Shalom - As Memórias de John Sigerson
4 Capítulo 4: O Golem de Reichenbach
Notas iniciais
Gostaria de agradecer ao retorno das mensagens, e prometo que a história irá avançar. Esse capítulo é só uma pequena ponte para o próximo, mas será importante mais adiante
Holmes precisou de uma noite tocando violino em um cabaré para conseguir dinheiro suficiente para uma passagem para ele e Esther, em um trem para Paris. Quando ele chegou, já com o sol amanhecendo, encontrou Esther, sua agora companheira de quarto, dormindo. Ele entrou com cuidado no quarto, para não acordá-la. Ela tinha o direito de descansar. Lembrou-se, então, de como a primeira noite foi horrível.
Embora ele tivesse agido como um cavalheiro, de maneira respeitosa, ela estava desconfiada. Ele acreditava que sua consciência tivesse vindo à tona no momento em que subiram. Para tranquiliza-la, Holmes deitou-se primeiro em uma das camas de solteiro, deixando a outra para ela. Nada ele disse, virando-se para dormir. Ele se lembrava de suas mexidas na cama, que era barulhenta, demonstrando que a moça estava acordada, diria até que alerta. E não havia nada que ele pudesse fazer para tranquiliza-la. Qualquer palavra sua só iria piorar ainda mais as coisas.
Dois dias, no entanto, já tinham se passado, e ela estava mais acostumada com sua presença. Holmes sentia que tinha passado por sua aprovação como um homem confiável, e ela estava também um pouco melhor, embora volta e meia ela se lembrasse de David e ficasse triste. Algo perfeitamente natural, para quem perdeu o irmão a poucos dias.
oooooooo
Quando estava em Florença, há quase dois anos atrás, dias depois de escapar de Reichenbach, Holmes mandou uma carta a seu irmão Mycroft, relatando o que se passara e como ele tinha sobrevivido. Em resposta, recebeu uma caixa, contendo documentos em nome de John Sigerson, de nacionalidade norueguesa, e uma conta bancária. Junto a tudo isto, em uma carta, recebera a noticia de que mandaria dinheiro, mas deveria ser pouco, para não levantar suspeitas. Logo, Holmes teria de se sustentar, arranjando um trabalho que não envolvesse necessariamente suas habilidades de dedução. Pensou em atuar como lutador profissional de boxe, mas percebeu após alguns combates que o dinheiro era pouquíssimo, além do fato de ser necessário um empresário (na maioria das vezes, um explorador) que só faria o dinheiro ser mais escasso. Começou, então, a contribuir com trabalhos no estudo da Química na Universidade de Roma, mas foi necessário parar quando recebeu um convite para lecionar. Holmes não queria fincar raízes. Sabia que ainda tinha inimigos que não foram destruídos em Reichenbach, e que certamente retornariam assim que ele voltasse do Hades, fazendo de sua vida um inferno. Eram associados a Moriarty, mas de parceria oculta, de modo que não havia provas suficientes para uma prisão. Dentre deles, estava o Coronel Sebastian Moran, justamente o único que sabia que Holmes estava vivo, pois o vira derrubar Moriarty e escapar, além de ter tentado contra sua vida, atirando durante sua fuga. Se Moran não estivesse com um revólver naquele momento, mas com uma arma de longo alcance, Holmes certamente estaria morto.
-Mr. Sigerson?
Era Esther. Ele mal se deu conta de que já era sete horas, horário em que geralmente ela acordava. Ele levantou-se, um tanto sonolento. Culpa de seus pensamentos, que tiravam preciosas horas de sono. Se tivesse dormido por duas horas, era muito.
-Bom dia, Esther. Vejo que dormiu bem melhor esta noite.
-O mesmo não posso dizer do senhor. Creio que estava tendo mais um daqueles seus sonhos.
-S-Sonhos?
-Nestas três noites, eu sempre ouço o senhor falar algumas coisas... Acho que o senhor têm pesadelos...
Holmes riu, descrente. – Pesadelos, eu?
-O senhor ri, mas estou falando sério. Eu tenho o sono leve, e acabo ouvindo o senhor falar algumas coisas... Ontem mesmo, o senhor repetiu a mesma palavra, e com muita raiva... Era uma palavra estranha... Começava com “Mo”...
-“Mo”? Mas que besteira, minha cara.
–Você a repete com tanta apreensão que acaba me deixando aflita também. Eu viro para o seu lado, e vejo o senhor agitado. Não sei se seria bom acordá-lo, então eu tento acalmá-lo. Lembro que David me disse uma vez que ele fazia isso comigo, quando eu era criança e tinha pesadelos com golens...
Holmes ficou intrigado. — Golens? O que é isso?
–É uma espécie de lenda entre meu povo. Os golens são criaturas feitas de barro, criadas pelos rabinos para nos proteger. O problema é que eles acabam ficando violentos e se voltam contra nós, por isso essa prática não é muito adotada. Eu tive pesadelos com golem desde que David montou uma estátua de barro pequena e pôs debaixo da minha cama.
–Muito espirituoso, seu irmão. — constatou Holmes, que não pôde deixar de achar graça. — Não se preocupe, eu não estou sonhando com nenhum "golem", se a senhorita deseja saber.
–Se está sonhando com golem ou não, eu não sei, mas ao menos o método de meu irmão é infalível. Basta dizer “está tudo bem, vai passar” de maneira serena que as coisas se acalmam.
–E isso funciona comigo?
Esther deu seu melhor sorriso. – Acredite, funciona.
Holmes resmungou, um pouco embaraçado por estar, de uma hora para outra, no mesmo patamar que uma menina amedrontada por bicho-papão. Golem, se corrigiu internamente.
Notas finais
Tem um capítulo a caminho, e mais uma vez, agradeço a atenção.
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