me conhece.
–O John Sigerson que eu conheci, certamente, não teria feito nada naquela noite. Mas John Sigerson e Sherlock Holmes não são a mesma pessoa.
–Claro que são! – alterou-se Holmes. – A diferença é que Sigerson teve liberdade para ser quem poderia ser, sem se preocupar com a eminência do perigo, com o bom nome, com reputações! Ele poderia acordar e, um belo dia, decidir sair para onde bem entendesse, outro país, outra cidade, o que fosse, sem compromisso algum com nada além de si mesmo. Mas tanto o Sigerson que você conheceu, quanto eu, temos a mesma essência. Por isso a senhorita não pode achar que eu abusei de ti! – disse Holmes, sem mais pudores.
–Como eu posso acreditar, Sigerson, se você agiu dessa maneira de novo? – gritou Esther, em um desabafo.
Holmes ficou incrédulo, e mais confuso do que antes.
–De novo? – ele perguntou. – Do que você...?
Antes que a pergunta fosse feita completamente, Esther foi mais rápida, aproveitando-se de um atordoado Holmes, e o empurrou para fora de sua casa, quase fazendo-o tropeçar na calçada. Atrás de si, ela fechou a pesada porta de madeira, sentindo as batidas fortes e impacientes de Holmes sobre suas costas.
–Esther, me deixe entrar!
As lágrimas, insistentes, escorriam por seu rosto, e seu orgulho a repreendia por isso. Não chore porque ele não merece.
–Esther, abra essa porta porque eu ainda não terminei! Esther!
Holmes estava descontrolado, e percebeu que estava chamando a moça pelo seu nome verdadeiro. Seu raciocínio estava perdendo espaço para suas emoções. Ele respirou fundo, e tornou a bater.
–O que você quis dizer com isso, Miss Evans? Você não pode me deixar sem uma resposta!
–Deduza por si mesmo. Ou o senhor não é mais capaz disso? – ela respondeu, do outro lado da porta.
–Não há como teorizar sem dados.
–Pensei que a frase que costuma usar nestes casos fosse “é um erro capital teorizar sem todos os dados”.
–Pare de zombar de mim. – disse Holmes, nervoso. – Abra essa porta, vamos conversar como dois adultos que somos.
–Vá embora! – ela decretou. – Você vai chamar a atenção dos vizinhos batendo em minha porta desse jeito. O inspetor Lestrade adorará te prender por perturbar a paz da minha vizinhança.
Holmes parou para raciocinar.
–Eu vou descobrir, Esther. De qualquer forma, eu vou descobrir.
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