Shalom - As Memórias de John Sigerson
11 Capítulo 11: Reflexos
Notas iniciais
Rs, brincadeiras à parte, aí vai o segundo capítulo que pari essa noite. É, foram gêmeos. Não é qualquer escritor que tem uma fase assim. :O
A primeira coisa que ela sentiu foi uma dor de cabeça. Tudo rodou e ela voltou para o travesseiro, com a esperança de que aquela dor passasse. Mas não adiantava. A Terra parecia girar, contra sua vontade. Sentia mais dor de cabeça até daquela vez em que batera com a cabeça na porta de sua casa, quando tinha dez anos, que a deixou com um galo que fez seus amigos de classe a chamarem de unicórnio.
–Bom dia! – era a voz de Sigerson, em um tom jovial, mas irritante demais para qualquer ressaca. Ainda mais quando se abre as janelas de maneira violenta. Ele se encaminhou para ela, que estava com o cabelo desgrenhado e o rosto amassado.
–Você está bem?
–Não. Está tudo rodando e minha cabeça dói.
–O nome disso é ressaca. Sua primeira, ao que tudo indica. Não, por favor, não entre em pânico! Você estava consciente o tempo todo. Você... Se lembra do que.. Aconteceu na noite passada, não é?
Holmes engoliu a seco, preocupada com aquele silêncio de cinco segundos, que mais parecia uma eternidade. As sobrancelhas franzidas e confusas de Esther geravam uma má expectativa, que somente terminou quando ela colocou suas idéias no lugar.
–Sim, eu me lembro de tudo. Do restaurante, de você me falar sobre Meca e como um camelo é desconfortável, de andarmos a pé, do assalto... Só não me lembro de como vim parar aqui, nem de como eu...
Ao olhar para baixo, Esther percebeu sua blusa desabotoada. Holmes, que sequer tinha reparado nisso, rapidamente ruborizou-se e deu de costas a ela.
–Oh não...
–Miss Katz, eu garanto pelo nome de meu pai, que nada fiz com você. – disse Holmes, ainda de costas a ela, enquanto ela se arrumava.
Esther percebeu algo estranho, mas não fez qualquer observação. Durante o jantar, ambos tinham prometido não usar mais formalidades. Seriam apenas Sigerson (talvez até mesmo John, porquê não?) e Esther. Sigerson parecia até mais disposto a fazer isso. Mas naquela manhã, tudo estava diferente. Ele estava diferente. Como se, em um instante, qualquer proximidade entre ambos conquistada espontaneamente na noite passada tivesse morrido, e ela não era capaz de entender o porquê.
–Eu confio em você, Sigerson. – Holmes suspirou em resposta.
Ela não se lembra. Talvez, tenha sido melhor assim.
–Eu não poderia deixar a senhorita dormir de sapatos...
–Tudo bem. Eu não me importo. Eu só tenho a te agradecer por tudo que você fez ontem a noite. Acho que nunca vou me esquecer.
Holmes virou-se, encontrando Esther arrumando o seu vasto cabelo loiro.
–Então, eu venci sua aposta?
–Sim, você venceu. Com louvor. Você não me deu exatamente o que eu queria, mas me deu muito mais do que eu poderia imaginar.
Holmes levantou uma sobrancelha. – E o que a senhorita queria?
–Uma bicicleta.
Mulheres. Sempre acham que ficou faltando alguma coisa.
–Tão simples assim, Miss Katz? – Holmes parecia surpreso e segurou um sorriso. – Confesso que... Uma bicicleta... Santo Deus, jamais imaginei que você queria uma bicicleta. Vocês, mulheres, são mesmo imprevisíveis!
–Questão de sobrevivência. Esta estalagem fica longe do Centro de Pesquisas, e não dá para pegar um bonde todo dia e... Além de quê, eu não terei mais a sua companhia.
Holmes olhava com diversão para Esther, até ela dizer essa última frase. Involuntariamente, ele ficou corado, mas se atentou ao óbvio. Você acaba por protege-la, Sherlock, quando vão para o Centro juntos. Nada além disso.
–Vejo que a senhorita preza a minha companhia... Seria por minha amizade ou pela minha aparência nada amigável, a ponto de conseguir espantar algum oportunista ou sujeito de má índole?
–Os dois. – ela admitiu.
–Hum... – disse Holmes, pensativo, caminhando de um lado a outro. – Vejo, então, que não acertei o seu presente. Infelizmente eu ainda estou em dívida convosco. – disse, tentando esconder ao máximo o ar de derrota.
–Ei, não pense que eu fiquei insatisfeita. Eu gostei de tudo. Fazia tempo que eu não me divertia tanto. – ela disse, levantando-se. – Você acertou, está bem?
Holmes não estava satisfeito. Queria ter presenteado com o que ela queria exatamente. Claro, ela gostou do colar, sem dúvida ele tinha ido bem, mas não acertado. Ele desejava não só ter deduzido o que ela queria, mas também surpreender. Por isso registrou o Coltar com o nome de Esther, por isso escolhera o restaurante judaico. Ele lembrava-se dos olhares perdidos da moça, quando ela falava de sua própria cultura. Querendo ou não, ele fez a moça se reaproximar de seu povo por um instante, e certamente uma bicicleta jamais traria para ele aquele olhar tão radiante e surpreso que ele presenciou naquela noite, do outro lado de uma mesa.
Notas finais
Ambos não querem, mas ambos não têm escolha.
(mais uma mini-frase minha)
No próximo capítulo, a entrada de um personagem (criação minha) para dar uma bagunçada na vida desses dois... Aguardem.
Reviews, hein!
BadWolf
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