Notas iniciais
Para quem estava aguardando pela entrada de mais um do Cânone, nosso adorado Mycroft, esse capítulo promete.

Mycroft ainda será muito decisivo (melhor, útil para meus propósitos) nesta história.

Boa leitura.

Esther rapidamente se atirou a Sigerson, ao perceber que ele estava imóvel e que não respondia a seu chamado. Seu olhar estava perdido, como se estivesse entorpecido... Foi então que ela se deu conta de que a manga esquerda de sua camisa estava dobrada, deixando à mostra milhares de picadas de agulha que ela jamais tinha percebido.

-Sigerson?! O que está acontecendo? Acorde!

-Ele vai acordar daqui a pouco, senhorita, pode ficar sossegado.

A voz parecia um tanto impaciente, e também surpresa. Para os ouvidos de Esther, era uma voz forte e grave, que lembrava vagamente a de Sigerson. Ela virou-se, para encontrar o sujeito que estava andando de um lado a outro na sala, com seus olhos cinzentos frios e penetrantes, que mais pareciam estuda-la.

-Vejo que a senhorita o conhece.

-Sim, eu o conheço. Ele é um... Amigo.

-Amigo? – o sujeito ergueu suas duas sobrancelhas vastas, em surpresa. – Estou surpresa em ver isso, senhorita...

-Esther. Esther Katz.

-Judia, como eu pensava. Mas enfim, Miss Katz, eu posso saber de onde a senhorita conhece o meu... – ele interrompeu-se, mas era tarde demais.

-Ele é seu irmão, não é?

Mycroft riu. – Claro que não. Você acha que eu teria um irmão assim? Olhe para ele, e verá que não somos da mesma classe social. Este sujeito é que invadiu o meu quarto.

-E por quê o senhor não chamou a polícia?

Mycroft não pôde deixar de ficar surpreso com a perspicácia da moça, mas não deixou transparecer. – Escute aqui, senhorita, eu não vou ficar acatando ordens de uma empregada, me dizendo o que devo ou não fazer.

-Tudo bem, senhor...

De repente, um grunhido. Holmes estava começando a dar um sinal de vida, porém bastante preocupante. Ele estava agitado. Era o momento de Mycroft enxotá-los de uma vez dali, mas ele não pôde deixar de ficar preocupado.

-Eu acho que ele está passando mal... – constatou Esther, ao ver Holmes suar. Ela levou sua mão à testa, para verificar sua temperatura. Mycroft observava atentamente sua interação com seu querido irmão Sherlock. Ele só poderia estar vendo coisas... Ou será que Sherlock e ela...?

-Não... Não... – repetia Holmes, delirando.

-Ele deve estar tendo mais um daqueles pesadelos.

-Pesadelos?! – mais uma vez, Mycroft ficava surpreso. Como ela sabia que Holmes tinha pesadelos?!

-Er... A senhora é esposa dele? – foi a pergunta mais educada que ele pôde fazer, para saber qual era o grau de intimidade daquela mulher (que até aquele momento, ele sabia que era judia, de descendência francesa com ligeiro sotaque russo e de cerca de vinte anos) com seu irmão.

-Não, eu disse que sou só uma amiga. Conheço Sigerson há... Alguns anos.

Anos?! Mentirosa. Sherlock está circulando com a identidade de John Sigerson na Europa há apenas alguns meses. Passou quase dois anos no meio do nada, longe da Civilização, incomunicável e inacessível.

-Moriarty... – balbuciou Holmes, delirando.

-Outra vez, ele repete esse nome. Moriarty...

Mycroft sentiu o coração apertado. Todos os esforços de Holmes de manter-se oculto e terminar com todos os seus inimigos estavam pertos de serem desvendados por uma mulher. Será que ele caiu de amores por ela, a ponto de permitir essa aproximação? Não, isso era impossível. Sherlock sempre desprezou qualquer aproximação com o sexo oposto, assim como ele, muito embora seu pai ainda tivesse esperanças de que alguém de sua prole desse continuidade à família Holmes de Yorkshire, que aquela altura corria o risco de ser extinta, com seus dois únicos herdeiros vivendo como dois solteirões convictos, bem longe dos termos “casamento” e “filhos”.

-É melhor chamarmos um médico...

Mycroft precisou ceder. Estava assustado, com medo que seu irmão estivesse tendo a temida overdose, que poderia mata-lo.

-Vá chamar um doutor agora! – ordenou.

Assim que Esther estava fora do quarto, Mycroft se aproximou prontamente da cama e deu dois fortes tapas estalados em Sherlock, que começou a voltar aos sentidos rapidamente.

-Uma mulher, Sherlock? Uma mulher? Isso não estava no nosso combinado!

-Mycroft?!

-Não, a Rainha Vitória. Claro que sou eu, Sherlock! Eu quero que você me explique essa história direitinho...

-Ai, minha cabeça... Está tudo rodando...

-Você usou uma daquelas suas drogas de novo, não é? – perguntou o irmão, irritado e um pouco decepcionado.

-Não, é claro que não. Eu não as uso há mais de dois anos...

-Então, porquê desmaiou na minha frente?

-Essa é a pergunta que eu estou fazendo a mim mesmo. Eu acho que só posso ter sido dopado.

Mycroft riu. – Então só pode ter sido aquela judia que dizia conhecer Sigerson.

-Esther? – Holmes ficou assombrado. – Ela estava aqui? Mas como...?

-Ah, então vejo que o grau de intimidade já é bem alto, a ponto de você chama-la pelo nome propriamente.

-Não pense bobagens, meu irmão... Ela não é...

Holmes sentiu o estômago se contorcer. Mycroft olhou-o com asco.

-Você não está querendo vomitar, está?

Em resposta, Holmes levantou-se com rapidez da cama.

-É a primeira porta à esquerda! — berrou Mycroft, sendo seguido por ruídos anda agradáveis, vindos do banheiro, capazes de contorcer o mais forte dos estômagos.

-Alguém tentou me dopar, só pode ter acontecido isso...

-Como você está se sentindo? – perguntou Mycroft, oferecendo um copo de água a Sherlock, que estava deitado no sofá.

-Um pouco tonto e enjoado.

-Acho que você precisa sair daqui. Aquela moça foi atrás de um médico. Ela não pareceu muito convencida com a história que lhe contei, inclusive, e pode encher-nos de perguntas. Deve ser um tanto teimosa.

Os dois irmãos riram.

-Sim, mas não da maneira chata que você está pensando. Ela é uma moça muito agradável.

-Oh, eu posso imaginar o quão agradável ela deva ser para você...

Holmes ficou sério. – Mycroft, ela é apenas uma amiga...

-Que está prestes a descobrir sua verdadeira identidade. Por isso, saia daqui o mais depressa possível. Você tinha comentado comigo que faltavam ainda dois inimigos, não é?

-Clarence Chevalier e Sebastian Moran. O primeiro está em Montpellier, e o outro, voltou para Londres. Este eu deixarei por último.

-E então? Para que você retorne a sua antiga vida, você precisa acabar com eles. Não ponha tudo a perder por causa de uma moça!

-Eu não vou colocar nada a perder. Está tudo dando certo, eu já sei onde ele está morando aqui, na França. Estou até arquitetando uma maneira de pegá-lo...

-Mas você não vai consegui-lo se ficar ocupado com essa moça... – alegou Mycroft, com seu sorriso mais malicioso. – Além disso, sua proximidade com ela pode coloca-la em perigo também.

Holmes suspirou. Mycroft tinha um pouco de razão.

-Eu vou pensar. – ele disse, pegando o chapéu, que estava em um canto.

-Mais tarde conversamos. Au Revoir.

-Au Revoir. – disse Holmes, fechando a porta.

Quando estava prestes a cruzar um corredor, Holmes viu Esther. Ela estava vestida de camareira, e parecia preocupada, acompanhada de um homem de semblante sério e uma maleta. Holmes deu meia-volta, e se escondeu em um armário de vassouras. Pôde ainda ouvir a conversa de Esther e o médico, enquanto passavam por ali.

-Ele estava delirando, e também tinha marcas de agulha no braço...

-Decerto estava usando algum narcótico...

Então, a partir de agora Esther sabia de seu vício. Como poucas vezes, ele sentiu vergonha de si. Talvez nem quando Watson o confrontou pela primeira vez quanto ao seu vício, ele sentiu-se assim. “O que temos essa noite? Morfina ou Cocaína?” Quantas vezes ele ouviu isso de Watson, e pouco se importou. Mas com ela, era diferente.

Com ela, muita coisa era diferente.

Porquê Esther, porquê justamente neste hotel? Com tantos hotéis em Paris, porquê você veio trabalhar justamente neste?

-Ahá! – de repente, a escuridão do armário de vassouras cessou, com a porta sendo aberta de repente. Era Esther a primeira aparição.

-Esther?!

-O que você está fazendo aqui, Sigerson? Estudando a vida das vassouras? Ou procurando alguma seringa perdida?

Holmes sentiu-se envergonhado, como quando era apanhado por sua mãe quando era menino.

-Está escondido por quê? Roubou alguém?

-Fique quieta! – reclamou Holmes. Depois, ele a puxou pelo braço, para dentro do armário, ao menor sinal de alguém.

-Sigerson... – ele pôs a mão em seus lábios. Ela deveria estar assustada.

-Shiu! – ele exigiu, e disse, em sussurro. – Fique quieta, ou serei descoberto, entendeu? Então? Posso te soltar agora?

-Mm Mmm... – ela murmurou um “sim”, um tanto abalado.

Embora estivesse tudo escuro, ele poderia imaginar, claramente, o rosto dela com a boca aberta de surpresa.

-Nunca mais faça isso, você me deu um susto! – ela disse, sussurrando.

-Desculpe. – rapidamente, Holmes tomou um fósforo e acendeu. Agora, os dois eram capazes de se observar.

-O que está havendo?

-Uma longa história, Esther. Não dá tempo de dizer agora. Eu preciso sair daqui sem ser visto.

-Foi aquele sujeito, não foi? Aquele gordo debochado...

Holmes não resistiu e riu da maneira como ela estava se referindo a seu irmão Mycroft. Se seu irmão escutasse isso...

-Digamos que sim. Agora, o que foi que ele te disse? – perguntando Holmes, enquanto o fósforo quase queimava seus dedos.

-Quando eu cheguei, você não estava lá, e ele simplesmente disse que você acordou e foi embora, sem dizer mais nada. Aliás, foi você quem vomitou no banheiro?

-Hunf... Como você sabe?

-Seu hálito...

Holmes ficou corado. Agora tinha se dado conta de que estava a menos de meio palmo de distância, rosto com rosto. Seu nariz, que era um tanto grande, estava ainda mais próximo de sua testa.

-Desculpe...

Ele só pôde ouvir sua risada, uma vez que o fósforo tinha apagado. – Tudo bem.

-Bem, primeiro você sai, e se não tiver ninguém, depois sou eu. Eu te encontro na estalagem, mais tarde ou você prefere que eu venha te buscar?

-Não precisa, eu volto para casa sozinha... Oh não!

Eram os gritos de outra camareira. Esther! Esther!

-Vai lá. Eu te vejo mais tarde, então.

Esther saiu rapidamente, quase sendo pega por Desireé, uma das camareiras que arranhava um pouco de inglês.

-Onde você estava, Esther?

-Oh, terminando um serviço no...

-Tudo bem, chega... Você precisa trocar uns lençóis no quarto 502...

Esther olhou para trás brevemente, a tempo de ver Holmes escapando. Ela deixou uma risada escapar.

-O que foi? Viu algum passarinho verde?

-Não, é claro que não.

Notas finais
É, parece que Mycroft não gostou nada de Esther.

Holmes, como sempre, se safando. Queria ser esperta assim.

Esther é mesmo danadinha, né? Não deixa nenhum furo. Vocês verão mais do arsenal dela, para desespero de Mycroft.

Obrigada pela atenção, e mais reviews!