Notas iniciais
OK, promessa é dívida, então mais um capítulo.

Mais uma sombra do passado de Esther aparecendo... Vamos ver como ela vai lidar com isso.

Obrigada pelos reviews e pela paciência. ;)

Esther tinha começado seu expediente como secretária naquela manhã, organizados os jornais que seu patrão sempre gostava de ler e ela tinha que comprar todas as manhãs. Por fim, ela estava dobrando o último, quando a matéria de capa lhe chamou a atenção imediatamente.



Cresce o número de estrangeiros em Montpellier



Recentes estudos comprovam algo que está perceptível ao menos sensível dos observadores. Nossa cidade está recebendo um número incontável de turistas, muitos atraídos por nosso Centro de Pesquisas e também pela paisagem bucólica e calma, longe das agitações da metrópole.

Dmitri Kyznetsov, advogado de origem russa, está em Montpellier e diz que a cidade “possui atrativos interessantes e...”


Ela parou de ler, completamente, ao ver aquele nome. Dmitri Kyznetsov era o homem que apareceu para seu irmão naquela tarde horrorosa, e desde então sua vida têm sido um inferno. Agora, todo aquele inferno estava prestes a se repetir.

Durante o resto daquele dia, ela ficou perdida entre os papéis, com sua mente no nome da reportagem. Não conseguia se concentrar em coisa alguma. Um turbilhão de lembranças caíam sobre si: sua fuga de Liverpool, a vida como nômade que ela passou a ter junto com o irmão, e agora a possibilidade de ter todo aquele pesadelo retornando, justo agora que ela tinha conseguido um bom emprego.

Por um lado, ela sentia-se segura com Sigerson, da mesma forma que o irmão lhe protegia, ou talvez até mais. Sigerson era um homem esperto, e sempre parecia saber uma maneira de se safar de situações desagradáveis. Mas agora, ele estava saindo de Montpellier e indo morar em Paris. Ela estava sozinha.

Seus pensamentos foram despertados, enquanto ela arrumava a estante da sala do professor, pela chegada de um homem na recepção, com uma voz reconhecida e sotaque fortemente russo.

Não pode ser.

–Senhor professor, eu poderia falar com sua secretária? – Dmitri perguntava ao professor Johnson, que tinha acabado de entrar na sala.

–O que você quer com ela? – ele perguntou, à sua maneira grosseira. Esther sentiu alívio, pela primeira vez, por ele ter esse comportamento com todo mundo.

–Eu sou um amigo...

–E daí? Você acha que isso aqui é uma praça? – perguntou o professor, aborrecido. – Minha secretária está ocupada agora, e eu não permito que meus profissionais tenham visitas em horário de expediente. Então, se você possui algum apreço por sua “amiga”, dê o fora daqui! – gritou, no auge de seu sotaque americano.

–Está bem. Au Revoir. – disse Dmitri, deixando a sala.

Esther só pôde ouvir a porta se abrindo novamente. Era o Professor Johnson, o que só poderia significar uma coisa.

–Miss Katz, eu não gosto que meus funcionários tenham visita no horário de expediente...

–Sim, senhor. Isso não vai se repetir.

–E não irá mesmo, porque você está demitida, Miss Katz.

Esther arregalou seus olhos azuis. – O quê?

–Antes de emprega-la, eu disse que aqui não era lugar de resolver problemas pessoais, Miss Katz. E você me desobedeceu. Você sabe o que me aconteceu com a minha última secretária.

–Sei... – ela murmurou. Sua última secretária tinha um namorico com um outro cientista do instituto, que se aproveitou de uma das visitas à sala de Johnson para “roubar” uma idéia. Johnson tinha algum tipo de trauma a funcionários que traziam estranhos para o escritório.

–Eu sinto muito, mas este lamentável episódio me fez perder a confiança em você. Nem sempre eu estou aqui, pois dou aulas, e quando chego, encontro esse rapaz russo procurando por você. Como eu vou saber se ele já não esteve aqui antes?

–Não, senhor. Isso jamais aconteceu! E eu nem o conheço, eu juro!

–Chega, Miss Katz. Chega de lamentações, já basto as que ouço de meus piores alunos. Poupe-me disso, por favor. – ele disse, saindo. – Hoje é seu último dia de expediente, portanto, conclua o que tem a fazer se quiser ter sua diária paga. Quando eu chegar, irei quitar as minhas obrigações e lhe pagar devidamente.

O professor saiu, com sua pasta, deixando Esther sozinha.

Quando ele voltou, já perto do fim do expediente, deu a Esther o dinheiro por seu trabalho, e ambos se despediram. Esther estava aterrorizada. Dmitri poderia estar de tocaia, apenas esperando por ela. A idéia lhe era terrível. Com medo, ela decidiu fazer algo que nunca tinha feito até então: tomar a iniciativa de procurar Sigerson no laboratório, sem seu convite.

O Laboratório do Centro de Pesquisa tinha um forte cheiro de produtos químicos, que fez Esther se perguntar como Sigerson conseguia ficar o dia inteiro debaixo daquele cheiro insuportável. Ela bateu a porta, e ouviu uma reclamação em resposta.

–Agora não, Miss Madeleine, estou no meio de um experimento! – ele reclamou, em um grito estressado. Em seguida, ouviu-se o som de uma efervescência.

–Mr. Sigerson, sou eu.

–Miss Katz? Espere um minuto. – disse, em uma voz mais gentil.

Minutos depois, a porta se abriu, fazendo lançar contra Esther um vapor forte de produtos químicos. Holmes usava uma máscara e óculos.

–Espere, vou abrir as janelas para deixar o ar mais respirável... – ele disse, escancarando-as. — Sabe, estava no meio de um experimento muito interessante, testando as propriedades dos...

–Sim, eu posso imaginar. – ela disse, cortando qualquer explicação minuciosa e entusiasmada de Holmes. – E peço perdão por interromper seus estudos. É que... Mr. Sigerson, hoje eu vi Dmitri.

–Dmitri? – o nome russo já lhe dava uma má perspectiva.

–É, o mesmo Dmitri que tentou me levar à força. Ele veio me procurar em meu trabalho, mas o Professor Johnson o expulsou à pontapés.

–Bem típico dele. – concluiu Holmes. – Continue.

–Isso não é o pior. Por causa da visita inconveniente de Dmitri, eu fui demitida! – lamentou Esther.

–Demitida?! – Holmes ficou aturdido.

–Isso mesmo. Demitida.

Esther contou a ele os argumentos do professor, e Holmes ouviu a tudo atentamente.

–Por Deus, Miss Katz! E agora? Você não pode ficar aqui em Montpellier, desempregada e com aquele sujeito na mesma cidade, atrás de você...

Holmes andou de um lado para o outro por alguns minutos, pensando. Esther prestava atenção nele, atentamente, sabendo que seu futuro dependia de sua decisão. Por fim, Holmes parou, e antes de dizer, soltou um suspiro leve.

–Vou comprar as passagens daqui a pouco, uma para mim e outra para você. Teremos de ser espertos o bastante para enganar esse Dmitri. Se ele for perigoso, é bem provável que não esteja sozinho. Iremos descer em Lyon, despistá-los, e pegar outro trem para Paris.

Ela ficou impressionada com sua capacidade de armar um plano de fuga tão rápido, como se não fosse a primeira vez que ele fazia algo assim.

–Devemos ficar atentos. Se ele já sabe onde você trabalha, certamente também já sabe onde você mora. Fique aqui, no laboratório. Eu vou até a estalagem e vou tentar levar suas coisas. Assim que conseguir, compro as passagens para o primeiro trem que partir.

Holmes foi até a estalagem, e já ao redor, viu dois homens suspeitos perto da entrada. Tal como ele já esperava. Decidiu, então, entrar pela janela, em seu quarto.

Sem qualquer problema, ele entrou, e começou a fazer duas malas, a dele e a de Esther. Teria de deixar algumas coisas para trás, para facilitar a fuga. Pegou o que mais tinha de valor e seu violino, e pensou em como faria para escapar dali com malas, sem levantar as suspeitas dos marginais.

Holmes lembrou-se, então, que perto das sete horas, um carroceiro passava para levar barris vazios da estalagem. Era uma boa idéia.

Às pressas, Holmes desceu com as duas pequenas malas, e foi para os fundos da estalagem. Lançou as malas sobre os barris vazios, e saiu dali, esperando pelo lado de fora. A carroça passou por volta das seis e meia, pontualmente, e dois rapazes ajudaram a pôr sobre a carroça os dois barris vazios obre a carroça, sem levantar suspeitas.

Holmes seguiu a carroça até uma esquina, e ofereceu dinheiro para o carroceiro pegar o que havia dentro de um dos barris.

De malas na mão, Holmes chegou ao Centro de Pesquisa por volta das sete e vinte, onde havia ainda alguns professores trabalhando. Ele encontrou Esther na saída do laboratório.

–Tal como eu imaginei, eles estão de tocaia na estalagem, mas consegui engana-los. Já vi que há uns três homens, só esperando você sair para te levarem.

–Oh não! – exclamou Esther. – E agora?

–Bem, ainda dá tempo de pegarmos o trem das oito e quinze, se formos rápido. Eles estão esperando uma moça loira de aparência inglesa sair daqui, mas podemos dar um jeito nisso.

–Como assim?



ooooooooooooooo


Embora nunca tivesse usado roupas de homem antes, Esther sentia-se confortável. Foram necessários alguns ajustes na calça e no paletó, especialmente porque Holmes era alto demais. Um coque e um chapéu grande, capaz de esconder seu rosto e cabelos loiros, também ajudaram a dar nela uma aparência masculina, mas Holmes ainda não estava satisfeito. Ele percebeu que ela tinha um rosto gracioso demais para um homem, e isso comprometia o disfarce. Decidiu, então, dar-lhe um bigode falso.

–Eu não sabia que você tinha esse tipo de apetrecho, Mr. Sigerson. – ela concluiu, sentindo o lábio coçar. – Céus, eu não sei como os homens aguentam ostentar uma coisa dessas...

–Muitos consideram que dá uma aparência séria e viril. – concluiu Holmes, ao lembrar-se de Watson e seu bigode, que lhe dava o asseio tipicamente militar. – Não fique mexendo muito a boca, ele pode descolar.

–Estou tentando... Ao menos que eu não fale nada.

–É melhor não faze-lo, então. – disse Holmes, pressionando o bigode outra vez em seu rosto. – Acho que agora dá para passar despercebido. Lembre-se de não falar com ninguém. Na melhor das hipóteses, você é um estrangeiro que não sabe uma palavra de francês, certo?

Esther concordou com a cabeça.

–Tudo bem, então vamos logo.

Havia tanta gente passando na recepção, que a passagem de Esther foi ignorada, embora ela não soubesse disfarçar completamente seu andar. Holmes lembrou-se de Irene Adler e seu disfarce, que culminou na provocação “Boa noite, Mr. Sherlock Holmes”. Só mesmo uma atriz como ela era capaz de fazer isso, ele concluiu.

Na estação, havia passagens para Lyon, e Holmes e Esther chegaram em cima da hora, mas a tempo de compra-las. Entraram no vagão às pressas. Não houve nenhum sinal de Dmitri nem de seus homens por ali, mas Holmes sabia que não poderia relaxar com uma batalha vencida.


Notas finais
Caramba Esther, se não fosse o Holmes você tava ferrada!!! kkkkk

Algo me diz que Holmes não gostou "nadinha" de levar Esther com ele para Paris...

Não dizem que Paris é "la ville de l'amour"? Espero que esses dois se inspirem na Cidade-Luz.