Shalom - As Memórias de John Sigerson

33 Capítulo 33: Últimos Ajustes


Londres, 02 de Abril de 1894.

-Leiam! Leiam o Times! Assassinato Misterioso em Park Lane!

-Leiam! Jovem nobre é assassinado! Não há suspeitos! Leiam!

-Leiam! Mistério em Park Lane! Ronald Adair foi assassinado nesta madrugada!

Aquilo era uma gritaria de moleques vendedores de jornais que percorriam Oxford Street, mas parecia música para os ouvidos para Holmes. Sebastian Moran certamente estava por trás disso. Pelo pouco que Holmes pôde ler nos jornais a respeito do caso, o jovem honorável Ronald Adair, o segundo filho do Conde de Maynooth, governador de uma das colônias australianas, foi morto em sua casa, em Park Lane, sob circunstâncias misteriosas. Um tiro, com uma bala dundum, acabou levando à cabo a vida do jovem nobre. Nada foi levado de seu quarto, e nenhuma presença foi notada lá. A porta estava trancada do lado de dentro, de modo que o assassino não saiu por ela, e a possibilidade de uma fuga pela janela era complicada, dado o grau de movimentação naquele lugar. O histórico do rapaz, que não possuía inimigos ou nenhuma desavença, tornava as coisas mais complicadas, uma vez que a Scotland Yard não conseguia definir sequer suspeitos para interrogar.

Pelo que Holmes sabia do Coronel Moran, sem dúvida ele fora o executor de Ronald Adair. Rose Willians tinha lhe alertado que o jovem andava desconfiado de trapaças do Coronel, circunstância bastante parecida que levou á morte acidental de Mrs. Stewart, há anos atrás, quando seu filho desconfiou do jogo desonesto do Coronel e acabou sendo silenciado, com a morte da mãe. O Coronel prezava por sua reputação no grande círculo de Londres, e acabaria com qualquer um que ameaçasse isso.

-Por tudo que você me contou, Sherlock, parece que o Coronel está mesmo implicado nisso.

Holmes, que estava na casa de seu irmão, fumando seu cachimbo e sentado sob uma poltrona, respondeu, em tom meditativo. – Consegui informações preciosíssimas em East End a respeito de Ronald Adair. Sei do envolvimento dele com Moran, que ambos trapaceavam juntos, até o momento em que Adair desconfiou que Moran o estivesse passando para trás. Decerto, suas suspeitas se firmaram, e ele o pôs contra a parede e o ameçou. Um homem como o Coronel Moran não se deixa cair sobre uma ameaça com facilidade. E tal como eu esperava, sua resposta foi fácil.

-Aqui diz... – disse Mycroft, apertando seus olhos sobre uma edição do Times, que falava do crime. – “Foi encontrada, sobre a mesa de Ronald Adair, uma lista com o nome de alguns cavalheiros que ele costumava jogar, bem como alguns valores. A polícia trabalha com a possibilidade de que esta lista seja um tipo de controle a respeito de ganhos e perdas que o jovem sofreu, no decorrer de seus jogos”.

-Decerto Adair tinha outras parcerias na trapaça, além de Moran. Esse tipo de parceria desonesta é muito comum nessas casas de jogo, meu irmão.

Mycroft rosnou. – Ainda bem que sou membro fiel do Clube Diógenes, assim sou poupado destes tipos de interações escabrosas.

Holmes suspirou, com um sorriso no rosto, e deu mais uma baforada ao ar.

-A morte de Adair é o momento certo para a minha volta.

-De fato. Também acho que você precisa aproveitar este momento e voltar ao mundo dos vivos, meu caro Sherlock. Mas será que o Coronel não interpretará isso como uma ameaça? Afinal, ele entenderá que você está investigando-o, e pode fugir.

-Não, eu não penso assim, Mycroft. O Coronel irá desejar me matar antes que eu divulgue qualquer coisa, como tentou em Reichenbach. Ele sabia que eu escapei e lançou pedras em mim durante toda a minha fuga. Depois, quando fugi pela floresta, chegou a fazer alguns disparos, e se estou vivo aqui, diante de você, deve-se ao fato de já estar perto do escurecer quando ele fez isso, e também porque ele estava um tanto distante e usando um simples revólver. Na Itália, ele ficou em meu encalço, e só pude me livrar verdadeiramente dele quando você conseguiu a identidade falsa e eu segui para as regiões proibidas do Tibete. Acho que a direção que eu escolhi fugir era tão extrema que o próprio julgou que eu não sairia dali vivo. Você sabe como os estrangeiros são tratados naquela região...

Mycroft assentiu com a cabeça, lembrando-se de todas as dificuldades diplomáticas entre a Inglaterra e a região do Tibete, que tornava a região um dos últimos lugares que um súdito da Rainha poderia permanecer com vida.

-Enfim, meu irmão, o fato é que preciso de sua ajuda. Não posso voltar sob esse aspecto lamentável. – ele disse, arrancando risadas.

-Devo alertá-lo, Sherlock, que nestes últimos três anos desde sua equivocada morte, você está muito mais magro e com a pele mais morena. Estes poucos meses que você passou aqui em Londres não serviram para atenuar muito isso. Embora você tenha cortado seus cabelos em um corte mais “civilizado”, essa barba que você adotou ainda lhe deixa em uma aparência um tanto suja.

Holmes suspirou. – Não se preocupe, Mycroft. Eu não me tornei um adepto da barba, e creio que nem posso mantê-la, uma vez que minha habilidade com disfarces constituem-se de parte importante de meu sucesso profissional e estaria seriamente comprometida se eu quisesse usar barba. Bem, por isso eu gostaria que você me emprestasse uma navalha, e eu terei prazer em acabar com esta minha companheira de quase três anos.

-Com muito gosto. – disse Mycroft, com um sorriso. – Ela está na suíte de meu quarto. Pode usá-la.

-Você poderia conseguir também algumas de minhas antigas roupas?

-Isso é fácil, Sherlock. Ainda mantenho guardado em meu armário roupas que lhe pertenciam. Já esperava que você fosse me pedir um, quando fosse necessária sua volta, então pedi a Mrs. Hudson alguns deles, alegando que ira fazer uma doação. Mas fique sossegado, eu não doei nada seu. Está tudo do jeito que você deixou, eu mesmo me certifiquei disso. Vai vesti-las hoje?

-Sim, mas terei de me valer de algum disfarce, ao menos por hoje. Pretendo voltar à East End ainda hoje, e dar um desfecho digno à John Sigerson. Voltarei à Baker Street apenas amanhã, bem cedo. Local adequado para passar despercebido. Terei de pedir segredo temporário quanto à minha chegada à Mrs. Hudson, mas sei que ela irá me ajudar. Assim que eu deixar minhas coisas lá, eu pretendo procurar Watson, ele merece saber por mim que estou vivo.

ooooo

Quando Holmes aproximou-se de East End, com suas distintas roupas, usando bigode e costeletas falsos, e óculos, passou completamente despercebido por todos que ele sempre cumprimentava nos últimos tempos, quando era apenas o tal John Sigerson, violinista do prostíbulo de Madame Close. Uma boa roupa e alguma mudança de postura faziam maravilhas. Ele andava naquela região rapidamente, com uma pequena pasta cedida por seu irmão Mycroft, para lhe dar um falso ar ainda mais distinto, para evitar que fosse assaltado.

Parando no sobrado que ele tinha um quarto alugado, Holmes imediatamente viu Rose Willians, sentado no mesmo degrau, como fazia todos os dias. Ela estava, no entanto, um tanto triste, e Holmes poderia imaginar o que isso significava. Certamente, a morte de Adair a tinha abalado, embora ela fosse uma prostituta.

-Bom dia. – ele disse, empregando um forte sotaque britânico, algo que ele tinha abandonado nos últimos tempos. Rose elevou seus olhos e estranhou a presença de um sujeito tão bem vestido naqueles arredores, e não pôde deixar de lançar-lhe um olhar malicioso, de predadora. Holmes, no entanto, permaneceu firme em sua encenação, e perguntou.

-A senhorita saberia me dizer onde está John Sigerson?

-Eu não o vejo desde ontem à noite, senhor.

-Certo, mas a senhorita então confirma que ele mora aqui?

-Sim, mas... O quê o senhor quer com ele?

Holmes suspirou, como se estivesse aborrecido.

-Eu sou um oficial de Justiça, madame. Tenho aqui um mandato contra John Sigerson. Ele está sendo procurado pela Justiça Norueguesa.

Rose Willians arregalou seus imensos olhos verdes.

-Deus Todo-Poderoso! Pelo quê ele está sendo procurado?

-Não é da sua conta, madame. – ele respondeu, ríspido. – Saberia me dizer quando ele vai voltar?

-Não! – ela respondeu, com raiva. – Se ele voltar, não é? Pois essa hora, ele deve estar longe!

-Vejo que minha visita é inútil aqui. – ele disse, aborrecido e um tanto entediado. – Se o encontrar, diga que ele será encontrado, cedo ou tarde. Passar bem, senhorita.

Holmes saiu, satisfeito com sua encenação, que certamente faria todos acreditarem que Sigerson não iria voltar para lá tão cedo. O pouco de seus pertences que ele acumulou em sua estadia seria, certamente, “confiscado” pelo velho Carter, a quem ele devia um mês de aluguel, como maneira de quitá-lo, mas Holmes não se importava com isso.